poesia

julia mendes (1989)

julia mendes nasceu no rio de janeiro, no  dia santo e sugestivo de 2 de fevereiro de 1989. mas o que importa mesmo é que lançou em 2012 os poemas de  Para um corpo preso no guindaste pela editora patuá (a editora de poesia mais bacana surgida na última década!), que é  formada em dramaturgia e trabalha como terapeuta neo-reichiana, embora esteja agora nalgum ponto dos eua; além disso, mantém vivos os blogs camelos lendo e intimidade ausente.

para um corpo preso… é um belo livro de estreia, desigual, como todas as estreias; mas já traz uma escrita firme para alguém tão jovem, & uma marca da sua escrita: violência. a violência dos corpos, ou a violência de se estar num corpo, de ser corpo, com tudo que isso implica em sua fúria, em seus desejos. os 7 poemas logo abaixo são inéditos &, arrisco dizer, os melhores dela. aqui a pancada é certa, o corte é curto, & mais – a voz é duramente feminina.

guilherme gontijo flores

Violência Primaveril

…………………Assim será nossa vida:
………………….Uma tarde sempre a esquecer”  Vinicius de Moraes

as violências primaveris
tem em mim devastações
traumáticas
o pequeno lirismo
sem chuva
virulento
ocioso
ofende/enferma a tristeza
que equilibra meu corpo

NY, Junho, 2013

* * *
“Amanhã vai ser maior”
gritado da RUA

amanhã
também largarei as senzalas
desistirei
da falta
dos poetas e do lirismo sincronizado
rasgarei os livros
rearranjarei nas praças
com colagens avulsas
e obscenidades sintáticas
desovarei finalmente na rua
minha vida/lida dissimulada

* * *
e eu que

…………..sempre fui fluida

passei
a ser estática
e disso
passei a ser flácida
dei-me de parte em parte
bruta
até que deixei que comessem
meus ovários
e do riste
já não restou nada

uma coisa lânguida
com corpulência apática
passeia sobre mim

* * *


……………Primeiro minuto de volta

trouxe o deserto
……………entristeço
……………do abismo
……………não sobro

……………hachuras de uma vida torcida
……………pingam
……………sobre o varal

* * *

Segundo minuto

……………pisco sem dor
……………esfrego meu desejo no banco de trás do carro
……………sofro com a morte de um urubu
……………chego em casa
……………arfando
ligo o laptop
……………louca por um pornô japonês

……………choro

……………vasta madness
……………conto cacos de vidro
……………até quando

sexo
cocaína
vasta falta
só a intimidade basta

* * *

hoje
ao chim3

…com girassóis morrendo nas garrafas de cachaça. piratas que nunca souberam tocar violino ficam sozinhos. um time rubro-negro que está todo de preto perde de goleada. um anjo conserta uma privada entupida. uma pipa invade o campo. um franco-brasileiro é seqüestrado. leio a carson que só movia o dedinho quando escreveu seu último conto, o cachorro anda para trás.

* * *

“vocalizo”

.

vocalizo. acordo suando.

teu nome cabe em minha boca

afirmo

teu nome cabe
teu nome cabe em minha mandíbula teu nome cabe no meu ventre teu nome cabe nas minhas costas teu nome cabe na minha vesícula teu nome corre atrasado na minha nuca teu nome desmembra na minha cólera teu nome come ainda minhas silabas teu nome despenca no meu corpo teu nome despenca na minha lástima teu nome cabe. teu nome serra e acerta minha gengiva teu nome descaracteriza meu silêncio teu nome avança na minha pálpebra teu nome é narciso no meu coito e teu nome não basta teu nome se verticaliza na minha alma teu nome encarna na minha membrana teu nome tem o nome do meu sexo teu nome espalma quando pesa teu nome degenera na minha cama. teu nome desfigura na minha coxa teu nome não desgruda da minha boca teu nome arranha minhas línguas teu nome pode quando no teu nome invade e ressurge na minha garganta. teu nome singra no meu vinho teu nome sangra na minha vulva teu nome queima e serpenteia na minha úlcera. teu nome é meu todo o desejo do teu nome.

(poemas de julia mendes)

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