crítica

o canto dos mortos – paul zumthor

performance hoje é palavra de ordem. palavra que me atrai, & muito, pra ser sincero.

mas me perturba/atiça/incita ainda mais a performance dos mortos.

suas ações inalcançáveis.

por isso este trechinho de paul zumthor, do livro introdução à poesia oral, em tradução de jerusa pires ferreira, maria lúcia diniz pochat & maria inês de almeida, que saiu em 2010 pela editora ufmg.

guilherme gontijo flores

"Dança dos índios Tapuia", de Albert Eckout (séc. XVII)

“Dança dos índios Tapuia”, de Albert Eckout (séc. XVII)

Tiro de minha biblioteca, ao alcance das mãos, uma edição da Chanson de Roland. Sei (ou presumo) que no século XII este poema era cantado, com uma melodia que, aliás, desconheço. Eu o leio. O que tenho à vista, impresso em manuscrito, não é senão um fragmento de passado, congelado num espaço reduzido da página ou do livro. Esta contradição causa um problema epistemológico que só a prática permite, quando não resolver, ao menos esclarecer empiricamente. Com o acúmulo de informações sobre as mentalidades e costumes dessa época distante, tenta-se sugerir o que ali acontecia, suscita-se uma representação imaginária da Chanson em ato… e esforça-se para integrá-la ao prazer que se sente (assim o espero) com esta leitura; para considerá-la, se for o caso, no estudo histórico que se faz do texto.

A ambiguidade da situação só é menor se o texto poético antigo nos foi transmitido com uma notação musical. Esta constitui realmente, de forma irrecusável, uma prova da oralidade. Ela autoriza uma reconstituição parcial da performance: é desta forma que os discos, algumas vezes excelentes, gravados por diversos medievalistas musicólogos até G. Le Vot, nos permitem ouvir as canções de vários trovadores mais ou menos contemporâneos do Roland. O efeito de distância temporal e de opressão sensorial é fortemente atenuado. Entretanto, ele não desaparece: a prova são as querelas de escola, relativas à interpretação das melodias antigas.

[paul zumthor, p. 62]

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