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Linguagem wen, de Alejandro Dolina

dolinaAlejandro Dolina (Argentina, 1944) é muitas coisas e estudou muitas coisas. É comumente etiquetado como escritor, músico, condutor de rádio e de televisão e ator. Possui um extenso currículo como autor de obras musicais, teatro, livros de contos e, mais recentemente, um romance chamado Cartas marcadas (2012). Uma das grandes vozes contemporâneas que retratam e magicalizam a cidade de Buenos Aires, em especial o mítico bairro de Flores, seu trabalho é um dos mais exitosos das últimas décadas. Reúne também muitos prêmios que corroboram o que eu digo.

Escolhi, nesta postagem, fazer algo ainda inédito neste blog, que é apresentar a tradução de um conto. Antes que o fogo dos céus caia sobre mim por tamanha heresia, justifico (buscando a garantia da salvação) dizendo que é um conto sobre poesia, e que dirá respeito a muitos de nós no que concerne a exegeses e aberturas de possibilidades interpretativas. Qualquer um, creio eu, que tenha passado por aulas de interpretação de poesia saberá muito bem do que se trata. Não digo mais.

“Linguagem wen” faz parte do livro Bar del infierno, publicado em 2005. É uma grande obra, e uma grande porta de entrada para o universo transviado de um dos escritores mais imaginativos que a Argentina (só poderia ser dali) já inventou.

Vinicius F. Barth

***

Linguagem wen

A dinastia T’ang governou o império da China entre 618 e 906. Nesses anos, desenvolveu-se um novo sistema burocrático. Os T’ang ampliaram o sistema de exames que existia para avaliar os funcionários. Até esse momento era indispensável a erudição. A imperatriz Wu estabeleceu que a poesia fosse também um requisito essencial para ingressar na administração pública.

Na cidade de Ch’ang-an viveram durante quase três séculos extraordinários poetas que se desempenhavam como empregados nacionais.

Lá pelo ano 800, começaram a virar moda uns paralelismos e artifícios formais que chegaram a ser mais importantes que o significado.

Os acadêmicos fizeram uma distinção entre a escritura prática chamada pi e a linguagem literária, ou wen, que era cheia de firulas.

As obras de Confúcio e do célebre historiador Ssu-ma Ch’ien eram pi. As dos jovens poetas eram inevitavelmente wen. Alguns funcionários conservadores reagiram e um governador foi castigado por escrever informes no novo estilo.

Apesar das objeções dos eruditos confucianos, o estilo wen prevaleceu. O significado dos textos administrativos começou a parecer cada vez mais obscuro. Em 1935, ocorreu ao jornalista francês Jules Garnier escrever em estilo wen a frase “Proibido estacionar durante as 24 hs”.

Que nada se detenha nunca.
As horas, os ventos, as paixões
não estarão amanhã onde estão hoje.
O viajante volta ao aposento
onde ficou sua amada
mas sua amada já se foi
e o aposento também.

O antropólogo Herbert Chorley fez o mesmo com “proibido cuspir no chão”.

Dos portões da alma,
da morada do beijo
do manancial da linguagem
abstenham-se de sair
ofensas líquidas
à dignidade horizontal
que nos sustém,
bando de porcos.

Han Yu era um prosista confuciano que odiava os budistas. Seu estilo era límpido e sereno, fiel à mais austera ortodoxia clássica. Junto a um grupo de seguidores se propôs a enfrentar aqueles maneirismos. Criou então a ku wen, ou prosa clássica. Mas a desgraça o esperava.

No ano de 819, o imperador Sui Wen Ti, curiosamente interessado pelo budismo, arranjou para que um dedo de Buda fosse levado à capital.

As multidões enlouqueceram: um soldado cortou o próprio braço esquerdo diante da relíquia de Buda e, enquanto o sustentava com a mão que sobrou, fazia reverências.

Milhares de pessoas andavam sobre seus cotovelos e joelhos, arrancando seus dedos com os dentes.

Tudo isso afetou profundamente a Han Yu. Imediatamente, ele enviou ao imperador um memorial que viria a ser famoso. Se intitulava “Sobre o osso de Buda”, e defendia o ponto de vista cético e racional da filosofia confuciana, em clara oposição aos seguidores do budismo.

Han Yu escreveu em estilo ku wen. Com frases precisas e cortantes afirmou que o budismo era uma doutrina bárbara que só ocasionava perturbações.

Pediu que o dedo de Buda fosse atirado na água ou no fogo e que se proibisse definitivamente aquela superstição.

O imperador se enfureceu e sentenciou a Han Yu com a pena de morte. Os sábios confucianos conseguiram com que a sentença fosse comutada pelo desterro.

Com o passar dos anos, a prosa clássica voltou a florescer em obras sérias e austeras. Mas Han Yu não pôde ver o triunfo de seus princípios. Veio a morrer no ano de 824.

Muito antes disso, o poeta Li Tsu, que cumpria funções burocráticas nas províncias ocidentais vizinhas a T’u-fan, escrevia seus versos em uma linguagem oblíqua que antecipava o estilo wen.

No outono de 755, enquanto o bárbaro An Lu-shan se rebelava contra o imperador, algumas tropas de tibetanos deixavam Ch’eng-tu para trás e marchavam para a capital.

Li Tsu resolveu informar imediatamente os soldados do imperador. Fez com que cinco cavaleiros marchassem por caminhos distintos e provassem os atalhos mais arriscados para que as tropas imperiais pudessem preparar a defesa da cidade de Ch’ang-an. Demorou alguns dias, isso sim, em redatar a mensagem. Depois de numerosas modificações, o texto final dizia assim:

A coluna que sustenta o mundo
se desmoronou.
O tigre ataca o jovem caçador
arrancando-lhe o coração.
Quê poderá fazer um bárbaro
com o anel de uma princesa?
Chove areia.

Dois dos cavaleiros chegaram à corte do imperador Hsuan-tsung muito antes que os tibetanos.

Os funcionários receberam a mensagem mas não concordaram em sua interpretação. Inicialmente, julgaram que a coluna que sustinha o mundo era certamente o imperador, que seu poder tinha sido destroçado, que o tigre era An Lu-shan, que o coração do jovem caçador era a capital e que o anel da princesa era o sol nascendo, ou seja, o leste. Sobre o inciso “chove areia”, todos concluíram que significava que o tempo corria e até fizeram comentários de menosprezo ante uma metáfora tão vulgar.

Se reforçaram então as posições que vigiavam os caminhos que vinham do oriente pelo rio Amarelo e se avistou uma guarnição que acampava próximo de Loyang.

Mas apenas um dia mais tarde, outro grupo de funcionários opinou que a coluna era o palácio, que o tigre era o destino, que o caçador era o imperador e que seu coração era sua concubina morta, a belíssima Yang Kuei-fei. Quanto à pergunta sobre o bárbaro e os anéis, os exégetas consideraram que aludia ao desinteresse de An Lu-shan por se instalar na corte. A chuva de areia foi desprezada como torpe alegoria do tempo.

Tudo isso levou a pensar que os males da dinastia estavam na melancolia do Filho do Céu, de modo que foram convocados com urgência os melhores músicos, bailarinos, acrobatas, adestradores de formigas e empinadores de pipas.

No entanto, não haviam chegado os artistas quando o grupo mais conservador de cortesãos jurou que a coluna que sustinha o mundo era literalmente uma das quatro colunas que sustinham o mundo, mas era impossível saber qual. O Tigre era, sem sombra de dúvidas, Lin-fu, o perverso ministro que havia confiado em An Lu-shan. O jovem caçador era o império e seu coração, o velho canal de Cheng Kuo. Quanto ao verso do bárbaro e o anel, foi considerado uma adivinhação obcena.

Justo quando se burlavam da tosca literalidade da chuva de areia, chegaram os tibetanos e saquearam a cidade sem encontrar resistência alguma.

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