poesia

leonardo fróes (1941)

leonardo fróes por regina lustosa

leonardo fróes (itaperuna – rj, 1941) é uma dessas figuras liminares da poesia brasileira, enfim, poeta lido por poetas. autor de mais de dez livros, cuja imensa maioria é de poesia (que está reunida, de 1968 a 1998, no volume vertigens, que saiu pela ed. rocco), além de um estudo sobre fagundes varella (um outro. varella, de 1989) & vários volumes de traduções, de prosa e poesia, de shelley & goethe a faulkner & virginia woolf.
sua poesia, apesar de uma tendência razoavelmente constante para um estilo aparentemente simples, no limiar do prosaico (coisa que se inverte em sua prosa, no limiar da poesia), segue sob o signo da variedade, desde poemas colados na experiência com deformações lexicais até a quase-prosa de poemas fábula, passando pelo trabalho de tradução como criação de poemas próprios (como em clones do inglês, de 2005).
optei aqui por mostrar três das suas várias facetas: no primeiro poema, temos um registro ensaístico-filosófico sobre a ideia de deus, nas manifestações mais prosaicas da existência (aliás, o cotidiano & o banal são dois lugares comuns da sua poética); no segundo, uma narrativa com fundo histórico, ao modo de um romance de redondilhas maiores sem rimas, com o final cômico que o faz entrar para a rol de poemas-piadas, mas que também pode ser visto, ao fim & ao cabo, como fábula moral; no terceiro & último, uma tradução libérrima de poesia chinesa do séc. viii.

guilherme gontijo flores

Justificação de deus

o que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir contra a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.

O xerife e os guajajaras
(No interior do Maranhão)

Os homens do Romeu Tuma,
prepotentes e embalados,
foram dar uma batida
na tribo dos guajajaras.
Queriam localizar,
pra acabar de vez com ela,
a plantação de maconha
que, segundo haviam dito,
esses índios cultivavam
no sertão do Maranhão.
Lá na aldeia de Coquinhos
os homens bravos do Tuma
já chegaram dando tiros,
matando cachorros mansos
que apenas comiam pulgas.
Curumins apavorados
corriam que nem cutia
da polvorosa imprevista,
enquanto cunhãs e velhas,
aflita, chorava sem
entender o que é que havia.
“De que se trata?”, diziam
na língua dos guajajaras:
“Que querer aqui fazer
os ruins caramurus?”
Os de fora, dos seus carros
barulhentos que nem tanques
numa ofensiva de guerra,
iam só mandando bala
por entre as choças tranquilas,
furando bambus e sacos,
vasilhames e bacias
com pontaria certeira.
Mas o espírito das matas
(cinco séculos de fúria
sob contínuos massacres)
de repente correu solto
no meio dos guajajaras.
Armando-se de cacetes,
o desespero do orgulho
e a valentia das onças,
os índios antes perplexos
com a louca invasão dos brutos
pularam dando pauladas,
de peito nu e aberto,
contra os tiros da polícia.
E deram tanto, mas tanto,
foram tantas cacetadas
de toda uma raça extinta,
era tão justa a refrega
dos caboclos de Tupã,
tão fraternos e preciosos
os golpes do contra-ataque,
que não houve jamais como
o pelotão resistir.
Seus carros antes possantes
ficaram despedaçados
e nenhum tira escapou:
todos levaram porrada.
Sem armas nem munições,
que os índios depois tomaram,
a polícia foi em cana
metendo o rabo entre as pernas.
Com o bando da lei detido
numa palhoça de varas,
mais pauladas foram dadas,
dessa vez como castigo,
por um ancião da tribo
e o cadáver do cachorro
(nosso irmão e nosso espelho)
assassinado por eles
a seguir foi esfregado
na cara de cada um.
De Brasília, o Romeu Tuma
com seus capangas mais fortes
foi lá conversar com os índios
para soltar os reféns.
Encontrou os guajajaras
preparados para a guerra
com suas caras pintadas.
Talvez não tivesse visto,
mas ventos elementares
faziam tremer a terra
por toda a Barra do Corda.
Sob o calor dos coqueiros,
cocares de antigas lutas
na glória da resistência
faziam gestos simbólicos.
Por trás de cada cunhã
com riscos na face triste,
foram hordas de fantasmas
tomados de amor da terra
que o Romeu Tuma encontrou.
Bom de papo, bem treinado
nas rodinhas de Brasília
depois de muita conversa
conseguiu a liberdade
dos subalternos detidos.
Mas as armas dos seus homens
os guajajaras não deram.
E agora, depois de tanta
estripulia e arbítrio,
impõem uma condição
para entregá-las aos donos:
que os brancos também devolvam,
por estar em suas terras,
o povoado já famoso
e bem, enfim, guajajara
pelas ressonâncias do nome
que é São Pedro dos Cacetes.

Maluco cantando nas montanhas
(Baseado em Po Chü-i, China, A.D. 772-846)

Todo mundo nesse mundo tem sua fraqueza.
A minha é escrever poesia.
Libertei-me de mil laços mundanos,
mas essa enfermidade nunca passou.
Se vejo uma paisagem bonita,
se encontro algum amigo querido,
recito versos em voz alta, contente
como se um deus cruzasse em meu caminho.
Desde o dia em que me baniram para Hsün-yang,
metade do meu tempo vivi aqui nas montanhas.
Às vezes, quando acabo um poema,
subo pela estrada sozinho até a Ponta do Leste.
Nos penhascos, que estão brancos, me inclino:
puxo com as mãos um galho verde de cássia.
vales e montanhas se espantam com meu louco cantar:
passarinhos e macacos acorrem para me espiar,
eu que, temendo me tornar para o mundo motivo de chacota,
tinha escolhido esse lugar, aonde os homens não vêm.

(poemas de leonardo fróes)

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