poesia, tradução

jacques brel (1929-78)

brel

no brasil, jacques brel é um compositor francês de “ne me quitte pas” (1972), & fim de conversa.

aos mais interessados, esse francês era um belga nascido em 1929, na cidade schaarbeek, sob a alcunha de jacques romain georges brel, que, nos seus menos de 50 anos de vida compôs & gravou umas dezenas de cancões brilhantes em 13 discos de estúdio (entre 1954 & 1977), com uma atenção minuciosa para a criação das letras, de modo que acabou influenciando figuras de outras línguas, como leonard cohen & david bowie, pra ficarmos no inglês (na verdade, algumas canções foram vertidas para o inglês, o holandês, o alemão &c.). como se não bastasse, o homem era um intérprete de primeira & ainda se arriscou a atuar & dirigir alguns filmes; além de ter praticamente largado sua carreira por alguns anos para se dedicar ao seu veleiro, askoy ii. morreu cedo, como todos sobre a terra, de câncer pulmonar em 1978.

meu humilde plano para este post é simplesmente recriar verbivocalmente essas canções, i.e., traduzi-las em português, de modo que permaneçam cantáveis, com seus recursos rítmicos & rímicos. por isso, selecionei 3 canções: “ne me quitte pas” é uma delas, talvez para demonstrar a arte verbal de brel, mesmo numa canção que facilmente pode entrar num repertório da breguice. as outras duas, “les bourgeois” & “amsterdam”. em “les bourgeois”, quero representar a sátira, tão recorrente nas suas composições, &, neste caso, a metassátira, já que os jovens que criticam a burguesia são, eles próprios, os burgueses ao fim da canção, o jojo citado na versão original era uma amigo íntimo de brel, de modo que sua própria persona satírica entra como voz e objeto do poema. no caso de “amsterdam”, busco aquilo que, para mim, é o suprassumo da sua poesia: uma fusão entre as vertentes lírica e satírica – um movimento entre o bas-fond da vida no cais & uma visão violentamente humana dessa baixeza.

talvez o ideal desse tipo de processo fosse eu me gravar, com um violão, cantando as traduções, realizando-as no seu habitat sonoro, sem as muletas do texto escrito. no entanto, diante das performances do autor, resta-me apenas a inibição da folha virtual. quem sabe sonhar que algum leitor engajado numa leitura desconfiada, testando se essas traduções realizam de fato seu projeto, ao fim de “amsterdam” se pegue gritando, com seu nariz apontado contra o céu.

guilherme gontijo flores

obs.: quem quiser contrastar traduções, pode procurar a versão de “amsterdam” () feita por david bowie, com uma tradição refinada; ou a péssimo-sentimental versão de  “ne me quitte pas” (“if you go away”) feita por rod mckuen & interpretada por uma pá de gente. felizmente, des de moor apresentou uma versão digna aos anglófones, intitulada “don’t leave me now”…

Amsterdam

Pelo cais de Amsterdam
Os marinheiros cantam
Os sonhos que os espantam
Ao redor de Amsterdam
Pelo cais de Amsterdam
Marinheiros têm sono
Qual bandeiras distantes
Entre margens tristonhas
Pelo cais de Amsterdam
Marinheiros perecem
Com bebidas e élans
Quando a luz aparece
Mas pelo cais de Amsterdam
Os marinheiros nascem
No calor das paragens
De oceânico afã.

Pelo cais de Amsterdam
Marinheiro enche o papo
Nos brancos guardanapos
De peixada e marrã.
Veja os dentes que têm
Pra morder a fortuna
Pra decrescer a lua
Pra engolir os ovéns.
E cheira a bacalhau,
Entre batatas fritas
Que cada mão convida
A voltar para a nau.
E sorrindo-se então
Como a chuva nas quilhas
Fecham suas braguilhas
E arrotando se vão.

Pelo cais de Amsterdam
Marinheiros tem danças
Balançando suas panças
Em pança cortesã;
E eles giram e dançam
Como um sol escarrado
No som dilarerado
Do ranço acordeom.
Para ouvir mais um riso
O pescoço se vira
Até que sem aviso
O acordeom expira.
E o seu gesto se agrava,
E o olhar já se afia,
Cada um traz sua batava,
Em plena luz do dia.

Pelo cais de Amsterdam
Os marinheiros bebem,
Eles bebem, rebebem,
E rebebem inda mais.
Bebem para saudar
Às damas de Amsterdam
De Hamburgo e outros cais
Bebem à cortesã,
Que lhes deu o que tem
Que lhes deu o pudor
Por uns meros vinténs
E se o frasco acabou,
Seu nariz toca o céu,
Pra assoar nos astros.
Eles mijam e eu choro
A mulher infiel.
Pelo cais de Amsterdam
Pelo cais de Amsterdam

Amsterdam

Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d’Amsterdam
Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D’un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s’entendre rire
Jusqu’à ce que tout à coup
L’accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu’en pleine lumière

Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d’Amsterdam
De Hambourg ou d’ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d’Amsterdam
Dans le port d’Amsterdam.

Um burguês

Com o peito em pleno ardor
E os olhos sobre o mel
Num grande bar da São João
Com meu amigo Jô
E meu amigo Zé
Fomos beber nossos vintão.
O Jô se vestiu de Voltaire
José foi de Don Juan
E eu, eu, para aparecer
Eu, bem, eu me vesti de moi.
E quando à meia-noite vem tabeliães
Saindo do hotel do “Bom Faisão”
Mostramos nosso cu, num ato de bom tom
Nesta canção:

Um burguês é como um porcão:
Ao envelhecer, vai fazendo merda
Um burguês é como um porcão:
Ao envelhecer, vai fazendo merda

Com o peito em pleno ardor
E os olhos sobre o mel
Num grande bar da São João
Com meu amigo Jô
E meu amigo Zé
Fomos beber nossos vintão.
Voltaire dançava igual bedel
E Don Juan não teve afã
E eu, eu, por mais aparecer,
Vinha chapado que nem moi.
E quando à meia-noite vem tabeliães
Saindo do hotel dos “Três Faisões”
Mostramos nosso cu, num ato de bom tom,
Nesta canção:
.
Um burguês é como um porcão
Ao envelhecer, vai fazendo merda
Um burguês é como um porcão
Ao envelhecer, vai fazendo merda

Com o peito em plena dor
E os olhos para o céu
No bar do grande hotel do “Bom Faisão”
Com o doutor Jojô,
Com o doutor José,
Em meio a outros tabeliães
O Jô fala de Voltaire
E José de Don Juan,
E eu, eu sempre mais a aparecer
Eu ainda falo de moi.
E quando saio à meia-noite, ó bom doutor,
Em frente a um bar da São João,
Jovens sem direção nos mostram seus bumbuns
Numa canção:

Um burguês é como um porcão:
Ao envelhecer, vai fazendo merda.
Um burguês é como um porcão:
Ao envelhecer, vai fazendo

Les Bourgeois

Le cœur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l´ami Jojo
Et avec l´ami Pierre
On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire
Et Pierre pour Casanova
Et moi, moi qui étais le plus fier
Moi, moi, je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l´hôtel des “Trois Faisans”
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant :

Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient bête
Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient…

Le cœur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l´ami Jojo
Et avec l´ami Pierre
On allait brûler nos vingt ans
Voltaire dansait comme un vicaire
Et Casanova n´osait pas
Et moi, moi qui restais le plus fier
Moi j´étais presque aussi saoul que moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l´hôtel des “Trois Faisans”
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant :

Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient bête
Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient…

Le cœur au repos
Les yeux bien sur Terre
Au bar de l´hôtel des “Trois Faisans”
Avec maître Jojo
Et avec maître Pierre
Entre notaires on passe le temps
Jojo parle de Voltaire
Et Pierre de Casanova
Et moi, moi qui suis resté l´plus fier
Moi, moi je parle encore de moi
Et c´est en sortant vers minuit, Monsieur le Commissaire
Que tous les soirs, de chez la Montalant
De jeunes peigne-culs nous montrent leur derrière
En nous chantant :

Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient bête
Les bourgeois, c´est comme les cochons
Plus ça devient vieux, plus ça devient…

Não me deixes mais

Não me deixes mais,
Vamos esquecer
Tudo de esquecer,
Que não volta mais,
Esquecer o instante
O que nos doeu,
O que se perdeu
Na busca incessante,
Esquecer a idade
Que matou talvez
Entre os seus “porquês”
A felicidade
Não me deixes mais
Não me deixes mais

Não me deixeis mais
E eu te ofertarei
A joia a cair
Que chove em país
Que está sem chover.
Eu cavarei o chão
Até me exaurir
Só pra te cobrir
De luz e paixão.
Farei um rincão
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E tu reinarás
Não me deixes mais
Não me deixes mais

Não me deixes mais
Eu te inventarei
Falas de non-sens
Tu entenderás,
Eu te contarei
Dos amantes dois
Que muito depois
Voltam a se beijar
Eu te narrarei
A história do rei
Que morreu sem paz
Sem poder te ver
Não me deixes mais
Não me deixes mais

Já aconteceu
Renascer o fogo
De algum vulcão
Depois que morreu.
Também já se viu
O queimado chão
Produzir mais grão
Que o melhor abril
Quando a tarde cai
Pro céu flamejar
Não vão se tocar
Rubro e negro jamais
Não me deixes mais
Não me deixes mais
Não me deixes mais
Não me deixes mais

Não me deixes mais
Não vou mais mais chorar
Não vou mais falar
Só vou me esconder
Para te observar
Dançar e sorrir
Para te escutar
Cantar e então rir
Só me deixa vir
Sombra da tua sombra
Sombra da tua mão
Sombra do teu cão
Não me deixes mais
Não me deixes mais
Não me deixes mais
Não me deixes mais

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas,
Il faut oublier,
tout peut s’oublier
qui s’enfuit déjà.
Oublier le temps
des malentendus
et le temps perdu
a savoir comment.
Oublier ces heures
qui tuaient parfois
a coups de pourquoi
le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Moi je t’offrirai,
des perles de pluie
venues de pays
où il ne pleut pas
Je creusrai la terre
jusqu’aprés ma mort
pour couvrir ton corps
d’or et de lumière
Je f’rai un domain
où l’amour sera roi
où l’amour sera loi
et tu sera reine.
Ne me quitte pas
Ne quitte pas

Ne me quitte pas,
je t’inventerai
Des mots insensés
que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s’embraser
Je te racontrai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l’ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

(jacques brel, trad. guilherme gontijo flores)

ps: pra quem não fica na primeira saideira, este vídeo de “l’ivrogne”:

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “jacques brel (1929-78)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s