poesia

poemas d’alta noite, de donizete galvão (1955)

donizete-galvao

donizete galvão é mineiro nascido em borda da mata, em 1955, porém apaulistanado há décadas, desde 1979. foi já em sampa, onde trabalhou como jornalista & publicitário, que começou sua carreira publicada de poeta, uma carreira hiperpremiada & indicada, diga-se de passagem, da qual listo apenas alguns livros: Azul navalha (1988, livro de estreia, prêmio APCA de revelação & indicação ao jabuti), A carne e o tempo (1997, indicações ao jabuti e ao ciudad de madrid), Ruminações (1999), Mundo mudo (2003, indicado ao portugal telecom), Mania de bicho (2009, poesia infantil) & o último impressionante livro O homem inacabado (2010, indicado ao portugal telecom).

eu bem poderia me deter numa análise mais cuidada da importância das artes visuais na poesia de donizete, ou tentar refazer um percurso da influência da poesia modernista – sobretudo mineira – na sua poesia, para destacar como ele cria seu próprio percurso a partir desse entrecruzamento entre formação mineira & reinvenção paulistana (algo como: o sertanejo metropolitano); ou sobre, se não um domnínio, um predomínio da noite em seus poemas. mas melhor para todos é ler mais de sua poesia, por isso este post longo de versos, não de comentários. o que segue logo abaixo são 10 poemas retirados de sua última publicação, alta noite, uma plaquete que saiu em 2011 pelo centro cultural de são paulo, na bacaníssima coleção “poesia viva”, editada por claudio daniel.

guilherme gontijo flores

ps: sugestão de trilha sonora: the night, de morphine

10 POEMAS D’ALTA NOITE

Arte poética

A língua da vaca
lambe com gosto
o sal do cocho
e se não há mais sal,
a memória do sal
a madeira, o cocho,
até que tudo fique
polido por sua lixa.

A língua da vaca
recolhe com agrado
o restolho mijado
de rato do fundo do paiol
e mói, remói e tritura
o milho e a palha dura,
até que flores de espuma
brotem no canto da boca,
com suave perfume de leite.

A língua da vaca
lambe a cria trêmula,
num banho batismal,
e engole o mosto,
a gosma amniótica,
e a lamberá ainda,
quando quase novilha
exibir a filha
pústulas no lombo.

Escoiceados

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos
um burro
cinza malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.

O grito

O porco guincha
e sob a pata dianteira
sai a golfada de sangue
que enche a bacia.

Horas depois,
pronto o chouriço,
comemos o sangue preto,
as tripas, o grito.

Ruminações

Nunca saí dessa roceira Minas
que nos dá aflição e dor como herança.
Lamaçal de bosta de vaca
no curral bem em frente da casa.
Cheiro de leite azedo nos latões
e de óleo queimado para expulsar bernes.
Jardins de dália e corações magoados,
chás de consolda e escaldados de quirera.
A avó socando o arroz no pilão,
preparando decoada para o sabão
ou com rodilhas para o feixe de lenha.
Compras sem um item supérfluo
anotadas nas cadernetas de armazém.
Terras tomadas por sapé e sorocaba
e vendidas para pagar promissórias.
Vidas acanhadas atrás de janelas
na cidade que não definha nem prospera.
Rancores cultivados durante anos,
as mesquinharias de parentes.
Amor ressabiado, apenas sugerido,
abraços sem calor, corpos com arestas.
Podem dar-me asas, cheques de viagem,
mandar-me para velejar em Bizâncio.
Recolho, rumino e regurgito
a as aspereza daqueles dias.
Rejeito sua rica hospedagem.
Sou um estranho em suas festas.
Nunca saí desse círculo de ferro.
Nunca saí dessa Minas que não termina.

Cisterna

Água parada de poço.
Só um feixe de luz da lua
vem tocar-lhe a superfície.
Não mais se ouve
a música da carretilha.
Não mais se ouve
o balde batendo nas paredes de tijolos
e a água a se derramar.
Ninguém mais lava o rosto
e a bebe com sofreguidão.
Água parada de poço:
ambos estamos estáticos,
imersos
no negrume da noite.

O sacrifício

Ouve o barulho das chaves.
Ouve o barulho das portas.
Ouve o sapateado
dos emissários da escuridão.

Cento e sete passos
………………e um baque.
Cento e sete passos
………………e o silêncio.
Cento e sete passos
………………e seus pés
…………………………pensos
…………………………………sobre o vazio.

Figos

cesta de figos maduros
……….exatos na sua configuração

atente-se para os veios roxos
…………..a camada de pó sobre a pele

tire a áspera membrana:
……………………….surge a derme branca
…………….a polpa violácea
……………………….florescência íntima
…………….secreta granulação

a maturidade é experimento
breve

ontem a base ainda vertia leite
amanhã a carne estará macerada

…………….devore-a agora
…………….na última estação

…………….um dia
…………….ela poderá amanhecer seca
……………………………………….nua
.………………………………………morta

Crinas

………………..Amei um cavalo – quem era? – ele me olhou
………………..bem de frente, sob suas crinas.
………………………………….Saint-John Perse

Amou um potro baio,
bicho em cujo frêmito
de aguda animalidade
o vigor do sangue corria.

Amou um cavalo cego,
que teve o olho vazado
pela ponta de um prego
na triste hora da doma.

Amou um cavalo morto,
que, em sonho, o visita.
Nos seus ombros,
carrega a sina dele e do cavaleiro
que já não mais existe.

Lições da noite

Antes de sair de casa,
mesmo com o sol ainda alto,
convém preparar
………………..a lamparina.
Enchê-la de querosene,
subir-lhe um tanto o pavio
e deixá-la bem perto da porta.
Antes de se ir para a cama,
todo cuidado é pouco:
há que apagar
…………..a lamparina.
Sua fumaça desenha abstrações
que marcam a cal da parede
e tingem de negro nossas narinas.

Quando a luz é precária
e as sombras têm poderes,
tateia-se pela casa a buscar
…………………………..a lamparina.
A brevidade de sua chama
e a baixa luz com que nos ilumina
lembram-nos de que a noite é nossa sina.

Domínio da noite

Eis sua fazenda:
o reino das luzes apagadas.
Quando a noite vira madrugada,
quando as sombras dançam no quarto,
quando os corpos ressonam,
as palavras chegam para visitá-lo.
Querem espezinhar seu corpo
e fincam espinhos no colchão.
Em vão, tenta pegar no sono.
Inventa imagens de ipês na serra,
finge poses que revelem repouso.
As palavras sibilam e serpenteiam.
Oxum se ergue do negror dos lagos.
Os chorões, como xilogravuras,
bebem as águas da margem.
Grilos, rãs, corujas e cães
anunciam a hora da caçada.
Há que pegar as palavras, acorrentá-las,
fazer delas um amálgama sintático,
antes que, como neblina,
se desfaçam sob a luz da manhã.
Carece embolar-se com elas,
rolar no negrume da noite,
deixar que, tinhosas, nos levem
para ribanceiras e cavernas.
Ainda que poucas restem no embornal,
mesmo assim, há que bendizê-las
e esperá-las com a fisga afiada
e a carne exposta, isca na escuridão.

(poemas de donizete galvão)

donizete night-sky

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Um comentário sobre “poemas d’alta noite, de donizete galvão (1955)

  1. Dianton disse:

    Hoje, mais precisamente, hoje à tarde, descubro as palavras de donizete galvão. Como me disse a sábia mulher: ‘por que demorou tanto para me procurar?’

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