poesia, tradução

uljana wolf (1979)

nascida em 1979, em berlim, uljana wolf  é poeta, tradutora & editora formada em “germanistik, anglistik & kulturswissenchaft”, pela humboldt universität de berlim. até o momento, tem dois livros de poesia publicados: kochanie ich habe brot gekauft (2005) & falsche freunde (2009) & já recebeu alguns prêmios literários pela sua produção, tais como o “peter-huchel-preis”, o “dresdner lyrikpreis” & o “villa aurora grant in los angeles”. além disso, traduziu para o alemão alguns poetas de língua inglesa, como matthea harvey, christian hawkey (seu marido, autor de um belo livro com/sobre/tradução de georg trakl intitulado ventrakl, que ainda pretendo comentar & traduzir), erín moure & cole swensen, & coeditou o Jahrbuch der Lyrik (2009).  atualmente mora em nova york & prepara seu terceiro livro, meine schönste lengevitch.

depois de conhecer há pouco tempo o trabalho de wolf graças ao ricardo pozzo, começamos a traduzir sua poesia ao português (que, apesar de já estar vertida em um punhado de línguas, ainda não chegou a esta), ou quase. a questão em jogo desde seu livro de estreia é precisamente os limites da linguagem como também limites de língua (quem ainda não leu, leia este belo texto de ricardo domeneck sobre o assunto). o título, kochanie ich habe brot gekauft contém uma palavra em polonês, kochanie, que quer dizer “querido”, de modo que os problemas de tradução já começam aí, afinal, como traduzir o que não está apenas em uma língua? no seu segundo livro, escrito após um período morando nos eua, o processo compositivo se radicalizou na série homônima falsche freunde, onde a poeta trabalha intensamente com os falsos & verdadeiros cognatos das duas línguas; o que cria no leitor uma vertigem, já que várias frases oscilam entre as duas línguas, os ecos sonoros & gráficos, bem como as deformações aqui & ali tornam a instabilidade semântica a norma (na tradução de falsche freunde, o leitor notará que jogamos com os cognatos entre português e espanhol). &, como se não bastasse isso, uljana é uma virtuose da melopeia, o que de fato convida o tradutor a uma empreitada de recriação violenta do original, que por vezes se aproxima do escrever ao modo de.

deixo com vocês, então, alguns poemas dos que já traduzimos até o momento, com o intuito de formar uma antologia da sua obra. algumas dessas traduções já saíram no blog do coletivo pó&teias.

guilherme gontijo flores

2 POEMAS DE KOCHANIE ICH HABE BROT GEKAUFT (KOCHANIE EU COMPREI PÃO)

aufwachraum I

ach wär ich nur im aufwachraum geblieben
traumverloren tropfgebunden unter weißen

laken neben andern die sich auch nicht fanden
eine herde schafe nah am schlaf noch nah an

gott und trost da waren große schwesterntiere
unsre hirten die sich samten beugten über uns –

und stellten wir einander vor das zahlenrätsel
mensch: von eins bis zehn auf einer skala sag

wie groß ist dein schmerz? – und wäre keine
grenze da in sicht die uns erschließen könnte

aus der tiefe wieder aus dem postnarkotischen
geschniefe – blieben wir ganz nah bei diesem

ich von andern schafen kaum zu unterscheiden
die hier weiden neben sich im aufwachraum

sala de recuperação I

ah se eu só em recuperação ficara
em sonhos presa em gotas brancas folhas

junto a outras também desencontradas
ovelhas de um rebanho em torno ao sono

então a deus e ao consolo lá estavam irmãs
ferinas nossas pastoras inclinando sobre nós –

e nos perguntávamos a criptografia
humano: diga-me em grau de um a dez

quão grande é tua dor? – nem houvera limite
algum ali em vista que nos pudesse abrir

de volta das profundezas e do pós-narcótico
despertar – ficaríamos bem próximos a este

eu de outras ovelhas quase indistinguível
que pastam ao seu lado na sala de recuperação

(trad. ricardo pozzo)

aufwachraum II

ach wär ich nie im aufwachraum gewesen
taub gestrandet schwankend in der weißen

barke neben andern barken angebunden –
ja das ist der letzte hafen ist der klamme

schlafkanal mit schwarzen schwestern die
als strafgericht am ufer stehn und dir mit

strengen fingerspritzen drohen: tropf und
teufel meine liebe können sie mich hören

und hören kannst du nichts nur diese stille
in den schleusen sanitäres fegewasser das

dich tropfenweise aus dem schlauch ernährt –
als unter deinem bett das meer mit raschen

schlägen dich zurückraubt in den traum von
stern und knebel fern vom aufwachraum

sala de recuperação II

ah se eu nunca em recuperação restara
surda encalhada e flutuante em brancas

barcas perto de outras barcas presas
sim este é o porto último é o úmido

canal do sono com irmãs negras que
como um tribunal estão costeiras e

te ameaçam com rígida seringa: gotas
e diabos meu caro podiam me ouvir

e você nada pode ouvir só esta calma
na comporta do purgaquário sanitário

que gota a gota pela cânula te nutre –
enquanto sob tua cama o mar acelerado

há de te furtar ao sonho estrela e mordaça
alheia à sala de recuperação

(trad. ricardo pozzo)

2 POEMAS DE FALSCHE FREUNDE (FALSOS AMIGOS)

apart – art

am anfang war, oder zu beginn, welche art laut, oder leise, listen, when they begin the beguine, und wann ist das. und muss, wer a sagt, gar nichts, wer b sagt, der lippen sich gewiss (gebiss erst etwas später) und sein: sei sprechen dann die art of falling aus einander, der stille, dem rahmen, immer apart, so ausgefallen wie nur eben ein.

gracioso – grasa

no princípio a grasa. ou pra empezar, com arte alta, ou silenciosa: escucha quando empiezan las beguinas, e quando é isso. e quem diz a não quem diz b, deve estar com lábios certos (decerto as dentições chegam mais tarde): era falar então a arte de quedar solo, além do silêncio, do marco, siempre esquisito, gracioso como a penas un.

(trad. guilherme gontijo flores)

bad – bald – bet~t – brief

am anfang bald, und bald am ende wieder: unsere haare, und dazwischen sind sie nicht zu fassen, nicht in sich und nicht in griff zu kriegen, weder im guten noch im bad. stattdessen morgens zu berg (take a bet?) und nachts out of bed (siehe ad). am besten hältst du sie als igel, der hat noch jeden hare besiegt. liegt aber eine strähne im brief, gar eine lange, halte sie unverfänglich an die wange.

queda – quitar

no princípio calvo e calvo no fim: nossos cabelos, e não são fáceis de tirar, nem de quitar, solo o mano, por banho ou por mal. em lugar de mañana até montanha (dudas de mi?) e noite fuera de la cama (mira allì). melhor mantê-los como ouriço que derrotou cá os belos. mas traça a raia no texto, uma bem longa, que queda inofensiva sobre a face.

(trad. guilherme gontijo flores)

ah se eu só em recuperação ficara solta

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