crítica de tradução, poesia, tradução

Qohélet, O-que-Sabe

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(Para um breve comentário sobre Haroldo de Campos e suas incursões e abordagem sobre a tradução bíblica feita diretamente do hebraico com enfoque poético, vide meu post anterior no escamandro sobre sua tradução do Cântico dos Cânticos, clicando aqui)

Qohélet ou Cohélet (קוהלת), mais conhecido como Eclesiastes, um dos livros mais famosos da Tanakh, a Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento, é o nome da figura que enuncia alguns dos ensinamentos mais célebres do livro, como o de que tudo é vaidade ou de que não há nada de novo sob o sol. Sua identidade, de fato, é desconhecida: Qohélet significa meramente um “pregador” ou, por via etimológica “aquele que reúne” (mais sobre isso clicando aqui), no sentido de alguém que reúne e depois fala diante de uma assembleia. O título “Eclesiastes”, por sua vez, vem do grego Ekklesiastes (Ἐκκλησιαστής, sendo que ekklesia = assembleia), que tem esse sentido também – e lembremos que a peça de Aristófanes tipicamente traduzida para o português como As Mulheres na Assembleia, A Assembléia das Mulheres ou A Revolução das Mulheres se chama em grego justamente Ekklēsiázousai (Ἐκκλησιάζουσαι). Talvez seja um comentário meio estúpido de se fazer, mas é bom lembrar que Eclesiastes não deve ser confundido com o livro chamado em português de Eclesiástico, que tem também foi escrito em hebraico (por um autor de nome Jesus ben Sirá, motivo pelo qual recebe o nome também de “Sirácida”) e tem esse sentido de “Livro da Igreja ou da Assembleia”, mas que não faz parte do cânone judaico e, por isso, ao contrário do Eclesiastes canônico, não integra a Tanakh.

O que fica subentendido pelo discurso de Qohélet sobre sua identidade, porém, é que ele seria, na verdade, ninguém menos que o próprio rei Salomão (ou alguém assumindo a sua voz como eu-lírico), uma atribuição de autoria compreensível, a julgar pelas partes em que declara coisas como “fui rei de Israel em Jerusalém” e pelas frequentes referências à sua proverbial sabedoria. Essa autoria jamais é confirmada de fato no texto (e, a bem da verdade, há indícios textuais que indicam que o texto fosse historicamente posterior ao período de vida de Salomão), mas esses detalhes parecem ser o suficiente para que a associação entre as duas figuras esteja bastante arraigada culturalmente – e um dos exemplos que mais rápido me vem à mente é a canção “How Fortunate the Man with None”, do grupo Dead Can Dance, baseado no poema “Die Ballade von den Prominenten”, de Bertold Brecht, em tradução de John Willet. Canta o vocalista Brendan Perry nesse poema musicado: “You saw sagacious Solomon / You know what came of him / To him complexities seemed plain / He cursed the hour that gave birth to him / And saw that everything was vain” (no original, “Und sah, daß alles eitel war”: “E viu que tudo era vão”).

Mas essa não é a maior estranheza do livro. Assim como o Cântico dos Cânticos, cuja autoria também é atribuída a Salomão, é peculiar por ser um poema erótico inserido no meio do cânone de textos sagrados, o Qohélet destoa por ser um poema sapiencial de tom existencialista, com laivos de estoicismo ou epicurismo gregos ou até mesmo beirando o niilismo moderno. Diz Haroldo, no texto de apresentação do seu volume Qohélet: O-que-Sabe (editora Perspectiva):

Qohélet (o Eclesiastes) é um livro estranho. A um observador moderno, viciosamente inclinado a projetar uma impertinente mirada retroativa sobre o passado – o século III a. C., época em que o livro do Pregador teria sido escrito – seu texto causa um choque. Parece um fragmento insurrecto, imbricado anacronicamente no “cânon” bíblico pelo martelo filosofante de Nietzsche, o pensador do “eterno retorno”, da “vontade do nada” e do “céu-acaso”, sobranceiramente disposto acima de todas as coisas.

Ele deixa mais claro depois o anacronismo dessa ideia (que entretém talvez justamente por ser anacrônica) e que, na verdade, seria o próprio Nietzsche “quem nos faz pensar nos eventuais precursores de Nietzsche” e prossegue comentando os pormenores filosóficos do livro, mas, de qualquer modo, a associação e a sensação de estranheza acabam por ser inevitáveis.

Sobre a tradução, a proposta do Haroldo mantém-se igual à de suas outras traduções bíblicas, priorizando o valor poético do texto, tanto no que diz respeito aos conceitos empregados quanto à sonoridade e o ritmo. Uma das soluções mais interessantes que Haroldo encontra, por exemplo, diz respeito ao famoso versículo do “tudo é vaidade”. O original diz havel havalim (הֲבֵל הֲבָלִים) e “vaidade das vaidades”, conforme consta na Vulgata (vanitas vanitatem), é uma das traduções possíveis, mas não a única. “Havel” é “vaidade”, mas é também “futilidade” (como consta na tradução de Fridlin & Godorovits), “vazio”, “vapor”, “sopro”. Sempre acho louvável – talvez como uma das maiores conquistas de um tradutor de poesia – quando um tradutor é capaz de pegar uma expressão antiga que acabou se tornando clichê, apesar da força poética que ela possa ter por si já, e conceder-lhe um novo lustro. Penso, por exemplo, nas traduções de Augusto de Campos, Paulo Leminski ou Ezra Pound do famoso poema do carpe diem, de Horácio (postadas já aqui no escamandro, ao lado de outras tantas traduções diferentes)… tendo o próprio carpe diem (literalmente “colhe o dia”, mas geralmente traduzido como “aproveita o dia”) se tornado um clichê também,  a expressão transforma-se em “curte o dia” e “pega este dia” nas mãos de Campos e Leminski, mas – o que é ainda mais ousado – é completamente omitido na versão de Pound. Daí, numa decisão não tão violenta, mas ainda assim inovadora, Haroldo, deixando mais implícita a noção de “futilidade” e “vaidade” e mantendo um jogo de aliteração (há ainda um outro som de “ha” em “hakol” (הַכֹּל), “tudo”), do havel havalim tira a imagem de uma “névoa de nadas”, “névoa-nada”.

Como da outra vez, então, compartilho a tradução de Haroldo de Campos, de tom mais poético, em companhia da tradução de enfoque mais semântico e religioso de David Godorovits e Jairo Fridlin, presente na edição da Bíblia Hebraica da editora Sêfer. Para propósitos de comparação com o original, o texto hebraico pode ser conferido clicando aqui, junto com uma tradução, verso a verso, para o inglês.

Adriano Scandolara

           

I

1. Palavras  §  de Qohélet filho de Davi  §§
rei  §  em Jerusalém

2. Névoa de nadas  §  disse O-que-Sabe  §§
névoa de nadas  §  tudo névoa-nada

3. Que proveito  §  para o homem  §§§
De todo o seu afã  §§
fadiga de afazeres  §  sob o sol

4. Geração-que-vai  §  e geração-que-vem  §§
e a terra  §  durando para sempre

5. E o sol desponta  §  e o sol se põe  §§§
E ao mesmo ponto  §§
aspira  §  de onde ele reponta

6. Vai  §  rumo ao sul  §§
e volve  §  rumo ao norte  §§§
Volve revolve  §  o vento vai  §§
e às voltas revôlto  §  o vento volta

7. Todos os rios  §  correm para o mar  §§
e o mar  §  não replena  §§§
Ao lugar  §  onde os rios  §  acorrem  §§
para lá  §  de novo  §  correm

8. Tudo tédio palavras  §§
como dizê-lo  §  em palavras  §§§
O olho não se sacia  §  de ver  §§
e o ouvido não se satura  §  de ouvir

9. Aquilo que já foi  §  é aquilo que será  §§
e aquilo que foi feito  §§  aquilo se fará  §§§
E não há nada novo  §  sob o sol

10. Vê-se algo  §  se diz eis  §  o novo  §§§
Já foi  §  era outrora  §§
fora antes de nós  §  noutras eras

11. Nenhum memento  §  dos primeiros vivos  §§§
E também dos vindouros  §  daqueles por vir?
deles não ficará  §  memória  §§
junto aos pós-vindos  §  que depois virão

12. Eu Qohélet O-que-Sabe  §  eu fui rei  §
de Israel  §  em Jerusalém

13. E do meu coração eu me dei  §
a indagar e inquirir  §  com saber  §§
sobre o todo  §  de tudo que é feito  §  sob o céu  §§§
Torpe tarefa  §  que deu Elohim  §
aos filhos do homem  § para atarefá-los

14. Eu vi  §  todos os feitos  §§
que se fazem  §  sob o sol  §§§
E eis tudo  §  névoa-nada  §  e fome-de-vento

15. O que é torto  §  não se pode indireitar  §§§
E o que é falho  §  não se pode enumerar

16. Palavras para o meu coração  §  eu as disse  §§
eis-me  §  aumentei e avultei  §  o saber  §§
muito além  §  de quantos foram antes  §
sobre Jerusalém  §§§
E por dentro de mim  §  vi no auge  §  o saber e a ciência

17. E do meu coração eu me dei  §  a saber o saber  §§
e a saber da loucura  §  e da sandice  §§§
Soube  §§  também isto  §  é vento-que-some

18. Pois  §  em muito saber  §   muito sofrer  §§§
E onde a ciência cresce  §  acresce a pena

(tradução de Haroldo de Campos)

           

1.

1 Palavras de Cohélet ben [filho de] Davi, o rei em Jerusalém. 2 Tudo é vão e fútil – diz Cohélet – Futilidade das futilidades! Sim tudo é fútil! 3 Que proveito traz ao ao homem toda sua labuta sob o sol? 4 Vai-se uma geração e vem uma outra, perdura somente a terra. 5 Nasce o Sol, depois se põe, e se apressa a voltar ao lugar onde de novo virá a nascer. 6 Segue para o sul e chega em círculo até o norte; o vento (por sua vez) gira em círculos e retorna ao lugar de onde partiu. 7 Correm todos os rios para o mar, sem entretanto preenchê-lo; fluem continuamente para o mesmo lugar. 8 Tudo é tão fastidioso e extenuante que ninguém consegue sequer descrever; não se sacia a vista com o que vê, nem o ouvido com o que escuta. 9 O que já foi voltará a ser, e o que foi feito será repetido, e nada há de novo sob o sol. 10 Há fatos perante os quais alguém poderá dizer: “Veja, trata-se de algo novo!” Isto, porém, já ocorrera tempos atrás. 11 Não há, contudo, lembrança por parte das gerações passadas, assim como não haverá lembrança por parte das gerações futuras do que agora ocorre. 12 Eu, Cohélet, fui rei de Israel em Jerusalém. 13 Com toda a minha sabedoria, apliquei meu coração e minha mente para pesquisar e inquirir sobre tudo que já foi realizado sob os céus. Esta é a pesada tarefa incumbida por Deus aos homens, para que com ela se ocupem. 14 Analisei tudo que é feito sob o sol e compreendi que tudo é vão e frustrante. 15 Não conseguimos consertar o que está errado, nem perceber o que ainda falta. 16 Disse a mim mesmo: Adquiri muita sabedoria e aumentei meu conhecimento muito acima de todos que me precederam em Jerusalém, e muita experiência teve meu coração sobre o que é sabedoria e conhecimento. 17 Ao fazê-lo, porém, conheci sabedoria e conhecimento, insensatez e loucura, e descobri que isto também é vão. 18 Pois em muita sabedoria há muita mágoa, e quem aumenta seu conhecimento incrementa também seu sofrimento.

(tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin)

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