poesia, tradução

As Com/posições de Juan Gelman

Juan_GelmanJuan Gelman (1930) é um poeta judeu argentino, autor de mais de trinta livros e ganhador de prêmios literários como o Cervantes e o Reina Sofía de Poesía Iberoamericana. Sua história de vida é trágica e marcada pelo “desaparecimento” (leia-se sequestro e assassinato) de seu filho, sua nora e sua neta nas mãos dos militares da ditadura argentina e pelo subsequente exílio do poeta na Europa. Como comenta Cortázar, porém, “ninguém conseguiu matar nele a vontade de subentender essa suma de horror como um contragolpe afirmativo, criador de nova vida”, o horror da vida política, por assim dizer, não foi capaz de sufocar o seu lirismo.

Tenho aqui em mãos agora o volume Com/posições | Com/posiciones, em tradução de Andityas Soares de Moura, publicado em 2007 pela editora Crisálida, de Belo Horizonte. Não se trata de uma antologia em tradução, mas sim de um livro com uma proposta e uma unidade temática bastante curiosas, publicado em espanhol pela primeira vez em 1984. Como descreve o tradutor no texto de introdução, o livro “configura-se como um mosaico de vozes alienígenas, já que nele Gelman recolhe a tradição poética dos compositores judeus e árabes que habitaram a Espanha – Sheparad ou Al-Andaluz, o nome não importa – e que lá construíram uma lírica rica e fértil”. E, de fato, a primeira coisa que se nota ao folhear as páginas deste volume é que os poemas são assinados por outros nomes que não o de Gelman, como Abu Nuwas, Ibn Gabirol, Davi, e assim por diante. Em alguns casos, o que Gelman faz é revisitar a obra desses poetas anteriores, não com a pretensão de melhorá-los, como ele mesmo diz, mas como uma forma de diálogo, como uma construção de relação. Em outros casos, essa atribuição de autoria é um puro jogo ficcional, como quando assinam os poemas o cabalista Isaac Luria (que nunca deixou nada por escrito), o general judeu Samuel Hanagid ou o inventado Eliezer Ben Jonon (literalmente, “filho de Juan”).

Soma-se à inventividade do poeta o seu trabalho com os pormenores da linguagem, os jogos de palavras pelos quais o poeta já era conhecido e a sua versificação peculiar que se vale do uso de interrupciones, barras que marcam as pausas rítmicas para respiração, que coincidem às vezes com as pausas de fim de verso (ainda que, na poesia contemporânea, nem todos os poetas marquem essa pausa nas leituras de seus poemas… o que é assunto para discussões futuras ainda) e às vezes fazem pausas no interior do verso, mais ou menos como outros poetas fazem com espaços em branco.

Dito isso,  então (uma introduçãozinha importante para se começar a entender o livro e evitar confusões que possam surgir de se ler os poemas fora de contexto), seguem abaixo alguns poemas de Com/posições.

Adriano Scandolara

           

O BERÇO

acendem alegria no mundo/
trazem o vinho/ainda não tocado/
como virgem morena que já começava a encanecer/
não hás de beijá-la com desejo?/
quanto esperou/na grande escuridão/
para juntar-se ao teu sangue/
celebrar estas bodas?/
ó vinho velho/como a noite foi teu pai/
mas em minha alma farás um campo
verde como tua mãe/e jardins
cheios de pássaros de todas as espécies/
e haverá comércio entre eles e a língua/
e meus versos terão mais vôo e música
que todos os jardins de bagdá/
ó vermelho/não tens lugar para as tristezas/
escanceia-te um ser de partes femininas
em trajes de varão/
quando te levantou/puro/na jarra/
de seu rosto caíram resplendores/
a noite negra se fez dia/
e me serviu uma transparência/
que cegou o olho/a memória/
se mesclaram essa luz com outra luz/
a não vista/a última/
agora domo o tempo/
sentou à minha mesa a fêmea de meu desejo/
que não haja ausência entre nós/
tenho saudades de ti/não do lugar
onde a bela Hind/ou Asma
a de peitos redondos e branquíssimos/
plantou sua tenda/seus aromas de leite ardente e noite/
e quem desejará viver em uma tenda/
vendo passar ovelhas e camelos?/
quero viver em ti/vinho/sob
sóis que foram/com
tuas cândidas esposas balançando
o berço de meus versos adormecidos/

                                                                   abu nuwas
                                                                   (747?-815?/bagdá-basra-kufa)

           

LA CUNA

encienden alegría en el mundo/
traen el vino/aún no tocado/
como virgen morena que ya empezaba a encanecer/
¿no has de besarla con deseo?/
¿cuánto esperó/en la larga oscuridad/
juntarse con tu sangre/
celebrar estas bodas?/
oh vino añejo/como la noche fue tu padre/
pero en mi alma harás un campo
verde como tu madre/y jardines
llenos de pájaros de todas clases/
y habrá comercio entre ellos y la lengua/
y mis ersos tendrán más vuelo y músic
que todos los jardines de bagdad/
oh rojo/no tenés lugar para las penas/
te escancia un ser de partes femeninas
en traje de varón/
cuando te alzó/puro/en la jarra/
de su rostro cayeron resplandores/
la noche negra se hizo día/
y me sirvió una transparencia
que cegó el ojo/la memoria/
si mezclaran esa luz con la luz
su unión engendraría otra luz/
la no vista/la última/
ahora domeño el tiempo/
sentó a mi mesa la hembra de mi deseo/
que no haya ausencia entre nosotros/
te añoro a vos/no el sitio
donda la bella Hind/o Asma
la de pechos redondos y blanquíssimos/
plantó su tienda/sus aromas de leche ardiente y noche/
¿y quién querrá vivir en una tienda/
viendo pasar ovejas y camellos?/
quiero vivir en vos/vino/bajo
soles que fueron/con
tus cándidas esposas meciendo
la cuna de mis versos dormindos/

         
                                                                   abu núwas

           

SALMO

onde estão minhas muralhas?/
onde a paz de meus mortos/semente
disseminada na memória/ou planta
que calada cresces?/está em ti?/
não me conheço/como conhecer-te?/
com que nome posso te nomear?/
como se chama na verdade a calhandra?/
silêncio és da palavra/
quando não falo sou em ti/
tudo o que me digo é silêncio de ti/
pássaro que não voa/boi
que não ara/mara que não mara/sol
que não caminha pelo céu/és
este abrigo que me desnuda em
tuas muitas compaixões?/
me faz tremer de ti?/ em ti?/
cego de claridade/animal
que pasta em tua paciência?/
           
davi
           
SALMO

¿dónde están mis murallas?/
¿dónda la paz de mis muertos/semilla
diseminada en la memoria/o planta
que callada crecés?/¿está en vos?/
no me conozco/¿como conocerte?/
¿con qué nombre te puedo nombrar?/
¿cómo se llama en realidad la alondra?/
silencio sos de la palabra/
cuando no hablo soy en vos/
todo lo que me digo es silencio de vos/
pájaro que no vuela/buey
que no ara/mar que no mara/sol
que no camina por el cielo/¿sos
este abrigo que me desnuda en
tus muchas compasiones?/
¿me hace temblar de vos/¿en vos?/
¿ciego de claridad/animal
que pace en tu paciencia?/
           
                                                                   david

           
AS TESTEMUNHAS

disseram à jovem do cabelo que beija suas bochechas
“como pode o meio-dia de ouro beijar a alba rosada?”/
“vão é o belo/desilude a ilusão”/ela disse/
mas não estava falando dela/
suas bochechas não mentem/declaram
que os atos de Deus são insondáveis/

                                                                   salomão ibn gabirol
                                                                   (1021-1055/málaga-saragoça-valência)

           

LOS TESTIGOS

dijeron a la joven del cabello que besa sus mejillas
“¿cómo puede el mediodía de oro besar al alba rosada?”/
“vano es lo bello/desilusiona la ilusión”/ella dijo/
pero no estaba hablando de ella/
sus mejillas no mienten/declaran
que los actos de Dios son insondables

                                                                   salomón ibn gabirol

           

O SOLO

não me ferem nem sol/nem lua/
ardo ao teu paladar cravado/como
orvalho que treme
entre açucenas/

                                                                   eliezer ben jonon

           

EL SUELO

no me hieren ni sol/ni luna/
ardo a tu paladar clavado/como
rocío que tiembla
entre azucenas/

                                                                   eliezer ben jonon

           

DIZER

o que é este corpo meu/interminável
arde/teus peitos
movem em duas a noite/
e ele morrevive em teu entender/
come os livros da sombra/
és tu não conhecida formosura/
a que se esconde em tua formosura/
sol deste exílio/que
segues/giras/eternidades/
até a clara escuridão/

                                                                   judá halevi
                                                                   (1075-1141/tudela-granada-toledo-córdoba-alexandria)

           

DECIR

qué es este cuerpo mío/interminable
arde/tus pechos
mueven en dos la noche/
y él muerevive en tu entender/
come los libros de la sombra/
es tu no conocida hermosura/
la que se esconde en tu hermosura/
sol de este exilio/que
seguís/girás/eternidades/
hasta la clara oscuridad/

                                                                   yehuda halevi

           

SE

se a dor fosse tempo?/
tempo a dor contigo sentigo/
ossos durando
ao sol da dor?/
se o pão das criaturas
passareasse por todo o céu/como
a tempo da dor?/
se nada houvesse que olvidar?/
se a memória não tivesse chave?/
se amorasse seu tempo?/
duplo como tua felicidade?/
como peito de ti?/

                                                                   isaac luria
                                                                   (1534-1572/jerusalém-alexandria-safed)

           

SI

¿si el dolor fuera tiempo?/
¿tiempo el dolor con vos sin vos/
huesos durando
al sol de la dolor?/
¿si el pan de las criaturas
pajareara por todo el cielo/como
la tiempo del dolor?/
¿si nada hubiere que olvidar?/
¿si la memoia no tuviesse llava?/
¿si amorara su tiempo?/
¿doble como tu dicha?/
¿como pecho de vos?/

                                                                   isaac luria

           

(poemas de Juan Gelman, tradução de Andityas Soares de Moura)

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