poesia, tradução

tamara kamenszain

kamenszain

tamara kamenszain, descendente de judeus russos & romenos, nascida em buenos aires em 1947,  é uma das poetas mais interessantes da poesia argentina que estão em atividade. autora de 8 livros de poesia, dentre eles De este lado del Meditarráneo (1973), Tango bar (1998), El Ghetto (2003) & Solos y solas (2005), além de livros de ensaios sobre poesia latina. recentemente saiu uma reunião de toda sua poesia sob o título de La novela de la poesía (2012), onde também encontramos poemas que estavam dispersos. boa parte de sua obra já foi traduzida para algumas línguas & alguns detalhes sobre suas ideias podem ser conferidas numa entrevista concedida a solange rebuzzi, que ainda apresenta poemas do livro Solos y solas.

embora seja costumeiramente inserida na corrente dos neobarrocos argentinos da década de 70, penso que sua poesia mais recente se afasta desse rótulo ao mesmo tempo em que se afirma como um voz feminina específica, marcada por sua condição política, sexual, religiosa, familiar, histórica, &c., sem um resumo simples de forma ou pensamento. esse processo pode muito bem ser visto nos dois poemas que posto logo abaixo, tirados das poucas traduções a que já tive acesso.

por falar nisso, vale lastimar a falta de traduções da sua obra. que eu saiba, só tínhamos o livrinho El Ghetto, numa edição bilíngue traduzida por carlito azevedo & paloma vidal, como parte de um número da revista Inimigo rumor. nesse livro, uma espécie de tombeau pela morte do pai tobías kamenszain, o judaísmo explicitado desde o título se amplia da tradicional imagem do gueto para todo um gueto que se herda no sangue, através da distância das raízes, pelo reencontro do mesmo no outro, mesmo já sem a fé na religião. essa retomada da incompreensão afetiva parece fundar os poemas em seu exílio constante de espaço, língua & religião. talvez pra minorar a falta, faz não muito tempo, a 7letras lançou uma reedição d’O Gueto acompanhado de O eco da minha mãe, este em tradução de paloma vidal.

guilherme gontijo flores

tapa Poesia completa_TK

[de Tango Bar]

A simpatia dele pelo diabo
é o ninho de minha antipatia.
Assusta-me e aborrece-me
tudo o  que está mal
no bom sentido
da palavra. Pecado,
pecado seria então
segui-lo tão longe
quando jura e perjura
que estamos perto.
Mamãe, papai, fui
com este mauzinho crioulo
e na cruz de seu poncho
me dei por perdida.
Será possível que em minha religião
sozinha
atrás de um homem
eu sempre sinta frio?

(trad. de ronaldo cagiano, há mais aqui)

La simpatía de él por el diablo
es nido de mi antipatía.
Me asusta me enoja todo
lo que está mal
en el buen sentido
de la palabra. Pecado,
pecado sería entonces
seguir a él tan lejos
cuando jura y perjura
que estamos cerca.
Mamá, papá, me fuí
con este maldito criollo
y en la cruz de su poncho
me di por perdida.
¿Será posible que en mi religión
sola
detrás de un hombre
yo siempre sienta frío?

Antepassados (de O Gueto)

Aonde vão?
Vou com eles descendo de meus filhos
até onde queiram chegar astros circulantes
se na hora do nascimento calcularam ascendente
não o abandonem mais.
Do Mar Negro até o Estreito
naturalizam-se comigo de mim procedem
meninos de sobrenome decomposto
viajando para ser argentinos
imigrantes por vomitar no convés
dando voltas eles nos voltam
como vinil arranhado dos beatles
da Rússia para cá
e daqui para a URSS que foi
donos de um deserto que avança bisavós do nada.

( trad. de carlito azevedo & paloma vidal)

Antepasados

Adónde van?
Me voy con ellos desciendo de mis hijos
hasto donde quieran llegar astros rodantes
si a la hora del nacimiento calcularon ascendiente
no lo abandonen más.
Desde el Mar Negro hasta el Estrecho
se naturalizan conmigo de mí vienen
chicos de apellido descompuesto
viajando para ser argentinos
inmigrantes por vomitar en cubierta
dados vuelta nos vuelven a nosotros
como vinilo rayado de beatles
de Rusia para acá
y de aquí a la URSS que fue
dueños de un desierto que avanza
bisabuelos de la nada.

Sozinha (de La novela de la poesía)

Agora que enfim estou desvelada
como que pra comprovar que algo cresci
sei que não só o sorriso daquele homem
como também seus gestos
e que não só esses gestos
como também suas palavras
tudo me alcança posso caminhar
acrobata cambaleante porém segura
pela corda bamba da minha própria casa

(trad. guilherme gontijo flores)

Sola

Ahora que por fin estoy desvelada
como para comprobar que algo crecí
sé que no solo la sonrisa de aquel hombre
sino también sus gestos
y que no solo ésos gestos
sino también sus palabras
todo me alcanza puedo caminar
acróbata tambaleante pero segura
por la cuerda floja de mi propia casa

(poemas de tamara kamenszain)

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