crítica, poesia, tradução

S. João da Cruz – Poemas Selecionados

(Saiu recentemente pela 7Letras uma coletânea de poemas de S. João da Cruz, com tradução de Hugo Langone e um prefácio meu. Gostaria de aproveitar a oportunidade para postar  o início do prefácio e dois dos poemas traduzidos)

Juan de Yepes Álvarez nasceu em 24 de junho de 1542, em Frontiveros, uma pequena cidade situada ao noroeste da província de Ávila, e morreu em 14 de dezembro em 1591, quando o sino chamava os monges do convento carmelita de Úbeda para a oração. Tornou-se carmelita em 1564 e, em 1567, mesmo ano em que foi ordenado padre, associou-se a Tereza de Jesus em sua reforma da ordem carmelita. A Espanha vivia o seu século de ouro. Carlos I (1519-1556) e seu filho, Filipe II (1556-1598) governavam não apenas os territórios espanhóis e suas colônias ultra-marinas, mas também regiões da Alemanha, Hungria, Países Baixos e Itália. Grandes nomes despontavam nas artes, na filosofia e na religião. O século XVI é o século de El Greco (1541-1614), Francisco Suarez (1548-1617), Tomás Luiz de Victoria (1548-1611) e Miguel de Cervantes (1547-1616). Na poesia, é a época de Garcilaso de la Vega (1501-1536), Fernando de Herrera (1534-1597), Frei Luís de Leon (1527-1591) e Tereza de Jesus (1515-1582), além do próprio Juan, que tomou o nome de João da Cruz quando aderiu à reforma da promovida por Tereza.

Os espanhóis tinham seus olhos voltados para o Novo Mundo, seus mistérios e promessas de riqueza. Muitos apostavam os bens e a vida em uma viagem de sucesso duvidoso, no qual os ganhos podiam ser grandes e as perdas, ainda maiores. Esse não era o caso de João, que desde pequeno, sentia-se chamado para uma outra jornada, ainda mais dura e sedutora, cuja meta era Deus, que, assim diziam os viajantes mais antigos, habita o centro da alma. Uma jornada que não é feita com os pés, cavalos ou naus, mas com a própria alma que, no final, é capaz de transcender-se e mergulhar no divino.

Tendo se tornado um profundo conhecedor do caminho, João da Cruz tornou-se um guia para aqueles que nele desejavam se aventurar. Foi diretor espiritual de inúmeras monjas carmelitas, entre elas a própria Tereza de Jesus que, sendo quase 30 anos mais velha que ele, era também uma antiga conhecedora das vias espirituais, e escritor de importantes textos místicos, que lhe valeram, em 1926, o título de Doutor da Igreja. No entanto, antes de tudo, foi poeta. Não somente por seus poemas, que o colocaram no concorrido cânone do século XVI espanhol, mas porque a poesia era seu modo primordial de exprimir a admiração diante daquilo que havia visto e experimentado. Longe de serem ilustrações didáticas de uma doutrina, seus poemas são o fundamento dos tratados, que foram estruturados como explicações e desenvolvimentos do que já havia sido escrito poeticamente. Desse modo, no prólogo da Subida do Monte Carmelo, por exemplo, João afirma que “encerra nas canções seguintes toda a doutrina que de desejo expor (…), assim como o segredo de alcançar o mais alto cume desta montanha”. E no Cântico Espiritual, ele resume o tratado como uma “explicação das canções que tratam do exercício de amor entre a alma e Cristo, seu Esposo”.

É que o caminho místico não se presta tanto a ser descrito através dos conceitos de uma exposição teórica quanto a partir dos símbolos da poesia. Nas palavras de João, também do prólogo do Cântico Espiritual, “como estas canções, Revma. Madre, parecem ter sido escritas com algum fervor de amor de Deus, cuja sabedoria amorosa é tão imensa que atinge de um fim até outro, e a alma se exprime, de certo modo, com a mesma abundância e impetuosidade do amor que a move e inspira, não penso agora em descrever toda a plenitude e profusão nelas infundida pelo fecundo espírito de amor. Seria, ao contrário, ignorância supor que as expressões amorosas de inteligência mística, como são as das presentes Canções, possam ser explicadas com clareza por meio de palavras”.

Romance sobre o salmo “Super Flumina Babylonis”

Sobre todas as correntes

que em Babilônia encontrava,

ali me sentei chorando,

ali a terra regava,

recordando-me de ti,

oh, Sião!, a quem amava.

Era doce a tua memória,

e com ela mais chorava.

Deixei os trajes de festa,

e os de trabalho tomava;

colguei nos verdes salgueiros

a música que levava,

colocando-a na esperança

do que em ti eu esperava.

Ali me feriu o amor,

e o coração me arrancava.

Disse-lhe que me matasse,

pois de tal sorte chagava.

Eu me atirava ao seu fogo,

sabendo que me abrasava,

perdoando a avezinha

que no fogo se acabava.

Eu em mim ia morrendo,

e só em ti respirava.

Eu por ti em mim morria,

e por ti ressuscitava,

pois a memória de ti

dava vida e a tirava.

Deleitavam-se os estranhos

entre os quais cativo estava,

e pediam-me cantares

dos que em Sião eu cantava;

canta de Sião um hino,

vejamos como soava.

Dizei: como em terra alheia,

onde por Sião chorava,

cantarei eu a alegria

que em Sião outrora achava?

Eu no olvido a lançaria

se em terra alheia gozava.

Ao meu paladar se apegue

a língua com que falava

se de ti eu me olvidar

nessa terra onde morava.

Sião, pelos verdes ramos

que Babilônia me dava,

de mim se olvide mi’a destra,

o que em ti mais eu amava,

se eu de ti não recordar

naquilo em que mais gozava,

e se então tivesse eu festa

sendo sem ti festejada.

Oh, filha de Babilônia,

mísera e desventurada!

Bem-aventurado era

aquele em quem confiava,

que há de te dar o castigo

que da mão tua levava.

E juntará seus pequenos

e a mim, pois que em ti chorava,

à pedra que Cristo era,

pelo qual eu te deixava.

 

Debetur soli gloria vera Deo.

 

 

Noite escura

Em que canta a alma a ditosa ventura que teve em passar pela ESCURA NOITE DA FÉ, em desnudez e purgação sua, à união com o Amado.

 

Em uma Noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh, ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando já mi’a casa sossegada;

 

às escuras, segura,

pela secreta escada e disfarçada,

oh, ditosa ventura!,

no escuro, emboscada,

estando já mi’a casa sossegada;

 

pela Noite ditosa,

em segredo, de todos escondida

e co’a vista trevosa,

sem outra luz ou guia

que aquela que em meu coração ardia.

 

Ela é que me guiava,

mais firme do que a luz do meio-dia,

até onde esperava

quem eu já bem sabia,

ali onde ninguém aparecia.

 

Oh, Noite que guiaste!

oh, Noite mais amável que a alvorada!

oh, Noite que juntaste

Amado com amada,

amada neste Amado transformada!

 

Em meu peito florido,

que todo só p’ra ele se guardava,

pousou adormecido;

afagos eu lhe dava

e de cedros o leque refrescava.

 

Da ameia o ar soprado,

quando eu os seus cabelos rafiava,

com seu toque aplacado

meu colo molestava

e todos meus sentidos enlevava.

 

Quedei-me, olvidei-me,

minha face reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, deixei-me,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 

 

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2 comentários sobre “S. João da Cruz – Poemas Selecionados

  1. Anrafel disse:

    O primeiro poema é claramente baseado no Salmo 137, aquele do “Junto aos rios da Babilônia cantávamos e chorávamos … que a minha destra definhe … que a minha língua grude ao céu da boca”. Mas é uma adaptação linda. Seria bom ter postado o poema “Aquela Fonte’, que Raul Seixas simplificou em “Água Viva”.

    • Glauber disse:

      Essa não é uma observação original, no título trás o salmo do qual o poema foi inspirado “Super Flumina Babylonis”.

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