poesia, tradução

Marcial, por Décio Pignatari

MarcialTenho a impressão de que todos os alunos de latim (ou pelo menos os com algum senso de humor) vibram na primeira vez que leem em aula o infame verso, ou o poema todo, aliás, do pedicabo ego vos et irrumabo de Catulo (carmen XVI) – pois esse frisson é elevado à enésima potência quando se descobre Marco Valério Marcial (40 – 102/104). Posterior a Catulo, Marcial herda dele a forma do epigrama, o poema curto em dísticos elegíacos (alternando entre hexâmetros e pentâmetros datílicos), às vezes amoroso, às vezes invectivo, às vezes abertamente escatológico ou pornográfico, mas sempre afiado.

Seu primeiro livro, Liber spectaculorum, data da inauguração do Coliseu e tem a obra arquitetônica e os seus espetáculos como temática, como deixa claro o título. Depois foi autor de 12 volumes de epigramas satíricos, os Epigrammaton libri, mais dois últimos volumes, Xenia (Epigrammaton liber XIII) e Apophoreta (Epigrammaton liber XIV), palavras emprestadas do grego que podem ser traduzidas, como Décio fez, por “Presentes” e “Lembranças”, totalizando 1.561 epigramas. Sua obra influenciou Rabelais, Quevedo, Gregório de Matos, Bocage e inúmeros outros poetas. No entanto, em tradução, por pudor, costumava-se extirpar o seu lado pornô-escatológico. Em inglês, por exemplo, mesmo a edição de 1897 que atende pelo título enganoso de Complete Epigrams não contém os poemas mais safados, e basta um olhar casual no livro II (disponível online clicando aqui) para ver o tanto de títulos que estão como “[not translated]”. E em português também, como aponta Décio Pignatari, “censuradíssimo, [Marcial] só encontrou as primeiras traduções sem travas nos anos de 60 e 70, especialmente graças ao trabalho pioneiro de Guido Ceronetti (edições Eunaudi)”.

As traduções que compartilho neste post partem do volume clássico de traduções do Décio intitulado 31 poetas 214 poemas: de Rigveda e Safo a Apollinaire, publicado pela editora da UNICAMP. Além de Marcial, este volume conta com os Hinos do Rigveda, poetas-santos de Xiva, Safo, Alceu, Íbico, Praxila, Catulo, Horácio, Juvenal, Propércio, poetas da Dinastia Tang, Issa, os trovadores Vidal e Vogelweide, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud e Apollinaire… no entanto, apesar de todos esses nomes distribuídos ao longo de séculos de história literária, acaba sendo Marcial quem rouba a cena em 31 poetas 214 poemas, sendo 57 desses 214 poemas traduzidos dele.

Selecionei, portanto, oito dos epigramas presentes nesse livro. Não são necessariamente, como se poderia esperar, os mais eróticos – creio que nisso a Germina chegou lá antes de mim (sem trocadilho), e vocês podem conferir alguns dos poemas mais divertidos dessa seleção (como II, 62 e II, 73, bem como outros traduzidos por Jorge de Sena) clicando aqui. E a Modo de Usar & co. também tem algumas traduções feitas por João Angelo Oliva Neto (neste link).

As traduções a seguir estão acompanhadas dos originais, que não se encontram, porém, no livro, e foram extraídas das versões online disponíveis na wikisource latina (disponíveis clicando aqui). Desnecessário dizer, desde já, que o estilo aplicado pelo Décio nas traduções não se pretende filologicamente correto (vide as liberdades como traduzir Cloé por Beatriz ou o uso vocabular de termos como “vestido de soirée”), nem replicar a métrica do original… mas, assim como o Guilherme fez cá mais tarde com suas Catulices (postadas no escamandro mesmo no ano passado, depois reproduzidas também na Germina), ele visa empregar uma linguagem que poderia soar anacrônica (o que, no limite, toda tradução dos clássicos para línguas modernas acaba sendo, ainda que a maioria delas, recorrendo a um estilo mais empoeirado, finja que não), para ressaltar o quanto há de contemporâneo – e, no limite, talvez pudéssemos arriscar dizer atemporal, ou o mais próximo de algo assim – nesses poemas.

Adriano Scandolara

Priapo

           

I, 46

Se você exclama, Edilo: “Vou gozar –
Depressa!” – o meu tição se esfria, apaga.
Prolongue o ato que eu irei mais rápido.
Pra ir depressa, diga: “Devagar”.

           

Cum dicis ‘Propero, fac si facis,’ Hedyle, languet
Protinus et cessat debilitata Venus.
Expectare iube: velocius ibo retentus.
Hedyle, si properas, dic mihi, ne properem.

           

III, 53

Dispenso o seu rosto
Dispenso o pescoço
Dispenso suas mãos
Dispenso seus peitos
Dispenso suas coxas
Dispenso sua bunda
Dispenso seus quadris

– E para mencionar mais um detalhe,
Dispenso você, Beatriz.

           

Et voltu poteram tuo carere
Et collo manibusque cruribusque
Et mammis natibusque clunibusque,
Et, ne singula persequi laborem,
Tota te poteram, Chloe, carere.

           

III, 65

O que exala
            a maçã mordida
            por uma menina fofa
            a brisa que veio
            dos campos de açafrão da Corícia
            a vinha onde alvejam os primeiro racimos
            a campina por onde recém-pastou
            o rebanho de ovelhas
            a murta
            o especiarista árabe
            o âmbar friccionado
            o incenso do Oriente ao fogo brando
            a gleba chovida pela chuva de verão
            a grinalda há pouco retirada
            de cabelos olorando a nardo
– esse é o perfume dos seus beijos,
Diadumeno, garoto cruel.
E se você me desse tudo isso,
Espontaneamente?

           

Quod spirat tenera malum mordente puella,
Quod de Corycio quae venit aura croco;
Vinea quod primis floret cum cana racemis,
Gramina quod redolent, quae modo carpsit ovis;
Quod myrtus, quod messor Arabs, quod sucina trita,
Pallidus Eoo ture quod ignis olet;
Glaeba quod aestivo leviter cum spargitur imbre,
Quod madidas nardo passa corona comas:
Hoc tua, saeve puer Diadumene, basia fragrant.
Quid si tota dares illa sine invidia?

           

IV, 84

Ninguém pode provar, em Roma inteira,
Que já comeu Taís, embora todos
A cantem e cobicem. Mas, é santa?
Ao contrário: da boca faz boceta.

           

Non est in populo nec urbe tota,
A se Thaida qui probet fututam,
Cum multi cupiant rogentque multi.
Tam casta est, rogo, Thais? Immo fellat.

           

X, 29

O prato que você me dava, Sextílio,
     Nas festa saturnais,
     Você o deu à amante;
E aquela toga que sempre me enviava,
     Nas calendas de março,
     Trocou por um vestido
     Verde, de soirée:
As garotas saem grátis pra você,
Que vive fodendo com os meus presentes!

    

Quam mihi mittebas Saturni tempore lancem,
Misisti dominae, Sextiliane, tuae;
Et quam donabas dictis a Marte Kalendis,
De nostra prasina est synthesis empta toga.
Iam constare tibi gratis coepere puellae:
Muneribus futuis, Sextiliane, meis.

    

X, 81

Era manhã, vieram dois, queriam
Curtir a Fílis, nua, na trepada.
Mas, logo, a discussão: “Primeiro, eu!”
“Eu atendo os dois lados”, disse a Fílis.
Falou e fez: quatro dedões dos pés
Voltados para baixo e dois para cima.

    

Cum duo venissent ad Phyllida mane fututum
Et nudam cuperet sumere uterque prior,
Promisit pariter se Phyllis utrique daturam,
Et dedit: ille pedem sustulit, hic tunicam.

           

Presentes e Lembranças (Apophoreta)
    
Gitana de Cádiz (XIV, 203)

Rebola tanto,
A sem vergonha,
Que leva à bronha
Até um santo

    

Puella Gaditana

Tam tremulum crisat, tam blandum prurit, ut ipsum
Masturbatorem fecerit Hippolytum.

    

Louquinho bufão (XIV, 210)

Não finge o pasmo, não inventa que é chapado:
Quem pira além da piração não é pirado.
    
Morio

Non mendax stupor est, nec fingitur arte dolosa.
Quisquis plus iusto non sapit, ille sapit.

    

(poemas de Marcial, traduções de Décio Pignatari)

Padrão