crítica, poesia, tradução

“a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodolfo jaruga


prufrocknós já fizemos uma postagem com uma tradução inédita do prufrock de t. s. eliot, por conta de rodrigo t. gonçalves, uma tradução que primava pelo ímpeto rítmico que buscava emular ao máximo a cadência do texto inglês de eliot.

hoje a nossa felicidade – como vocês já sabem, ou deveriam saber, pela proposta tradutória que tem se revelado neste blog, que eu poderia resumir como “quanto mais, melhor” – hoje a nossa felicidade é ter mais um prufrock inédito, com uma introdução em versos seguida de tradução de rodrigo jaruga. interessa ao leitor, além da oportunidade de ler & reler eliot, além da oportunidade de ver mais interpretações para um poema importantíssimo como o prufrock, a possibilidade de comparar projetos tradutórios implícitos. eu diria, que se rodrigo gonçalves partiu para o ritmo inglês, para uma reapresentação da música de eliot que estava ausente das traduções anteriores; rodolfo jaruga aqui busca uma cadência brasileira do texto, por uma recriação do tom de linguagem.

em alguns pontos, as duas se aproximam: na manutenção das rimas (cada um as tenta de modo bem diverso, é verdade, mas faz parte do projeto de ambos); a consciência clara eliotiana de que nenhum verso será libre, se for para ser bem feito; uma busca por uma linguagem fluente.

nesses decursos tradutórios, cada leitor fica com a sua, ou – como prefiro – fica é com as todas.

guilherme gontijo flores

coffee and prufrock

I. O ritmo da liberdade

O que é intrigante nos versos livres do Eliot é que eles têm ritmo.
E o ritmo dessa liberdade é natural.
Cada qual com sua naturalidade, obviamente.
Uma cubana caminhando é diferente de um chinês caminhando.
No mesmo sentido, penso,
existe certa pulsação natural a cada língua.
Acho que os modernistas perseguiram isso,
embora soubessem o difícil que é lográ-lo.
Quase sempre sobressai algum artifício,
alguma artificialidade.
Essa pulsação, de que falo,
é uma conjunção de vários elementos,
dentre os quais sobressaem
o ritmo sonoro da fala e a relação
entre o fluxo de pensamento e a sintaxe.
Encontrar essa pulsação não é coisa fácil.
O dilema é este: como ser artífice
e produzir objetos aparentemente naturais?
O verso livre, não sempre branco, de Eliot é isto:
imitação do ritmo natural da língua,
potencializada por uma tradição métrica
que está em jogo o tempo todo.
Pelo menos em poemas como a Canção de Amor.
Portanto, a meu ver, qualquer tradução do Eliot,
além de ser compreensível sintática e vocabularmente
já no primeiro contato,
deve expressar certa naturalidade rítmica do idioma.

II. Impressões do leitor

Quando eu recito este poema
e chego na terceira estrofe
penso sempre na imagem de um gato
vagando pelo bairro.
Os versos em seqüência
que falam das noites, tardes e manhãs,
dos olhos e dos braceletes
(I have known them all already, known them all),
têm as melhores rimas.
No original, obviamente.
Creio que Alfred se imagina personagem de uma narrativa
(daí a evocação de Hamlet, de João Batista
e, por que não, a de Lázaro também)
e esse é o seu inferno.
Aí começa a sua angústia.
Que classe de obra sua persona inspiraria?
A imagem do serviçal rindo de seu amo é a mais cruel de todas.
Por fim, as sereias, que chegam ao poema
por um caminho improvável,
não cantam – jamais cantariam – ao pobre Alfred.
E pra você elas cantam?

rodolfo jaruga

A canção de amor de J. Alfred Prufrock
(T. S. Eliot)

Que nós sigamos, pois, você e eu,
enquanto o anoitecer se estende pelo céu
como um paciente eterizado numa mesa;
que nós sigamos por certas ruas meio desertas,
refúgios murmurantes
de noites mal dormidas em pensões baratas
de uma estada só
e restaurantes recobertos de serragem
e conchas d’ostras:
ruas longas como argumentos tediosos
cuja razão insidiosa
é conduzir-te a uma questão angustiante…
Não, não me pergunte qual questão,
que nós sigamos e façamos a visita.

As mulheres vêm e vão
conversando sobre Michelangelo no saguão.

A névoa amarelada que roça as costas na vidraça,
o fumo amarelado que roça o fuço na vidraça
passeou a sua língua nas esquinas da noitinha,
deitou-se na sarjeta, sobre as poças,
deixou que sobre as suas costas
caísse a fuligem das chaminés,
deslizou pelo terraço, deu um salto abrupto
e vendo se tratar de uma suave noite de outubro
se enrolou em torno à casa e adormeceu.

E há tempo com certeza
para a névoa amarelada que se alonga pela rua
roçagar as suas costas na vidraça;
e há tempo, muito tempo,
pra preparar a face que conhecerá
as faces que você conhece já;
e há tempo pra matar e pra criar,
e tempo para todos os trabalhos
e dias destas mãos, que no teu prato,
levantam e declinam a questão;
tempo para mim e tempo pra você,
e tempo para mil indecisões
e para mil visões e revisões
antes de eu tomar chá com torradas.

A mulheres vêm e vão
conversando sobre Michelangelo no saguão.

E há tempo, com certeza, pra indagar
“será que eu ousarei”,
tempo para retornar e descender a escada,
c’um resplendor em meio à calva dos cabelos –
eles dirão “mas como há falhas no cabelo dele”;
minha casaca matinal, o colarinho firmemente contra o queixo,
minha gravata soberba mas modesta,
abrochada por um simples prego –
e eles dirão “mas como as pernas, braços dele estão delgados”.
E eu, será que eu ousarei
perturbar o universo?
Em um minuto há tempo
pra revisões e decisões que outro minuto faz diverso.

Pois eu a todas já conheço, a todas elas,
conheço as noites, tardes e manhãs,
tenho medido a vida com colheres de café
e sei das vozes morrendo em moritura queda
sob a música de um cômodo distante.
Como poderia me atrever, então?

Eu já conheço os olhos, todos eles,
os olhos que te fixam numa frase formular,
e quando formulado estou e estirado por um prego,
quando pregado estou e retorcido na parede,
então, como é que eu posso começar
a vomitar os resquícios de meus dias e caminhos?
E como eu poderia me atrever?

Eu já conheço os braços, todos eles,
braços brancos em que há braceletes, braços nus –
mas à luz de um lampião não são senão
penugem os leves e morenos pelos!
É o perfume de um vestido que me induz à digressão?
Braços repousados sobre a mesa ou entre xales.
E como eu poderia me atrever, então?
E como eu poderia começar?

Devo dizer que ao lusco-fusco eu palmilhei ruelas
e vi alçar-se a fumaça de cachimbos de homens solitários
em mangas de camisa, debruçados à janela?
Eu deveria era ter sido um par de garras andrajosas
a se arrastar pelo soalho de oceanos silenciosos.

Dormem tão em paz a tarde e o anoitecer!
Acariciados por dedos longos,
adormecidos, exaustos ou fingindo enfermidade,
esticados no soalho, aqui ao nosso lado.
Pois eu teria forças, depois do chá, biscoitos e sorvetes,
forças pra induzir o instante à sua crise?
E muito embora eu tenha jejuado e pranteado,
rezado e pranteado,
e embora eu tenha visto minha cabeça
(mais calva ainda) ser servida na bandeja,
eu não sou profeta – mas isso pouco importa;
eu vi o instante do vacilo de minha grandeza,
eu vi o vassalo eterno sustentar minha casaca
e refrear o riso,
e em suma, eu tive medo.

E teria valido a pena, depois de tudo,
depois de chás e taças,
depois das porcelanas e dos doces,
entre palavras que nós proferimos,
valido a pena haver dilacerado o assunto c’um sorriso
e condensado o universo numa esfera,
deslizado-a em direção de uma questão opressiva,
e haver falado: “Sou Lázaro, vindo dos mortos,
voltei para falar a todos, pois eu devo falar a todos” –
se alguma delas,
acomodando uma almofada sob os ombros,
dissesse: “não, de modo algum foi isso
o que eu quis dizer, de modo algum foi isso”.

E teria valido a pena, depois de tudo,
valido a pena realmente,
depois dos pátios, de ruas garoadas e poentes,
depois dos chás e das novelas,
depois das saias arrastando-se no chão –
e de mais quê?
Não é possível dizer o que quero!
É como se uma lanterna mágica numa tela
projetasse nervos em seqüência:
teria valido realmente a pena
se alguma delas,
acomodando uma almofada ou retirando o xale,
e desviando a vista pra janela,
houvesse dito: “de modo algum foi isso
o que eu quis dizer, de modo algum foi isso”.

Não, eu não sou Hamlet! Nem se esperava isso.
Sou só um lorde solícito, alguém
pra dar volume, iniciar alguma cena, ou duas,
e aconselhar o príncipe. Sem dúvidas,
um pacato instrumento, deferente,
feliz por ser usado, político e prudente, meticuloso;
cheio de sentenças altas, um pouco rude;
às vezes, na verdade, quase ridículo,
e quase, às vezes, sou o bobo.

Estou ficando velho… ficando velho…
Devo levar enroladas as barras de minhas calças.

Devo dividir ao meio os meus cabelos?
Ousarei comer um pêssego?
Devo vestir calças brancas de flanela
e caminhar pela praia.
Eu tenho ouvido as sereias
cantando umas às outras.

Mas não penso cantarão a mim.
As tenho visto nadando sobre as ondas,
penteando a crina branca de ondas refluentes
enquanto o vento sopra sobre a água alvinegra.

Demoramo-nos nas grutas do oceano
junto a garotas marinhas
coroadas de algas rubras e castanhas
até que humanas vozes nos despertam e nos afogamos.

(trad. de rodolfo jaruga)

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3 comentários sobre ““a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodolfo jaruga

  1. Matheus Mavericco disse:

    É de fato uma grata surpresa ver que você conseguiu traduzir muitíssimo bem o “In the room the women come and go / Talking of Michelangelo”. Até hoje as traduções propostas não me pareceram muito convincentes com a força do original, por mais que muito engenhosas (como a do Lawrence Flores ou do Rodrigo T. Gonçalves).

    Meus parabéns.

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