poesia, tradução

Ronny Someck

ronny_someckRonny Someck nasceu em 1951 em Bagdá, no Iraque, se mudou para Israel quando era criança e estudou literatura e filosofia hebraica na Universidade de Tel Aviv. É autor de dez volumes de poesia e já foi traduzido para diversas línguas, incluindo árabe, catalão, francês, alemão, dinamarquês, etc.  – segundo o site do autor, sua presença em antologias e revistas já soma 39 línguas.

Pessoalmente, conheci a poesia de Someck através de uma coletânea organizada e traduzida pela estudiosa, tradutora e romancista Tsipi Keller, chamada Poets on the Edge (Suny Press, 2008), que, além dele, apresenta em tradução inglesa também muitos outros nomes importantes da poesia hebraica contemporânea, como Yehuda Amichai, T. Carmi, Dan Pagis, Shin Shifra, Dahlia Ravikovitch, Raquel Chalfi, etc. A própria Tsipi Keller (nascida em Praga, mas residente nos EUA atualmente) é também uma figura importante da tradução de autores israelenses, responsável por diversas coletâneas de tradução para o inglês de poesia e prosa em hebraico moderno. Alguns dos poemas de Someck presentes na coletânea de Keller (retirados do volume de Someck Rice Paradise – Selected Poems 1976-1996) me chamaram a atenção e resolvi vertê-los para o português.

No geral, costumo ser cauteloso no condizente a traduções indiretas. Acredito que o meu comentário anterior sobre Byron, Paulin Paris e Castro Alves exponha alguns dos problemas inerentes à prática (resultantes, no caso de Byron, principalmente de desatenções por parte do primeiro tradutor), mas expôs também o mais importante que é o resultado final ser boa poesia – como é, na minha opinião, no caso da tradução de Castro Alves e também no das traduções ou transcriações de Rumi feitas pelo nosso colega de escamandro Bernardo Lins Brandão, via Coleman Barks.

Enfim, foi após ter selecionado e traduzido alguns dos poemas de Someck que descobri haver já um volume, muitíssimo recente, por sinal, de seus poemas em português. O nome da edição é Gol de Esquerda, pela editora Annablume, e data do final de 2012. O tradutor é Moacir Amâncio, poeta, jornalista e professor de língua e literatura hebraica na FFLCH da USP. Como a minha encomenda ainda não chegou, reproduzo a seleção de poemas apresentados pelo Estadão em novembro de 2012, da ocasião do encontro entre Someck e o poeta iraquiano Khalid Al-Maaly. Chamo atenção à nossa escolha mútua (tri-mútua, na verdade, pois eu mesmo só escolhi já dentro da seleção da Keller) pelo poema da linha da pobreza, que vocês leitores poderão ler, então, tanto na minha tradução indireta quanto na tradução direta de Amâncio.

Bet_Lid_Maabara_1949

Enfim, há muitas coisas que eu poderia comentar, como as tensões entre o passado e todo o imaginário religioso-literário da Torá, do Talmude e da Cabala, e o presente político e militar delicado, que parecem (não surpreendentemente) marcar a maior parte da poesia em hebraico moderno (pendendo um pouco mais para o presente do que para o passado, no caso de Someck, ao que tudo indica), ou ainda glosar algumas das palavras que aparecem nos poemas (Ma’abara, ou os nomes de Ibn Gabirol, David Ben Gurion e Umm Kulthoum), mas a glosa, no caso da curiosidade, pode ser feita pelo Google, e o comentário é algo melhor deixado para após uma maior leitura e ponderação futuras.

Adriano Scandolara

A Linha da Pobreza

Como se fosse possível traçar uma linha e dizer: Abaixo disso, a pobreza.
Aqui o pão que com lápis baratos de olho
ficou preto
assim como as azeitonas no pires
na toalha de mesa.
Pelo ar os pombos voavam em formação de continência
ao repique do sino do vendedor de querosene na carroça vermelha,
ao som das galochas pisando a lama.
Eu era um menino na casa que chamavam de barraco,
numa comunidade que chamavam de Ma’abara.
A única linha que eu via era a do horizonte e abaixo dela era tudo
pobreza.

                       

Jasmin. Um Poema na Lixa

Fairuz ergue os lábios
para o céu.
Que chova jasmim
sobre todos que se conheceram
e não sabiam que estavam apaixonados.
Eu a ouvia cantar no Fiat de Muhammad,
ao meio dia na rua Ibn Gabirol:
Uma cantora libanesa a cantar num carro italiano,
conduzido por um poeta árabe de Baqa-al-Gharbiyye,
numa rua com o nome de um poeta hebraico da Espanha medieval.
E o jasmim?
Se cair dos céus do Armagedom
virará
por um instante
uma verde
luz
no próximo cruzamento.

                       

Trinta Segundos para Carregar o Bico

Tínhamos trinta segundos para carregar o bico.
Era um morrinho
subindo ao lado do curso de obstáculos do treinamento básico.
Sobre ele, o colarinho do céu era passado a ferro, engomado em nuvens
e o cáqui das dunas podia ser, numa paisagem distinta, um verso de um poema sobre a natureza.
Mas cadê o verso e cadê a natureza,
quando dois cantis pulam na sua cintura,
uma Uzi na mão,
e uma pá rente à espinha.
Tudo que se podia fazer era, em fantasia, sorver os bicos
da escrivã da esquadra que dormia sempre
no jipe do comandante,
e lembrar-se do pintor Gauguin a debater se comia o frango
que tinha ou se o pintava.
Lá, diante do morro, todos tínhamos fome.

                       

Em Resposta à Pergunta: Quando Sua Paz Começou?

Na parede de um café perto da Ma’abara
penduraram David Ben Gurion com seu cabelo à prova de vento
e perto dele, numa moldura parecida, a cara bochechuda
da Umm Kulthoum.
Era o ano de ’55 ou ’56 e eu pensava que se eles penduravam
um homem e uma mulher lado a lado
era porque eram marido e mulher.

(traduções de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller)

                       

Linha da pobreza

Como se fosse possível traçar uma linha e dizer “abaixo disso é a pobreza”.
Aqui está o pão colorido de maquiagem barata
que ficará preto
e as azeitonas no pires
sobre a toalha da mesa.
Pelo ar, pombas fizeram um voo de continência
ao tilintar da sineta na mão do vendedor de querosene numa carroça vermelha,
havia também o barulho do chafurdar das botas de
borracha na terra barrenta.
Eu era menino, na casa que chamavam de barracão,
no bairro que chamavam de campo de trânsito dos
imigrantes.
A única linha que eu via era a linha do horizonte e
abaixo dela tudo parecia
pobreza.

               

Bagdá, fevereiro 1991

Por aquelas ruas bombardeadas empurravam meu carrinho de bebê.
As jovens de Babilônia beliscavam meu rosto e abanavam com palmas de tamareiras
os meus cabelos loiros.
O que ficou desse tempo escureceu muito,
como Bagdá
e como o carrinho de bebê que tiraram do abrigo antiaéreo
nos dias de espera anterior a outra guerra.
Oh, Tigres, oh Eufrates, mimosas cobrinhas no primeiro mapa da minha vida,
como trocaram de pele e se tornaram víboras.

               

Poema patriótico

Eu sou iraquiano-pijama, minha mulher é romena
e nossa filha é o ladrão de Bagdá.
Minha mãe continua a ferver o Tigre e o Eufrates,
minha irmã aprendeu a preparar pirushki com a mãe russa
do marido dela.
Nosso amigo, faca-marrocos, crava o garfo
de aço inglês no peixe que nasceu na costa norueguesa.
Somos todos trabalhadores despedidos que fizeram descer dos andaimes da torre
que pretendíamos construir na Babilônia.
Somos todos lanças enferrujadas que Dom Quixote brandiu
perante os moinhos de vento.
Nós todos ainda atiramos nas estrelas deslumbrantes
um momento antes que elas sejam engolidas
pela Via Láctea.

NT – Iraquiano-pijama, clichê aplicado aos judeus iraquianos em Israel porque teriam hábito de vestir pijama o dia todo. Faca-marrocos – clichê popularmente aplicado a judeus marroquinos e obviamente associado a violências que seriam praticadas por eles quando chegaram em massa a Israel nos anos 1950 e 1960.

               

Bloody Mary

A poesia é a garota dos bandidos
no banco de trás de um carro americano.
Os olhos dela são apertados como um gatilho e a pistola dos seus cabelos dispara
balas loiras que lhe deslizam pelo pescoço.
Digamos que a chamam Mary, Bloody Mary,
e de sua boca as palavras são espremidas feito suco do ventre de um tomate
previamente retalhado
no prato de salada.
Ela sabe que a gramática é a polícia da língua
e a antena redonda na orelha dela
identifica de longe a sirene.
O som desviará o carro do ponto de interrogação
para o ponto final,
ela abrirá a porta
e estacará na beira da rua tipo metáfora para a palavra
puta.

(traduções de Moacir Amâncio)

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