crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

A Lírica Involuntária de Aaron Shurin

Aaron_ShurinAaron Shurin (1947 – ) é um poeta norte-americano que, apesar de ter o que parece ser um reconhecimento pequeno, é autor de um grande número de livros de poemas, ensaios e de poesia em prosa. Meu contato com ele foi – como tem sido algo recorrente por aqui – por completo acaso, através de uma postagem no blog do célebre crítico e poeta da language poetry, Ron Silliman. Em um post de 2005 (clique aqui para ler), Silliman comenta um livro de Shurin intitulado Involuntary Lyrics, recém-lançado à época, que marca o retorno do autor à poesia versificada após 15 anos de publicação exclusiva de poesia em prosa. O que é crucial, porém, para a poética de Involuntary Lyrics – e o que mais me surpreendeu, considerando o meu interesse recente por poesia apropriativa, instigado pela crítica Marjorie Perloff – é que o livro todo se ancora completamente sobre a produção sonetística de William Shakespeare. Em seu blog, Silliman reproduz o primeiro poema do livro (intitulado I à moda da enumeração clássica em algarismos romanos dos sonetos shakespearianos) e tece o seguinte parágrafo de comentário, que faço questão de traduzir abaixo, junto com o poema em questão:

If the judgment’s cruel
that’s a wake-up call: increase
energy, attention. These little pumpkins ornament
themselves with swells, die
pushing live volume packed spring-
form hard as a knock: Decease
and resist. Content
surges exactly as memory
closes its rear-guarding
eyes
— the world rushes in not by! just be
steady, receptors, measure is fuel:
whatever moves move with the
drift which moving never lies.

Sim, isso é um soneto. Sim, ele depende de rimas:  eyes/lies, increase/decease, cruel/fuel, provavelmente em ordem de importância. Sim, o poema é na verdade sobre si mesmo, tão cheio de sons & informações quanto qualquer coisa que se possa encontrar em Zukofsky ou até mesmo em Shakespeare. Sim, esse poema é mesmo parte humor & parte paixão & parte sinceridade, tudo na mesma medida, imediatamente jocoso & completamente sério. Sim, pode haver um eco de Jack Spicer no leve sarcasmo do senso de humor dos primeiros dois versos & sim, há absolutamente um eco de Robert Duncan audível nas primeiras três ocorrências do verbo move nos últimos dois versos. Sim, se você prestar bastante atenção, as rimas nos fins de verso do primeiro soneto do próprio Shakespeare são precisamente nessas mesmas palavras, ainda que em ordem diversa – as duas “exceções” sendo the no lugar de thee & guarding no lugar de niggarding. E, sim, essa única mudança apodera o problema político das presunções seiscentistas do próprio Shakespeare, incorporadas como discurso, enquanto a mudança operada sobre o the apodera o fabuloso enjambment do penúltimo verso, uma pausa tão sensorial quanto se pode, movimentando-se, imaginar.

(Ron Silliman)

    

É um comentário, digamos, bastante empolgado, como imagino que dê para notar. Para refrescar a memória de quem talvez não tenha a referência imediata de Shakespeare em mente, reproduzo abaixo agora também o soneto I:

I

From fairest creatures we desire increase
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substancial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel.
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the wold, or else this glutton be:
To eat the world’s due, by the grave and thee.

    

Para quem quiser lê-lo em português, segue a tradução de Jorge Wanderley (do volume Sonetos, publicado pela Civilização Brasileira), que o tradutor e professor John Milton, da USP, elege como autor das melhores traduções dos sonetos do bardo para o português:

Dos raros, desejamos descendência,
Que assim não finde a rosa da beleza,
E morto o mais maduro, sua essência
Fique no herdeiro, por inteiro acesa.
Mas tu, que só ao teu olhar te alias,
Em flama própria ao fogo te consomes
Criando a fome onde fartura havia,
Rival perverso de teu próprio nome.
Tu que és do mundo o mais fino ornamento
E a primavera vens anunciar,
Enterras em botão teus suprimentos:
– Doce avareza, estróina em se poupar.
Doa-te ao mundo ou come com fartura
O que lhe deves, tu e a sepultura.

    

De fato, os versos do poema de Shurin terminam todos com as palavras que encerram os versos do soneto de Shakespeare – e, ao que tudo indica, esse jogo é reproduzido e reformulado nos poemas posteriores do livro, ainda que nem sempre seja mantida uma estrutura de 14 versos rimados. São essas as palavras: increase, die, decease, memory, eyes, fuel, lies, cruel, ornament, spring, content, niggarding (que vira guarding), be, thee (que vira the), num esquema de rimas clássico abba cdcd efef gg, que, em Shurin, se torna abcdebcdefgagf. E aqui só posso descrever o que houve comigo como um momento clássico do que se chama, na teoria da tradução, de pulsão (ou talvez fosse melhor denominar compulsão) tradutória… não só por traduzir o poema reproduzindo as rimas, mas pensando em construir a tradução através do mesmo método que o poeta usou para compor o “original” (muitas aspas aqui), tomando por base um outro poema – no meu caso, o próprio Shakespeare, em português.

Por ser uma das melhores, pensei em basear essa tradução de Shurin na tradução de Shakespeare de Jorge Wanderley, mas não consegui chegar a um resultado adequado com a sequência de palavras finais que ele me disponibiliza (descendência, beleza, essência, acesa, alias, consomes, havia, nome, ornamento, anunciar, suprimentos, poupar, fartura, sepultura)… então recorri, por isso, à tradução de Ivo Barroso (do volume 30 Sonetos, da Nova Fronteira):

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

    

…que oferece prole, extinga, colhe, vinga, contrais, energias, jaz, crucias, galardão, botão, Natureza, avareza, fundo, mundo. A dificuldade permanece, é claro: perdemos a equivalência fácil do ornament que Wanderley nos dá de lambuja como “ornamento”, mas me parece mais fácil encaixar palavras como “natureza” ou “crucia(s)” do que “descendência”, “beleza” ou “sepultura”.

Assim, com base nessas palavras como possibilidades para terminações de verso, proponho a seguinte tradução para o poema de Aaron Shurin:

Se o juízo crucia
é pra ficar esperto: vinga
força, atenção. Da aboboreira essa pequena prole
se orna de inchaços, quem as colhe
mata vivo volume que se contrai
duro igual pancada: Extinga
e resista. Os contéudos dão
saltos bem quando do seu fundo
a memória fecha os olhos de avareza
– o mundo
colide, não evade! Firme em botão,
receptores, a mesura é a energia:
tudo que se move move-se por natureza
na deriva em que o movimento nunca jaz.

Como o autor, eu me dei à liberdade de cortar um ou outro pedaço das palavras, extraindo dão de galardão (como o guarding que Shurin extrai do niggarding de Shakespeare) e cortando os -s finais de verbos na segunda pessoa (crucias e contrais). Acabei perdendo a possibilidade de encontrar uma solução melhor para o jogo de palavras decease and resist – uma referência para cease and desist, literalmente “cessar e desistir” (que vira “falecer e resistir”), mas que significa um tipo de ordem jurídica que já vi ser traduzida como “cessação” ou “cessação de atividade” ou ainda “injunção” -, e o esquema de rimas de Shurin acabou tendo de ser alterado, tornando-se abccdbefgfeagd. De qualquer modo, imagino que o resultado seja interessante, pelo menos como uma abertura para uma discussão sobre esse tipo de literatura apropriativa e as suas possibilidades de tradução.

(Adriano Scandolara)

Anúncios
Padrão