poesia, tradução

D.H. Lawrence – Serpente

LawrenceDavid Herbert Lawrence (1885 – 1930), ou D. H. Lawrence, como é mais conhecido, foi um importante romancista, dramaturgo, poeta e crítico literário do modernismo inglês. Apesar de mais conhecido por seus romances, como O Amante de Lady Chatterley ou A Virgem e o Cigano, Lawrence foi autor de cerca de 800 poemas, organizados em 12 volumes, fora as antologias. Até o seu segundo volume, Amores (1916), ele escrevia com metro e rima, mas passa a adotar o verso livre whitmaniano a partir do terceiro livro, Look! We have come through! (1917).

O poema “Snake”, que publicamos abaixo, escrito em Taormina e publicado em seu volume Birds, Beasts and Flowers (1923), já recebeu tradução de Leonardo Fróes, sob o nome de “Cobra”, publicado em 1985. Jorge Wanderley traduziu o poema sob o título “Serpente”, em 1993. Em 1991, Aíla de Oliveira Gomes publicou, em “Alguma poesia”, o mesmo poema, com o nome de “A serpente”.

A tradução que segue é de Lucas Haas Cordeiro, traduzida em meados de 2012.

Bernardo Lins Brandão

 

Serpente

Uma serpente surgiu em minha tina d’água,

Em um dia muito, muito quente, e eu com pijamas de verão,

Para ali s’embevecer.

 

Na sombra profunda, o singular aroma, de uma gigantesca árvore de alfarrobas,

Eu descia os degraus, e comigo a ânfora,

E precisei esperar, em pé esperando, porque ali estava ela na tina à minha frente.

Ela descendeu de uma fissura no muro-da-terra na obscuridade

E trilhou a sua indolência marrom-amarelada de ventre-sutil na direção das profundezas, através do limiar da pedra, que era a tina,

E descansou a sua garganta por sobre o leito da pedra,

E onde a água gotejava da torneira, em ínfima clareza,

Ela bebeu com sua boca linear,

Suavemente bebeu através das gengivas, para dentro de seu corpo comprido e vagaroso,

Silenciosamente.

 

Havia alguém em minha frente na minha tina d’água,

E eu, como um outro, à espera.

 

Ela alçou a cabeça do embevecimento, como faz o gado,

E olhou para mim vagamente, como faz o gado que embevece,

E tremeluziu a língua bifurcada em seus lábios, e meditou por um momento.

E inclinou-se e embeveceu-se ainda mais,

Suas cores do marrom da terra, do dourado da terra das vísceras flamejantes da terra

Em um dia siciliano de julho, quando Etna fumava.

 

A voz da minha educação enunciou que

Eu precisava matá-la,

Porquanto na Sicília as cobras negras negras são inocentes, e as douradas venenosas.

 

E as vozes em mim disseram, Se tu fosses um homem

Tomarias para ti um graveto e quebranta-la-ia, e acabaria com isto.

 

Mas deveria eu confessar que me afeiçoeei a ela,

Que exultei a sua tão tranquila presença, a embevecer-se em minha tina d’água

E a ir-se embora em paz, pacificada, sem jamais agradecer-me,

Para dentro das vísceras flamejantes da terra?

 

Foi covardia, o não ousar matá-la?

Foi perversão, o desejo de comunicar-me?

Foi por humildade a honradez?

Eu realmente me senti honrado.

 

E ainda assim aquelas vozes:

Se não estivesses com medo, mata-la-ia!

 

E eu verdadeiramente temia, eu estava incrivelmente  assutado,

E por isso mesmo, ainda mais honrado

Por ela desejar a minha hospitalidade

De através da porta sombria dos segredos da terra.

 

Ela embeveceu-se o bastante

E soergueu a cabeça, oniricamente, como um bêbedo,

E tremeluziu a língua como uma noite bifurcada pelos ares, tão negra,

Parecendo lamber-se os lábios,

E olhou ao redor como um deus, invisível no ar,

E vagarosamente virou a cabeça,

E vagarosa, vagarosamente, três vezes onírica

Evocou o traçado de seu lento comprimento a curvar-se em rodopios

A escalar a margem esfacelada das faces do muro.

 

E à medida em que ela instigava as faces para dentro do buraco mais terrível,

E à medida em que ela lentamente ascendia, abreviando viboramente os ombros, imiscuindo-se nas profundezas,

Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra a sua retirada para dentro do nefasto buraco negro,

Deliberadamente avançando em direção à escuridão, e vagarosamente levando a si mesma consigo,

Dominou-me, agora que encarava-me pela superfície oposta.

 

Eu olhei ao redor, livrei-me da ânfora,

Peguei uma tora grosseira

E arremessei-a dentro da tina d’água com um estrondo.

 

Pensei que não a tivesse acertado;

Mas de repente aquela parte da serpente que ficara para trás convulsionou com indigna prontidão,

Estorcendo-se como um raio, e esvaeceu

Dentro do buraco negro, a fissura labial da terra na fronte do muro,

O qual, na intensidade do meio-dia, eu fiquei a contemplar.

 

E imediatamente arrependi-me.

Pensei em quão insignificante, quão vulgar, um ato tão mesquinho!

Desprezei a mim mesmo e às vozes de minha maldita educação humana.

 

E pensei no albatroz,

E desejei que ela retornasse, a minha serpente.

 

Porque ela era como um rei, aos meus olhos,

Como um rei no exílio, destronado no submundo,

Prestes a ser coroado novamente.

 

E então, eu perdi a minha chance com um dos soberanos

Da vida.

E eu tinha algo a expiar:

A minha mesquinhez.

 

Snake

A snake came to my water-trough

On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,

To drink there.

 

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob tree

I came down the steps with my pitcher

And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before me.

He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom

And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of the stone trough

And rested his throat upon the stone bottom,

And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,

He sipped with his straight mouth,

Softly drank through his straight gums, into his slack long body,

Silently.

 

Someone was before me at my water-trough,

And I, like a second-comer, waiting.

 

He lifted his head from his drinking, as cattle do,

And looked at me vaguely, as drinking cattle do,

And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,

And stooped and drank a little more,

Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth

On the day of Sicilian July, with Etna smoking.

 

The voice of my education said to me

He must be killed,

For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

 

And voices in me said, if you were a man

You would take a stick and break him now, and finish him off.

 

But must I confess how I liked him,

How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough

And depart peaceful, pacified, and thankless,

Into the burning bowels of this earth ?

 

Was it cowardice, that I dared not kill him ?

Was it perversity, that I longed to talk to him ?

Was it humility, to feel so honoured ?

I felt so honoured.

 

And yet those voices :

If you were not afraid, you would kill him !

 

And truly I was afraid, I was most afraid,

But even so, honoured still more

That he should seek my hospitality

From out the dark door of the secret earth.

 

He drank enough

And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,

And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,

Seeming to lick his lips,

And looked around like a god, unseeing, into the air,

And slowly turned his head,

And slowly, very slowly, as if thrice adream,

Proceeded to draw his slow length curving round

And climb again the broken bank of my wall-face.

 

And as he put his head into that dreadful hole,

And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,

A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,

Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,

Overcame me now his back was turned.

 

I looked round, I put down my pitcher,

I picked up a clumsy log

And threw it at the water-trough with a clatter.

 

I think it did not hit him,

But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste,

Writhed like lightning, and was gone

Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,

At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

 

And immediately I regretted it.

I thought how paltry, how vulgar, what a mean act !

I despised myself and the voices of my accursed human education.

 

And I thought of the albatross,

And I wished he would come back, my snake.

 

For he seemed to me again like a king,

Like a king in exile, uncrowned in the underworld,

Now due to be crowned again.

 

And so, I missed my chance with one of the lords

Of life.

And I have something to expiate :

A pettiness.

 

(poema de D. H. Lawrence, tradução de Lucas Haas Cordeiro)

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2 comentários sobre “D.H. Lawrence – Serpente

    • Tem uma interpretação muito interessante do Joseph Campbell, no seu livro “O Poder do Mito”, sobre a serpente (coerente, inclusive, com o poema, que a trata como “um dos soberanos da vida”). Segundo Campbell, ela é um símbolo da terra (porque rasteja, é claro, em oposição à águia como símbolo do ar) e representa a vida mundana no mundo da experiência (em oposição à situação edênica do mundo da inocência, que é anterior ao tempo e aos ciclos de morte e nascimento). E o que é mais interessante ainda é que há Édens e serpentes em outros mitos de criação também.

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