poesia, tradução

tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)

tito lucrécio caro é uma das figuras mais interessantes da literatura romana. sua única obra que nos chegou, de rerum natura (da natureza das coisas) é um longo tratado epicurista escrito em versos (mais de 7 mil hexâmetros divididos em 6 livros). no entanto, diferente de outros tratados científicos que apenas são talhados em verso – mera prosa recortada – , a escrita de lucrécio consegue se sustentar simultaneamente como ciência & poesia; tanto que de rerum natura é um texto fundamental para os estudos filos[oficos sobre o epicurismo antigo (na verdade, o maior texto que nos restou sobre a doutrina), mas ao mesmo tempo uma pedra de toque importantíssima no desenvolvimento da poesia romana do séc. I a.c. – foi lendo lucrécio que se formaram poetas do porte de virgílio (sobretudo o das geórgicas), horácio (nas odes), propércio, tibulo & ovídio.

para tentar demonstrar um pouco dessa vitalidade, segue abaixo um dos trechos mais famosos da obra (a descrição da chuva), numa tradução poética do poeta curitibano mario domingues, que acabou de defender uma dissertação sobre a poética de lucrécio pelas lentes de jakobson, intitulada O raio, o relâmpago: Tradução do Canto VI de Lucrécio e análise de Função Poética de fragmentos, de 2013. mario domingues também é o autor de 2 livros de poesia: paisagem transitória (2001) & musga (2010); & participou da bela tradução coletiva de e.e. cummings, o tigre de veludo.

guilherme gontijo flores

A chuva – De rerum natura, livro 6, vv. 451-534.

As nuvens se condensam quando muitos corpos
ásperos chocam-se – revoando nos espaços
altos do céu – e sutilmente se coligam
sem que estejam, contudo, presos entre si.
Estes corpos compõem antes nuvens pequenas,   455
eis que estas se amarram, tornam-se atreladas;
unidas crescem, sendo levadas por ventos
até que a tempestade se arme severa.
Quanto mais próximas do céu são as montanhas,
mais os seus ápices fumegam nas alturas,              460
no nevoeiro negro de nuvens vermelhas.
Antes de ser o que parecem aos nossos olhos,
as nuvens são diáfanas, por isso o vento
confina-as nos altos cumes das montanhas.
Só nos cimos, em turba, as nuvens numerosas,     465
Compactas, tornam-se visíveis e, no entanto,
parecem vir dos ares altos das montanhas.
Quando as subimos, manifestam-se aos sentidos
fatos que indicam ventanias nas alturas.
Muitos corpos se elevam do mar: tal se vê               470
na aderência e umidade das roupas e panos
dependurados nos varais dos litorais.
Parece que decorre o inchaço das nuvens
das pulsações salgadas do mar, em miasmas,
já que toda umidade é mesmo consanguínea.         475
Em simultâneo, vemos que todos os rios
e a terra disseminam névoas e vapores,
como um hálito pênsil, manado do solo,
que tinge de caligem o céu, formando nuvens
altas, por sua paulatina convergência.                      480
Pois de cima o calor do éter estrelado
acossa, adensa as nuvens encobrindo o azul.
Acontece também de virem ao céu, de fora,
corpos que fazem nuvens aéreas e chuvas.
Sendo o espaço infinito, como já afirmei,                485
estes corpos – de número inumerável –
sendo tão rápidos, costumam percorrer
num segundo distâncias incomensuráveis.
Assim, não causa assombro que rapidamente
trevas e temporais de grandes nuvens cubram,      490
com seu peso oneroso, os mares e as terras.
Já que em todos os poros do céu, já que em tudo,
nos tais respiradouros deste vasto mundo,
há entrada e saída aos móveis elementos.
Agora explicarei como cresce a umidade                   495
nas nuvens altas, como a chuva precipita
água. Primeiramente, vários grãos de água,
sincrônicos, germinam destas mesmas nuvens,
e ao mesmo tempo brotam de todos os corpos;
a água líquida aparece em toda nuvem,                     500
bem como nossos corpos incham-se de sangue,
de suor e de toda a umidade dos membros.
Também absorvem muita umidade marinha,
como um tosão de lã, suspenso sobre o mar
imenso, quando os ventos carregam as nuvens.       505
Mesmo modo, a umidade dos rios correntes
é embarcada na nuvem. Quando muitos grãos
de água afluem, aumentando de mil modos,
as nuvens cheias tentam excluir o líquido
por dois motivos: pelo vento ser tão forte                 510
e porque a multidão de nuvens os expulsa –
comprimindo de cima, faz fluir a chuva.
Enquanto as nuvens somem com a ação do vento
ou se dissolvem, sob os golpes do calor,
expelem e destilam as águas pluviais,                         515
como a cera amolece e derrete no fogo.
Mas a chuva se faz fera, quando o poder
e a cólera do vento acumulam as nuvens.
Deste modo, costumam as chuvas se deter
quando são agitados muitos grãos de água;              520
quando se fundem outras nuvens e outras névoas
os grãos decaem, regam todos os lugares,
e a terra fumegante exala seus humores.
Quando os raios do sol batem na tempestade
opaca, aspergem contra as nuvens: então surgem    525
as cores do arco-íris sobre as nuvens negras.
Outros fenômenos que nascem e acontecem
nas altitudes, que se agregam lá nas nuvens,
os ventos, o granizo, a geada gelada,
todos, a neve, os longos enrijecimentos                      530
da água, que confundem e retardam o curso
dos rios – é sereno saber como nascem,
por que são criados, quando são entendidas
as propriedades essenciais dos elementos.

* * *

Nubila concrescunt, ubi corpora multa uolando
hoc super in caeli spatio coiere repente
asperiora, modis quae possint indupedita
exiguis tamen inter se comprensa teneri.
Haec faciunt primum paruas consistere nubes ;             455
inde ea comprendunt inter se conque gregantur,
et coniungendo crescunt uentisque feruntur,
usque adeo donec tempestas saeua coortast.
Fit quoque ut montis uicina cacumina caelo
quam sint quaeque magis, tanto magis edita fument     460
assidue fuluae nubis caligine crassa,
propterea quia, cum consistunt nubila primum,
ante uidere oculi quam possint, tenuia, uenti
portantes cogunt ad summa cacumina montis.
Hic demum fit uti turba maiore coorta                             465
et condensa queant apparere, et simul ipso
uertice de montis uideantur surgere in aethram.
Nam loca declarat sursum uentosa patere
res ipsa et sensus, montis cum ascendimus altos.
Praeterea permulta mari quoque tollere toto                  470
corpora naturam declarant litore uestes
suspensae, cum concipiunt umoris adhaesum.
Quo magis ad nubes augendas multa uidentur
posse quoque e salso consurgere momine ponti;
nam ratio consanguineast umoribus omnis.                   475
Praeterea fluuiis ex omnibus et simul ipsa
surgere de terra nebulas aestumque uidemus,
quae uelut halitus hinc ita sursum expressa feruntur,
suffunduntque sua caelum caligine, et altas
sufficiunt nubis paulatim conueniundo                           480
urget enim quoque signiferi super aetheris aestus,
et quasi densendo subtexit caerula nimbis.
Fit quoque ut ueniant in caelum extrinsecus illa
corpora quae faciant nubis nimbosque uolantis.
Innumerabilem enim numerum, summamque profundi   485
esse infinitam docui, quantaque uolarent
corpora mobilitate ostendi, quamque repente
inmemorabile per spatium transire solerent.
Haud igitur mirumst si paruo tempore saepe
tam magnis nimbis tempestas atque tenebrae               490
coperiant Maria ac terras inpensa superne,
undique quandoquidem per caulas aetheris omnis,
Et quasi per magni circum spiracula mundi,
exitus introitusque elementis redditus extat.
Nunc age, quo pacto pluuius concrescat in altis            495
nubibus umor, et in terras demissus ut imber
decidat, expediam. Primum iam semina aquai
multa simul uincam consurgere nubibus ipsis,
ominbus ex rebus pariterque ita crescere utrumque,
et nubis et aquam quaecumque in nubibus extat,         500
ut pariter nobis corpus cum sanguine crescit,
sudor item atque umor quicumque est denique membris.
Concipiunt etiam multum quoque saepe marinum
umorem, ueluti pendentia uellera lanae
cum supera magnum maré uenti nubila portant.          505
Consimili ratione ex omnibus amnibus umor
tollitur in nubes. Quo cum bene semina aquarum
multa modis multis conuenere undique adaucta,
confertae nubes umorem mittere certant
dupliciter ; nam uis uenti contrudit, et ipsa                   510
copia nimborum turba maiore coacta
urget, et e supero premit ac facit effluere imbris.
Praeterea cum rarescunt quoque nubila uentis
aut dissoluontur, solis super icta calore,
Mittunt umorem pluuium stillantque, quasi igni         515
Cera super calido tabescens multa liquescat.
Sed uemens imber fit, ubi uementer utraque
Nubila ui cumulata premuntur et impete uenti.
At retinere diu pluuiae longumque morari
consuerunt, ubi multa cientur semina aquarum,         520
atque aliis aliae nubes nimbique rigantes
insuper atque omni uolgo de parte feruntur,
terraque cum fumans umorem tota redhalat.
Hic ubi sol radiis tempestatem inter opacam
aduersa fulsit nimborum aspargine contra,                  525
tum color in Nigris existit nubibus arqui.
Cetera quae sursum crescunt sursumque creantur,
et quae concrescunt in nubibus, omnia, prorsum
omnia, nix, uenti, grando, gelidaeque pruinae,
et uis magna geli, magnum duramen aquarum,          530
et mora quae fluuios passim refrenat euntis,
perfacilest tamen haec reperire animoque uidere
omnia quo pacto fiant quareue creentur,
cum bene cognoris elementis reddita quae sint.

 (trad. mario domingues)

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