poesia

Ricardo Pozzo

Ricardo PozzoRicardo Pozzo, além de um autodeclarado “abstêmio” e “blefador”, é um poeta, tradutor, músico e fotógrafo nascido em 1971 na Argentina e radicado em Curitiba. É o organizador do Vox Urbe, as noites de poesia que ocorrem toda terça-feira às 22h no Wonka Bar em Curitiba (tem uma matéria interessante a respeito no Caderno G da Gazeta do Povo, de 2011: link aqui), colaborador do Jornal RelevO, editado por Daniel Zanella, e membro do coletivo literário Pó&Teias, idealizado pela professora e escritora Glória Kirinus, que completa 10 anos este ano.

Seus poemas estão reunidos no caderno UrbeFagoCitoZ (aludindo, convém glosar, à fagocitose celular como metáfora para o engolimento do ser pela cidade, a urbe), que inclui ainda traduções e fotografias, além dos seus poemas próprios, e circula já desde 2011 por Curitiba através da editora artesanal Rock Leituras. Também podemos encontrar alRicardo Pozzo - El vuelo de la golondrinaguns de seus poemas aqui e acolá em periódicos de respeito, como o Cronópios e Germina Literatura. Como parte de seu trabalho fotográfico – intitulado Urbe Fágica –, sua poesia se concentra bastante sobre a temática da cidade, em tudo que ela tem de “obsceno, feérico, apocalíptico, espetacular”, como diria o nosso ilustre Fausto Fawcett – com privilégio para as figuras marginais como a(o) prostituta(o) e o mendigo, não por acaso protagonista constante de muitas das fotos em sua galeria do Flickr, como as que ilustraram minha postagem de dezembro de 2012 de poemas sobre mendigos – já a outra face de sua fotografia, a de natureza mais noturna e erótica, você pode acompanhar clicando aqui.

           

Ricardo Pozzo - Urbe fachada

Junto com alguns dos seus poemas que selecionei, deixo aqui também na sequência uma seleção de links para outros sites com trabalhos do Sr. Pozzo:

Poemas na Germina Literatura

Poemas no Portal Cronópios

“Fotocorpos”, fotografias de nu artístico, na revista Mallarmargens

Dois poemas em prosa na última edição (março/2013) do Jornal RelevO

Um projeto musical, com Rodrigo Madeira e Tullio Stefano, intitulado Cartografia da Hesitação entre o Som e o Sentido.

E, para encerrar, uma entrevista para o site Curitiba Cultura sobre poesia e a cena cultural de Curitiba

Adriano Scandolara

           

Per. Plexos

Michês desfilam esculpidas. Carcaças. Na interjecional estreita. Voluntários da Pátria. Entre o estereotípico Instituto e a praça Osório. Inspecionados por. Automóveis olhos. Circunda-os. Diluídos latrocidas indiciados. Por uma jaqueta, trinta reais e alguns centavos. Ilegítima defesa. Da honra garden-party à sombra. Em ambos. Lados de falsos efebos para evitar. Que sonhos de consumo tornem-se pesadelos; ou. O remédio dos velhos. Traquejados em liquescer homopétalos gametas. Ainda vale o ditado. Homem que trabalha será dignificado.

            urbe under construction

Alvéolos de petit pavê

Um drone
observa-me
por entre
alvéolos
de petit pavê
na cidade
tipo exportação
feita
pra ninguém

E meu irmão,
que
encontra-se
jogado
para fora do
espetáculo

: cidadania
examinada,

saca de
vísceras
instituídas
em álcool,

lamenta
que a vida
é rinha
sem saída;

e a
infância
invisível,
tal qual
o mendigo,

por entre
alvéolos
de petit pavê

            urbemorpheu

Falsa Varsóvia

Sorve a turba
o compulsivo maná
do sheol adicto,

Herdeiros
de um deserto
sinuoso
no gueto
do esgoto

ao qual escoam
a hipocrisia
e a solidão da
solidariedade
interesseira.

Antes bons pais,
bons funcionários,
boas filhas,
hoje acocorados
em manilhas,
sob o tronco
dos Chorões,
festejam
um ritual lascivo

na micro sinagoga
de alumínio,
a menorá
de isqueiros.

Irmãos da nóia
desorientados
pelo Inimigo,
crêem estar,
a Terra Prometida,
além dos portões
de uma psíquica
Treblinka.

            

Tanatologia das Relações Humanas

Para melhor compor
o puzzle
das fantasias
nostálgicas
acerca do futuro,
horas em dedicado
estudo
ao feixe solar
que incide sobre a colcha
ou ao intervalo
entre fusas e semibreves
no minueto
calha sob chuva.

farta
de sua máscara hipócrita,
aguarda
o habeas corpus
que a liberte do mundo real;

hypnos sussurra
em seus ouvidos
enquanto felinos
festejam a sua volta

o mundo
ao seu redor
sempre lhe pareceu
um tanto
fora de órbita.

O contestado é agora

           

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,

anthropocetáceo
emerjo,

do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.

(poemas e fotografias de Ricardo Pozzo)

Padrão

4 comentários sobre “Ricardo Pozzo

  1. Ricardo é um poeta culto, curto, duro, crítico, lúcido e cultua modernamente observar as luzes da cidade e ressaltar certos tons de humanidade, resgatando-os, roubando-os da voragem tecnocrata e politicamente correta do capitalismo de nossos dias! Bom lê-lo, bom tê-lo por aqui!

  2. Aída Arrue disse:

    Es un privilegio siempre tener acceso a lo que és Ricardo Pozzo , a su trabajo, a todo lo que él implica. No hace falta el conocimiento corpóreo o el sensorial; Pozzo (lo que él es para otros) trasciende aquello que se entiende como espacio y lengua, como intención incluso.

  3. A nostalgia da infância querida e roubada e a urbe em desalinho no trabalho árduo e consciente do poeta que tece feridas de desabrigos, chagas, descaminhos, mas muitos projéteis de humanidade.

  4. Extenuante olhar. Bom humor é remédio e o foco é redentor. Existem possibilidades de redenção que transformam-se e sua circunscrição em movimento uno e em tempo real. Isento de culpa? A forma e a prática refletindo negligência filosófica no trabalho intelectual torna-se fluxo de partículas cujo estatuto de ente oferece-se ao algoz. Conversamos por aí se vossa majestade estilística ainda contaminar-se com preocupações formais menos estritas que as circunscrições burguesas cujo pleitear compõem reais tempos de meu verbo como amigo e filósofo da ética em Curitiba. Quando cansado, converse com um amigo filósofo em moldes gregos de democracia e participação na pólis virtual […] É sempre um gozo transcendental e prazer imenso em exemplificar com linguagens de programação automáticas de ambientes.

    O Criador proteja teus passos do teu fel reservado e emprestado dos teus algozes e de tua luz insuportável ao auto-conhecimento não metódico. Purifico-me e ensino a didática do espírito em horas vagas se assim for enternecido a julgar participação oportuna em vosso convívio velado por instintivas lutas ao nível do “self” de nossa amizade espelhada por respeito mútuo. O mecanismo da punição me é estranho. Tenho a perspectiva de que a liberdade semântica flui ao sabor da relação pessoal entre o artista e seu criador. Abandono vossos passos em autonomia simbólica por pura confiança na ataraxia grega que conduz, nós filósofos em perfeita harmonia com nossa solidão epistêmica sob âmbito das ciências sociais. Todos os sábios isolam o ego em aparte de auto-conhecimento, mesmo em face de estéticas ditas essência. Comentaremos ainda [eu me incluo] as “modas” filosóficas.

    Seu fiel filósofo
    Anderson Carlos Maciel

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