poesia

alberto bresciani

nascido no rio de janeiro, em 1961, o poeta alberto bresciani  vive em brasília, onde é ministro do tribunal superior do trabalho. lançou até o momento apenas um belo livro de poemas, intitulado incompleto movimento (ed. josé olympio, 2011), como sinal da estirpe dos bissextos; uma poesia sutil, que varia do abstrato ao excessivamente carnal em instantes. escreve no blog coletivo nóstres.

os poemas abaixo são inéditos & fazem parte do segundo livro que bresciani vem preparando sob o título de margem de erro.

guilherme gontijo flores

BEIJA-FLOR

Dedos cortados sobre a mesa
cinco cactos presos aos pés

Volto os olhos Ainda posso
salto da dor abrindo caixas

Dos escuros e das farpas
liberto tuas asas, tulipas

Linhas claras suturam
fendas ou rompem paredes

O sol no chão no ventre
aprendo a contornar arestas

e caminho sobre os cacos
evitando caracóis em trânsito

− sem armas
às vezes asco
outras lábio

VERSO E ANVERSO

Sobre o penhasco
o cão hirto
fixa o barco
no traço do mar

Lamenta? Celebra?

Ele o homem
vira-se e vê

um cão igual
no barco
mira o outro

Foge? Escolhe?

Não há tempo
ou resposta

Ele
o homem
é o cão no penhasco
é também
o cão
no barco

“BRIGHT STARS”

Pensando na palavra harmonia
pareceu-me que caía muito bem
para as duas mulheres de meia-idade
sentadas frente a frente
– as mãos entrelaçadas –
no centro do restaurante

Indiferentes distraídas ou ausentes
dos olhares que as dissecavam
talvez esquecessem
crateras trincheiras cercos

enquanto submersas
fantasiavam – como no extremo do poema
ou como bailarinas já sem fôlego
dançando em ponta –
o uso superlativo de seus sexos
logo após a sobremesa

VLAD

Vlad está ali
com seus olhos de predador
como os olhos da tia amarga
que me desejava má sorte

Trouxe a caixa de tortura
um container de coisas de fazer morte
lenta ou rapidamente (efeitos especiais
lanças cimitarras splashes de sangue)

Tenho medo de Vlad
mas se ele desafia e desperta ódio
também me inflama ao avesso
amo tanto quanto odeio

(ele teme o amor
não tem não teve
é feio)

A luta perdura e é árdua vai por dias
e a cada manhã Vlad perde o passo
Eu − preso à flor −
arranco-lhe as armas

Tenho garantias e vantagens
o céu azul em Brasília ou Barcelona
os ombros dela a carne o desejo
Juliet seus espíritos e cabelos em fogo

Kali com mil braços
acendendo os sons do corpo
mais do que abraço
aperto de cobra

Vlad não sabe que a cada golpe
reflui em mim
quebrado dos ossos
a linfa salamandra
e ainda ali
renasço

(poemas de alberto bresciani)

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