poesia, tradução

o velho chico

bordado de demóstenes vargas

bordado de demóstenes vargas

engraçado como assuntos se interligam com facilidade, & coincidências fazem boa parte da nossa graça neste planetinha. fiz, faz pouquíssimo tempo, um post comentando a ausência das fotos & imagens no livro toda poesia de paulo leminski, levantando exatamente a questão do diálogo vivo entre imagem & poesia; logo na sequência, o vinicius acabou de fazer dois belos posts mostrando como os quadrinhos tiram sarro dos poetas (que bem merecem) & como ele próprio tem pensado sobre poesia & imagem, inclusive na sua criação. agora, como que súbito, acaba de sair um trabalho belíssimo, parceria do poeta raimundo carvalho & do artista plástico demóstenes vargas, intitulado o velho chico. espiem aqui no site (qualquer um pode baixar o aplicativo & usar em smartphones, mas não em iphones; então se virem entre windows & androides).

mas já explico uma coisa: é um poema-imagem semi-interativo, um suposto poema infantil pra gente de cabeça muito grande, & este que vos escreve teve a sorte grande de ver de perto & de se arriscar a fazer uma tradução poética desse poema para o inglês (com enormes agradecimentos a lillian de paula, janet chernela, rodrigo gonçalves & adriano scandolara).

abaixo seguem alguns trechos & traduções para os preguiçosos que ainda não clicaram no link. depois, o release preparado com outro link direto pra baixar os aplicativos.

guilherme gontijo flores

3A

Moço demais,
o Chico não tem pressa de casar.

Quer é ser um palácio cristalino
e frio para os peixes
e um espelho d’água
onde vêm beber a anta,
a onça, o veado e o lobo-guará.
Quer é matar a sede do carcará
E de quem mais chegar.

Rio moço
gosta de bulir com a ventania.

3A

Too young,
Chico’s in no hurry to marry.
He wants to be a crystalline palace,
fresh for the fish,
and a water mirror
where the tapir, the jaguar, the deer,
and the maned wolf can drink first.
He wants to quench the carcará’s thirst,
and everyone else’s.

The strapping young river
likes to mess around with the windstorm.

9A

Quando é o tempo da cheia
o rio se reinventa e, gordo,
retoma às suas terras,
retorna às lagoas.
Vem buscar o peixe.
Vem brincar de rio
no quintal das casas,
nos terreiros das fazendas,
nas pastagens.

No tempo da cheia
o rio lava o sangue das ruas.

Lava os detritos da indústria.
Lava os dejetos da história.

9A

In flood time,
the river reinvents himself, and fat
he returns to his lands,
he returns to the ponds.
He comes searching for fish.
He comes playing river
on the backyards of houses,
on the barnyards of farms,
on the pastures.

In flood time,
the river washes the blood from the streets.
Washes the remains of industry.
Washes the debris of history.

1B

Depois de tanto correr
serra abaixo, entre fendas,
cascatas e paredões abruptos,
o Velho Chico agora homem feito,
corpulento, desce lento, barrento
nos tabuleiros do cerrado.

Meninos aproveitam a meninice
pra brincar no rio adulto.
Os meninos crescem como os rios,
e entre um mergulho e outro
vão vestindo a pele-rio.

Sob a calma do remanso,
um banco de areia,
um perau profundo,
onde não dá pé,

um menino diz adeus com as mãos
e vai visitar os palácios submersos,
onde os peixes sonham e dormem
no seu leito fluvial.

1B

After much running down
the mountain range, through gaps,
cascades and steep rock walls,
Old Chico is now a grown man,
stout he goes slow down with the mud
on the cerrado boards.

Children enjoy their childhood
playing in the adult river.
Children grow like rivers,
and in the lapse between their dives
they dress up in the river-skin.

Beneath the calmness of the stoppage,
a sandbar,
a deep river hole
whose bottom is out of sight,
a boy says goodbye with his hands
and goes to visit the sunken palaces
where fishes dream and sleep
on his fluvial bed.

12C

Opara, rio-mar,
rio encantado,
morada de mitos.

No tumulto das ondas do Atlântico
ressuscita, rio santo.

12C 

Opara, seariver,
enchanted river,
dwelling of myths.

In the uproar of the Atlantic waves
Resurrect, oh river saint!

(poemas de raimundo carvalho & trad. para o inglês de guilherme gontijo flores)

* * *

O Velho Chico em mídia digital

No dia 22 de abril, Dia Mundial da Água, a Hidroex  disponibilizou em seu site um aplicativo para ser baixado em tablet ou smartphone, com sistema Android, contendo três livros eletrônicos animados e interativos  tendo por tema o rio São Francisco. O primeiro intitula-se “O Velho Chico na levada da serra”, o segundo “O Velho Chico nas malhas do sertão” e o terceiro “O Velho Chico na pancada do mar”. A obra foi concebida e ilustrada pelo artista plástico Demóstenes Vargas, o texto é de autoria de Raimundo Carvalho, com tradução para o inglês de Guilherme Gontijo Flores e trilha sonora de Matheus Braga e Marku Ribas. O trabalho de arte digital foi desenvolvido pelo Laboratório Multimodal da UFMG, sob a coordenação do Prof. Francisco Marinho.

A obra pretende conduzir o leitor por uma viagem através de todo o curso do Rio São Francisco, da nascente até a foz, descortinando, através dos desenhos, as paisagens características de cada região banhada pelo rio, ao mesmo em que o texto traz à memória as lutas e as lendas do povo ribeirinho. A trilha sonora colabora, sensorialmente, no processo de imersão facultado pelo aplicativo desenvolvido a partir da linguagem dos jogos eletrônicos e da animação, permitindo ao leitor uma interação efetiva com a obra, a ponto de se sentir atuando dentro dela.

Nesse sentido, podemos afirmar que esta obra, pelas suas características, reunindo animação e interatividade a conteúdos de responsabilidade sócio-ambiental e a processos artísticos e poéticos, destaca-se pelo pioneirismo e pela experimentação.  Trata-se, portanto, de um produto novo feito para as novas mídias digitais e prevê novos modos de fruição e interação entre arte e público, além de se constituir numa ferramenta dinâmica a ser utilizada na educação e sensibilização da população para as questões ambientais. A arte digital, tal como idealizada pelos criadores desta obra, propõe um novo modelo de comunicação, baseada na inter-conectividade instantânea das novas mídias e das redes sociais, adicionando a essa plataforma conteúdos e propostas inovadoras, que retirem os usuários dos aparelhos eletrônicos da apatia, da indiferença e da pretensa auto-suficiência.

Do ponto de vista estético e político, esta obra serve também de parâmetro para a inserção de conteúdo genuinamente brasileiro numa mídia de alcance mundial. Ela resgata, através do desenho, da música e da poesia, o mundo maravilhoso do Velho Chico, tão amado pelo povo que habita as suas margens e tão sonhado pelos brasileiros que contemplam as suas sinuosas linhas no mapa do Brasil.

link para baixar:  Velho Chico

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