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“Rapsódia de uma noite de vento” de T. S. Eliot

Old street lamp in the background of the building with sculpturesEliot já não é nenhum estranho por estas bandas, sendo que já dedicamos duas postagens ao seu Prufrock, uma com a tradução de Rodrigo Gonçalves, outra com a de Rodolfo Jaruga. Agora, eu gostaria de volver nossa atenção para um dos poemas “menores” (não tão menor assim, a bem da verdade, com seus 78 versos), presente na primeira coletânea do poeta, publicada em 1920, Prufrock and Other Observations, que é o “Rhapsody on a windy night”.

Seu título é um tanto auto-explicativo (apesar de o “on” ser ambíguo, podendo ser tanto uma rapsódia (composta) sobre uma noite de vento quanto uma rapsódia (que ocorreu) durante uma noite de vento): é um poema que se concentra sobre uma caminhada noturna da persona de Eliot, mesclando imagens confusas da memória com as cenas vistas pela figura durante a sua flanêrie. Como com a “Canção de amor de J. Alfred Prufrock”, a referência musical do título é irônica (“rhapsody” tem um sentido de algo entusiasmado em inglês, enquanto o tom do poema é melancólico), mas, diferente de Prufrock, não há um nome para essa persona, ainda que ela seja bastante semelhante ao Prufrock, em sua atitude reflexiva e desiludida em relação ao mundo das convenções sociais em que está imerso – e eu ainda arriscaria dizer que a persona da “Rapsódia” também tem suas angústias com o envelhecimento, como parece ficar sugerido na cena entre ele ter visto a criança na pedreira e o “velho siri”, com o qual ele revelando uma identificação, o que não ocorre com a criança, cujos olhos não permitem que ele veja “nada por trás”.

Estruturalmente, eu gostaria de apontar para o quanto o poema é bem amarrado. A primeira estrofe se apresenta como uma introdução musical, de fato, com todos os motivos que se desenvolvem ao longo dos versos seguintes: a descrição da cena (“the reaches of the street“), a marcação do tempo (começando à meia noite e encerrando, depois, às 4 da manhã, com o relógio retornando a cada estrofe, rítmico, como o “tambor fatalista” a que ele se refere no nono verso), a dissolução explicitamente referida da memória (que passa a caracterizar as imagens do poema inteiro) e a aparição dos postes, que ganham voz nas estrofes seguintes, chamando a atenção do eu-lírico para cada uma das cenas pela qual ele passa: a mulher entrando na casa (o vestido sujo e rasgado sendo sugestivo de sexualidade), o gato comendo a manteiga rançosa na sarjeta (ou numa calha, a palavra “gutter” é ambígua), a lua descrita em termos grotescos (esta, mencionada também já na primeira estrofe, na “lunar synthesis” e “lunar incantations”).

Há um crescendo, então, na antepenúltima estrofe, com a enumeração dos cheiros noturnos, naquilo que poderíamos descrever como um momento de identificação do eu-lírico com a lua – apesar de ela, a princípio, se distinguir dele por não ter memória (“La lune ne garde aucune rancune, / (…) The moon has lost her memory“) – em sua solidão e confusão sensório-mnemônica:

           

A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.

           

Por fim, o eu-lírico retorna ao que parece ser um hotel (daqueles em que se deixa, ou deixava, os sapatos à porta) e se deita, e o poema conclui com um desses finais angustiantes nos quais Eliot era mestre. No verso final, Eliot justapõe as ordens (ou conselhos) que a luz do último poste dá, o “prepare for life” (a preparação para a continuação da vida, da qual essa caminhada noturna seria uma forma de fuga, uma suspensão da realidade diurna, da qual, no entanto, é impossível escapar, justamente por conta das qualidades incontroláveis da memória), com a imagem inesperada de uma faca sendo retorcida pela última vez na vítima após o golpe:  The last twist of the knife , um verso isolado, que compõe sozinho a última estrofe, uma qualidade que lhe confere um peso especial e contribui para o tom desesperador do poema.

Lembro que, desde que li Eliot pela primeira vez (creio que em 2007 ou 2008), numa ediçãozinha pocket da Penguin, esse foi um dos poemas dele que mais me marcou, e por isso sempre quis traduzi-lo. Há já uma tradução feita pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, presente em sua antologia intitulada simplesmente Poesia (editora Nova Fronteira), junto com o seu “Prufrock”, “A Terra Desolada”, “Os Homens Ocos”, etc. No entanto, apesar dos méritos do trabalho de Junqueira, sua tradução deste poema em específico não me deixou muito satisfeito. Algo do ritmo me parece quebrado, na medida em que Junqueira muitas vezes alonga versos que no original eram curtíssimos  (como no caso do trecho do gato e da solidão da lua) e parece deixar de lado rimas que saltam aos olhos e aos ouvidos no poema de Eliot, como “The street lamp sputtered, / The street lamp muttered”, que viram “cuspia” e “resmungava”. Além disso, o final me soa esquisitíssimo, com o uso inusitado do verbo “talhar”, repetido com o “talho” do verso seguinte, e a substituição a imagem da faca sendo retorcida após a facada (sendo o movimento da torção especialmente importante. Note como o poema insiste o tempo inteiro sobre imagens de coisas tortas e retorcidas. Como disse, ele é todo amarrado) com a de uma navalha (um objeto que, convém dizer, não pode ser usado para apunhalhar) dando mais um golpe. Não é o caso da presunção minha de querer falar mal da tradução de Junqueira e oferecer uma melhor, mas, sim, de oferecer mais uma tradução, como fazemos sempre no escamandro, e com um projeto diferente. Aliás, eu digo, se tem algo pelo qual Junqueira, como tradutor, é realmente digno mesmo de condenação, é por elogiar e promover, como jurado, a tradução de Milton Lins de William Shakespeare no prêmio de tradução da ABL,  uma verdadeira aberração de tão bizarra, conforme registrado no blogue de Denise Bottman. Mas, enfim, isso é outra história.

Por isso, apresento a vocês, abaixo, a minha tradução e a de Ivan Junqueira, acompanhadas pelo original.

Adriano Scandolara

Van Gogh - Starry Night Over the Rhone

           

Rapsódia de uma noite de vento

Doze horas.
Pelos caminhos da rua
Preso em síntese lunar
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras
Divisões e precisões,
Todo poste que passo
Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto.

Uma e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja,
A luz do poste diz, “Veja aquela mulher
Que hesita na tua direção à luz da porta
Que se abre a ela como uma bocarra.
Vê-se que a barra do vestido
Está rota e suja de areia,
E que o canto do olho dela
Se retorce como um alfinete”.

A memória vomita alta e seca
Uma turba de coisas tortas;
Um galho retorcido sobre a praia
Carcomido, liso, polido
Como se o mundo entregasse
O segredo de seu esqueleto
Branco e rijo.
Uma mola quebrada numa fábrica,
Ferrugem que se prende à forma que a força abandonara
Dura e tesa e prestes a estourar.

Duas e meia,
A luz do poste diz,
“Note o gato à sarjeta, como se aconchega,
Mostra a língua
E devora um rançoso naco de manteiga”.
Então a mão da criança, automática,
Saiu e embolsou um brinquedo que corria pela pedreira.
Não pude ver nada por trás do olhar daquela criança.
Vi olhos na rua
Tentando espiar pelas cortinas acesas,
E um siri à tarde numa poça,
Um siri velho com cracas nas costas;
Prendendo a ponta do graveto que estendi pra ele.

Três e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja no escuro.

A luz entoou:
“Veja a lua,
La lune ne garde aucune rancune,
Ela pisca um olho flébil
Ela sorri nas esquinas.
Alisa o cabelo da relva
A lua perdeu a memória.
Uma varíola lavada racha-lhe o rosto,
Sua mão retorce uma rosa de papel,
Com cheiro d’água de colônia velha e pó
Ela está só
Com todos os cheiros noturnos
Que cruzam e cruzam os cruzamentos de seu cérebro.
A reminiscência vem
De gerânios secos sem sol
E poeira nos cantos,
Cheiros de castanhas nas ruas,
E cheiros de mulher em quartos cortinados,
E cigarros nos corredores
E cheiros de coquetéis nos bares”.

A luz diz,
“Quatro horas,
Eis o número na porta.
Memória!
Você tem a chave,
A luz espalha um círculo na escada,
Suba.
A cama aberta; a escova de dente pendurada,
Sapato à porta, durma, a vida o aguarda”.

A torção final da facada.

(tradução de Adriano Scandolara)

           

Rapsódia sobre uma noite de vento

Meia-noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia-noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surripiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água-de-colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talha.

O último talho da navalha.

(tradução de Ivan Junqueira)

           

Rhapsody on a Windy Night
 
Twelve o’clock.    
Along the reaches of the street    
Held in a lunar synthesis,    
Whispering lunar incantations    
Dissolve the floors of memory
And all its clear relations    
Its divisions and precisions,    
Every street lamp that I pass    
Beats like a fatalistic drum,    
And through the spaces of the dark
Midnight shakes the memory    
As a madman shakes a dead geranium.    
 
Half-past one,    
The street lamp sputtered,    
The street lamp muttered,
The street lamp said, “Regard that woman    
Who hesitates toward you in the light of the door    
Which opens on her like a grin.    
You see the border of her dress    
Is torn and stained with sand,
And you see the corner of her eye    
Twists like a crooked pin.”    
 
The memory throws up high and dry    
A crowd of twisted things;    
A twisted branch upon the beach
Eaten smooth, and polished    
As if the world gave up    
The secret of its skeleton,    
Stiff and white.    
A broken spring in a factory yard,
Rust that clings to the form that the strength has left    
Hard and curled and ready to snap.    
 
Half-past two,    
The street-lamp said,    
“Remark the cat which flattens itself in the gutter,
Slips out its tongue    
And devours a morsel of rancid butter.”    
So the hand of the child, automatic,    
Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.    
I could see nothing behind that child’s eye.
I have seen eyes in the street    
Trying to peer through lighted shutters,    
And a crab one afternoon in a pool,    
An old crab with barnacles on his back,    
Gripped the end of a stick which I held him.
 
Half-past three,    
The lamp sputtered,    
The lamp muttered in the dark.    
 
The lamp hummed:    
“Regard the moon,
La lune ne garde aucune rancune,    
She winks a feeble eye,    
She smiles into corners.    
She smooths the hair of the grass.    
The moon has lost her memory.
A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.    
The reminiscence comes    
Of sunless dry geraniums    
And dust in crevices,    
Smells of chestnuts in the streets,
And female smells in shuttered rooms,    
And cigarettes in corridors    
And cocktail smells in bars.”    
 
The lamp said,    
“Four o’clock,
Here is the number on the door.    
Memory!    
You have the key,    
The little lamp spreads a ring on the stair,    
Mount.
The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,    
Put your shoes at the door, sleep, prepare for life.”    
 
The last twist of the knife.

(poema de T. S. Eliot)

Padrão

4 comentários sobre ““Rapsódia de uma noite de vento” de T. S. Eliot

  1. Boas traduções; a de Junqueria é um pouco mais rítmica, pende à melopéia que ouço em Elliot (esses versos recitados tornam-se sussurros: “Smells of chestnuts in the streets, And female smells in shuttered rooms”. Mas achei boa também a tradução de Adriano; embora de poesia eu só conheça o que gosto; e conheço pouco… Também prefiro a transcriação à tradução direta. De qquer forma é coragem postar traduções diversas para cotejos (cortejos ou gracejos…) Rsss!

    Parabéns pelos comentários sobre!

    Abraço,
    Gustavot

  2. rodrigo madeira disse:

    bela tradução, adriano. bem melhor que a do ivan junqueira.
    ele claramente forçou a mão e “reprogramou” o poema para que fosse uma obra do século XIX. fica essa impressão de alguém que “perfumou a flor e poetizou o poema”…
    transformar “white” em “alvadio” foi péssimo. assim como usar palavras como “sortilégios”, “brande”, eflúvios”, “talha”…

    por fim, “a torção final da faca” ficou perfeito, cara! é isso mesmo! a torção final da faca…

    *
    “Midnight shakes the memory
    As a madman shakes a dead geranium”

    são dois dos versos mais incríveis que já li…

    *
    só uma pequena correção: o acento colocado em ” a reminiscência vêm”.

    abçs,
    rodrigo

  3. Pingback: Ano novo… de novo! | Catarina voltou a escrever,

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