crítica, crítica de tradução

sobre a fidelidade, slavoj zizek

“mão com esfera refletora”, de m. c. escher

no trecho abaixo, slavoj zizek discute o conceito de fidelidade dentro da academia, ou seja, sobre os estudos a respeito de filósofos. mas o pulo dessa reflexão para o da tradução & e o da nova produção poética, parece-me, pode render alguma reflexão.

guilherme gontijo flores

Vamos pegar um filósofo como Kant. Existem dois modos de repeti-lo. Uma pessoa pode agarrar-se a seu significado literal, elaborando-o mais detalhadamente ou mudando o sistema, como os neokantistas (até Habermas e Luc Ferry) estão fazendo, ou pode tentar recuperar o impulso criativo que o próprio Kant traiu na atualização de seu sistema (isto é, conectar-se com o que já era “em Kant mais que o próprio Kant”, mais que seu sistema explícito, seu cerne exagerado). Existem, respectivamente, dois meios de trair o passado. A verdadeira traição é um ato ético-teórico da maior fidelidade: há que trair o sentido textual de Kant para se permanecer fiel ao (e repetir o) “espírito” de seu pensamento. É precisamente quando se permanece fiel ao significado literal dos escritos de Kant que realmente se trai o cerne de seu pensamento, o impulso criativo subjacente. Deve-se levar esse paradoxo à sua conclusão. Não é apenas que para permanecer realmente fiel a um autor há que traí-lo (o significado literal atual de seu pensamento), em um nível mais radical, a afirmação contrária tem ainda maior validade, mais especificamente, trai-se verdadeiramente um autor apenas ao repeti-lo, ao se permanecer fiel ao cerne de seu pensamento. Se uma pessoa não repete um autor (no autêntico sentido kierkegaardiano do termo), mas apenas o “critica”, move-o para outro lado, vira-o ao contrário e assim por diante, isso significa na verdade que essa pessoa, por ignorância, permanece dentro do horizonte desse autor, dentro de seu campo conceitual. Ao descrever sua conversão ao cristianismo, G. K. Chesterton diz que “tentei estar uns dez minutos à frente da verdade. E descobri que estava dezoito anos atrasado em relação à mesma.” O mesmo não é ainda mais válido para aqueles que, hoje em dia, tentam desesperadamente alcançar o Novo seguindo a última moda “pós” e são então condenados a permanecer eternamente dezoito anos atrasado [sic] em relação ao verdadeiramente Novo?

Zizek, Slavoj. Órgão sem corpos: Deleuze e consequências. Trad. de Manuella Assad Gómez. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2008. pp. 30-31.

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poesia

Francisca Júlia (1871 – 1920)

francisca-julia

Talvez seja algo estranho que eu tenha tido contato pela primeira vez com a poesia da parnasiana Francisca Júlia (1871 – 1920) através do Tratado de Metrificação de Glauco Mattoso, onde o nosso célebre poeta/podólatra cita e comenta o seu soneto “Dança de Centauras”. Nascida na cidade de Xiririca (hoje Eldorado, em SP), como comenta Péricles Eugênio da Silva Ramos, pouco se sabe de sua biografia pessoal, além do que temos documentado sobre sua carreira (que começa no jornal O Estado de São Paulo, com um poema publicado em 6 de setembro de 1891), seu casamento e viuvez com Filadelfo Edmundo Munster, que contrai tuberculose em 1916 e morre da doença em 1920, ao que se segue o (presumido) suicídio da poeta. Deixou-nos uma obra pequena, porém digna de alguma atenção – tanto quanto de qualquer outro poeta da época, pelo menos.

Os episódios famosos de sua carreira envolvem a demonstração, nada anacrônica, diga-se de passagem, de um duradouro machismo à brasileira por parte dos poetas que lhe foram contemporâneos. Severiano de Rezende, por exemplo, lhe sugerira: “Minha senhora, há ocupações mais úteis: dedique-se aos trabalhos de agulha”. Após ser publicada, em meados da década de 1890, no periódico A Semana, de Valentim Guimarães, o poeta e dramaturgo Artur de Azevedo também declara: “não acreditei [que esses versos] saíssem de mãos femininas”, e o mesmo pensou o poeta, crítico e filólogo João Ribeiro, que imaginou que fosse um caso de “mistificação” e atribuiu a autoria dos poemas à Raimundo Correia, aproveitando para publicar um poema em resposta sob o pseudônimo de Maria Azevedo, com a declaração: “Eu respondo a esta imaginária poetisa”.

Mas Francisca Júlia era bem real e mais tarde foi autora de dois volumes de poesia, Mármores (1895) e Esfinges (1903), além dos infanto-juvenis Livro da Infância (1899) e Alma Infantil (1912). O primeiro livro é considerado mais parnasiano, enquanto o segundo, além de reunir poemas do primeiro, apresenta novos poemas onde se nota influências simbolistas, por sua temática mais mística e contemplativa, por vezes chegando ao devocional, sobretudo nos poemas adicionados na segunda edição. Quem tiver algum grau de TOC com datas (mea culpa) há de notar aqui a mínima diferença cronológica que separa o seu livro de estreia do de Olavo Bilac, Poesias (1888) – Bilac então tinha 23 anos, e Júlia, 17, publicando Mármores depois aos 24. Ele próprio, aliás, a elogia, e diz de seu português que era “o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”. Bem, é um comentário que não diz muita coisa (antigo português remoçado? tipo, com renew? com botox?), mas é um elogio vindo do Bilac, ainda assim.

É complicado discutir qual a situação canônica atual de Francisca Júlia, em parte porque o próprio parnasianismo ainda existe como uma espécie de gigante antigo e anacrônico derrotado pela estética modernista – e que, justamente por ter sido uma estética dominante e porque as nossas sensibilidades já não batem, nem de longe, com as deles (e eu digo isso como alguém que passou as últimas semanas mergulhado nos sonetos do “Via Láctea”), não me parece que será revisto tão cedo. Mas não sei, pode ser que isso seja só impressão minha.

De qualquer modo, F. Júlia parece em algum grau ter sido aceita já como um dos grandes nomes do nosso parnasianismo, e encontra-se o nome dela em sites de educação aqui e ali, e há alguns trabalhos acadêmicos disponíveis online (quem tiver interesse, pode consultar dois deles clicando aqui e aqui)… sua presença e disponibilidade, no entanto, ainda são bem reduzidas. O único volume de poemas dela publicado após sua morte é o Poesias, de 1961, organizado por Péricles Eugênio da Silva Ramos, que também é responsável pelo texto introdutório e notas. Só para exemplificar: neste momento, ao todo, há 30 livros de autoria dela na Estante Virtual (alguns sendo edições raras e caras como as das primeiras edições de Mármores e Esphinges), ao passo que uma procura por Olavo Bilac retorna 980 resultados. Também não me parece fácil encontrar sua obra completa disponível online para download, apesar de estar em domínio público.

Enfim, essas são questões inevitáveis de se ponderar ao entrar em contato com a poesia de Francisca Júlia, e, por isso, gostaria de compartilhar alguns de seus poemas abaixo, extraídos de ambos os seus livros, conforme constam em Poesias.

Adriano Scandolara

PS: o poeta e crítico Emmanuel Santiago tem um ensaio bastante interessante sobre a poeta em seu blogue Antenas de Marfim, intitulado “Impassibilidade, frigidez e masoquismo: uma leitura erótica da poesia parnasiana de Francisca Júlia”, que pode ser lido clicando aqui. O poeta, crítico e tradutor Ricardo Domeneck também já tinha feito um comentário sobre Júlia e outras figuras femininas importantes da poesia brasileira, como Patrícia Galvão e Henriqueta Lisboa e muitas outras, em seu blogue pessoal e no blogue da Modo de Usar & Co., no texto intitulado “A textualidade em algumas poetas brasileiras do século XX e início do XXI”.

           

            poemas publicados pela primeira vez em Mármores:

Em Sonda

Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda,
A boa espia… Em cima estende-se a folhagem
Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda,
Com a sua noturna e amorosa bafagem.

Um luar mortiço banha a floresta de Sonda,
Desde a copa da faia à esplêndida pastagem;
O ofidiano, escondido, olhos abertos, sonda…
Vai passando, tranqüilo, um búfalo selvagem.

Segue o búfalo, só… mas suspende-lhe o passo
O ofidiano cruel que o ataca de repente,
E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço.

Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta;
Mas tomba de cansaço e morre… Tristemente
No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta…

           

Rainha das Águas

            a Alberto de Oliveira

Mar fora, a rir, da boca o fúlgido tesouro
Mostrando, e sacudindo a farta cabeleira,
Corta a planura ao mar, que se desdobra inteira,
Na esguia concha azul orladurada de ouro.

Rema, à popa, um tritão de escâmeo dorso louro;
Vão à frente os delfins; e, marchando em fileira,
Das ondas a seguir a luminosa esteira,
Vão cantando, a compasso, as piérides em coro.

Crespas, cantando em torno, as vagas, à porfia,
Lambem de popa à proa o casco à concha esguia,
Que prossegue, mar fora, a infinda rota, ufana;

E, no alto, o louro sol, que assoma, entre desmaios,
Saúda esse outro sol de coruscantes raios
Que orna a cabeça real da bela soberana.

           

A Noite

                  A Venceslau de Queiroz

Um vento fresco e suave entre os pinhais murmura;
A Noite, aos ombros solta a desgranhada coma,
No seu plaustro de crepe, entre as nuvens, assoma…
Tornam-se o campo e o céu de uma cor mais escura.

Um novo aspecto em tudo. Um novo e bom aroma
De látiros exala a amplíssima verdura.
Num hausto longo, a Noite, aos ares a frescura
Doce, entreabrindo a flor dos negros lábios, toma…

Por vales e rechãs caminha, passo a passo,
Atento o ouvido, à escuta… E no seu plaustro enorme
Cujo rumor desperta a placidez do espaço,

À encantada região das estrelas se eleva…
E, ao ver que dorme o espaço e o mundo inteiro dorme,
Volve, quieta, de novo, à habitação da treva.

           

A Ondina

Rente ao mar, que soluça e lambe a praia, a ondina,
Solto, às brisas da noite, o áureo cabelo, nua,
Pela praia passeia. A alvacenta neblina
Tem reflexos de prata à refração da lua.

Uma velha goleta encalhada, a bolina
Rota, pompeia no ar a vela, que flutua
E, de onda em onda, o mar, soluçando em surdina,
Empola-se espumante, à praia vem, recua…

E, surdindo da treva, um monstro negro, fito
O olhar na ondina, avança, embargando-lhe o passo…
Ela tenta fugir, sufoca o choro, o grito…

Mas o mar, que espreitando-a, as ondas avoluma,
Roja-se aos pés da ondina e esconde-a no regaço,
Envolvendo-lhe o corpo em turbilhões de espuma.

           

À Noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar… De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso…

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma…

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

           

            poemas publicados pela primeira vez em Esfinges:

Dança de Centauras

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece…

           

Adamah

            A Júlia Lopes de Almeida

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terra substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…

           

Crepúsculo

Tôdas as cousas têm o aspecto vago e mudo
Como se as envolvesse uma bruma de incenso;
No alto, uma nuvem, só, num nastro largo e extenso,
Precinta do céu calmo a caris de veludo.

Tudo: o campo, a montanha, o alto rochedo agudo
Se esfuma numa suave água-tinta… e, suspenso,
Espalhando-se no ar, como um nevoeiro denso,
Um tom neutro de cinza empoeirando tudo.

Nest’hora, muita vez, sinto um mole cansaço,
Como que o ar me falta e a fôrça se me esgota…
Som de Ângelus, moroso, a rolar pelo espaço…

Neste letargo que, pouco a pouco, me invade,
Avulta e cresce dentro em mim essa remota
Sombra da minha Dor e da minha Saudade.

           

Natureza

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.

           

(poemas de Francisca Júlia)

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crítica, poesia

“ximerix” (2013), de zuca sardan

zuca

em tempos de poesia conceitual, de explorações conscientes dos limites da linguagem, frases como “aqui se explodem as fronteiras entre ab“, “a linguagem, posta em cheque na sua função x, &c.”, “num processo de autoironia que aniquila/dessacraliza a poesia tradicional”, ou uma avaliação positiva pela quebra de expectativas quanto à poesia, ou à linguagem, ou ao que seriam temas e modos dignos de poesia no novo milênio. enfim, constatações que, por si só, me fazem ficar com mais vontade de ler wittgenstein ou heidegger do que poesia (num dia de muita infelicidade, penso até em folhear hjelmslev).

bom, tudo isso também pode ser dito sobre a obra de zuca sardan (rio de janeiro, 1933): em geral categorizada como poesia, ela é na verdade, uma fusão entre quadrinhos, piadas, poemas, recursos visuais, ortográficos, caligráficos, colagens de imagens, colagens de clichês, linguagens &c., talvez uma conclusão daquilo que sardan calhou de ser na sua vida diária de arquiteto por formação, diplomata de exercício, além de desenhista & poeta. é bem uma macarronada literária o que podemos conferir nos seus primeiros livros, cadeira de bronze (1957), aqueles papéis (1975), ás de colete (1979), almanach sportivo (1981) osso do coração (1993) & babylon (2004) para ficarmos em apenas alguns, onde a forma artesanal toma conta do livro, mesmo quando publicado por uma editora maior ou comercial, como a ed. unicamp &  cia. das letras. por isso, claro, ele aparece na lista dos poetas marginais, “patrono dos malditos”, ou, como ele mesmo se define agora, “veteraníssimo vate”, que busca suas fontes nos experimentos non-sense de jarry, ou satie.

zuca capaagora acabou de sair mais um livro dessa figura octogenária, ximerix: cinco cadernos de remix rapz kolax, pela cosac naify. o título do livro já anuncia seu modo de composição, a remixagem, a colagem, o rap, devidamente desfigurados, seja pela grafia (onde arcaísmos, ruídos, oralidades & deformações tomam conta do texto), seja pelo recorte abrupto (diversos poemas resultam no claro estado de inacabamento, enquanto, por outro lado, são retomados por outros poemas, também inacabados, formando uma tessitura/textura em frangalhos, rapsódias emaranhadas), ou mesmo pela intromissão do acaso (como nos 4 últimos cadernos). com isso, aquelas frases-tipo que abrem o post podem certamente todas entrar na categorização de ximerix, com um dado de ressalva: a quebra constante, o fim das delimitações, a estranheza, o estranhamento, a perversão das regras &c., nada disso resulta necessariamente em livros que, de fato, prestem; enquanto ximerix presta, & presta pacas. porque, pra além do experimentalismo, ou do desvelamento da arbitrariedade, gratuidade, limitação, fascismo (como preferirem) da linguagem, zuca sardan ressuscita o humor, uma ressurreição que acontece dentro dos limites violentos da sátira, da sua intervenção política por meio do desbunde generalizado; é bem o que acontece nos últimos dois cadernos, intitulados “cassandra bolchevique” & “gazetta proleta”, onde tanto o capitalismo dos séculos xix a xxi quanto os movimentos socialistas & comunistas entram no processo cômico; no lugar do panfletário entra a crítica desmedida, o riso de momo, sobre todos, num novo reinado da desrazão pelo humor. (quem quiser um comentário crítico mais formal em sua análise, pode conferir o que disse flora süssekind sobre o livro, para a folha de são paulo.)

por isso, deixo logo abaixo um resultado do jogo dos jogos propostos pelo livro. como os quatro últimos cadernos  convidam o leitor a um lance de dados concreto – onde mallarmé vira melarmek – para designar a ordem da leitura (& portanto demonstrando que, apesar de narrativos, esses poemas não se submetem a qualquer ordenação cronológica) a partir de dois lances de dados. o primeiro determina a primeira série, e o segundo a outra, formando a numeração que seleciona o poema (cada caderno contém 36 poemas com os números dos dois dados 11, 12, 13, 14, 15, 16, 21, 22, etc., escrito cada um deles com 6 versos, fora casos ainda mais estranhos que fogem da regra).

fiz uns lances de dados online, & aqui saíram meus resultados:

do caderno dois: apothegmas alabastrinos [mallarmaico]

dados: 5 + 2 = 52

[A.52] Maquinola

Da Maquinola do Mundo
caia a Lua nas telhas
caia o Sol no paiol
as Estrelas no pomar
venha lá meu vermute
de bandeja gorducha…

dados: 6 + 2  = 62

[A.62] Diabo

Diabo te promete coisas
imperdíveis maravilhas
com raro tato e finesse
mas já sabes bom rapaz…
o que te acontece quando
o Anjo sopra o pistão

imagem da página 15

imagem da página 15

do caderno três: bustrofédon burlão [mallarmaico]

dados: 2 + 5 = 25

[B.25] Prometeu

Prometeu? Não devia…
Agora pois acorrentado
Prometeu e não cumpriu?
Merry levou Melarmek
pelo caminho das pedras

dados: 6 + 4 = 64

[B.64] Chinelas

Chinelas de cetim
dossel de veludo
emboscadas da Sorte
bolero, bolero fatal…
Musa Merry assoai
no lenço o focinho…

imagem da página 33

imagens das páginas 33 & 39

do caderno quatro: cassandra bolchevique [didascálico]

dados: 2 + 3 = 23

[C.23] Bailando

Consenza baila e canta
pra gáudio da torcida
deixa voar véu por véu
ao léu bailando se vai
da caverna da Sibéria
ao Teatro Bolshoi

dados: 1 + 1 = 11

[C.11] Cassandra

Viva a bola de Cristal!!
Barqueiros do Volga!!
Pangarés dos cossacos!!
Mujiques Bábuskas consultai
os progressivos cochichos
da Cassandra Bolchevique!!

zuca sardan lê trechos de ximerix

do caderno cinco: gazetta proleta [didascálico]

dados: 1 + 1 = 11

[D.11] Colyseo

A luta entre o proleta
e a máquina começa
com o proleta no ataque
a máquina sofre mas
é de ferro e o proleta
cai por fim esbofado

dados: 4 + 4 = 44

[D.44] Juventude

Com Santa Sofia vamos ter
gulache stroganof à beça
vodka caviar todo dia
a Juventude no campo
trabalhando sussurra Benjamin
Que bela mocetona musculosa!…

(poemas & imagens de zuca sardan)

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poesia

alberto bresciani

nascido no rio de janeiro, em 1961, o poeta alberto bresciani  vive em brasília, onde é ministro do tribunal superior do trabalho. lançou até o momento apenas um belo livro de poemas, intitulado incompleto movimento (ed. josé olympio, 2011), como sinal da estirpe dos bissextos; uma poesia sutil, que varia do abstrato ao excessivamente carnal em instantes. escreve no blog coletivo nóstres.

os poemas abaixo são inéditos & fazem parte do segundo livro que bresciani vem preparando sob o título de margem de erro.

guilherme gontijo flores

BEIJA-FLOR

Dedos cortados sobre a mesa
cinco cactos presos aos pés

Volto os olhos Ainda posso
salto da dor abrindo caixas

Dos escuros e das farpas
liberto tuas asas, tulipas

Linhas claras suturam
fendas ou rompem paredes

O sol no chão no ventre
aprendo a contornar arestas

e caminho sobre os cacos
evitando caracóis em trânsito

− sem armas
às vezes asco
outras lábio

VERSO E ANVERSO

Sobre o penhasco
o cão hirto
fixa o barco
no traço do mar

Lamenta? Celebra?

Ele o homem
vira-se e vê

um cão igual
no barco
mira o outro

Foge? Escolhe?

Não há tempo
ou resposta

Ele
o homem
é o cão no penhasco
é também
o cão
no barco

“BRIGHT STARS”

Pensando na palavra harmonia
pareceu-me que caía muito bem
para as duas mulheres de meia-idade
sentadas frente a frente
– as mãos entrelaçadas –
no centro do restaurante

Indiferentes distraídas ou ausentes
dos olhares que as dissecavam
talvez esquecessem
crateras trincheiras cercos

enquanto submersas
fantasiavam – como no extremo do poema
ou como bailarinas já sem fôlego
dançando em ponta –
o uso superlativo de seus sexos
logo após a sobremesa

VLAD

Vlad está ali
com seus olhos de predador
como os olhos da tia amarga
que me desejava má sorte

Trouxe a caixa de tortura
um container de coisas de fazer morte
lenta ou rapidamente (efeitos especiais
lanças cimitarras splashes de sangue)

Tenho medo de Vlad
mas se ele desafia e desperta ódio
também me inflama ao avesso
amo tanto quanto odeio

(ele teme o amor
não tem não teve
é feio)

A luta perdura e é árdua vai por dias
e a cada manhã Vlad perde o passo
Eu − preso à flor −
arranco-lhe as armas

Tenho garantias e vantagens
o céu azul em Brasília ou Barcelona
os ombros dela a carne o desejo
Juliet seus espíritos e cabelos em fogo

Kali com mil braços
acendendo os sons do corpo
mais do que abraço
aperto de cobra

Vlad não sabe que a cada golpe
reflui em mim
quebrado dos ossos
a linfa salamandra
e ainda ali
renasço

(poemas de alberto bresciani)

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poesia

leonardo fróes (1941)

leonardo fróes por regina lustosa

leonardo fróes (itaperuna – rj, 1941) é uma dessas figuras liminares da poesia brasileira, enfim, poeta lido por poetas. autor de mais de dez livros, cuja imensa maioria é de poesia (que está reunida, de 1968 a 1998, no volume vertigens, que saiu pela ed. rocco), além de um estudo sobre fagundes varella (um outro. varella, de 1989) & vários volumes de traduções, de prosa e poesia, de shelley & goethe a faulkner & virginia woolf.
sua poesia, apesar de uma tendência razoavelmente constante para um estilo aparentemente simples, no limiar do prosaico (coisa que se inverte em sua prosa, no limiar da poesia), segue sob o signo da variedade, desde poemas colados na experiência com deformações lexicais até a quase-prosa de poemas fábula, passando pelo trabalho de tradução como criação de poemas próprios (como em clones do inglês, de 2005).
optei aqui por mostrar três das suas várias facetas: no primeiro poema, temos um registro ensaístico-filosófico sobre a ideia de deus, nas manifestações mais prosaicas da existência (aliás, o cotidiano & o banal são dois lugares comuns da sua poética); no segundo, uma narrativa com fundo histórico, ao modo de um romance de redondilhas maiores sem rimas, com o final cômico que o faz entrar para a rol de poemas-piadas, mas que também pode ser visto, ao fim & ao cabo, como fábula moral; no terceiro & último, uma tradução libérrima de poesia chinesa do séc. viii.

guilherme gontijo flores

Justificação de deus

o que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir contra a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.

O xerife e os guajajaras
(No interior do Maranhão)

Os homens do Romeu Tuma,
prepotentes e embalados,
foram dar uma batida
na tribo dos guajajaras.
Queriam localizar,
pra acabar de vez com ela,
a plantação de maconha
que, segundo haviam dito,
esses índios cultivavam
no sertão do Maranhão.
Lá na aldeia de Coquinhos
os homens bravos do Tuma
já chegaram dando tiros,
matando cachorros mansos
que apenas comiam pulgas.
Curumins apavorados
corriam que nem cutia
da polvorosa imprevista,
enquanto cunhãs e velhas,
aflita, chorava sem
entender o que é que havia.
“De que se trata?”, diziam
na língua dos guajajaras:
“Que querer aqui fazer
os ruins caramurus?”
Os de fora, dos seus carros
barulhentos que nem tanques
numa ofensiva de guerra,
iam só mandando bala
por entre as choças tranquilas,
furando bambus e sacos,
vasilhames e bacias
com pontaria certeira.
Mas o espírito das matas
(cinco séculos de fúria
sob contínuos massacres)
de repente correu solto
no meio dos guajajaras.
Armando-se de cacetes,
o desespero do orgulho
e a valentia das onças,
os índios antes perplexos
com a louca invasão dos brutos
pularam dando pauladas,
de peito nu e aberto,
contra os tiros da polícia.
E deram tanto, mas tanto,
foram tantas cacetadas
de toda uma raça extinta,
era tão justa a refrega
dos caboclos de Tupã,
tão fraternos e preciosos
os golpes do contra-ataque,
que não houve jamais como
o pelotão resistir.
Seus carros antes possantes
ficaram despedaçados
e nenhum tira escapou:
todos levaram porrada.
Sem armas nem munições,
que os índios depois tomaram,
a polícia foi em cana
metendo o rabo entre as pernas.
Com o bando da lei detido
numa palhoça de varas,
mais pauladas foram dadas,
dessa vez como castigo,
por um ancião da tribo
e o cadáver do cachorro
(nosso irmão e nosso espelho)
assassinado por eles
a seguir foi esfregado
na cara de cada um.
De Brasília, o Romeu Tuma
com seus capangas mais fortes
foi lá conversar com os índios
para soltar os reféns.
Encontrou os guajajaras
preparados para a guerra
com suas caras pintadas.
Talvez não tivesse visto,
mas ventos elementares
faziam tremer a terra
por toda a Barra do Corda.
Sob o calor dos coqueiros,
cocares de antigas lutas
na glória da resistência
faziam gestos simbólicos.
Por trás de cada cunhã
com riscos na face triste,
foram hordas de fantasmas
tomados de amor da terra
que o Romeu Tuma encontrou.
Bom de papo, bem treinado
nas rodinhas de Brasília
depois de muita conversa
conseguiu a liberdade
dos subalternos detidos.
Mas as armas dos seus homens
os guajajaras não deram.
E agora, depois de tanta
estripulia e arbítrio,
impõem uma condição
para entregá-las aos donos:
que os brancos também devolvam,
por estar em suas terras,
o povoado já famoso
e bem, enfim, guajajara
pelas ressonâncias do nome
que é São Pedro dos Cacetes.

Maluco cantando nas montanhas
(Baseado em Po Chü-i, China, A.D. 772-846)

Todo mundo nesse mundo tem sua fraqueza.
A minha é escrever poesia.
Libertei-me de mil laços mundanos,
mas essa enfermidade nunca passou.
Se vejo uma paisagem bonita,
se encontro algum amigo querido,
recito versos em voz alta, contente
como se um deus cruzasse em meu caminho.
Desde o dia em que me baniram para Hsün-yang,
metade do meu tempo vivi aqui nas montanhas.
Às vezes, quando acabo um poema,
subo pela estrada sozinho até a Ponta do Leste.
Nos penhascos, que estão brancos, me inclino:
puxo com as mãos um galho verde de cássia.
vales e montanhas se espantam com meu louco cantar:
passarinhos e macacos acorrem para me espiar,
eu que, temendo me tornar para o mundo motivo de chacota,
tinha escolhido esse lugar, aonde os homens não vêm.

(poemas de leonardo fróes)

Padrão
poesia, tradução

o moretum [pseudo-virgílio].

vaso da beócia

vaso da beócia

uma das coisas que mais me deixa curioso na literatura é a existência – imensa – dos textos que cercam o eixo central do cânone, que tentam invadi-lo pela atribuição da auctoritas ao texto, mas que costumam perverter esse mesmo cânone por apresentarem processos literários distantes desse eixo, ou seja, movimentos que expressam a falta de uniformidade nos sistemas literários (se ainda pretendermos ficar com esse conceito). em geral, isso acontece quando temos um texto anônimo atribuído a um autor central; como é o caso da appendix vergiliana, onde temos os supostos poemas de juventude do vate romano, autor da eneida.

como poema de juventude, independente da sua autoria, o que interessa ao leitor atual é, provavelmente, o seu tom programaticamente menor, sua chave irônica, longe dos maiores desejos do império. a tradução do latinista márcio meirelles gouvêa júnior (tradutor das argonáuticas de valério flaco), feita em dodecassílabos, para verter o hexâmetro datílico original, tenta capturar esse movimento entre o registro formal sério e o tom leve. além disso, está precedida por uma brevíssima intro, que pelo menos pode situar o leitor leigo.

guilherme gontijo flores

Apresentação

Atribuído precariamente a Virgílio, como um dos poemas de sua juventude, o Moretum é a narrativa de um fazendeiro que, ao se levantar pela manhã, prepara, com sua escrava africana, a própria refeição. Trata-se de um pão chato, sem fermento, sobre o qual são espalhados queijo seco, alho, ervas diversas e azeite.

o moretum, em receita de site alemão

Esta tradução foi feita a partir do texto estabelecido por Fairclough, conforme a edição da Loeb, de 2001.

H.R. Fairclough, rev. G.P. Goold, Virgil, Volume II: Aeneid Books 7-12, Appendix Vergiliana, Loeb Classical Library (Cambridge, MA 2001)

Moreto

Dez horas invernais já a noite completara
e o galo anunciara o dia com seu canto
quando o cultivador de poucas terras, Símulo,
temendo o cruel jejum do dia que chegava,
ergue do leito vil o corpo, pouco a pouco,
e co’ansiosa mão, explora o quieto escuro;
procura o lume e, enfim, o sente ao se ferir.
No graveto queimado, a fumaça mantinha-se
e a luz da brasa se ocultava sob as cinzas;
ele, cabeça baixa, adiante move a lâmpada
e tira, com u’a agulha a ressecada estopa;
co’um forte sopro anima o fogo enlanguescido.
Enfim, as trevas retrocedem ante o brilho
e ele, co’a mão, protege a luz do vento e abre
co’a chave a porta do casebre, à qual divisa.
Um montinho de grãos sobre a terra espalhava-se:
daí, toma para si o quanto se mostrava,
que pesa mais que duas vezes oito libras.
Vai, se aproxima do moinho e, numa tábua,
que, presa ao muro, se guardava àqueles usos,
coloca a luz fiel. Então, despe os dois braços
e, envolto em pele de felpuda cabra, varre
co’espanador a pedra e o meio do moinho.
Então, põe mãos à obra, as duas repartindo:
a esquerda p’ra ajudar no trabalho a direita
que, num contínuo, gira a roda e a movimenta.
Moída, Ceres cai da pedra, aos golpes rápidos;
a mão esquerda exausta, amiúde, segue a irmã
e alterna o esforço. Ele já canta canções rústicas
e, com a agreste voz, o trabalho alivia.
A Esquíbale ele chama; a sua única criada
era africana – sua figura atesta a pátria:
cabelos crespos, lábios grossos e a cor fosca.
Tem caídas mamas, peito grande e ventre inchado,
as pernas finas, prodigiosos largos pés
e calcanhares enrijados pelas trincas.
Ele lhe ordena pôr no ardor do fogo a lenha
e na chama esquentar os líquidos gelados.
Quando o trabalho de moer alcança o fim,
ele, co’as mãos, põe a farinha na peneira
e sacode; a impureza em cima permanece
e Ceres, limpa e depurada, cai do crivo.
Ligeiro, então, rapidamente, a põe na mesa,
joga por cima as águas tépidas. Agora,
amassa as águas misturadas co’a farinha;
co’a rija mão, vai e vem; e estando preso o líquido,
espalha os grãos de sal. Ergue a sovada massa
e alarga, co’a palma, a forma arredondada.
Iguais quadrados corta nela e os põe no fogo –
antes Esquíbale limpara o lugar próprio.
Com telhas ele o cobre e, em cima, deita as brasas.
Enquanto cumprem sua função Vulcano e Vesta,
durante o vago tempo, Símulo não para –
busca outros meios. Como Ceres ao palato
só não agrada, apresta víveres que ajunte.
Não lhe sobravam carnes presas sobre o lume,
nem lombo ou pés de porco em sal endurecidos.
Apenas queijo trespassado por u’a corda
e um molho atado de endro seco, pendurados.
O previdente herói tem p’ra si outros meios.
Havia ao pé da choça u’a horta, que o perene
caniço, o leve junco e vimes protegiam:
u’exíguo espaço, mas em muitas ervas fértil.
Não lhe faltava o que exigia a vida simples;
pedia o rico, amiúde, ao pobre os seus produtos.
Não era sua obra de luxo, mas bem feita.
Se ocioso em casa festa ou chuvas o prendiam,
ou se o labor do arado às vezes terminava,
no horto ia trabalhar. Sabia cultivar
várias plantas, confiar os grãos à terra oculta
e, em volta, controlar os arroios vizinhos.
Couves, acelgas de amplos braços, abundantes
labaças, ênulas e malvas ali viçam,
a chirivia, o alho-poró (que deve o nome
ao broto), a gélida papoula malfazeja
e a alface, que termina as nobres refeições
brotam ali; em pontas crescem alcaçuzes
e a grande abóbora, que deita o largo ventre.
Não era dele a produção (quem era, enfim,
mais pobre que ele?); mas p’r’o povo; ele levava
nos dias de feira, no ombro a carga para a vila.
Voltava, então, co’o bolso cheio e as costas leves
trazendo, às vezes, do mercado, algum produto –
rubras cebolas e alhos matam sua fome,
com o mastruz que faz o rosto contrair-se,
a endívia e o rinchão, que reanima Vênus.
Então, entrou no horto pensando nessas coisas:
co’os leves dedos, da afofada terra tira,
primeiro, quatro alhos, co’as fibras bem espessas;
depois, arranca as tenras folhas de aipo, a arruda
hirta e os coentros, que num fino galho tremem.
Tendo os colhido, alegre senta junto ao fogo
e, co’alta voz, pede à criada o seu pilão.
Desnuda cada alho do corpo emaranhado,
as cascas tira e com desdém no chão as joga
e enjeita. Co’água molha os bulbos conservados
e os põe no bojo do pilão. Deita ali grãos
de sal, ajunta um queijo duro pela salga
e espalha em cima as ditas ervas. Co’a canhota,
segura as vestes sob o ventre cabeludo
e, co’a direita, pila os alhos perfumados.
Então, mói tudo com os sucos misturados
e gira a mão. Aos poucos, cada planta perde
as próprias forças, e u’a só cor se faz de muitas –
nem toda verde, pois se opõem as brancas partes;
nem toda branca, pois as ervas a matizam.
Às vezes, o acre aroma atinge-lhe as narinas
e sua comida causa nele uma careta;
co’a mão, às vezes, limpa os olhos lacrimosos
e xinga, enfurecido, a inocente fumaça.
A obra seguia. Já não mais rude, qual antes,
ia o pilão, pesadamente, em voltas lentas.
Pinga, daí, gotas do azeite de Minerva
e espalha em cima um pouco a força do vinagre.
Liga tudo outra vez e, então, tira a mistura.
Com dois dedos, enfim, contorna o pilão todo
e numa massa só ajunta as partes soltas
P’ra conseguir o nome e o aspecto do moreto.
No entanto, Esquíbale, zelosa, tira o pão
e ele, na mão, alegre o toma. Sem temer
já a fome, Símulo, tranqüilo aquele dia,
veste as calças de couro e, co’o chapéu de palha,
põe sob o jugo das correias dóceis bois;
parte p’r’os campos e na terra enfia o arado.

(trad. Márcio Meirelles Gouvêa Júnior)

Moretum

Iam nox hibernas bis quinque peregerat horas
excubitorque diem cantu praedixerat ales,
Simulus exigui cultor cum rusticus agri,
tristia uenturae metuens ieiunia lucis,
membra leuat uili sensim demissa grabato
sollicitaque manu tenebras explorat inertes
uestigatque focum, laesus quem denique sensit.
paruulus exusto remanebat stipite fomes
et cinis obductae celabat lumina prunae;
admouet his pronam summissa fronte lucernam
et producit acu stuppas umore carentis,
excitat et crebris languentem flatibus ignem.
tandem concepto, sed uix, fulgore recedit
oppositaque manu lumen defendit ab aura
et reserat clausae qua peruidet ostia clauis.
fusus erat terra frumenti pauper aceruus:
hinc sibi depromit quantum mensura patebat,
quae bis in octonas excurrit pondere libras.
inde abit adsistitque molae paruaque tabella,
quam fixam paries illos seruabat in usus,
lumina fida locat; geminos tunc ueste lacertos
liberat et cinctus uillosae tergore caprae
peruerrit cauda silices gremiumque molarum.
aduocat inde manus operi, partitus utroque:
laeua ministerio, dextra est intenta labori.
haec rotat adsiduum gyris et concitat orbem
(tunsa Ceres silicum rapido decurrit ab ictu),
interdum fessae succedit laeua sorori
alternatque uices. modo rustica carmina cantat
agrestique suum solatur uoce laborem,
interdum clamat Scybalen. erat unica custos,
Afra genus, tota patriam testante figura,
torta comam labroque tumens et fusca colore,
pectore lata, iacens mammis, compressior aluo,
cruribus exilis, spatiosa prodiga planta.
Continuis rimis calcanea scissa rigebant.
hanc uocat atque arsura focis imponere ligna;
imperat et flamma gelidos adolere liquores.
postquam impleuit opus iustum uersatile finem,
transfert inde manu fusas in cribra farinas
et quatit; ac remanent summo purgamina dorso,
subsidit sincera foraminibusque liquatur
emundata Ceres. leui tum protinus illam
componit tabula, tepidas super ingerit undas,
contrahit admixtos nunc fontes atque farinas,
transuersat durata manu liquidoque coacta,
interdum grumos spargit sale. iamque subactum
leuat opus palmisque suum dilatat in orbem
et notat impressis aequo discrimine quadris.
infert inde foco (Scybale mundauerat aptum
ante locum) testisque tegit, super aggerat ignis.
dumque suas peragit Vulcanus Vestaque partes,
Simulus interea uacua non cessat in hora,
uerum aliam sibi quaerit opem, neu sola palato
sit non grata Ceres, quas iungat comparat escas.
non illi suspensa focum carnaria iuxta
durati sale terga suis truncique uacabant,
traiectus medium sparto sed caseus orbem
et uetus adstricti fascis pendebat anethi:
ergo aliam molitur opem sibi prouidus heros.
hortus erat iunctus casulae, quem uimina pauca
et calamo rediuiua leui munibat harundo,
exiguus spatio, uariis sed fertilis herbis.
nil illi deerat quod pauperis exigit usus;
interdum locuples a paupere plura petebat.
nec sumptus erat ullius opus sed regula curae:
si quando uacuum casula pluuiaeue tenebant
festaue lux, si forte labor cessabat aratri,
horti opus illud erat. uarias disponere plantas
norat et occultae committere semina terrae
uicinosque apte circa summittere riuos.
hic holus, hic late fundentes bracchia betae
fecundusque rumex maluaeque inulaeque uirebant,
hic siser et nomen capiti debentia porra.
Hic etiam nocum capiti gelidum papaver
grataque nobilium requies lactuca ciborum,
plurimo surgit ibi crescitque in acumina radix,
et grauis in latum dimissa cucurbita uentrem.
uerum hic non domini (quis enim contractior illo?)
sed populi prouentus erat, nonisque diebus
uenalis umero fasces portabat in urbem,
inde domum ceruice leuis, grauis aere redibat
uix umquam urbani comitatus merce macelli:
cepa rubens sectique famem domat area porri
quaeque trahunt acri uultus nasturtia morsu
intibaque et Venerem reuocans eruca morantem.
tum quoque tale aliquid meditans intrauerat hortum;
ac primum leuiter digitis tellure refossa
quattuor educit cum spissis alia fibris,
inde comas apii graciles rutamque rigentem
uellit et exiguo coriandra trementia filo.
haec ubi collegit, laetum consedit ad ignem
et clara famulam poscit mortaria uoce.
singula tum capitum nodoso corpore nudat
et summis spoliat coriis contemptaque passim
spargit humi atque abicit; seruatum gramine bulbum
tinguit aqua lapidisque cauum demittit in orbem.
his salis inspargit micas, sale durus adeso
caseus adicitur, dictas super ingerit herbas,
et laeua uestem saetosa sub inguina fulcit,
dextera pistillo primum fragrantia mollit
alia, tum pariter mixto terit omnia suco.
it manus in gyrum: paulatim singula uires
deperdunt proprias, color est e pluribus unus,
nec totus uiridis, quia lactea frusta repugnant,
nec de lacte nitens, quia tot uariatur ab herbis.
saepe uiri nares acer iaculatur apertas
spiritus et simo damnat sua prandia uultu,
saepe manu summa lacrimantia lumina terget
immeritoque furens dicit conuicia fumo.
procedebat opus; nec iam salebrosus, ut ante,
sed grauior lentos ibat pistillus in orbis.
ergo Palladii guttas instillat oliui
exiguique super uires infundit aceti
atque iterum commiscet opus mixtumque retractat.
tum demum digitis mortaria tota duobus
circuit inque globum distantia contrahit unum,
constet ut effecti species nomenque moreti.
eruit interea Scybale quoque sedula panem,
quem laetus recipit manibus, pulsoque timore
iam famis inque diem securus Simulus illam
ambit crura ocreis paribus tectusque galero
sub iuga parentes cogit lorata iuuencos
atque agit in segetes et terrae condit aratrum.

[atribuído a Virgílio]

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poesia, tradução

O Cântico dos Cânticos: vindo de Haroldo de Campos

haroldoOitenta e quatro anos faria hoje Haroldo de Campos  (1929 — 2003). O poeta-crítico-tradutor dispensa maiores apresentações, acredito, e basta uma menção ao seu envolvimento com o Concretismo, à sua grande obra Galáxias e à extensa lista de autores que ele traduziu (como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Maiakóvski…) para se ter uma noção da grandiosidade do seu legado. O que eu gostaria de celebrar hoje, porém, é uma faceta, talvez menor ou menos conhecida, da atuação do autor, que foi o seu interesse pela tradução bíblica – mais especificamente do chamado Antigo Testamento, ou, entre os judeus, de Tanakh (תנך).

A Tanakh é uma reunião dos 3 livros canônicos da Bíblia segundo o judaísmo, composta pela Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), os Nevi’im (“profetas”: Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Os Doze) e os Ketuvim (“escritos”: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Ezra – Neemias e Crônicas), daí o acrônimo TaNaKh. Dos textos bíblicos que fisgaram a atenção de Haroldo, temos o Gênesis (cujo nome em hebraico é בראשית, Bereshit, Bereishit ou Bere’shith, literamente “no princípio”, que dá título do volume de Campos: Bere’shith: A Cena da Origem) e o Eclesiastes (cujo nome em hebraico é קוהלת, Qohélet, o nome da figura que enuncia as declarações bombásticas como a de que tudo é vaidade, daí Qohélet: o Que Sabe). A esses dois volumes se soma um terceiro, Éden: Um Tríptico Bíblico (pela editora Perspectiva, que também publicou os anteriores) publicado postumamente, organizado por Trajano Vieira, com tradução de duas cenas do Gênesis (o episódio da Queda e de Babel) e do Cântico dos Cânticos, acompanhadas por ensaios introdutórios e notas de Haroldo.

É desnecessário eu comentar (mas irei comentar de qualquer modo… pela ênfase) que a tradução de Haroldo, ao contrário do desenvolvido por outros pensadores célebres da tradução bíblica, como Eugene Nida, não tem propósitos religiosos ou evangelizadores… em vez disso, há um enfoque sobre a Tanakh como um texto poético, o que aproxima Haroldo do poeta, tradutor e pensador francês Henri Meschonnic (também ele tradutor da Bíblia) nas suas preocupações com ritmo e escolha vocabular, de modo a refletir paranomásias e outros jogos de palavras que povoam o original em hebraico. Adão, por exemplo, é um calque de adam, (אדם) que significa literal e meramente “homem” ou “pessoa” e deriva de adamah, (אדמה) “terra” – e, lembremos, o elo entre o homem e a terra vai desde o momento em que Elohim o cria a partir do pó (Gen., 2:7) até a declaração de que “és pó, ao pó retornarás” (Gen., 3:19), efetivamente circundando a existência humana através de uma construção etimológica que é típica do discurso poético.

Dentre o que Haroldo já traduziu do hebraico, escolhi um trecho (partes 1 e 2) do seu “Cântico dos Cânticos” (Shir Hashirim, שיר השירים) para compartilhar abaixo. Parte da terceira seção da Tanakh, os “Escritos”, o “Cântico” é uma poema erótico-amoroso, cuja autoria é atribuída (mais em imaginário do que de fato) a Salomão. Diz Haroldo no ensaio introdutório que o antecede em Éden:

“Literalmente, trata-se de um poema de amor semítico, um conjunto de cantos eróticos, talvez com função de epitalâmio, sobre cuja superfície textual, tradicionalmente, enredam-se, sutis, as exegeses alegóricas.

Desde a que o vê como a celebração do amor de Elohim por Israel e seu povo (no campo hebraico-rabínico), ou, correlatamente (no domínio cristão), do amor de Cristo pela Igreja e pela cristandade, até aquela que, em pauta antropológico-cultural, o interpreta como uma transposição judia do culto ritual da fertilidade (Tamuz-Adônis, o deus que ressuscita)”

shir-hashirim

Haroldo emprega em sua tradução o caractere § para indicar pausas, segundo um sistema de ritmo de leitura que ele mesmo desenvolveu ao longo das traduções anteriores. O sentido deles é que quanto mais desses caracteres (§) estiverem reunidos, maior a pausa. Logo, §§§ significa uma pausa longa, o “principal disjuntivo correspondente à cesura”, §§ são pausas menores, mas que marcam acentos importantes ainda, e § indica “pausas mínimas”.

Por propósitos de comparação, reproduzo abaixo também uma tradução, feita igualmente a partir do hebraico original, mas de caráter mais semântico, puramente “profissional”, como diria Haroldo, desse mesmo trecho, em que fica marcada, inclusive, a interpretação rabínica da alegoria entre a moça como Israel e o amado como Deus/Elohim. Essa tradução é de autoria de David Godorovits e Jairo Fridlin, presente na edição da Bíblia Hebraica da editora Sêfer.

Quem se interessar pelo assunto, pode ainda conferir aqui o texto original em hebraico clicando aqui (com tradução para o inglês, versículo a versículo) e um artigo interessante de Fabiano Venturotti sobre as traduções bíblicas de Haroldo de Campos disponível aqui.

Por fim, aproveitando a temática da tradução bíblica, o poeta capixaba Waldo Motta tem uma belíssima tradução poética do início do Gênesis, “בראשית – BeREShYTh – RECREAÇÃO”, disponível online num post de 13/05/11 no seu blog, bem como na revista Literatura e Sociedade, da USP, n. 13, a partir da p. 264, disponível aqui.

Mazel-tov, Haroldo!

Adriano Scandolara

           

Cântico dos Cânticos

I

1.
Cântico dos cânticos §
vindo de Salomão

2.
Ele me beijará §
com beijos de sua boca §§
pois melhor teu amor §
que o sabor do vinho

3.
O olor §
dos teus óleos é bom §§
óleo se derramando o teu nome §§§
É assim que § se amam os jovens

4.

Arrasta-me §
atrás de ti corramos §§§
O rei me conduziu § a seus recintos §
jubilemos rejubilemos § e ti §§
celebraremos o teu amor § melhor que o vinho §§
como andam certas § aquelas que te amam

5.

Sou negra § e beleza pura §§
filhas de Jerusalém §§§
Como as tendas de Cedar a escura §§
como as colgaduras §
de Salomão

6.
Não me renegueis §
porque sou negra §§
foi o sol § que me queimou a tez §§§
Os filhos de minha mãe de mal comigo §
deixaram-me a sós § guardando as vinhas §§
nem a minha vinha § guardei

7.
Conta-me §
bem-amado § de minh’alma §§
onde vai teu pastoreio? §§
onde § te escondes para a sesta do meio-dia? §§§
Para que eu não seja § a mulher de véu §§
ao léu atrás § das ovelhas dos teus parceiros

8.
Se não o souberes § por ti mesma §§
tu a mais bela § entre as mulheres §§§
Segue por ti mesma § o rastro do rebanho §
e vai pastorear § teus cordeiros §§
junto ao remanso dos pastores

9.
A uma égua § entre as bigas do Faraó §§
já te comparei § minha amiga

10.
Belas tuas faces § entre brincos circulares §§
belo teu colo § entre colares

11.
Brincos de ouro § faremos para ti §§
com § respingos de prata

12.
Ao rei § em seu divã §§
meu aroma de nardo § perfuma

13.
Uma bolsa § de mirra §
meu amado § é para mim §§
entre meus peitos § durma

14.
Um racimo § de cipros §
meu amado § é para mim §§
por entre as vinhas § de En-Gadi

15.
Como és bela § minha amiga §
como és bela § teus olhos quase pombas

16.
Como és § belo meu amado §
como és meigo §§
nosso leito § feito de folhas verdes

17.
Cedros § as colunas de nossa casa §§
ciprestes § as vigas das paredes

II

1.
Eu § uma anêmona das várzeas de Sharon §§
uma rosa § das planuras

2.
Qual uma rosa § entre cardos silvestres §§
tal minha amada § entre as mulheres

3.
Qual macieira § entre árvores do bosque §§
tal meu amado § entre os homens §§§
Por sua sombra § ansiei e abriguei-me §§
e seu fruto § dulçor em minha boca

4.
Ele me levou § para o recinto do vinho §§
e seu pendão sobre mim § o amor

5.
Vigorai-me § com tortas de uva §§
revigorai-me § com polpa de maçãs §§§
Eu § que adoeço de amor

6.
Seu braço esquerdo § sob minha cabeça §§
e seu braço direito § abraço que me estreita

7.
Eu vos conjureu § filhas de Jerusalém §
pelas corças §§ ou § pelos gamos campestres §§§
Ninguém desperte § ninguém esperte § o amor §
antes que ao amor pareça bem

8.
A voz do meu amado §
ei-lo que vem §§§
Ele galga § o alto das montanhas §§
ele salta § por cima das colinas

9.
Semelha meu amado § o cervo §§
ou § a cria da cabra montesa §§§
É ele que está presente § por trás de nossas paredes §§
dele o olho que vela § pelas janelas §§
dele o olho que brilha § pelas treliças

10.
Meu amado falou-me § e disse §§§
Levanta-te § amada amiga §§
levanta-te § e vem comigo

11.
Repara que o inverno § já passou §§§
A chuva parou § foi-se embora

12.
As flores agora § afloram no país §§
a hora das aves canoras § soou aqui §§§
Já se ouve em nosso país § o arrolo da pomba-rola

13.
A figueira § adoçou seus frutos verdes §§
e os vinhedos em flor § oferendam aroma §§§
Levanta-te § amada amiga §
levanta-te § e vem comigo

14.
Minha pomba § nos nichos do penedo §
nas frinchas do rochedoo §§
dá-me que eu veja § teu rosto §
dá-me que eu ouça § tua voz §§§
Tua voz quase mel § uma graça teu rosto

15.
Capturai para nós § as raposas §
as raposas pequeninas § elas arruínam as vinhas §§§
E nossas vinhas § estão em flor!

16.
Meu amado será comigo § eu estou com meu amigo §§
que pastoreia § entre rosas

17.
Antes que assopre § o dia §§
e se afugentem § as sombras §§§
Volta como quem semelha § meu amado § o cervo
ou § a cria da cabra montesa §
sobre as colinas em fenda

(tradução de Haroldo de Campos)

           

Cântico dos Cânticos

1

1 O cântico dos cânticos, de Salomão [Shelomo]: 2 Que Ele me beije com os beijos da Sua boca, porque os Teus amores são melhores do que o vinho. 3 Teus unguentos são bons para cheirar; o TeuNome é como o unguento derramado, e por isso as virgens Te amam. 4 (Israel:) Leva-me, correremos atrás de Ti! O Rei me introduziu nas Suas câmaras; em Ti nos regozijaremos e nos alegraremos, e dos Teus amores nos lembraremos mais do que do vinho; os retos Te amam!

5 Sou morena, porém aprazível, ó filhas de Jerusalém (as nações), como as tendas de Kedar, como as cortinas de Salomão. 6 Não repareis o fato de eu ser morena, porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe se indignaram contra mim, puseram-me por guarda de vinhedos; o meu vinhedo, que me pertence, não guardei. 7 Dize-me, ó Tu, a quem a minha alma ama, onde apascentas o Teu rebanho, onde o recolhes ao meio-dia, pois por que razão eu seria como a que se cobre ao pé dos rebanhos de Teus companheiros? 8 (Deus:) Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas das ovelhas e apascenta tuas cabras junto às moradas dos pastores!

9 Aos cavalos dos carros do Faraó te comparo, ó, Minha amiga! 10 Tuas faces são agradáveis entre os teus cordões de enfeites; o teu pescoço com os colares. 11 Cordões de enfeites de ouro te faremos com pontos de prata. 12 (Israel:) Enquanto o Rei está assentado à Sua mesa, o meu nardo dá o Seu cheiro. 13 O meu Amado é para mim um ramalhete de mirra; dormirá entre os meus peitos. 14 O meu Amado é para mim um cacho de chipre nos vinhedos de En-Guedi.

15 (Deus:) Eis que é formosa, ó Minha amiga, eis que és formosa! Os teus olhos são como os das pombas! 16 (Israel:) Eis que és formoso e agradável, ó meu Amado! O nosso leito é frutífero. 17 As vigas da nossa casa são de cedro, os nossos móveis são de cipreste.

2

1 Eu sou a rosa de Sharon, o lírio dos vales! 2 (Deus:) Como o lírio entre os espinhos, assim é a Minha amiga entre as filhas! 3 (Israel:) Como a macieira entre as árvores do bosque, assim é o meu Amado entre os filhos! Desejo muito a Sua sombra, e debaixo Dela me assento; e o Seu fruto é doce ao meu paladar. 4 Levou-me à sala do banquete, e o amor era o Seu estandarte sobre mim. 5 Sustentai-me com passas, forrai o meu leito com maçãs, porque desfaleço de amor! 6 Que a Sua esquerda esteja abaixo da minha cabeça, e que a Sua direita me abrace. 7 Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém (as nações), pelas corças e gazelas do campo, que não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira.

8 Esta é a voz do meu Amado: ei-Lo aí, que já vem saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas. 9 O meu Amado é semelhante ao corço ou ao filho dos veados; eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, reluzindo pelas grades. 10 O meu Amado responde e me diz: “Levanta-te, Minha amiga, ó Minha formosa, e vem! 11 Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou e se foi. 12 As flores se mostram na terra, o tempo de cantar chega e a voz da rola se ouve em nossa terra. 13 A figueira brotou os seus figuinhos e as vides em flor dão o seu cheiro; levanta-te, Minha amiga, ó Minha formosa, e vem!

14 Ó Minha pomba, que andas pelas fendas das rochas, no oculto dos degraus! Mostra-Me a tua face, faze-Me ouvir a tua voz, porque a tua voz é agradável, e a tua face, aprazível!

15 Segurai para nós as raposas, as raposinhas, que fazem mal aos vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor”. 16 O meu Amado é meu, e eu sou Dele, Aquele que apascenta entre os lírios! Até que sopre o dia e fujam as sombras; volta, meu Amado! Faze-Te semelhante ao corço ou ao filho dos veados sobre os montes longínquos e divididos.

(tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin)

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