poesia, tradução

gustavo caso rosendi, por ronaldo cagiano

gustavo caso rosendi

o argentino gustavo caso rosendi  (1962, esquel, província de chubut) participou como soldado da guerra das malvinas (1982), um fato marcante na sua poesia dos anos subsequentes, & recebeu a faja de honor de la sociedad de escritores da província de buenos Aires, em 1986. publicou 3 livros de poesia:  elegía común (1987), bufón fúnebre (1995) & soldados (2009). participou ainda das coletâneas El viento también recuerda,  uma antologia de trabalhos de ex-combatentes, & de Poesía 36 autores. é interessante notar como sua poesia, ainda que marcadamente pessoal, foge do sentimentalismo fácil ao recordar o tempo de soldado – mesmo a perda da inocência (em “tenía razón oscar wilde”) é retratada com certa ironia e afastamento, o que acaba por aumentar o caráter trágico da perda. do mesmo modo, a morte – tema insistente desses poemas – aparece com uma tristeza para além do desespero, como uma resignação que atravessou o horror para repousar em certa placidez capaz de ferir o leitor ingênuo.

nesta postagem, apresentamos 8 poemas traduzidos pelo advogado, escritor & crítico ronaldo cagiano (cataguases, 1961).

alguns poemas de soldados podem ser lidos no original, aqui.

guilherme gontijo flores

UNA RECETA PARA EL GATO DUMAS

Primero: robarse un paquete de fideos
del cuartel “Moody Brook”
Segundo: ponerlos a hervir en el casco
con agua de una charca cercana
El secreto es el condimento
(la pintura va saltándose del acero
a medida que se recalienta)
Tercero: servir en marmita
preferentemente abollada y tiznada
Cuarto: sentado sobre una piedra
comer lentamente como si fuese
el último bocado que se vaya a saborear

UMA RECEITA PARA O GATO DUMAS

Primeiro: rouba-se um pacote de macarrão
do quartel “Moody Brook”.

Segundo: ponha para ferver no capacete
com água de uma poça próxima.
O segredo está no tempero
(a tinta vai se desprendendo do aço
na medida em que se esquenta demais)

Terceiro: servir na marmita
preferencialmente amassada e requeimada

Quarto: sentado sobre uma pedra
comer devagar como se fosse
a última porção que vai saborear.

POEMA

Las casas flamean porque partiremos
para no volver jamás.
Guillaume Apollinaire

Se asoman cada noche
uniformados de musgo
desde la tierra parturienta
Miran las luces del muelle
y todavía sueñan
con regresar algún día
Oler de nuevo el barrio
y correr hacia la puerta
de la casa más triste
y entrar como entran
los rayos del sol
por la ventana
en la que ya nadie
se detiene a mirar
donde ya nadie
espera la alegría

POEMA

As casas flamejam porque partiremos
para nunca mais voltar.
Guillaume Apollinaire

Cada noite levantam-se
uniformizados de musgo
desde a terra parturiente
contemplam as luzes do cais
e ainda sonham
em regressar algum dia
cheirar de novo o bairro
e correr até a porta
da casa mais triste
e entrar como entram
os raios de sol
pela janela
na qual ninguém mais
se detém a olhar
onde mais ninguém
espera a alegria.

TENIA RAZÓN OSCAR WILDE

En el fragor del combate
no pude acertar al enemigo
Pero terminé con la alegría
pero acabé con la inocencia
pero malherí a la esperanza

Uno siempre termina matando
lo que más ama

OSCAR WILDE TINHA RAZÃO

No fragor do combate
não pude acertar o inimigo
mas terminei com a alegria
mas acabei com a inocência
mas acabei ferindo a esperança

Um sempre termina matando
o que mais ama.

THATCHER’S TANGO

Para Martín Raninqueo y Cacho Macchi

Nunca fue mi Margarita
ni mi mujer –que es de fierro-
ni esta copa bendita
de Bianchi Margaux

Es que la vieja nos mandó
a sus muchachos pa´ darnos
pa´ que tengamos
“será por eso que no me la banco”
dice el manco Santos agitando su mano

Nunca fue mi Margarita
ni vela para este entierro
Brindo porque ni siquiera vale
una deshojada
porque nunca la quise ni mucho
ni poco ni nada

Pirata mirada de serpiente
siempre mudando tapados de piel
Seguro que cada diciembre
nada le trae Papá Noel

Es por eso que hoy
mi tango te canta
podrida percanta de Pinochet
flor siempre marchita
con agua bendita yo te regaré

Pero igual nunca nunca
serás mi Margarita
Y a mi mujer ni a los talones
le llegás
Y es por eso que brindo
Porque no valés
una margarita deshojada
porque nunca te quise
ni mucho ni poco ni nada

TANGO DA TATCHER

Para Martín Raninqueo y Cacho Macchi

Nunca foi minha Margarida
– nem minha mulher – pois és de ferro –
nem esta taça
de Bianchi Margaux

É que a velha nos enviou
para darmos a seus rapazes
para que o tenhamos
“será por isso que não me seguro”
disse o coxo Santos agitando sua mão.

Nunca foi minha Margarida
nem vela para este enterro
Brindo porque sequer vale
uma desfolhada
porque nunca a quis muito
nem pouco nem nada

Pirata vista como serpente
mudando sempre de pele
certo de que em cada dezembro
nada lhes traz Papai Noel.

É por isso que hoje
meu tango te canta
o canto podre de Pinochet
flor sempre murcha
com água benta te regarei

Mas igual nunca
nunca serás minha Margarida
e à minha mulher nem de perto
chegarás
É por isso que brindo
porque não vales
uma margarida desfolhada
porque nunca te quis
nem muito nem pouco nem nada

HAY UNA ARAÑA DETRÁS DEL CUADRO

gorda redonda y colorida
Ahora mismo la veo aparecer
y comerse uno de los insectos que penden de su tela

Estoy pensando en pasar el plumero pero no sé
– se arregló tan bien para conseguir su alimento
que quién soy yo para sacárselo-

Un político no dudaría en imponer razones de Estado
ante la maquiavélica trama
Un sacerdote creería que Satanás tejió
esas pantimedias malditamente tentadoras
Un General ordenaría el fin de semejante matanza
para poder establecer la paz de los otros seres
(que luego exterminará con el Raid)

Pero no soy como esta gente
Soy poeta
Sólo me maravillo y agradezco
el poder contemplar una araña comiéndose un bichito

Y mañana decirle a la señora que limpie
este rincón del que les hablo
de la manera que le resulte más práctica
más sencilla

HÁ UMA ARANHA ATRÁS DO QUADRO

gorda, redonda e colorida
Agora mesmo a vejo aparecer
e comer um dos insetos dependurados em sua teia

Estou pensando em passar o espanador, mas não sei
– acomodou-se tão bem para obter seu alimento
que quem sou eu para retirá-lo.

Um político não duvidaria em alegar razões de Estado
diante da maquiavélica trama
Um sacerdote creria que Satanás teceu
essas meia-calças malditamente tentadoras
Um General ordenaria o fim de semelhante matança
para poder estabelecer a paz de outros seres
(que em seguida exterminará com Raid)

Mas não sou como esta gente
Sou poeta
Somente me encanto e agradeço
o poder contemplar uma aranha comendo um bichinho.

ALGUNA VEZ TAMBIÉN NOSOTROS MIRAREMOS

con los ojos de los muertos

Habremos aprendido algo de la vida
– pero permaneceremos callados
como el niño que ha nacido
y aún no sabe su nombre-

Y tendremos en la mandíbula
la antigua pregunta sobre la sombra
de la libélula que vino a visitar la madreselva
esa mañana

Siempre
en los anticipos de la lluvia
nuestra mirada flotará por el jardín
donde la rosa preferida se ha secado

Nunca
dejaremos de contemplar
lo que no nos pertenece

Una oscuridad una luz más allá
y de nuevo otra oscuridad

Otra tristeza

ALGUMA VEZ TAMBÉM NÓS VEREMOS

com os olhos dos mortos

Teremos aprendido algo da vida
– mas permaneceremos calados
como o menino que nasceu
e ainda não sabe seu nome –

E teremos na mandíbula
a antiga pergunta sobre a sombra
da libélula que veio visitar a madressilva
essa manhã

Sempre
nas antecedências da chuva
nosso olhar flutuará pelo jardim
onde a rosa preferida secou

Nunca
deixamos de contemplar
o que nos pertence

LA TRANSPARENCIA

A veces miramos hacia la ventana
no para observar más allá del vidrio
sino para contemplar al vidrio mismo
(algo invisible pero concreto y real
nos separa y une con el mundo)

No se trata de la terquedad del insecto
que intenta atravesarlo hasta reventar
y quedar como tripas inmóviles
(porque alguien vendrá y fregará el trapo
y ese acontecimiento ya no tendrá sentido)

Sólo se trata de saber que hay algo allí
Una región que nos muestra el jardín o la cocina
sin llegar a ser jardín o cocina

Un ojo que no mira
Pero que deja ver

A TRANSPARÊNCIA

Às vezes olhamos desde a janela
não para observar além da vidraça
se não para contemplar a vidraça mesmo
(algo invisível mas concreto e real
nos separa e une com o mundo)

Não se trata da obstinação do inseto
que tenta atravessar até arrebentar-se
e cair como tripas imóveis
(porque alguém virá e esfregará o pano
e esse acontecimento já não terá sentido)

Somente se trata de saber que há algo ali
Uma região que nos mostra o jardim ou a cozinha
sem chegar a ser jardim ou cozinha

Um olho que não vê
mas que deixa ver

CUANDO CAYÓ EL SOLDADO VOJKOVIC

dejó de vivir el papá de Vojkovic
y la mamá de Vojkovic y la hermana
También la novia que tejía
y destejía desolaciones de lana
y los hijos que nunca
llegaron a tener
Los tíos los abuelos los primos
los primos segundos
y el cuñado y los sobrinos
a los que Vojkovic regalaba chocolates
y algunos vecinos y unos pocos
amigos de Vojkovic y Colita el perro
y un compañero de la primaria
que Vojkovic tenía medio olvidado
y hasta el almacenero
a quien Vojkovic
le compraba la yerba
cuando estaba de guardia

Cuando cayó el soldado Vojkovic
cayeron todas las hojas de la cuadra
todos los gorriones todas las persianas

QUANDO O SOLDADO VOJKOVIC CAIU

o pai de Vojkovic deixou de viver
e a mãe de Vojkovic e a irmã
Também a noiva que tecia
e destecia desolações de lã
e os filhos que nunca
chegaram a ter
Os tios os avós os sobrinhos
os primos em segundo grau
aos que Vojkovic presenteava chocolates
e alguns vizinhos e uns poucos
amigos de Vojikovic e Colita o cachorro
e um colega do primário
que Vojkovic tinha meio esquecido
e até dono do armazém
a quem Vojkovic
comprava a erva
quando estava de guarda

Quando soldado Vojkovic caiu
caíram todas as folhas da quadra
todos os pardais todas as persianas

(poemas de gustavo caso rosendi, tradução de ronaldo cagiano)

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