poesia, tradução

gil scott-heron em tradução (parte 1)

scott-heron 

vou fazer dois posts sobre tradução de canção, um ponto, pra mim, muito forte. o brasil tem tradição nisso, de “hey jude” a “festa no apê”, nos seus piores momentos, só que também em casos felizes como “não chores mais” (gilberto gil) & “nature boy” (caetano), ou nas versões de cole porter feitas por augusto de campos & em “marvin” dos titãs. o ponto, na tradução de poesia musicada, é que ela precisa caber não no metro, mas no som – & o metro textual é apenas uma medida possível para o som, ele nunca resume as possibilidades harmônicas, como qualquer um que já parou pra estudar o verso livre deve saber (cf. o velho eliot sobre o assunto, “nenhum vers sera libre”). em outras palavras, a canção é uma forma de poesia oral, que deve ser experimentada & avaliada como tal, porque ela se dá aos ouvidos, não aos olhos.

quis então pegar um desses casos limítrofes, gil scott-heron (1949-2011), porque sua música – precursora do rap atual – trabalha no exato limite entre declamação & canto, ou seja, porque é uma poesia oralizada que nem sempre se converte em melodia. o verso, no papel, é claramente livre, porém, na modulação da voz, sua cadência é firme, o compasso está ligado diretamente ao ouvido. traduzir esses movimentos orais no papel é, por isso, um duplo desafio. o de recriar o oral no papel. (mais pra frente, pretendo fazer outro post com canções de jacques brel, que segue o gênero à risca).

mas como tradução não é apenas um movimento da língua, & sim um processo de diálogo crítico, a própria escolha já significa, & muito. então, além de escolher certos poemas de scott-heron, optei pelos poemas do seu último disco, i’m new here (2010). são textos mais intimistas, onde a experiência biográfica toma o espaço antes dedicado sobretudo à persona pública, do resto da sua carreira, que hoje é emblematicamente resumida na sua música mais famosa, “the revolution will not be televised”. em tempos de manifestações, quando tudo parece ser público, a voz de scott-heron marca as interrelações entre duas esferas aparentemente diversas, faz-nos atentar para a necessidade de ampliação desses espaços demarcados. sua poesia pessoal é profundamente marcada pela sua condição de negro americano, pela origem numa família fora dos padrões mais bem aceitos (portanto rotulável como um “broken home”), das condições sociais de um povo racialmente oprimido (ainda) nos eua, como aqui, de outro modo, &c. na sua poesia mais íntima & biográfica, o espaço público aparece, & mais, ele se mostra parte do íntimo.

são portanto 3 poemas: os 2, de abertura & encerramento do disco, que formam um poema maior “on coming from a broken home”, além de um um texto central, que, em vez de se deter no espaço biográfico, retrata o voo da morte sobre o gueto negro como uma figura mítica, portanto, com um registro bastante diferente. são poemas-canções de dor & esperança, sem maiores sentimentalismos, sem idealismo barato, de um homem que envelheceu sem ver grandes mudanças. na tradução, o plano foi preservar parte da oralidade ao mesmo tempo em que tentei reconstituir o ritmo dos poemas (no caso de “your soul and mine”, um ritmo que quase fica preso na redondilha maior), para uma possível leitura em voz alta que emule as gravações do disco; nesse sentido, são textos orais, que procuram existir mais na execução (isto é, esperam que seu leitor vocalize) do que na mera leitura silenciosa.

guilherme gontijo flores

On Coming From A Broken Home (Pt. 1)

I want to make this a special tribute
To a family that contradicts the concepts
Heard the rules but wouldn’t accept
In addition, women-folk raised me
In addition, I was full grown before I knew
I came from a broken home

Sent to live with my grandma down south
When my uncles was leaving
And my grandfather had just left for heaven
They said and as every-ologist would certainly note
I had no strong male figure right?

But Lillie Scott was absolutely not your mail order room service type cast black grandmother
I was moved in with her; temporarily, just until things were patched,
‘Til this was patched and ‘til that was patched
Until I became at 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 and 10
The patch that held Lillie Scott who held me and like them 4
I became one more and I loved her from the absolute marrow of my bones
And we was holdin’ on,
I come from a broken home

She had more than the five senses
She knew more than books could teach
And raised everyone she touched just a little bit higher
And all around her there was a natural sense
As though she sensed what the stars say what the birds say
What the wind and the clouds say
A sensual soul and self that African sense

And she raised me like she raised 4 of her own
And I was hurt and scared and shocked when Lillie Scott left suddenly one night
And they sent a limousine from heaven to take her to god, if there is one.
So I knew she had gone
And I came from a broken home

Sobre vir de um lar partido (parte 1)

Quero fazer disso o meu tributo
pruma família que contraria ideias
Que ouviu e renegou as regras
E mulheres me criaram
E eu já tinha crescido
Sem me tocar
Eu vim de um lar partido.

Fui morar no sul com minha avó
Quando meus tio se foram
E meu avô se foi pro céu
Disseram e como todo -ólogo logo sacaria
Eu não tive uma figura máscula, né?

Mas Lillie Scott não era a vovó negra do tipo da mucama bom serviço e entrega
Eu fiquei com ela
Por um tempo, ‘té tudo se acertar
‘té isso se acertar e aquilo se acertar
‘té que eu fui com 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 anos
O acerto que cuidou de Lillie Scott que cuidou de mim e de outros 4
Eu fui mais um e amei essa mulher até a medula
E fomo seguindo
E eu vim de um lar partido.

Ela tinha mais do que cinco sentidos
Sabia mais do que ensinam os livros
Erguia quem ela tocava um pouco mais
E à sua volta havia um senso natural
Como se sentisse o que dizem os astros, o que dizem os pássaros
O que dizem os ventos e as nuvens
Um ser de alma e sensual, um senso africano
E ela me criou como criou mais quatro seus
E eu senti a dor e o choque na noite que se foi a Lillie Scott
E veio uma limusine do céu, pra levá-la pra Deus, se Deus existe.
Saquei que ela tinha ido.
E eu vim de um lar partido.

Your soul and mine

Standing in the ruins
Of another black man’s life
Or flying through the valley
Separating day and night
“I am death!” cried the vulture
For the people of the light
Karon brought his raft
From the sea that sails on souls
And saw the scavenger departing,
Taking warm hearts to the cold
He knew the ghetto was a haven
For the meanest preacher ever known
In the wilderness of heartbreak
And a desert of despair
Evil’s clarion of justice
Shrieks a cry of naked terror
Taking babies from their mamas,
Leaving grief beyond compare
So if you see the vulture coming,
Flying circles in your mind
Remember there is no escaping
For he will follow close behind
Only promise me a battle,
A battle for your soul and mine
And mine

Almas dessa gente

De pé sobre as ruínas
de outro negro em vida
ou voando pelo vale
separando noite e dia
“Eu sou morte” disse o abutre
para o povo que luzia
Caronte em seu batel
do imenso mar que imerge as almas
notou necrófagos partindo
com peitos frios em suas palmas
e viu que o gueto era um porto
pro padreco mais babaca
e na vastidão da mágoa
e no ermo desesperador
o infesto clarim da justiça
lança um grito de terror
tira os filhos de suas mães,
deixa apenas dura dor
então se o abutre aparecer
sobrevoando a sua mente
pense: não existe fuga
porque ele segue, e segue rente
só prometa uma batalha,
pelas almas dessa gente
da gente.

On Coming From A Broken Home (Pt. 2)

And so my life has been guided
And all the love I needed was provided
And through my mothers sacrifices I saw where her life went
To give more than birth to me, but life to me
And this ain’t one of the clichés about black women being strong
Cause hell if you’re weak, you’re gone
But life, courage determined to do more than just survive
And too many homes have a missing woman or man
Without the feeling of missing love
Maybe they are homes that are hurt
But they are no real lives that hurt without reach
But not broken
Unless the homes of soldiers – stationed overseas
Or lost in battles or broken
Unless the homes of firemen, policemen, construction workers, seamen, railroad men, truckers, pilots
Who lost their lives – but not what their lives stood for…
Because men die, men lose, they are lost and they leave
And so do women…
I came from what they called “a broken home”
But they ever really called it “a house”
They would’ve known how wrong they were
We were working on our lives and our homes
Dealing with what we had, not what we didn’t have
My life has been guided by women
But because of them – I am the man.
God bless you mama – and thank you.

Sobre vir de um lar partido (parte 2)

E assim ‘nha vida foi guiada
E tive todo o amor que precisava
E pelos sacrifícios da ‘nha mãe eu vi que sua vida
Foi mais que me dar luz, foi me dar vida
E isso não é mais um cliché sobre a força das negras
Porque aqui o fraco já era
Mas coragem, vida deram mais do que sobrevivência
E tantos lares têm homem ou mulher, alguém que falta
Sem parecer que ali falta amor
Podem ser lares feridos
Mas não são vidas feridas e insanáveis
Não estão partidos
Talvez os lares dos soldados no além mar
Que estão mortos ou partidos
Talvez os lares dos bombeiros, polícias, dos pedreiros, ferroviários, marinheiros, pilotos, caminhoneiros
Que perderam as vidas – mas não a causa dessas vidas…
Porque homens morrem, perdem, se perdem e partem
Como as mulheres…
Eu vim do que chamavam de “lar partido”
Mas se um dia chamassem de “casa”
Então veriam como erraram
A gente dava duro nas vidas e nos lares
Usando do que tinha, não do que não tinha.
‘Nha vida foi guiada por mulheres
Mas por causa elas – eu sou um homem.
Deus te abençoe, mãe – valeu.

(gil scott-heron, trad. guilherme gontijo flores)

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