crítica, poesia

“ximerix” (2013), de zuca sardan

zuca

em tempos de poesia conceitual, de explorações conscientes dos limites da linguagem, frases como “aqui se explodem as fronteiras entre ab“, “a linguagem, posta em cheque na sua função x, &c.”, “num processo de autoironia que aniquila/dessacraliza a poesia tradicional”, ou uma avaliação positiva pela quebra de expectativas quanto à poesia, ou à linguagem, ou ao que seriam temas e modos dignos de poesia no novo milênio. enfim, constatações que, por si só, me fazem ficar com mais vontade de ler wittgenstein ou heidegger do que poesia (num dia de muita infelicidade, penso até em folhear hjelmslev).

bom, tudo isso também pode ser dito sobre a obra de zuca sardan (rio de janeiro, 1933): em geral categorizada como poesia, ela é na verdade, uma fusão entre quadrinhos, piadas, poemas, recursos visuais, ortográficos, caligráficos, colagens de imagens, colagens de clichês, linguagens &c., talvez uma conclusão daquilo que sardan calhou de ser na sua vida diária de arquiteto por formação, diplomata de exercício, além de desenhista & poeta. é bem uma macarronada literária o que podemos conferir nos seus primeiros livros, cadeira de bronze (1957), aqueles papéis (1975), ás de colete (1979), almanach sportivo (1981) osso do coração (1993) & babylon (2004) para ficarmos em apenas alguns, onde a forma artesanal toma conta do livro, mesmo quando publicado por uma editora maior ou comercial, como a ed. unicamp &  cia. das letras. por isso, claro, ele aparece na lista dos poetas marginais, “patrono dos malditos”, ou, como ele mesmo se define agora, “veteraníssimo vate”, que busca suas fontes nos experimentos non-sense de jarry, ou satie.

zuca capaagora acabou de sair mais um livro dessa figura octogenária, ximerix: cinco cadernos de remix rapz kolax, pela cosac naify. o título do livro já anuncia seu modo de composição, a remixagem, a colagem, o rap, devidamente desfigurados, seja pela grafia (onde arcaísmos, ruídos, oralidades & deformações tomam conta do texto), seja pelo recorte abrupto (diversos poemas resultam no claro estado de inacabamento, enquanto, por outro lado, são retomados por outros poemas, também inacabados, formando uma tessitura/textura em frangalhos, rapsódias emaranhadas), ou mesmo pela intromissão do acaso (como nos 4 últimos cadernos). com isso, aquelas frases-tipo que abrem o post podem certamente todas entrar na categorização de ximerix, com um dado de ressalva: a quebra constante, o fim das delimitações, a estranheza, o estranhamento, a perversão das regras &c., nada disso resulta necessariamente em livros que, de fato, prestem; enquanto ximerix presta, & presta pacas. porque, pra além do experimentalismo, ou do desvelamento da arbitrariedade, gratuidade, limitação, fascismo (como preferirem) da linguagem, zuca sardan ressuscita o humor, uma ressurreição que acontece dentro dos limites violentos da sátira, da sua intervenção política por meio do desbunde generalizado; é bem o que acontece nos últimos dois cadernos, intitulados “cassandra bolchevique” & “gazetta proleta”, onde tanto o capitalismo dos séculos xix a xxi quanto os movimentos socialistas & comunistas entram no processo cômico; no lugar do panfletário entra a crítica desmedida, o riso de momo, sobre todos, num novo reinado da desrazão pelo humor. (quem quiser um comentário crítico mais formal em sua análise, pode conferir o que disse flora süssekind sobre o livro, para a folha de são paulo.)

por isso, deixo logo abaixo um resultado do jogo dos jogos propostos pelo livro. como os quatro últimos cadernos  convidam o leitor a um lance de dados concreto – onde mallarmé vira melarmek – para designar a ordem da leitura (& portanto demonstrando que, apesar de narrativos, esses poemas não se submetem a qualquer ordenação cronológica) a partir de dois lances de dados. o primeiro determina a primeira série, e o segundo a outra, formando a numeração que seleciona o poema (cada caderno contém 36 poemas com os números dos dois dados 11, 12, 13, 14, 15, 16, 21, 22, etc., escrito cada um deles com 6 versos, fora casos ainda mais estranhos que fogem da regra).

fiz uns lances de dados online, & aqui saíram meus resultados:

do caderno dois: apothegmas alabastrinos [mallarmaico]

dados: 5 + 2 = 52

[A.52] Maquinola

Da Maquinola do Mundo
caia a Lua nas telhas
caia o Sol no paiol
as Estrelas no pomar
venha lá meu vermute
de bandeja gorducha…

dados: 6 + 2  = 62

[A.62] Diabo

Diabo te promete coisas
imperdíveis maravilhas
com raro tato e finesse
mas já sabes bom rapaz…
o que te acontece quando
o Anjo sopra o pistão

imagem da página 15

imagem da página 15

do caderno três: bustrofédon burlão [mallarmaico]

dados: 2 + 5 = 25

[B.25] Prometeu

Prometeu? Não devia…
Agora pois acorrentado
Prometeu e não cumpriu?
Merry levou Melarmek
pelo caminho das pedras

dados: 6 + 4 = 64

[B.64] Chinelas

Chinelas de cetim
dossel de veludo
emboscadas da Sorte
bolero, bolero fatal…
Musa Merry assoai
no lenço o focinho…

imagem da página 33

imagens das páginas 33 & 39

do caderno quatro: cassandra bolchevique [didascálico]

dados: 2 + 3 = 23

[C.23] Bailando

Consenza baila e canta
pra gáudio da torcida
deixa voar véu por véu
ao léu bailando se vai
da caverna da Sibéria
ao Teatro Bolshoi

dados: 1 + 1 = 11

[C.11] Cassandra

Viva a bola de Cristal!!
Barqueiros do Volga!!
Pangarés dos cossacos!!
Mujiques Bábuskas consultai
os progressivos cochichos
da Cassandra Bolchevique!!

zuca sardan lê trechos de ximerix

do caderno cinco: gazetta proleta [didascálico]

dados: 1 + 1 = 11

[D.11] Colyseo

A luta entre o proleta
e a máquina começa
com o proleta no ataque
a máquina sofre mas
é de ferro e o proleta
cai por fim esbofado

dados: 4 + 4 = 44

[D.44] Juventude

Com Santa Sofia vamos ter
gulache stroganof à beça
vodka caviar todo dia
a Juventude no campo
trabalhando sussurra Benjamin
Que bela mocetona musculosa!…

(poemas & imagens de zuca sardan)

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