poesia, tradução

nicanor parra (1914)

nicanor parra nasceu em 1914 em san fabián de alico, no chile. sua obra é das mais famosas na literatura chilena (ganhou o prêmio cervantes em 2011), mas reparei, faz pouco tempo, que ainda temos poucas traduções da sua poesia. por isso, optei por fazer esta seleção de traduções que encontrei & apresento também traduções minhas.

todos os poemas abaixo são extraídos do livro poemas y antipoemas, de 1954. um marco na sua carreira e na poesia chilena. trata-se do segundo livro de parra, depois de cancionero sin nombre (1937), um primeiro de pouco interesse e tom mais romântico. assim, com uma re-estreia tardia, aos 40 anos, os antipoemas de parra infundiram uma dessacralização radical da poesia, um tom simples, próximo à fala, avesso ao cantabile, que, neste livro vai crescendo também na força da sua autoironia. com isso, parra pode incorporar as tradições literárias das figuras canônicas de gabriela mistral e pablo neruda, mas desbancava a pompa e a seriedade da poesia laureada. não é à toa, penso, que a poesia de neruda a partir dos fins dos anos 50 passa por um desinflamento significativo, como nas odas elementales – parra tinha invertido a situação, já havia tomado o cânone.

guilherme gontijo flores

Sinfonia do Berço

Uma vez andando
por um parque inglês
com um angelorum
sem querer deparei,

Bom dia, disse,
e eu o contestei,
êle no castelhano,
mas eu em francês

Dites moi, dom anjo,
Comment va monsieur.

Ele me deu a mão,
eu o peguei pelo pé:
há que ver, senhores,
como um anjo é!

Fátuo como o cisne,
frio como um trilho,
gordo como um pavão,
feio como você.

Assustou-me um pouco
mas não me mandei.

Busquei-lhe as plumas
plumas encontrei,
duras como a dura
casca do peixe.

Melhor seria ter
encontrado o Lúcifer!

Chateou-se comigo,
atirou-me um revés
com sua espada de ouro,
mas eu me agachei.

Anjo mais absurdo
não voltarei a ver.

Morto de riso
disse good bye sir,
siga teu caminho,
que passes bem,
que te pise um auto,
que te mate um trem.

Já se acabou o conto,
um, dois, três.

(trad. de antonio miranda)

Sinfonía de cuna

Una vez andando
Por un parque inglés
Con un angelorum
Sin querer me hallé.

Buenos días, dijo,
Yo le contesté,
Él en castellano,
Pero yo en francés.

Dites moi, don angel.
Comment va monsieur.

Él me dio la mano,
Yo le tomé el pie
¡Hay que ver, señores,
Cómo un ángel es!

Fatuo como el cisne,
Frío como un riel,
Gordo como un pavo,
Feo como usted.

Susto me dio un poco
Pero no arranqué.

Le busqué las plumas,
Plumas encontré,
Duras como el duro
Cascarón de un pez.

¡Buenas con que hubiera
Sido Lucifer!

Se enojó conmigo,
Me tiró un revés
Con su espada de oro,
Yo me le agaché.

Ángel más absurdo
Non volveré a ver.

Muerto de la risa
Dije good bye sir,
Siga su camino,
Que le vaya bien,
Que la pise el auto,
Que la mate el tren.

Ya se acabó el cuento,
Uno, dos y tres.

Autorretrato

Considerem, garotos
Esta língua roída pelo câncer:
Sou professor nalguma escola obscura
Perdi a voz nas aulas, entre as classes.
(Depois de tudo ou nada
Quarenta horas semanais me invadem.)
O que acham desta cara esbofetada?
Verdade, inspira lástima de olhar-me!
E o que dizer deste nariz comido
Pelo cal deste giz mais degradante.

Em matéria de olhos,  três metros
Não reconheço nem a própria mãe.
O que me afeta?  – Nada.
Eles se arruinaram pelas classes.
A dura luz, o sol,
A venenosa lua miserável.
E tudo, para quê
Para ganhar um pão imperdoável
Duro que nem a cara do burguês.
E com perfume e com sabor de sangue.
Para que nós nascemos como homens
Se uma morte animal por fim nos cabe?

Graças ao excesso de trabalho, às vezes
Vejo formas estranhas se elevarem,
Ouço corridas loucas,
Risos, conversas criminais nos ares.
Observem minhas mãos
Minhas bochechas brancas de cadáver,
Meus cabelos escassos e caducos,
As negras rugas infernais que nascem!
E no entanto eu fui como vocês,
Jovem, dos ideais mais belos, grandes,
Sonhei fundir o cobre
Então limar as faces do diamante:
Aqui estou agora
Por trás desta pousada insuportável
Embrutecido pela cantilena
Dessas quinhentas horas semanais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Autorretrato

Considerad, muchachos,
Este gabán de fraile mendicante: 
Soy profesor en un liceo obscuro, 
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales). 
¿Qué les dice mi cara abofeteada? 
¡Verdad que inspira lástima mirarme! 
Y qué les sugieren estos zapatos de cura 
Que envejecieron sin arte ni parte.

En materia de ojos, a tres metros 
No reconozco ni a mi propia madre. 
¿Qué me sucede? -¡Nada!
Me los he arruinado haciendo clases: 
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo ¡para qué!
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con olor y con sabor a sangre.
¡Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan.
¡Estas negras arrugas infernales!
Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.

Advertência ao leitor

O autor não responde pelos incômodos que possam causar seus escritos.
Apesar dos pesares
o leitor deverá dar-se sempre por satisfeito.
Salebius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade
será que respondeu por sua heresia?
E se chegou a responder, como é que fez!
Em que forma desbaratada!
Apoiando-se em que cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria publicar-se:
a palavra arco-íris não aparece nele em parte alguma,
menos ainda a palavra dor,
a palavra torquato.
Cadeiras e mesas é que aparecem a granel,
Ataúdes!, utensílios de escritório!
o que me enche de orgulho
porque, no meu modo de ver, o céu está caindo aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
porque é uma obra difícil de encontrar-se:
mas o Círculo de Viena foi dissolvido faz tempo,
seus membros dispersaram sem deixar rastro
e eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

Minha poesia pode perfeitamente não levar a parte alguma:
“os risos deste livro são falsos!”, argumentam meus detratores,
“suas lágrimas, artificiais!”

“Em vez de suspirar, nestas páginas a gente boceja”.
“Dá patadas como criança de colo”.
“O autor faz-se entender pelos espirros.”
De acordo: convido-os a queimar vossas naves,
como os fenícios pretendo criar meu próprio alfabeto.

Então, por que molestar o público?, perguntarão os amigos leitores:
“Se o próprio autor começa desprestigiando seus escritos,
que se pode esperar deles!”
Cuidado, eu não desprestigio nada
ou, melhor dizendo, exalto meu ponto de vista,
vanglorio as minhas limitações
ponho nas nuvens minhas criações.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam suas próprias cabeças
os cadáveres de seus pais
(cada pássaro era um verdadeiro cemitério voador).

No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar esta cerimônia
e eu enterro minhas plumas na cabeça dos senhores leitores!

(trad. de antônio miranda)

Advertencia al lector

El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese.
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho. 
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo! 
¡En qué forma descabellada! 
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte, 
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel, 
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio! 
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein 
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años, 
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella 
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
“¡Las risas de este libro son falsas!”, argumentarán mis detractores
“Sus lágrimas, ¡artificiales!”
“En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza”
“Se patalea como un niño de pecho”
“El autor se da a entender a estornudos” 
Conforme: os invito a quemar vuestras naves, 
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.
“¿A qué molestar al público entonces?”, se preguntarán los amigos lectores:
“Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos, 
¡Qué podrá esperarse de ellos!”
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!

Cartas a uma desconhecida

Quando passarem os anos, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou,
Um ser que se deteve um instante diante dos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos?

(trad. de albano martins)

Cartas a una desconocida

Cuando pasen los años, cuando pasen 
Los años y el aire haya cavado un foso 
Entre tu alma y la mía; cuando pasen los años 
Y yo sólo sea un hombre que amó, 
Un ser que se detuvo un instante frente a tus labios, 
Un pobre hombre cansado de andar por los jardines, 
¿Dónde estarás tú? ¡Dónde 
Estarás, oh hija de mis besos!

Madrigal

Eu serei milionário uma noite
Graças a um truque que me permitirá fixar imagens
Sobre um espelho côncavo. Ou convexo.

Acredito que o êxito será completo
Quando enfim inventar um ataúde de fundo duplo
Que permita ao cadáver espremer-se a outro mundo.

Já queimei por demais as pestanas
Nesta absurda corrida de cavalos
Onde os ginetes são lançados pelas cavalgaduras
E vão cair entre espectadores.

Justo é, então, que trate de criar algo
Que me permita viver com folga
Ou que ao menos me permita morrer.

Estou certo de que minhas pernas tremem
Sonho que os dentes me caem
E que chego tarde a alguns funerais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Madrigal

Yo me haré millonario una noche
Gracias a un truco que me permitirá fijar las imágenes               
En un espejo cóncavo. O convexo.

Me parece que el éxito será completo
Cuando logre inventar un ataúd de doble fondo               
Que permita al cadáver asomarse a otro mundo.

Ya me he quemado bastante las pestañas
En esta absurda carrera de caballos
En que los jinetes son arrojados de sus cabalgaduras               
Y van a caer entre los espectadores.

Justo es, entonces, que trate de crear algo
Que me permita vivir holgadamente
O que por lo menos me permita morir.
              
Estoy seguro de que mis piernas tiemblan,
Sueño que se me caen los dientes
Y que llego tarde a unos funerales.

Solo de Piano

Já que a vida do homem não é mais que uma ação a distância
Um pouco de espuma que brilha no interior de um copo;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam.
Não mais que cadeira e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós mesmos não somos mais que seres
(Como o próprio deus não é outra coisa senão deus);
Já que não falamos para ser escutados
Senão para que os outros falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo do caos
No jardim que boceja e se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para poder ressuscitar depois tranquilamente
Quando usamos a mulher em excesso;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixei que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que minha alma encontre seu corpo.

(trad. antonio miranda)

Solo de Piano

Ya que la vida del hombre no es sino una acción a distancia,
Un poco de espuma que brilla en el interior de un vaso;
Ya que los árboles no son sino muebles que se agitan:
No son sino sillas y mesas en movimiento perpetuo;
Ya que nosotros mismos no somos más que seres
(Como el dios mismo no es otra cosa que dios);
Ya que no hablamos para ser escuchados
Sino para que los demás hablen
Y el eco es anterior a las voces que lo producen;
Ya que ni siquiera tenemos el consuelo de un caos
En el jardín que bosteza y que se llena de aire,
Un rompecabezas que es preciso resolver antes de morir
Para poder resucitar después tranquilamente
Cuando se ha usado en exceso de la mujer;
Ya que también existe un cielo en el infiemo,
Dejad que yo también haga algunas cosas: 

Yo quiero hacer un ruido con los pies
Y quiero que mi alma encuentre su cuerpo.

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Qohélet, O-que-Sabe

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(Para um breve comentário sobre Haroldo de Campos e suas incursões e abordagem sobre a tradução bíblica feita diretamente do hebraico com enfoque poético, vide meu post anterior no escamandro sobre sua tradução do Cântico dos Cânticos, clicando aqui)

Qohélet ou Cohélet (קוהלת), mais conhecido como Eclesiastes, um dos livros mais famosos da Tanakh, a Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento, é o nome da figura que enuncia alguns dos ensinamentos mais célebres do livro, como o de que tudo é vaidade ou de que não há nada de novo sob o sol. Sua identidade, de fato, é desconhecida: Qohélet significa meramente um “pregador” ou, por via etimológica “aquele que reúne” (mais sobre isso clicando aqui), no sentido de alguém que reúne e depois fala diante de uma assembleia. O título “Eclesiastes”, por sua vez, vem do grego Ekklesiastes (Ἐκκλησιαστής, sendo que ekklesia = assembleia), que tem esse sentido também – e lembremos que a peça de Aristófanes tipicamente traduzida para o português como As Mulheres na Assembleia, A Assembléia das Mulheres ou A Revolução das Mulheres se chama em grego justamente Ekklēsiázousai (Ἐκκλησιάζουσαι). Talvez seja um comentário meio estúpido de se fazer, mas é bom lembrar que Eclesiastes não deve ser confundido com o livro chamado em português de Eclesiástico, que tem também foi escrito em hebraico (por um autor de nome Jesus ben Sirá, motivo pelo qual recebe o nome também de “Sirácida”) e tem esse sentido de “Livro da Igreja ou da Assembleia”, mas que não faz parte do cânone judaico e, por isso, ao contrário do Eclesiastes canônico, não integra a Tanakh.

O que fica subentendido pelo discurso de Qohélet sobre sua identidade, porém, é que ele seria, na verdade, ninguém menos que o próprio rei Salomão (ou alguém assumindo a sua voz como eu-lírico), uma atribuição de autoria compreensível, a julgar pelas partes em que declara coisas como “fui rei de Israel em Jerusalém” e pelas frequentes referências à sua proverbial sabedoria. Essa autoria jamais é confirmada de fato no texto (e, a bem da verdade, há indícios textuais que indicam que o texto fosse historicamente posterior ao período de vida de Salomão), mas esses detalhes parecem ser o suficiente para que a associação entre as duas figuras esteja bastante arraigada culturalmente – e um dos exemplos que mais rápido me vem à mente é a canção “How Fortunate the Man with None”, do grupo Dead Can Dance, baseado no poema “Die Ballade von den Prominenten”, de Bertold Brecht, em tradução de John Willet. Canta o vocalista Brendan Perry nesse poema musicado: “You saw sagacious Solomon / You know what came of him / To him complexities seemed plain / He cursed the hour that gave birth to him / And saw that everything was vain” (no original, “Und sah, daß alles eitel war”: “E viu que tudo era vão”).

Mas essa não é a maior estranheza do livro. Assim como o Cântico dos Cânticos, cuja autoria também é atribuída a Salomão, é peculiar por ser um poema erótico inserido no meio do cânone de textos sagrados, o Qohélet destoa por ser um poema sapiencial de tom existencialista, com laivos de estoicismo ou epicurismo gregos ou até mesmo beirando o niilismo moderno. Diz Haroldo, no texto de apresentação do seu volume Qohélet: O-que-Sabe (editora Perspectiva):

Qohélet (o Eclesiastes) é um livro estranho. A um observador moderno, viciosamente inclinado a projetar uma impertinente mirada retroativa sobre o passado – o século III a. C., época em que o livro do Pregador teria sido escrito – seu texto causa um choque. Parece um fragmento insurrecto, imbricado anacronicamente no “cânon” bíblico pelo martelo filosofante de Nietzsche, o pensador do “eterno retorno”, da “vontade do nada” e do “céu-acaso”, sobranceiramente disposto acima de todas as coisas.

Ele deixa mais claro depois o anacronismo dessa ideia (que entretém talvez justamente por ser anacrônica) e que, na verdade, seria o próprio Nietzsche “quem nos faz pensar nos eventuais precursores de Nietzsche” e prossegue comentando os pormenores filosóficos do livro, mas, de qualquer modo, a associação e a sensação de estranheza acabam por ser inevitáveis.

Sobre a tradução, a proposta do Haroldo mantém-se igual à de suas outras traduções bíblicas, priorizando o valor poético do texto, tanto no que diz respeito aos conceitos empregados quanto à sonoridade e o ritmo. Uma das soluções mais interessantes que Haroldo encontra, por exemplo, diz respeito ao famoso versículo do “tudo é vaidade”. O original diz havel havalim (הֲבֵל הֲבָלִים) e “vaidade das vaidades”, conforme consta na Vulgata (vanitas vanitatem), é uma das traduções possíveis, mas não a única. “Havel” é “vaidade”, mas é também “futilidade” (como consta na tradução de Fridlin & Godorovits), “vazio”, “vapor”, “sopro”. Sempre acho louvável – talvez como uma das maiores conquistas de um tradutor de poesia – quando um tradutor é capaz de pegar uma expressão antiga que acabou se tornando clichê, apesar da força poética que ela possa ter por si já, e conceder-lhe um novo lustro. Penso, por exemplo, nas traduções de Augusto de Campos, Paulo Leminski ou Ezra Pound do famoso poema do carpe diem, de Horácio (postadas já aqui no escamandro, ao lado de outras tantas traduções diferentes)… tendo o próprio carpe diem (literalmente “colhe o dia”, mas geralmente traduzido como “aproveita o dia”) se tornado um clichê também,  a expressão transforma-se em “curte o dia” e “pega este dia” nas mãos de Campos e Leminski, mas – o que é ainda mais ousado – é completamente omitido na versão de Pound. Daí, numa decisão não tão violenta, mas ainda assim inovadora, Haroldo, deixando mais implícita a noção de “futilidade” e “vaidade” e mantendo um jogo de aliteração (há ainda um outro som de “ha” em “hakol” (הַכֹּל), “tudo”), do havel havalim tira a imagem de uma “névoa de nadas”, “névoa-nada”.

Como da outra vez, então, compartilho a tradução de Haroldo de Campos, de tom mais poético, em companhia da tradução de enfoque mais semântico e religioso de David Godorovits e Jairo Fridlin, presente na edição da Bíblia Hebraica da editora Sêfer. Para propósitos de comparação com o original, o texto hebraico pode ser conferido clicando aqui, junto com uma tradução, verso a verso, para o inglês.

Adriano Scandolara

           

I

1. Palavras  §  de Qohélet filho de Davi  §§
rei  §  em Jerusalém

2. Névoa de nadas  §  disse O-que-Sabe  §§
névoa de nadas  §  tudo névoa-nada

3. Que proveito  §  para o homem  §§§
De todo o seu afã  §§
fadiga de afazeres  §  sob o sol

4. Geração-que-vai  §  e geração-que-vem  §§
e a terra  §  durando para sempre

5. E o sol desponta  §  e o sol se põe  §§§
E ao mesmo ponto  §§
aspira  §  de onde ele reponta

6. Vai  §  rumo ao sul  §§
e volve  §  rumo ao norte  §§§
Volve revolve  §  o vento vai  §§
e às voltas revôlto  §  o vento volta

7. Todos os rios  §  correm para o mar  §§
e o mar  §  não replena  §§§
Ao lugar  §  onde os rios  §  acorrem  §§
para lá  §  de novo  §  correm

8. Tudo tédio palavras  §§
como dizê-lo  §  em palavras  §§§
O olho não se sacia  §  de ver  §§
e o ouvido não se satura  §  de ouvir

9. Aquilo que já foi  §  é aquilo que será  §§
e aquilo que foi feito  §§  aquilo se fará  §§§
E não há nada novo  §  sob o sol

10. Vê-se algo  §  se diz eis  §  o novo  §§§
Já foi  §  era outrora  §§
fora antes de nós  §  noutras eras

11. Nenhum memento  §  dos primeiros vivos  §§§
E também dos vindouros  §  daqueles por vir?
deles não ficará  §  memória  §§
junto aos pós-vindos  §  que depois virão

12. Eu Qohélet O-que-Sabe  §  eu fui rei  §
de Israel  §  em Jerusalém

13. E do meu coração eu me dei  §
a indagar e inquirir  §  com saber  §§
sobre o todo  §  de tudo que é feito  §  sob o céu  §§§
Torpe tarefa  §  que deu Elohim  §
aos filhos do homem  § para atarefá-los

14. Eu vi  §  todos os feitos  §§
que se fazem  §  sob o sol  §§§
E eis tudo  §  névoa-nada  §  e fome-de-vento

15. O que é torto  §  não se pode indireitar  §§§
E o que é falho  §  não se pode enumerar

16. Palavras para o meu coração  §  eu as disse  §§
eis-me  §  aumentei e avultei  §  o saber  §§
muito além  §  de quantos foram antes  §
sobre Jerusalém  §§§
E por dentro de mim  §  vi no auge  §  o saber e a ciência

17. E do meu coração eu me dei  §  a saber o saber  §§
e a saber da loucura  §  e da sandice  §§§
Soube  §§  também isto  §  é vento-que-some

18. Pois  §  em muito saber  §   muito sofrer  §§§
E onde a ciência cresce  §  acresce a pena

(tradução de Haroldo de Campos)

           

1.

1 Palavras de Cohélet ben [filho de] Davi, o rei em Jerusalém. 2 Tudo é vão e fútil – diz Cohélet – Futilidade das futilidades! Sim tudo é fútil! 3 Que proveito traz ao ao homem toda sua labuta sob o sol? 4 Vai-se uma geração e vem uma outra, perdura somente a terra. 5 Nasce o Sol, depois se põe, e se apressa a voltar ao lugar onde de novo virá a nascer. 6 Segue para o sul e chega em círculo até o norte; o vento (por sua vez) gira em círculos e retorna ao lugar de onde partiu. 7 Correm todos os rios para o mar, sem entretanto preenchê-lo; fluem continuamente para o mesmo lugar. 8 Tudo é tão fastidioso e extenuante que ninguém consegue sequer descrever; não se sacia a vista com o que vê, nem o ouvido com o que escuta. 9 O que já foi voltará a ser, e o que foi feito será repetido, e nada há de novo sob o sol. 10 Há fatos perante os quais alguém poderá dizer: “Veja, trata-se de algo novo!” Isto, porém, já ocorrera tempos atrás. 11 Não há, contudo, lembrança por parte das gerações passadas, assim como não haverá lembrança por parte das gerações futuras do que agora ocorre. 12 Eu, Cohélet, fui rei de Israel em Jerusalém. 13 Com toda a minha sabedoria, apliquei meu coração e minha mente para pesquisar e inquirir sobre tudo que já foi realizado sob os céus. Esta é a pesada tarefa incumbida por Deus aos homens, para que com ela se ocupem. 14 Analisei tudo que é feito sob o sol e compreendi que tudo é vão e frustrante. 15 Não conseguimos consertar o que está errado, nem perceber o que ainda falta. 16 Disse a mim mesmo: Adquiri muita sabedoria e aumentei meu conhecimento muito acima de todos que me precederam em Jerusalém, e muita experiência teve meu coração sobre o que é sabedoria e conhecimento. 17 Ao fazê-lo, porém, conheci sabedoria e conhecimento, insensatez e loucura, e descobri que isto também é vão. 18 Pois em muita sabedoria há muita mágoa, e quem aumenta seu conhecimento incrementa também seu sofrimento.

(tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin)

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crítica

o canto dos mortos – paul zumthor

performance hoje é palavra de ordem. palavra que me atrai, & muito, pra ser sincero.

mas me perturba/atiça/incita ainda mais a performance dos mortos.

suas ações inalcançáveis.

por isso este trechinho de paul zumthor, do livro introdução à poesia oral, em tradução de jerusa pires ferreira, maria lúcia diniz pochat & maria inês de almeida, que saiu em 2010 pela editora ufmg.

guilherme gontijo flores

"Dança dos índios Tapuia", de Albert Eckout (séc. XVII)

“Dança dos índios Tapuia”, de Albert Eckout (séc. XVII)

Tiro de minha biblioteca, ao alcance das mãos, uma edição da Chanson de Roland. Sei (ou presumo) que no século XII este poema era cantado, com uma melodia que, aliás, desconheço. Eu o leio. O que tenho à vista, impresso em manuscrito, não é senão um fragmento de passado, congelado num espaço reduzido da página ou do livro. Esta contradição causa um problema epistemológico que só a prática permite, quando não resolver, ao menos esclarecer empiricamente. Com o acúmulo de informações sobre as mentalidades e costumes dessa época distante, tenta-se sugerir o que ali acontecia, suscita-se uma representação imaginária da Chanson em ato… e esforça-se para integrá-la ao prazer que se sente (assim o espero) com esta leitura; para considerá-la, se for o caso, no estudo histórico que se faz do texto.

A ambiguidade da situação só é menor se o texto poético antigo nos foi transmitido com uma notação musical. Esta constitui realmente, de forma irrecusável, uma prova da oralidade. Ela autoriza uma reconstituição parcial da performance: é desta forma que os discos, algumas vezes excelentes, gravados por diversos medievalistas musicólogos até G. Le Vot, nos permitem ouvir as canções de vários trovadores mais ou menos contemporâneos do Roland. O efeito de distância temporal e de opressão sensorial é fortemente atenuado. Entretanto, ele não desaparece: a prova são as querelas de escola, relativas à interpretação das melodias antigas.

[paul zumthor, p. 62]

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poesia, tradução

John Keats (1795 – 1821), em duas traduções

John-Keats_por_William-Hilton

Com um bom grau, é claro, de simplificação, acredito que podemos traçar pelo menos dois perfis de arquétipos clássicos de poetas românticos. Em um polo temos aquele tipo de poeta aventureiro, hedonista, viajado (em mais de um sentido da palavra, inclusive), libertino, amante da liberdade e dotado de uma rebeldia por vezes beirando o pueril, que seria um dos modos pelos quais poderíamos descrever, por exemplo, Byron e os heróis de seus poemas mais famosos, inspirados em si próprio. No outro extremo, temos o romântico frágil, melancólico, doente (de tuberculose, provavelmente), com tendências monogâmicas à moda provençal (e é justo por causa do outro arquétipo romântico que eu sempre acho hilário chamarem esse tipo de amor apaixonado de “amor romântico”) e enfurnado em seu quarto, na companhia de seus livros. Essa, creio, poderia ser uma descrição resumida, porém adequada, de John Keats (1795 – 1821).

Keats e Byron, talvez não por acaso, se detestavam. Byron era nobre, rico e foi responsável pelo sucesso do que foi um best-seller avant-la-lettre, o poema narrativo The Corsair (1814), que vendeu 10.000 exemplares em um único dia. Já Keats era duplamente pobre: primeiro, por já ser de uma família de classe média baixa, e depois por ter descartado suas chances de ascender socialmente ao abandonar uma possível carreira na área da medicina, na qual tinha aptidão, para ser poeta (ai) – e, para piorar, um poeta cujo sucesso só viria postumamente. Sua poesia foi muito criticada à época nos periódicos literários, tanto, inclusive, que costuma-se atribuir a sua morte – por maldade ou ingenuidade científica sobre a tuberculose – a uma resenha negativa no The Quarterly. Mas, além dessas diferenças, havia divergências estéticas também, como qualquer um que tenha lido os dois poetas há de notar (e, para essa comparação, sugiro o livro de traduções de Augusto de Campos, publicado pela editora da Unicamp, Byron e Keats: Entreversos). Para mais sobre essa rivalidade, algumas das cartas de Byron sobre ele podem ser lidas clicando aqui .

Shelley, apesar de ter sido grande amigo de Byron também, gostava bastante de Keats – mais do que Keats gostava dele, aliás. Os dois se conheceram pessoalmente em 1816, por intermédio de Leigh Hunt, depois passaram a trocar cartas. Shelley, inclusive, chegou a convidá-lo para morar com ele na Itália, pelo bem da sua saúde, ao que Keats recusou. Quando Keats morre, em 1821, ele responde com o poema Adonaïs, uma elegia pastoral, nos moldes de Lycidas, de Milton, sobre a sua morte. Quando Shelley morre afogado, em 1822, seu corpo foi encontrado com um volume de poemas de Keats nos bolsos.

John-Keats-Lapide-em-RomaPara sermos indiscretos, há duas grandes “musas”, por assim dizer, que inspiraram os grandes poemas de amor de Keats. A primeira foi Isabella Jones, uma moça mais velha com quem ele se amigou em 1817 e que lhe sugeriu a temática do seu longo poema “The Eve of St. Agnes”. A outra foi Fanny Brawne, que Keats conheceu em 1818, noivando em 1819, e que lhe rendeu o famoso soneto “Bright Star”, além de um ano extremamente produtivo, em que Keats compõe suas 6 grandes odes. A relação entre os dois, aliás, foi tema do filme Bright Star (2009) – filme que, à moda do Total Eclipse (1995), o filme sobre Rimbaud e Verlaine, que em português virou Eclipse de uma Paixão, foi distribuído no Brasil com o título horroroso de O Brilho de uma Paixão. Os dois nunca se casaram de verdade, porém – a família de Fanny não estava satisfeita com a situação financeira do poeta, preferindo adiar o casamento até que ela melhorasse… o que, até o ano de sua morte, acabou nunca acontecendo. A tuberculose o ceifa em 1821, apesar das tentativas de procurar refúgio no clima mais quente da Itália (muito após os convites de Shelley, ao que parece). Ele é enterrado em Roma, sob uma lápide que diz a famosa declaração de que “Here lies One / Whose Name was writ in Water” (“Aqui Jaz Aquele / Cujo Nome foi inscrito na Água”)… pouco mais de um ano depois, as cinzas de Shelley também seriam depositadas lá.

A produção de Keats também é marcada pelos poemas longos “Endymion: a Romance” (famoso pelo verso de abertura: “A thing of beauty is a joy for ever”), “Isabella: or the Pot of Basil” (uma adaptação em verso de um conto do Decamerão), ambos de 1818, “Lamia” (sobre a figura mitológica, uma espécia e mulher e serpente, de mesmo nome) e os fragmentários “Hyperion” (com a temática da queda dos titãs e a sua substituição pelos deuses olímpicos; Hipérion sendo o deus do sol que seria suplantado por Hélio), de 1820, e “The Fall of Hyperion” (retomando e reenquadrando essa tema clássico), de publicação póstuma (clique nos títulos aqui para lê-los em inglês… até onde sei, nenhum desses poemas mais longos até agora tem tradução integral).

Em português, além da edição de Augusto de Campos, sei da existência de pelo menos outros dois volumes: um é o Ode sobre a melancolia e outros poemas, publicado pela Hedra, na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos; e o outro, Nas asas invisíveis da poesia, pela Iluminuras, em tradução do recentemente falecido Alberto Marsicano, em colaboração com o professor John Milton (que, como diz no prefácio, fez as traduções literais que Marsicano poetizou). Suponho que haja outras edições ainda (ou talvez não… John Milton comenta que a motivação para traduzir Keats foi justamente essa escassez de traduções), mas a minha memória e/ou capacidades de busca me falham no momento. De qualquer modo, é desses dois volumes que extraio as traduções de modo a demonstrar, como é de costume aqui no escamandro, os enfoques tradutórios diferentes.

Para essa seleção, eu preferi selecionar poemas outros além das famosas Odes de 1819 – em parte para fugir um pouco do óbvio e em parte também porque essas Odes são meio longas para se transcrever e porque eu preferiria deixar o trabalho comparativo entre as 3 traduções disponíveis de algumas delas para um post futuro mais minucioso. Por ora, deixo o Augusto de fora, então, e foco as minhas atenções sobre os outros dois. Nas asas invisíveis da poesia e Ode sobre a melancolia e outros poemas têm em comum, além das Odes ao Rouxinol, a um Vaso Grego e à Melancolia (são as 3 Odes presentes no Asas invisíveis, enquanto o volume da Hedra tem ainda a Ode a Psiquê e à Indolência), os poemas “To Autumn”, “On the Grasshopper and Cricket”, “On First Looking Into Chapman’s Homer” e “Meg Merrilies”. Destes, selecionei os primeiros dois nas traduções de ambos os volumes, para propósitos de comparação, mais 2 poemas únicos de cada um dos tradutores: “On the Sea” e “On Death”, de Milton & Marsicano, e “What the thrush said” e o famoso “Bright star”, de Péricles Eugênio. Há algumas diferenças básicas nos projetos de tradução dos dois livros, a saber, que Milton & Marsicano abandonam a métrica e a rima (e, em alguns casos, inclusive, até mesmo a equivalência de número de versos, como ocorre no poema “No Mar”, que virou um soneto de 13 versos) para evitar se “afastar do profundo sentido filosófico que existe por trás desses poemas”, como diz Milton no prefácio, optando por, em vez disso, se concentrar “mais na qualidade da linguagem em geral” e se “aproximar da grande sonoridade da poesia de Keats”. Ou seja, é verso livre sem metro e rima, mas não é o mesmo que tradução literal. Já Péricles Eugênio, como é de seu costume, faz um esforço para reproduzir algo próximo das formas originais, ainda que não seja a regra. Geralmente recorre a dodecassílabos como equivalentes (com alguma margem de manobra) aos pentâmetros jâmbicos, o que lhe poupa um pouco de trabalho, ainda que resulte às vezes em versos estranhos como “A poesia da terra nunca, nunca morre” para “The poetry of earth is never dead”, com a necessidade de duplicação do “nunca” apenas para fechar a métrica do verso. Péricles também prefere manter as rimas na maioria das vezes, excetuando-se os poemas mais longos, ao que me parece (como “Ao Outono”). Em todo o caso, é importante ressaltar, mais uma vez, que a qualidade da tradução poética não depende unicamente do projeto.

Adriano Scandolara

          

           Milton & Marsicano:

AO OUTONO

I

Estação de névoas e frutífera suavidade,
   Amiga do peito do sol maduro;
Conspiras com ele como espargir e abençoar
   Com frutas as videiras nos beirais de palha;
Arqueias com maçãs os ramos musgosos,
   Preenches até o fim de madurez as frutas;
     Inflas as cabaças e farta as cascas das avelãs
   Com o doce cerne; fazes brotae mais
E mais, flores tardias às abelhas,
Até que pensem jamais findar-se-ão os dias quentes,
   Pois o verão transbordou suas meladas colmeias.

II

Quem não te viu em teu armazém?
   Às vezes, aquele a te procurar te encontrará
Sentada tranquila no chão do celeiro,
   Teu cabelo levemente erguido pelo vento joeirante,
Ou dormindo profundo num sulco ceifado ao meio,
   Entorpecida no aroma das papoulas, enquanto tua foice
      Poupa a fileira seguinte e suas flores enroscadas.
E várias vezes como um colhedor manténs
   Firme tua cabeça pródiga ao atravessares o riacho;
   Ou ao lado de uma prensa de cidra, com o olhar paciente,
      Contempla as derradeiras horas viscosas.

III

Onde estão as canções da Primavera? Sim, onde estão?
   Não penses nelas, tens tuas músicas também
Nuvens como estrias brotam no dia que suave se esvai,
   E tangem com rósea cor os restos dos campos desnudos;
Num coro-lamento pranteam os mosquitos
   Entre os salgueiros do rio, no alto
     Ou imersos quando a tênue brisa vive ou fenece;
E grandes carneiros berram no riacho das montanhas
   Grilos cantam; e agora com suave trinado
   O papo roxo sibila do jardim,
      Andorinhas gorjeiam nos céus.

          

           Péricles Eugênio:

AO OUTONO

I

Quadra das névoas, do fecundo j’maduro,
   Amiga íntima do sol, o que sazona,
Com quem suspiras por benzer e carregar
   As vides que se estendem nos beirais de palha;
Por vergar de maçãs as árvores musgosas
   Da cabana, e adoçar os frutos até o centro,
      Expandir o cocombro e inchar as avelãs
   Com doce amêndoa; por fazer brotarem mais
E mais as flores temporãs, para as abelhas
Que julgam não ter fim os dias de calor,
   Já que o verão levou seus favos a escorrer.

II

Quem não te viu amiúde em meio às tuas posses?
   Às vezes quem sai buscando pode achar-te
Sentada, descuidosa, em chão de algum celeiro,
   Cabelo erguido pelo vento de uma joeira;
Ou a dormir em campo já semiceifado,
   Tonta de eflúvio da papoula, enquanto a foice
      Poupa a fileira contígua e as flores enlaçadas;
Como respigadora atravessando o riacho
   Manténs a fronte erguida ao peso de seu fardo
   Ou vês, hora após hora, os últimos gotejos,
      Quando observas, paciente, a prensa para sidra.

III

Onde as canções da primavera? Onde é que estão?
   Não penses nelas, também tens a tua música.
Nuvens estriadas floram o cair do dia,
   Tocando de cor rósea as jeiras não semeadas
Então em coro os mosquitinhos se lamentam
   Entre os chorões do rio, cujos ramos sobem
      Ou descem, quando vive ou morre o vento leve;
E da orla das colinas balem os cordeiros;
   Zinem grilos na sebe; e com um dulçor agudo
   Pia o pisco-de-peito-ruivo num quintal
      E em bando as andorinhas chilram pelos céus.

          

TO AUTUMN

I

Season of mists and mellow fruitfulness,
   Close bosom-friend of the maturing sun;
Conspiring with him how to load and bless
   With fruit the vines that round the thatch-eves run;
To bend with apples the moss’d cottage-trees,
   And fill all fruit with ripeness to the core;
      To swell the gourd, and plump the hazel shells
   With a sweet kernel; to set budding more,
And still more, later flowers for the bees,
Until they think warm days will never cease,
   For Summer has o’er-brimm’d their clammy cells.

II

Who hath not seen thee oft amid thy store?
   Sometimes whoever seeks abroad may find
Thee sitting careless on a granary floor,
   Thy hair soft-lifted by the winnowing wind;
Or on a half-reap’d furrow sound asleep,
   Drows’d with the fume of poppies, while thy hook
      Spares the next swath and all its twined flowers:
And sometimes like a gleaner thou dost keep
   Steady thy laden head across a brook;
   Or by a cyder-press, with patient look,
      Thou watchest the last oozings hours by hours.

III

Where are the songs of Spring? Ay, where are they?
   Think not of them, thou hast thy music too,
While barred clouds bloom the soft-dying day,
   And touch the stubble-plains with rosy hue;
Then in a wailful choir the small gnats mourn
   Among the river sallows, borne aloft
      Or sinking as the light wind lives or dies;
And full-grown lambs loud bleat from hilly bourn;
   Hedge-crickets sing; and now with treble soft
   The red-breast whistles from a garden-croft;
      And gathering swallows twitter in the skies.

          

           Milton & Marsicano:

SOBRE O GAFANHOTO E O GRILO

A poesia da terra jamais cessa:
   Quando todos os pássaros languescem ao sol ardente,
   E se escondem nas frescas árvores, uma voz corre
De cerca em cerca ao redor do prado recém-ceifado;
É o Gafanhoto – ele rege
   A luxúria do verão – nunca finda
   Suas delícias; pois, quando exaurido em alegria,
Repousa sob alguma boa erva daninha.
A poesia da terra jamais cessa:
   Numa solitária noite de inverno, quando a geada
      Traz o silêncio, do fogareiro sibila
O canto do Grilo, sempre mais quente,
   E semelha alguém perdido na sonolência,
      O do Gafanhoto entre verdejantes colinas.

          

           Péricles Eugênio:

SOBRE O GAFANHOTO E O GRILO

A poesia da terra nunca, nunca morre:
   Quando o vigor do sol languesce a passarada
   E se abriga nas ramas, um zizio corre
De sebe em sebe, em torno à várzea já ceifada;
É o gafanhoto, que a assumir o mando acorre
   No fausto do verão; e nunca dá parada
      Ao seu prazer, pois de erva amável se socorre
Para o descanso, ao fim de sua alegre zoada.
A poesia da terra nunca se termina:
   Do inverno em noite só, quando com a geada cresce
      O silêncio, do fogão se ergue de repente
O zinido do grilo, para sempre mais ardente
   E para alguém zonzo de sono ele parece
      O gafanhoto em meio à relva da colina.

          

ON THE GRASSHOPPER AND CRICKET

The poetry of earth is never dead:
   When all the birds are faint with the hot sun,
   And hide in cooling trees, a voice will run
From hedge to hedge about the new-mown mead;
   That is the Grasshopper’s – he takes the lead
   In summer luxury, – he has never done
With his delights; for when tired out with fun
He rests at ease beneath some pleasant weed.
The poetry of earth is ceasing never:
   On a lone winter evening, when the frost
      Has wrought a silence, from the stove there shrills
The Cricket’s song, in warmth increasing ever,
   And seems to one in drowsiness half lost,
      The Grasshopper’s among some grassy hills.

           Milton & Marsicano:

NO MAR

Ele sustém eternos murmúreos
   Nas praias desoladas, e com soberbas cristas
   Inunda vinte mil cavernas, até que o sortilégio
De Hécate as deixe com seu velho e assombroso som.
Muitas vezes se encontra tão tranquilo,
   Que até a menor das conchas permanece dias imóvel
   Desde o desenlace dos ventos celestiais.
Vós, cujos olhos se enchem de tormento e tédio,
Regozijai-os com a imensidão do mar;
   Vós, cujos ouvidos estão atordoados pelo rude ruído
   Ou enfastiados pela música melosa –
      Sentai-vos na boca de uma velha caverna, e meditai
Até que escuteis, como se cantassem, as ninfas do mar!

      

ON THE SEA

It keeps eternal whisperings around
   Desolate shores, and with its mighty swell
   Gluts twice ten thousand Caverns, till the spell
Of Hecate leaves them their old shadowy sound.
Often ‘tis in such gentle temper found,
   That scarcely will the very smallest shell
   Be moved for days from where it sometime fell.
When last the winds of Heaven were unbound.
Oh, ye! who have your eyeballs vexed and tired,
   Feast them upon the wideness of the Sea;
      Oh ye! whose ears are dinned with uproar rude,
   Or fed too much with cloying melody –
      Sit ye near some old Cavern’s Mouth and brood,
Until ye start, as if the sea nymphs quired!

     

A MORTE

I

Pode a morte ser sono, se a vida não é mais que sonho,
   E se as cenas de êxtase passam qual espectros?
Os prazeres transitórios semelham visões,
   Mas pensamos a morte como a grande dor.

II

Como é estranho o vagar do homem na terra,
   Em sua vida maldita não pode desvencilhar
O rude caminho; nem ousa sozinho entrever
   Seu augúrio futuro que não é senão despertar.

     

ON DEATH

I
Can death be sleep, when life is but a dream,
   And scenes of bliss pass as a phantom by?
The transient pleasures as a vision seem,
   And yet we think the greatest pain’s to die.

II
How strange it is that man on earth should roam,
   And lead a life of woe, but not forsake
His rugged path; nor dare he view alone
   His future doom which is but to awake.


           Péricles Eugênio:

O QUE DISSE O TORDO

Tu, que o vento do inverno já atingiu no rosto
   E viste em meio à bruma as nuvens mães da neve
   E os negros cimos do olmo entre as estrelas gélidas,
   Terás na primavera um tempo de colheita.
Tu, cujo livro único vem sendo a luz
   Da escuridão suprema, de que te nutriste,
   Noite após noite, quando Febo se ausentava,
   Terás na primavera tríplice manhã.
Oh, não anseies por saber – eu nada sei.
   Porém meu canto sempre surge com o calor.
Oh, não anseies por saber – eu nada sei.
   Porém a noite escuta-me. Quem se entristece
Pensando no ócio não se encontra na indolência,
E está desperto quem se julga adormecido.

          

WHAT THE THRUSH SAID

O thou whose face hath felt the Winter’s wind,
   Whose eye has seen the snow-clouds hung in mist
   And the black elm tops ‘mong the freezing stars,
   To thee the spring will be a harvest-time.
O thou, whose only book has been the light
   Of supreme darkness which thou feddest on
   Night after night when Phoebus was away,
   To thee the Spring shall be a triple morn.
O fret not after knowledge – I have none,
   And yet my song comes native with the warmth.
O fret not after knowledge – I have none,
   And yet the Evening listens. He who saddens
At thought of idleness cannot be idle,
And he’s awake who thinks himself asleep.

          

ASTRO FULGENTE

Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente!
   Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
   – Monge da natureza, insone e paciente –
As águas móveis na missão sacerdotal
   De abluir, rondando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – caída leve
   Sobre as montanhas sobre os pântanos – da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
   No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar
   Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meio respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.

          

BRIGHT STAR

Bright star, would I were stedfast as thou art –
   Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
   Like nature’s patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
   Of pure ablution round earth’s human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
   Of snow upon the mountains and the moors
No – yet still stedfast, still unchangeable,
   Pillow’d upon my fair love’s ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
   Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever – or else swoon to death.

          

(poemas de John Keats, traduções de Péricles Eugênio da Silva Ramos e de John Milton com Alberto Marsicano, conforme indicado)

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ricardo pedrosa alves

Ricardo Pedrosa Alves, professor de Ciência Política & doutorando em Letras, nasceu em 1970, em Governador Valadares. Atualmente mora em Guarapuava (PR), é autor dos livros de poesia Desencantos Mínimos (Iluminuras) & barato (Medusa), com poemas & críticas literárias em jornais e revistas (Suplemento Literário de MG, Gazeta do Povo, Correio Braziliense, Diário Catarinense, bólide, Germina, Inimigo Rumor, Orobó, Monturo, Oroboro, Vagau &c.), participação em eventos como Zoona & em antologias como Vinagre, além de ter na gaveta quatro livros por publicar. Os poemas abaixo são inéditos & fazem parte de A fresta do capital.

atualização: A fresta do capital foi publicada em 2014 pela Paulo Honório edições sem arte. Ele pode ser lido digitalmente no calameo clicando aqui.

guilherme gontijo flores

Rasura não te quero objeto de cultura
não te quero não basta
talvez ajude
ser amigo de juiz amigo
ou frequentar a oficina para dar ao poeta
da editora-store-estoura da livraria-store-estoura-pipoca da mega-mega-como-megasena
que luta é essa?
morrer com a sutura em três livros do mal
a dança de pião na fumaça
um homem livro na sociedade escravocrata
o crítico – e ser um crítico!
aquela cruza do escárnio de maiakóvski
e os poetas do pop suas parições no vazio
suas listas de cultura
não te quero
não basta
dois copeques
a página

* * *

O tradutor urbano e seus ruídos à maneira de um relógio maníaco um xis um ípsilon
em incisões e raspagens, cópulas e decolagens
ouve o trovador num jato manso
a canção era ela a canção dela e como dela era a carne dele ele era ela
de dizer isso e mais
e o tradutor ouvir e tal
vem o pássaro, o carro, as manifestações
e volta o relógio, eito
afinal,
sussurra o da langue lânguida
estou em derrota um homem do meio
sem rota mas lábia de langue
o da semente avulsa
criança perdida ou o
Bastardo

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A Lírica Involuntária de Aaron Shurin

Aaron_ShurinAaron Shurin (1947 – ) é um poeta norte-americano que, apesar de ter o que parece ser um reconhecimento pequeno, é autor de um grande número de livros de poemas, ensaios e de poesia em prosa. Meu contato com ele foi – como tem sido algo recorrente por aqui – por completo acaso, através de uma postagem no blog do célebre crítico e poeta da language poetry, Ron Silliman. Em um post de 2005 (clique aqui para ler), Silliman comenta um livro de Shurin intitulado Involuntary Lyrics, recém-lançado à época, que marca o retorno do autor à poesia versificada após 15 anos de publicação exclusiva de poesia em prosa. O que é crucial, porém, para a poética de Involuntary Lyrics – e o que mais me surpreendeu, considerando o meu interesse recente por poesia apropriativa, instigado pela crítica Marjorie Perloff – é que o livro todo se ancora completamente sobre a produção sonetística de William Shakespeare. Em seu blog, Silliman reproduz o primeiro poema do livro (intitulado I à moda da enumeração clássica em algarismos romanos dos sonetos shakespearianos) e tece o seguinte parágrafo de comentário, que faço questão de traduzir abaixo, junto com o poema em questão:

If the judgment’s cruel
that’s a wake-up call: increase
energy, attention. These little pumpkins ornament
themselves with swells, die
pushing live volume packed spring-
form hard as a knock: Decease
and resist. Content
surges exactly as memory
closes its rear-guarding
eyes
— the world rushes in not by! just be
steady, receptors, measure is fuel:
whatever moves move with the
drift which moving never lies.

Sim, isso é um soneto. Sim, ele depende de rimas:  eyes/lies, increase/decease, cruel/fuel, provavelmente em ordem de importância. Sim, o poema é na verdade sobre si mesmo, tão cheio de sons & informações quanto qualquer coisa que se possa encontrar em Zukofsky ou até mesmo em Shakespeare. Sim, esse poema é mesmo parte humor & parte paixão & parte sinceridade, tudo na mesma medida, imediatamente jocoso & completamente sério. Sim, pode haver um eco de Jack Spicer no leve sarcasmo do senso de humor dos primeiros dois versos & sim, há absolutamente um eco de Robert Duncan audível nas primeiras três ocorrências do verbo move nos últimos dois versos. Sim, se você prestar bastante atenção, as rimas nos fins de verso do primeiro soneto do próprio Shakespeare são precisamente nessas mesmas palavras, ainda que em ordem diversa – as duas “exceções” sendo the no lugar de thee & guarding no lugar de niggarding. E, sim, essa única mudança apodera o problema político das presunções seiscentistas do próprio Shakespeare, incorporadas como discurso, enquanto a mudança operada sobre o the apodera o fabuloso enjambment do penúltimo verso, uma pausa tão sensorial quanto se pode, movimentando-se, imaginar.

(Ron Silliman)

    

É um comentário, digamos, bastante empolgado, como imagino que dê para notar. Para refrescar a memória de quem talvez não tenha a referência imediata de Shakespeare em mente, reproduzo abaixo agora também o soneto I:

I

From fairest creatures we desire increase
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substancial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel.
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the wold, or else this glutton be:
To eat the world’s due, by the grave and thee.

    

Para quem quiser lê-lo em português, segue a tradução de Jorge Wanderley (do volume Sonetos, publicado pela Civilização Brasileira), que o tradutor e professor John Milton, da USP, elege como autor das melhores traduções dos sonetos do bardo para o português:

Dos raros, desejamos descendência,
Que assim não finde a rosa da beleza,
E morto o mais maduro, sua essência
Fique no herdeiro, por inteiro acesa.
Mas tu, que só ao teu olhar te alias,
Em flama própria ao fogo te consomes
Criando a fome onde fartura havia,
Rival perverso de teu próprio nome.
Tu que és do mundo o mais fino ornamento
E a primavera vens anunciar,
Enterras em botão teus suprimentos:
– Doce avareza, estróina em se poupar.
Doa-te ao mundo ou come com fartura
O que lhe deves, tu e a sepultura.

    

De fato, os versos do poema de Shurin terminam todos com as palavras que encerram os versos do soneto de Shakespeare – e, ao que tudo indica, esse jogo é reproduzido e reformulado nos poemas posteriores do livro, ainda que nem sempre seja mantida uma estrutura de 14 versos rimados. São essas as palavras: increase, die, decease, memory, eyes, fuel, lies, cruel, ornament, spring, content, niggarding (que vira guarding), be, thee (que vira the), num esquema de rimas clássico abba cdcd efef gg, que, em Shurin, se torna abcdebcdefgagf. E aqui só posso descrever o que houve comigo como um momento clássico do que se chama, na teoria da tradução, de pulsão (ou talvez fosse melhor denominar compulsão) tradutória… não só por traduzir o poema reproduzindo as rimas, mas pensando em construir a tradução através do mesmo método que o poeta usou para compor o “original” (muitas aspas aqui), tomando por base um outro poema – no meu caso, o próprio Shakespeare, em português.

Por ser uma das melhores, pensei em basear essa tradução de Shurin na tradução de Shakespeare de Jorge Wanderley, mas não consegui chegar a um resultado adequado com a sequência de palavras finais que ele me disponibiliza (descendência, beleza, essência, acesa, alias, consomes, havia, nome, ornamento, anunciar, suprimentos, poupar, fartura, sepultura)… então recorri, por isso, à tradução de Ivo Barroso (do volume 30 Sonetos, da Nova Fronteira):

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

    

…que oferece prole, extinga, colhe, vinga, contrais, energias, jaz, crucias, galardão, botão, Natureza, avareza, fundo, mundo. A dificuldade permanece, é claro: perdemos a equivalência fácil do ornament que Wanderley nos dá de lambuja como “ornamento”, mas me parece mais fácil encaixar palavras como “natureza” ou “crucia(s)” do que “descendência”, “beleza” ou “sepultura”.

Assim, com base nessas palavras como possibilidades para terminações de verso, proponho a seguinte tradução para o poema de Aaron Shurin:

Se o juízo crucia
é pra ficar esperto: vinga
força, atenção. Da aboboreira essa pequena prole
se orna de inchaços, quem as colhe
mata vivo volume que se contrai
duro igual pancada: Extinga
e resista. Os contéudos dão
saltos bem quando do seu fundo
a memória fecha os olhos de avareza
– o mundo
colide, não evade! Firme em botão,
receptores, a mesura é a energia:
tudo que se move move-se por natureza
na deriva em que o movimento nunca jaz.

Como o autor, eu me dei à liberdade de cortar um ou outro pedaço das palavras, extraindo dão de galardão (como o guarding que Shurin extrai do niggarding de Shakespeare) e cortando os -s finais de verbos na segunda pessoa (crucias e contrais). Acabei perdendo a possibilidade de encontrar uma solução melhor para o jogo de palavras decease and resist – uma referência para cease and desist, literalmente “cessar e desistir” (que vira “falecer e resistir”), mas que significa um tipo de ordem jurídica que já vi ser traduzida como “cessação” ou “cessação de atividade” ou ainda “injunção” -, e o esquema de rimas de Shurin acabou tendo de ser alterado, tornando-se abccdbefgfeagd. De qualquer modo, imagino que o resultado seja interessante, pelo menos como uma abertura para uma discussão sobre esse tipo de literatura apropriativa e as suas possibilidades de tradução.

(Adriano Scandolara)

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poesia, tradução

uljana wolf (1979)

nascida em 1979, em berlim, uljana wolf  é poeta, tradutora & editora formada em “germanistik, anglistik & kulturswissenchaft”, pela humboldt universität de berlim. até o momento, tem dois livros de poesia publicados: kochanie ich habe brot gekauft (2005) & falsche freunde (2009) & já recebeu alguns prêmios literários pela sua produção, tais como o “peter-huchel-preis”, o “dresdner lyrikpreis” & o “villa aurora grant in los angeles”. além disso, traduziu para o alemão alguns poetas de língua inglesa, como matthea harvey, christian hawkey (seu marido, autor de um belo livro com/sobre/tradução de georg trakl intitulado ventrakl, que ainda pretendo comentar & traduzir), erín moure & cole swensen, & coeditou o Jahrbuch der Lyrik (2009).  atualmente mora em nova york & prepara seu terceiro livro, meine schönste lengevitch.

depois de conhecer há pouco tempo o trabalho de wolf graças ao ricardo pozzo, começamos a traduzir sua poesia ao português (que, apesar de já estar vertida em um punhado de línguas, ainda não chegou a esta), ou quase. a questão em jogo desde seu livro de estreia é precisamente os limites da linguagem como também limites de língua (quem ainda não leu, leia este belo texto de ricardo domeneck sobre o assunto). o título, kochanie ich habe brot gekauft contém uma palavra em polonês, kochanie, que quer dizer “querido”, de modo que os problemas de tradução já começam aí, afinal, como traduzir o que não está apenas em uma língua? no seu segundo livro, escrito após um período morando nos eua, o processo compositivo se radicalizou na série homônima falsche freunde, onde a poeta trabalha intensamente com os falsos & verdadeiros cognatos das duas línguas; o que cria no leitor uma vertigem, já que várias frases oscilam entre as duas línguas, os ecos sonoros & gráficos, bem como as deformações aqui & ali tornam a instabilidade semântica a norma (na tradução de falsche freunde, o leitor notará que jogamos com os cognatos entre português e espanhol). &, como se não bastasse isso, uljana é uma virtuose da melopeia, o que de fato convida o tradutor a uma empreitada de recriação violenta do original, que por vezes se aproxima do escrever ao modo de.

deixo com vocês, então, alguns poemas dos que já traduzimos até o momento, com o intuito de formar uma antologia da sua obra. algumas dessas traduções já saíram no blog do coletivo pó&teias.

guilherme gontijo flores

2 POEMAS DE KOCHANIE ICH HABE BROT GEKAUFT (KOCHANIE EU COMPREI PÃO)

aufwachraum I

ach wär ich nur im aufwachraum geblieben
traumverloren tropfgebunden unter weißen

laken neben andern die sich auch nicht fanden
eine herde schafe nah am schlaf noch nah an

gott und trost da waren große schwesterntiere
unsre hirten die sich samten beugten über uns –

und stellten wir einander vor das zahlenrätsel
mensch: von eins bis zehn auf einer skala sag

wie groß ist dein schmerz? – und wäre keine
grenze da in sicht die uns erschließen könnte

aus der tiefe wieder aus dem postnarkotischen
geschniefe – blieben wir ganz nah bei diesem

ich von andern schafen kaum zu unterscheiden
die hier weiden neben sich im aufwachraum

sala de recuperação I

ah se eu só em recuperação ficara
em sonhos presa em gotas brancas folhas

junto a outras também desencontradas
ovelhas de um rebanho em torno ao sono

então a deus e ao consolo lá estavam irmãs
ferinas nossas pastoras inclinando sobre nós –

e nos perguntávamos a criptografia
humano: diga-me em grau de um a dez

quão grande é tua dor? – nem houvera limite
algum ali em vista que nos pudesse abrir

de volta das profundezas e do pós-narcótico
despertar – ficaríamos bem próximos a este

eu de outras ovelhas quase indistinguível
que pastam ao seu lado na sala de recuperação

(trad. ricardo pozzo)

aufwachraum II

ach wär ich nie im aufwachraum gewesen
taub gestrandet schwankend in der weißen

barke neben andern barken angebunden –
ja das ist der letzte hafen ist der klamme

schlafkanal mit schwarzen schwestern die
als strafgericht am ufer stehn und dir mit

strengen fingerspritzen drohen: tropf und
teufel meine liebe können sie mich hören

und hören kannst du nichts nur diese stille
in den schleusen sanitäres fegewasser das

dich tropfenweise aus dem schlauch ernährt –
als unter deinem bett das meer mit raschen

schlägen dich zurückraubt in den traum von
stern und knebel fern vom aufwachraum

sala de recuperação II

ah se eu nunca em recuperação restara
surda encalhada e flutuante em brancas

barcas perto de outras barcas presas
sim este é o porto último é o úmido

canal do sono com irmãs negras que
como um tribunal estão costeiras e

te ameaçam com rígida seringa: gotas
e diabos meu caro podiam me ouvir

e você nada pode ouvir só esta calma
na comporta do purgaquário sanitário

que gota a gota pela cânula te nutre –
enquanto sob tua cama o mar acelerado

há de te furtar ao sonho estrela e mordaça
alheia à sala de recuperação

(trad. ricardo pozzo)

2 POEMAS DE FALSCHE FREUNDE (FALSOS AMIGOS)

apart – art

am anfang war, oder zu beginn, welche art laut, oder leise, listen, when they begin the beguine, und wann ist das. und muss, wer a sagt, gar nichts, wer b sagt, der lippen sich gewiss (gebiss erst etwas später) und sein: sei sprechen dann die art of falling aus einander, der stille, dem rahmen, immer apart, so ausgefallen wie nur eben ein.

gracioso – grasa

no princípio a grasa. ou pra empezar, com arte alta, ou silenciosa: escucha quando empiezan las beguinas, e quando é isso. e quem diz a não quem diz b, deve estar com lábios certos (decerto as dentições chegam mais tarde): era falar então a arte de quedar solo, além do silêncio, do marco, siempre esquisito, gracioso como a penas un.

(trad. guilherme gontijo flores)

bad – bald – bet~t – brief

am anfang bald, und bald am ende wieder: unsere haare, und dazwischen sind sie nicht zu fassen, nicht in sich und nicht in griff zu kriegen, weder im guten noch im bad. stattdessen morgens zu berg (take a bet?) und nachts out of bed (siehe ad). am besten hältst du sie als igel, der hat noch jeden hare besiegt. liegt aber eine strähne im brief, gar eine lange, halte sie unverfänglich an die wange.

queda – quitar

no princípio calvo e calvo no fim: nossos cabelos, e não são fáceis de tirar, nem de quitar, solo o mano, por banho ou por mal. em lugar de mañana até montanha (dudas de mi?) e noite fuera de la cama (mira allì). melhor mantê-los como ouriço que derrotou cá os belos. mas traça a raia no texto, uma bem longa, que queda inofensiva sobre a face.

(trad. guilherme gontijo flores)

ah se eu só em recuperação ficara solta

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