poesia, tradução

michel deguy (1930)

michel deguy

o poeta, ensaísta & filósofo parisiense michel deguy é provavelmente um dos poetas mais importantes da frança da segunda metade do século xx. contemporâneo de yves bonnefoy (1923), edmond jabès (1912-1991), henri meschonnic (1932-2009), jacques roubaud (1932), dentre outros.  além do seu trabalho como escritor, ele também foi professor emérito de literatura pela universidade de paris viii, ele participa do comitê editorial das revistas Critique & Les temps modernes; além de ser o editor da importante revista Po&sie desde 1977. nos ‘últimos recebeu alguns prêmios bastante reconhecidos, como  o grand prix national de la poésie, em 1998, & grand prix de poésie de l’académie française, em 2004. sua obra mostra como a poesia francesa, apesar de razoavelmente apagada ao longo do último século, produziu & produz obras desafiadoras em suas potencialidades.vale notar que esse desafio filosófico & poético da sua obra, com a constante fusão, inversão & contraste de gêneros num mesmo livro, ainda permanece, já que deguy continua produzindo & publicando com uma intensidade impressionante (mais de 5o livros publicados), apesar de seus 80 anos.

no brasil, tenho conhecimento de duas traduções um pouco mais alentadas, além de alguns trabalhos dispersos: a) uma seleção de quase 20 páginas dentro da ampla antologia Poetas de França hoje 1945-1995, feita por mário laranjeira em 1996, pela edusp; b) A rosa das línguas, uma antologia inteiramente dedicada ao poeta, com organização & tradução de marcos siscar & paula glenadel,  publicada em 2004 pela coleção ás de colete, uma parceira da 7letras com a cosac & naify – nessa antologia temos textos dos livros mais importantes de deguy, ao longo de mais de 3 décadas, tais como Ouï dire (1966), Tombeau de Du Bellay (1973), Jumelages (1978), Gisants (1985), Aux heures d’ffluence (1993), À ce qui n’en finit pas (1995), L’énergie du desespoir (1998) & L’impair (2001). em 2010 essa mesma dupla ainda lançou uma tradução do livro de ensaios reabertura após obras, originalmente publicado em 2007.

das 2 coletâneas que citei, escolhi 2 poemas. 1 deles (élançés…) foi traduzido nas duas, portanto é interessante no contraste de soluções para sua recriação. o outro, em prosa, é apenas um trecho, para dar uma ideia da prosa poética de deguy.

guilherme gontijo flores

Atirados…

Atirados se atiram, o amor e a comparação!
O amor compara a comparação que ama louvar
por meio de metáforas
……..e a lira sáfica tece
……..a incomparável beleza das bordas
……..à contraluz de um eclipse do Ser

(ora afastando-me de barca da ilha-hotel
– Aurora que saudavas à janela de Udaipur –
Nós não saíramos do conto
mas protegidos, edificados mesmo
por uma constante de Propp mais bela
que os troféus fotoscópicos)

…………………………………………Será
sempre muito cedo sempre muito tarde
portanto é agora………………………..o
muito tardio e  muito prematuro adeus

(trad. mário laranjeira)

Lançados…

Lançados se entrelaçam o amor e a comparação!
O amor compara a comparação que ama elogiar
com anáforas
……..e a lira sáfica tece
……..a incomparável beleza das bordas
……..à contraluz de um eclipse do Ser

(ora, afastando-me de barca da ilha-hotel
— aurora que você saudava à janela de Udaipur —
— não tínhamos saído do conto
mas estávamos protegidos, edificados até
por uma constante de Propp mais bela
do que os troféus fotoscópicos)

…………………………………………..  …..Será
sempre  cedo  demais  sempre  tarde   demais
portanto, é agora …………………… ……. …o
tardio demais e demasiado prematuro adeus

(trad. paula glenadel)

Élancés… (de Aux heures d’affluence)

Elancés ils s’enlacent, l’amour et la comparaison!
L’amour compare la comparaison qui aime louer
avec des anaphores
……….et la lyre saphique tisse
……….l’incomparable beauté des bords
……….à contre-jour d’une éclipse de l’Être

(or m’éloignant en barque de l’île-hôtel
—aube que tu saluais à la fenêtre d’Udaïpur —
nous n ’étions pas sortis du conte
mais protégés, édifiés même
par une constante de Propp plus belle
que les trophées photoscopiques)

…………………………………..Ce sera
toujours trop tôt toujours trop tard
donc c’est maintenant….. ………..le
trop tardif et trop prématuré adieu

Sorriso…

Sorriso
Quando cruzo com ela no seu rosto
No seu rosto assim como nos nossos
Nos rostos deles há
Restos daquele encontro precedente

(trad. mário laranjeira)

Sourire… (de Aux heures d’affluence)

Sourire
Quand je la croise sur son visage
Sur son visage comme sur les nôtres
Sur leur visages il y a
Des restes de la rencontre précédente

* * *

[…]
“Um poeta nunca está totalmente ausente”, ouvi dizer. Eis a questão. E substituo poeta por poema para propor a questão: um poema pode em algum momento estar totalmente ausente?
O que faz a chuva, por exemplo? E não falo do “fenômeno meteorológico”, mas da chuva que molha, aquela que recebe o astrofísico sem capa de chuva na saída do observatório em um certo dia. Falo de seu papel e de sua função dentro da peça, de seu efeito em nosso drama, in hoc theatro mundi.
Ela cola, cola a saia ao corpo, os cabelos ao crânio, a pele ao osso; ela encolhe, tira a maquiagem, denuncia a mímica; ela desincha, reduz, localiza; sob a chuva, o aparecer coincide com aquilo que aparece. Também não falo da idéia da chuva, mas daquilo que chamei, em outro momento, de figurante da encenação geral. O poema pega as coisas no ato, na circunstância, e testemunha sobre o que nos fazem.
[…]

(trad. marcos siscar)

(fragmento de L’énergie du désespoir)

[…]
« Un poète n’est jamais tout à fait absent », ai-je entendu dire. C’est la question. Et je substitue poème à poète pour faire la question: un poème peut-il être jamais tout à fait absent ?
Que fait la pluie par exemple? Et je ne parle pas du «phénomène météorologique» mais de la pluie qui mouille, celle que reçoit l’ astrophysicien sans imper à la sortie de l’observatoire ce jour -là. Je parle de son rôle et de sa fonction dans la pièce, de son effet dans notre drame, in hoc theatro mundi.
Elle colle, elle colle la jupe au corps, les cheveux au crâne, la peau à l’os ; elle retrousse, elle défarde, elle dénonce la mimique, elle dégonfle, elle réduit, elle localise ; sous elle l’ apparaître coïncide à ce qui apparaît. Je ne parle pas non plus de l’idée de la pluie mais de ce que j’ai appelé ailleurs un figurant de la mise en scène gênérale.Le poème prend les choses sur le fait, dans la circonstance, et témoigne de ce qu’elles nous font. »
[…]

(poemas de michel deguy)

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