poesia, tradução

rumi

O sufismo é uma tradição ambiguamente além e aquém de todas as religiões. Não se trata de ceticismo – é, na verdade, a humilde posição de quem aceita a transcendência acima de qualquer fórmula. Nesse sentido, Rumi foi sufi, mas também dervixe, muçulmano, cristão e judeu. E nada disso.

Sua poesia está impregnada de contradições, que se revelam em fábulas amiúde salpicadas com acontecimentos de sua própria história. Rumi não escreve por escrever, ele endereça-se ao Amigo, sujeito-receptáculo de todo o amor, que transborda em uma versificação singela, audaz, profunda e inconsequente.

Sua leitura, assim como sua tradução, demandam um trabalho devocional. Não é à toa que seus textos tenham se proliferado nas mais diversas línguas, sob a pena dos mais diversos tradutores. Entre eles, destacam-se dois estudiosos, Coleman Barks e R. A. Nicholson. O primeiro produz um texto peculiar, transmutando habilmente a poesia oral do século XIII em poesia americana contemporânea. O segundo, acadêmico por natureza, busca nos transmitir um texto mais próximo ao original.

Abaixo, sob minha versificação, seguem quatro poemas de Rumi, o primeiro traduzido de R. A. Nicholson e os outros três de Coleman Barks.

 

Lucas Haas Cordeiro

 

Poema I         

Se tu és amante do Amor e procura-o sempre,

Deves cortar a garganta do pudor com um punhal afiado.

Saibas que a reputação é um grande entrave no caminho;

Estas palavras são desinteressadas: receba-as com a mente pura.

Por que razões o louco obrou a loucura em formas múltiplas,

E o selvagem eleito ostentou múltiplos artífices?

E então ele veste túnica, sobrepuja montanhas,

Sorve veneno, e escolhe a morte.

Se a aranha consegue capturar presas tão grandes,

Atenta-te às realizações do ardil de Meu Deus Supremo!

Se até o amor do rosto de Layla era imensamente valioso,

O que acontecerá quando “Ele levar o Seu servo à noite”?

Não conheces os dīwāns de Waisa e Ramin?

Não leste os contos de Wāmiq e ‘Adrā?

Tu recolhes as tuas vestimentas com medo de que a água embeba-as:

Em verdade necessitas no oceano mil vezes mergulhar.

O caminho do Amor é todo humildade e embriaguez:

A torrente descende: como haveria de ascender?

Oh Mestre, serás como o bisel no anel dos amantes

Se fores escravo do bisel.

Assim como dos céus escrava é a terra.

Assim como do espírito escravo é o corpo.

Vem, fala, o que perde a terra com este laço?

Que bondade faltou à razão para com os membros do corpo?

Não faz sentido, meu filho, tocar o tambor debaixo de uma coberta;

Como um homem de coragem, tu deves cravar a tua bandeira no meio do deserto.

Escuta, com o ouvido da alma, no vazio os sons inumeráveis

Da cúpula virente, a elevar-se dos lamentos arrebatados de amantes.

Quando o atilho de teu manto soltar-se em virtude da intoxicação do amor,

Contemplarás o triunfo do paraíso e o arrebatamento de Órion!

Das alturas ao baixio este mundo é perturbado

Pelo amor, que por sua vez é depurado de toda altura e baixio!

Quando o sol alevanta-se, para onde vai a noite?

Quando o júbilo da recompensa adveio, para onde a aflição foi reservada?

Estou silente. Fala tu, Oh alma da alma da alma,

Desde o desejo por cuja face todos os átomos fizeram-se enunciar.

 

 

QUIETUDE

 

Imerso neste novo amor, a morte.

O teu caminho começa do outro lado.

Torna-te o céu.

Pega um machado e vai até a parede da prisão.

Foge.

Sai caminhando como se fosses apenas nascido nas cores.

Agora.

Estás coberto por uma espessa nuvem.

Desliza para o lado. Morre,

e fica quieto. A quietude é o sinal mais seguro

de que estás morto.

A tua antiga vida era um correr desvairado

do silêncio.

 

A silente lua cheia despontou agora.

 

 

 

QUEM DIZ PALAVRAS COM A MINHA BOCA?

 

O dia todo eu penso nisso, mas é só de noite que eu digo.

De onde eu vim, e o que eu deveria estar fazendo?

Eu não faço ideia.

A minha alma é de algum outro lugar, eu tenho certeza disso,

e a minha intenção é de lá m’acabar.

 

Esta embriaguez começou em alguma outra taverna.

Quando eu voltar, um dia, àquele lugar,

eu estarei completamente sóbrio. Enquanto isso,

eu sou como um pássaro de algum outro continente, sentado neste aviário.

Há de chegar o dia em que eu voe,

mas quem é este em meu ouvido, agora, que ouve a minha voz?

Quem é este que diz palavras com a minha boca?

 

Quem é este que observa com os meus olhos? O que é a alma?

Eu não consigo parar de indagar.

Se eu pudesse experimentar um só gole do que fosse uma resposta,

eu poderia me livrar desta prisão de bêbedos.

Eu não vim para cá por conta própria, e eu não posso ir embora deste modo.

Quem quer que seja que me trouxe aqui, terá de levar-me para casa.

 

Tanta poesia. Eu nunca sei o que eu vou dizer.

Eu não planejo.

Quando já estou fora do falar-me disso,

fico bastante quieto, não digo quase nada.

 

 

 

Tu, que recebes o nascimento e portas os mistérios,

teu vozerio-de-trovão nos faz perfeitamente felizes.

 

Ruge, oh leão do meu coração,

e dilacera-me o corpo inteiro!

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