poesia, tradução

O Cântico dos Cânticos: vindo de Haroldo de Campos

haroldoOitenta e quatro anos faria hoje Haroldo de Campos  (1929 — 2003). O poeta-crítico-tradutor dispensa maiores apresentações, acredito, e basta uma menção ao seu envolvimento com o Concretismo, à sua grande obra Galáxias e à extensa lista de autores que ele traduziu (como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Maiakóvski…) para se ter uma noção da grandiosidade do seu legado. O que eu gostaria de celebrar hoje, porém, é uma faceta, talvez menor ou menos conhecida, da atuação do autor, que foi o seu interesse pela tradução bíblica – mais especificamente do chamado Antigo Testamento, ou, entre os judeus, de Tanakh (תנך).

A Tanakh é uma reunião dos 3 livros canônicos da Bíblia segundo o judaísmo, composta pela Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), os Nevi’im (“profetas”: Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Os Doze) e os Ketuvim (“escritos”: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Ezra – Neemias e Crônicas), daí o acrônimo TaNaKh. Dos textos bíblicos que fisgaram a atenção de Haroldo, temos o Gênesis (cujo nome em hebraico é בראשית, Bereshit, Bereishit ou Bere’shith, literamente “no princípio”, que dá título do volume de Campos: Bere’shith: A Cena da Origem) e o Eclesiastes (cujo nome em hebraico é קוהלת, Qohélet, o nome da figura que enuncia as declarações bombásticas como a de que tudo é vaidade, daí Qohélet: o Que Sabe). A esses dois volumes se soma um terceiro, Éden: Um Tríptico Bíblico (pela editora Perspectiva, que também publicou os anteriores) publicado postumamente, organizado por Trajano Vieira, com tradução de duas cenas do Gênesis (o episódio da Queda e de Babel) e do Cântico dos Cânticos, acompanhadas por ensaios introdutórios e notas de Haroldo.

É desnecessário eu comentar (mas irei comentar de qualquer modo… pela ênfase) que a tradução de Haroldo, ao contrário do desenvolvido por outros pensadores célebres da tradução bíblica, como Eugene Nida, não tem propósitos religiosos ou evangelizadores… em vez disso, há um enfoque sobre a Tanakh como um texto poético, o que aproxima Haroldo do poeta, tradutor e pensador francês Henri Meschonnic (também ele tradutor da Bíblia) nas suas preocupações com ritmo e escolha vocabular, de modo a refletir paranomásias e outros jogos de palavras que povoam o original em hebraico. Adão, por exemplo, é um calque de adam, (אדם) que significa literal e meramente “homem” ou “pessoa” e deriva de adamah, (אדמה) “terra” – e, lembremos, o elo entre o homem e a terra vai desde o momento em que Elohim o cria a partir do pó (Gen., 2:7) até a declaração de que “és pó, ao pó retornarás” (Gen., 3:19), efetivamente circundando a existência humana através de uma construção etimológica que é típica do discurso poético.

Dentre o que Haroldo já traduziu do hebraico, escolhi um trecho (partes 1 e 2) do seu “Cântico dos Cânticos” (Shir Hashirim, שיר השירים) para compartilhar abaixo. Parte da terceira seção da Tanakh, os “Escritos”, o “Cântico” é uma poema erótico-amoroso, cuja autoria é atribuída (mais em imaginário do que de fato) a Salomão. Diz Haroldo no ensaio introdutório que o antecede em Éden:

“Literalmente, trata-se de um poema de amor semítico, um conjunto de cantos eróticos, talvez com função de epitalâmio, sobre cuja superfície textual, tradicionalmente, enredam-se, sutis, as exegeses alegóricas.

Desde a que o vê como a celebração do amor de Elohim por Israel e seu povo (no campo hebraico-rabínico), ou, correlatamente (no domínio cristão), do amor de Cristo pela Igreja e pela cristandade, até aquela que, em pauta antropológico-cultural, o interpreta como uma transposição judia do culto ritual da fertilidade (Tamuz-Adônis, o deus que ressuscita)”

shir-hashirim

Haroldo emprega em sua tradução o caractere § para indicar pausas, segundo um sistema de ritmo de leitura que ele mesmo desenvolveu ao longo das traduções anteriores. O sentido deles é que quanto mais desses caracteres (§) estiverem reunidos, maior a pausa. Logo, §§§ significa uma pausa longa, o “principal disjuntivo correspondente à cesura”, §§ são pausas menores, mas que marcam acentos importantes ainda, e § indica “pausas mínimas”.

Por propósitos de comparação, reproduzo abaixo também uma tradução, feita igualmente a partir do hebraico original, mas de caráter mais semântico, puramente “profissional”, como diria Haroldo, desse mesmo trecho, em que fica marcada, inclusive, a interpretação rabínica da alegoria entre a moça como Israel e o amado como Deus/Elohim. Essa tradução é de autoria de David Godorovits e Jairo Fridlin, presente na edição da Bíblia Hebraica da editora Sêfer.

Quem se interessar pelo assunto, pode ainda conferir aqui o texto original em hebraico clicando aqui (com tradução para o inglês, versículo a versículo) e um artigo interessante de Fabiano Venturotti sobre as traduções bíblicas de Haroldo de Campos disponível aqui.

Por fim, aproveitando a temática da tradução bíblica, o poeta capixaba Waldo Motta tem uma belíssima tradução poética do início do Gênesis, “בראשית – BeREShYTh – RECREAÇÃO”, disponível online num post de 13/05/11 no seu blog, bem como na revista Literatura e Sociedade, da USP, n. 13, a partir da p. 264, disponível aqui.

Mazel-tov, Haroldo!

Adriano Scandolara

           

Cântico dos Cânticos

I

1.
Cântico dos cânticos §
vindo de Salomão

2.
Ele me beijará §
com beijos de sua boca §§
pois melhor teu amor §
que o sabor do vinho

3.
O olor §
dos teus óleos é bom §§
óleo se derramando o teu nome §§§
É assim que § se amam os jovens

4.

Arrasta-me §
atrás de ti corramos §§§
O rei me conduziu § a seus recintos §
jubilemos rejubilemos § e ti §§
celebraremos o teu amor § melhor que o vinho §§
como andam certas § aquelas que te amam

5.

Sou negra § e beleza pura §§
filhas de Jerusalém §§§
Como as tendas de Cedar a escura §§
como as colgaduras §
de Salomão

6.
Não me renegueis §
porque sou negra §§
foi o sol § que me queimou a tez §§§
Os filhos de minha mãe de mal comigo §
deixaram-me a sós § guardando as vinhas §§
nem a minha vinha § guardei

7.
Conta-me §
bem-amado § de minh’alma §§
onde vai teu pastoreio? §§
onde § te escondes para a sesta do meio-dia? §§§
Para que eu não seja § a mulher de véu §§
ao léu atrás § das ovelhas dos teus parceiros

8.
Se não o souberes § por ti mesma §§
tu a mais bela § entre as mulheres §§§
Segue por ti mesma § o rastro do rebanho §
e vai pastorear § teus cordeiros §§
junto ao remanso dos pastores

9.
A uma égua § entre as bigas do Faraó §§
já te comparei § minha amiga

10.
Belas tuas faces § entre brincos circulares §§
belo teu colo § entre colares

11.
Brincos de ouro § faremos para ti §§
com § respingos de prata

12.
Ao rei § em seu divã §§
meu aroma de nardo § perfuma

13.
Uma bolsa § de mirra §
meu amado § é para mim §§
entre meus peitos § durma

14.
Um racimo § de cipros §
meu amado § é para mim §§
por entre as vinhas § de En-Gadi

15.
Como és bela § minha amiga §
como és bela § teus olhos quase pombas

16.
Como és § belo meu amado §
como és meigo §§
nosso leito § feito de folhas verdes

17.
Cedros § as colunas de nossa casa §§
ciprestes § as vigas das paredes

II

1.
Eu § uma anêmona das várzeas de Sharon §§
uma rosa § das planuras

2.
Qual uma rosa § entre cardos silvestres §§
tal minha amada § entre as mulheres

3.
Qual macieira § entre árvores do bosque §§
tal meu amado § entre os homens §§§
Por sua sombra § ansiei e abriguei-me §§
e seu fruto § dulçor em minha boca

4.
Ele me levou § para o recinto do vinho §§
e seu pendão sobre mim § o amor

5.
Vigorai-me § com tortas de uva §§
revigorai-me § com polpa de maçãs §§§
Eu § que adoeço de amor

6.
Seu braço esquerdo § sob minha cabeça §§
e seu braço direito § abraço que me estreita

7.
Eu vos conjureu § filhas de Jerusalém §
pelas corças §§ ou § pelos gamos campestres §§§
Ninguém desperte § ninguém esperte § o amor §
antes que ao amor pareça bem

8.
A voz do meu amado §
ei-lo que vem §§§
Ele galga § o alto das montanhas §§
ele salta § por cima das colinas

9.
Semelha meu amado § o cervo §§
ou § a cria da cabra montesa §§§
É ele que está presente § por trás de nossas paredes §§
dele o olho que vela § pelas janelas §§
dele o olho que brilha § pelas treliças

10.
Meu amado falou-me § e disse §§§
Levanta-te § amada amiga §§
levanta-te § e vem comigo

11.
Repara que o inverno § já passou §§§
A chuva parou § foi-se embora

12.
As flores agora § afloram no país §§
a hora das aves canoras § soou aqui §§§
Já se ouve em nosso país § o arrolo da pomba-rola

13.
A figueira § adoçou seus frutos verdes §§
e os vinhedos em flor § oferendam aroma §§§
Levanta-te § amada amiga §
levanta-te § e vem comigo

14.
Minha pomba § nos nichos do penedo §
nas frinchas do rochedoo §§
dá-me que eu veja § teu rosto §
dá-me que eu ouça § tua voz §§§
Tua voz quase mel § uma graça teu rosto

15.
Capturai para nós § as raposas §
as raposas pequeninas § elas arruínam as vinhas §§§
E nossas vinhas § estão em flor!

16.
Meu amado será comigo § eu estou com meu amigo §§
que pastoreia § entre rosas

17.
Antes que assopre § o dia §§
e se afugentem § as sombras §§§
Volta como quem semelha § meu amado § o cervo
ou § a cria da cabra montesa §
sobre as colinas em fenda

(tradução de Haroldo de Campos)

           

Cântico dos Cânticos

1

1 O cântico dos cânticos, de Salomão [Shelomo]: 2 Que Ele me beije com os beijos da Sua boca, porque os Teus amores são melhores do que o vinho. 3 Teus unguentos são bons para cheirar; o TeuNome é como o unguento derramado, e por isso as virgens Te amam. 4 (Israel:) Leva-me, correremos atrás de Ti! O Rei me introduziu nas Suas câmaras; em Ti nos regozijaremos e nos alegraremos, e dos Teus amores nos lembraremos mais do que do vinho; os retos Te amam!

5 Sou morena, porém aprazível, ó filhas de Jerusalém (as nações), como as tendas de Kedar, como as cortinas de Salomão. 6 Não repareis o fato de eu ser morena, porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe se indignaram contra mim, puseram-me por guarda de vinhedos; o meu vinhedo, que me pertence, não guardei. 7 Dize-me, ó Tu, a quem a minha alma ama, onde apascentas o Teu rebanho, onde o recolhes ao meio-dia, pois por que razão eu seria como a que se cobre ao pé dos rebanhos de Teus companheiros? 8 (Deus:) Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas das ovelhas e apascenta tuas cabras junto às moradas dos pastores!

9 Aos cavalos dos carros do Faraó te comparo, ó, Minha amiga! 10 Tuas faces são agradáveis entre os teus cordões de enfeites; o teu pescoço com os colares. 11 Cordões de enfeites de ouro te faremos com pontos de prata. 12 (Israel:) Enquanto o Rei está assentado à Sua mesa, o meu nardo dá o Seu cheiro. 13 O meu Amado é para mim um ramalhete de mirra; dormirá entre os meus peitos. 14 O meu Amado é para mim um cacho de chipre nos vinhedos de En-Guedi.

15 (Deus:) Eis que é formosa, ó Minha amiga, eis que és formosa! Os teus olhos são como os das pombas! 16 (Israel:) Eis que és formoso e agradável, ó meu Amado! O nosso leito é frutífero. 17 As vigas da nossa casa são de cedro, os nossos móveis são de cipreste.

2

1 Eu sou a rosa de Sharon, o lírio dos vales! 2 (Deus:) Como o lírio entre os espinhos, assim é a Minha amiga entre as filhas! 3 (Israel:) Como a macieira entre as árvores do bosque, assim é o meu Amado entre os filhos! Desejo muito a Sua sombra, e debaixo Dela me assento; e o Seu fruto é doce ao meu paladar. 4 Levou-me à sala do banquete, e o amor era o Seu estandarte sobre mim. 5 Sustentai-me com passas, forrai o meu leito com maçãs, porque desfaleço de amor! 6 Que a Sua esquerda esteja abaixo da minha cabeça, e que a Sua direita me abrace. 7 Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém (as nações), pelas corças e gazelas do campo, que não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira.

8 Esta é a voz do meu Amado: ei-Lo aí, que já vem saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas. 9 O meu Amado é semelhante ao corço ou ao filho dos veados; eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, reluzindo pelas grades. 10 O meu Amado responde e me diz: “Levanta-te, Minha amiga, ó Minha formosa, e vem! 11 Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou e se foi. 12 As flores se mostram na terra, o tempo de cantar chega e a voz da rola se ouve em nossa terra. 13 A figueira brotou os seus figuinhos e as vides em flor dão o seu cheiro; levanta-te, Minha amiga, ó Minha formosa, e vem!

14 Ó Minha pomba, que andas pelas fendas das rochas, no oculto dos degraus! Mostra-Me a tua face, faze-Me ouvir a tua voz, porque a tua voz é agradável, e a tua face, aprazível!

15 Segurai para nós as raposas, as raposinhas, que fazem mal aos vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor”. 16 O meu Amado é meu, e eu sou Dele, Aquele que apascenta entre os lírios! Até que sopre o dia e fujam as sombras; volta, meu Amado! Faze-Te semelhante ao corço ou ao filho dos veados sobre os montes longínquos e divididos.

(tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin)

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