poesia, tradução

jean métellus (1937)

jean métellus, nascido em 1937 em jacmel, no haiti, é um hiperprolífico escritor francófone. sua obra se divide em poemas, romances, peças de teatro & ensaios; além do trabalho de médico neurologista, que exerceu durante quase toda sua vida. passou boa parte da sua vida na frança (mudou-se para paris em 1959), como parte da grande diáspora de exílios sob o governo ditatorial de duvalier em sua pátria.

metéllus, em 2004, por sophie bassouls

metéllus, em 2004, por sophie bassouls

a sua poesia começou a ganhar destaque em 1973, quando a Les lettres nouvelles publicou um longo poema seu intitulado Au pipirite chantant, com comentários de andré malraux. nessa obra, já vemos um poeta maduro, capaz de fundir aspectos culturais de suas origens (o pipirite, ou tyranus dominicensis, é um pássaro típico do haiti) com uma estética moderna, que evoca, por exemplo, as obras de césaire, senghor & glissant. como resultado disso, temos uma poesia que beira o surrealismo, porém impregnada de imagens e símbolos de uma cultura negra, de um espaço majoritariamente rural a caminho de mudanças drásticas, que por sua fantasmagoria, parecem tentar um voo universalizante, por meio da própria tribo, ou pela tentativa de ressimbolizar o mundo. nesse espaço, métellus faz uma feroz crítica às condições de vida do colonizado, mas não se restringe ao lamento, & amplia o poder da sua poesia por correr entre a dor & a vida (o poema “femme noire” me parece muito significativo, nesse sentido).

tanto sua poesia quanto sua prosa são, infelizmente, quase que completamente desconhecidos no brasil. não tenho notícia de nenhuma poesia traduzida para o português, por isso, optei por traduzir alguns da coletânea intitulada au pipirite chantant et autres poèmes, que foi lançada em 1978 com introdução e alguns comentários de claude mouchard.

guilherme gontijo flores

porto príncipe, fotógrado desconhecido

porto príncipe depois do terremoto de 2010, fotógrado desconhecido

La joie

Phosphorescente comme la silhouette des dieux
Comme l’instant, comme l’avenir
Dans ce présent qui nous échoit
La joie pressent l’assaut de la tristesse
Chausse une très vieille sandale
Et chante, foulards aux pieds
Foulards au cou, foulards aux bras
Comme un essaim d’abeilles
Une chanson née dans les vertiges
Le parfum du lait de mes lèvres et de mes larmes
Comme le miel du désordre égale la surprise du désir

A alegria

Fosforescente como a silhueta dos deuses
Como o instante, como o porvir
Neste presente que nos sucede
A alegria pressente o assalto da tristeza
Calça uma sandália velhíssima
E canta, lenços nos pés
Lenços no colo, lenços nos braços,
Como um enxame de abelhas
Uma canção nascida nas vertigens
O perfume do leite dos meus lábios e lágrimas
Como o mel da desordem iguala a surpresa do desejo

* * *

La Solitude

Solitude, fleur incandescent de rêves aurifères
Fracas du jour, folie des nuits et des révoltes dorées
Que de prix payés à la terre pour les langueurs d’une couleur
Un homme seul est-il une fièvre sans raison ou un sourire sans soucis
Où va-t-il lié à la gélatine des ruines?

A Solidão

Solidão, flor incandescente de auríferos sonhos
Estrépito do dia, loucura das noites e das revoltas douradas
Quanto foi pago à terra pelos langores de uma cor
Um homem só será uma febre sem razão ou um sorriso sem ciso
Aonde vai ligado à gelatina das ruínas?

* * *

La nuit s’est déshabillé
Mais la terre ne le crie pas
La pelouse ruisselle d’étranges lumières
Éclate de santé
Écailles d’un rocher rompu
Des vagues encaissent l’humidité
Les narines ont subi l’assaut des parfums
Le palais goûte les saisons
Et mois j’écoute

Haïti, Haïti
J’attends pour toucher
Mes mains s’étendent pleines de mots

A noite se despiu
Mas a terra não o grita
O gramado derrama estranhas luzes
Clarão de saúde
Escamas de uma rocha rompida
Ondas encaixotam a umidade
As narinas sofreram o assalto dos perfumes
O palato degusta as estações
E eu escuto

Haiti, Haiti,
Espero para tocar
Minhas mãos se estendem cheias de palavras

* * *

Je cours jour et nuit après moi
Viens de bercer ma joie de retrouver
L’horizon maternel du matin

Haïti, Haïti
Les baies du jour peuplent ma vision
Les premiers épis du printemps ont trop souffert
Ils sèment maintenant une force inouïe

Eu corro dia e noite atrás de mim
Mal embalou minha alegria de encontrar
O horizonte maternal da manhã

Haiti, Haiti
As baias do dia povoam minha visão
As primeiras espigas da primavera sofreram por demais
Semeiam agora uma força inaudita

* * *

Un chant de je ne sais où circulait dans la salle
Une corde autour du cou
Offrant sa voix aux mots
Elle avait les dents blanches du coton en été

Um canto não sei donde circulava na sala
Uma corda no pescoço
Oferecia a voz às palavras
Ela tinha os dentes brancos do algodão no veraneio

* * *

Le son est l’existence de l’homme
condensation pure du verbe
vouloir étincelant

Il faut apprivoiser dans la bouche d’autrui tous les moments du verbe

O som é a existência do homem
condensação pura do verbo
desejo reluzente

É preciso amansar na boca alheia todos os momentos do verbo

* * *

Visages découverts baignant dans un concert de sens
Carnaval infini
Flor gelé de plaisirs secrets
Partout c’est l’attente

Faces descobertas banhadas num concerto de sentidos
Carnaval infinito
Onda gelada de prazeres secretos
Em toda parte uma espera

* * *

Femme noire

La femme noire a un enfant qui la tient en alerte
La femme noire a un enfant et des seins douloureux
C’est une accouchée d’hier
Les doulers l’ont surprise à la cueillette du café
Là sous la caféier sur la veste de son mari, la tête
….[contre un palmier,
……….les pieds plantés dans la terre, elle a poussé son enfant
……….L’eau de la source est pure
……….La chaleur du corps tendre
……….Elle reprit son travail avec au sein l’enfant
……………………….dans une main la machette
Le sarclage recommence, la cueillette de plus
[belle, la mère engrosse la terre pour pouvoir
[donner du lait à son enfant

Mulher negra

A mulher negra tem um filho que a mantém alerta
A mulher negra tem um filho e seios doloridos
É uma parturiente de ontem
As dores a surpreenderam na colheita do café
Lá sob o cafezeiro sobre a roupa de seu marido, a cabeça
…..[contra uma palmeira
………os pés plantados na terra, ela empurrou seu filho
………A água de fonte é pura
………O calor com corpo tenro
………Ela retoma seu trabalho e no seio o filho
………………….numa mão traz um facão
A sachadura recomeça, a colheita mais
…..[bela, a mãe emprenha a terra para poder
…..[dar leite ao seu filho

(poemas de jean métellus, trad. de guilherme gontijo flores)

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