poesia, tradução

nicanor parra (1914)

nicanor parra nasceu em 1914 em san fabián de alico, no chile. sua obra é das mais famosas na literatura chilena (ganhou o prêmio cervantes em 2011), mas reparei, faz pouco tempo, que ainda temos poucas traduções da sua poesia. por isso, optei por fazer esta seleção de traduções que encontrei & apresento também traduções minhas.

todos os poemas abaixo são extraídos do livro poemas y antipoemas, de 1954. um marco na sua carreira e na poesia chilena. trata-se do segundo livro de parra, depois de cancionero sin nombre (1937), um primeiro de pouco interesse e tom mais romântico. assim, com uma re-estreia tardia, aos 40 anos, os antipoemas de parra infundiram uma dessacralização radical da poesia, um tom simples, próximo à fala, avesso ao cantabile, que, neste livro vai crescendo também na força da sua autoironia. com isso, parra pode incorporar as tradições literárias das figuras canônicas de gabriela mistral e pablo neruda, mas desbancava a pompa e a seriedade da poesia laureada. não é à toa, penso, que a poesia de neruda a partir dos fins dos anos 50 passa por um desinflamento significativo, como nas odas elementales – parra tinha invertido a situação, já havia tomado o cânone.

guilherme gontijo flores

Sinfonia do Berço

Uma vez andando
por um parque inglês
com um angelorum
sem querer deparei,

Bom dia, disse,
e eu o contestei,
êle no castelhano,
mas eu em francês

Dites moi, dom anjo,
Comment va monsieur.

Ele me deu a mão,
eu o peguei pelo pé:
há que ver, senhores,
como um anjo é!

Fátuo como o cisne,
frio como um trilho,
gordo como um pavão,
feio como você.

Assustou-me um pouco
mas não me mandei.

Busquei-lhe as plumas
plumas encontrei,
duras como a dura
casca do peixe.

Melhor seria ter
encontrado o Lúcifer!

Chateou-se comigo,
atirou-me um revés
com sua espada de ouro,
mas eu me agachei.

Anjo mais absurdo
não voltarei a ver.

Morto de riso
disse good bye sir,
siga teu caminho,
que passes bem,
que te pise um auto,
que te mate um trem.

Já se acabou o conto,
um, dois, três.

(trad. de antonio miranda)

Sinfonía de cuna

Una vez andando
Por un parque inglés
Con un angelorum
Sin querer me hallé.

Buenos días, dijo,
Yo le contesté,
Él en castellano,
Pero yo en francés.

Dites moi, don angel.
Comment va monsieur.

Él me dio la mano,
Yo le tomé el pie
¡Hay que ver, señores,
Cómo un ángel es!

Fatuo como el cisne,
Frío como un riel,
Gordo como un pavo,
Feo como usted.

Susto me dio un poco
Pero no arranqué.

Le busqué las plumas,
Plumas encontré,
Duras como el duro
Cascarón de un pez.

¡Buenas con que hubiera
Sido Lucifer!

Se enojó conmigo,
Me tiró un revés
Con su espada de oro,
Yo me le agaché.

Ángel más absurdo
Non volveré a ver.

Muerto de la risa
Dije good bye sir,
Siga su camino,
Que le vaya bien,
Que la pise el auto,
Que la mate el tren.

Ya se acabó el cuento,
Uno, dos y tres.

Autorretrato

Considerem, garotos
Esta língua roída pelo câncer:
Sou professor nalguma escola obscura
Perdi a voz nas aulas, entre as classes.
(Depois de tudo ou nada
Quarenta horas semanais me invadem.)
O que acham desta cara esbofetada?
Verdade, inspira lástima de olhar-me!
E o que dizer deste nariz comido
Pelo cal deste giz mais degradante.

Em matéria de olhos,  três metros
Não reconheço nem a própria mãe.
O que me afeta?  – Nada.
Eles se arruinaram pelas classes.
A dura luz, o sol,
A venenosa lua miserável.
E tudo, para quê
Para ganhar um pão imperdoável
Duro que nem a cara do burguês.
E com perfume e com sabor de sangue.
Para que nós nascemos como homens
Se uma morte animal por fim nos cabe?

Graças ao excesso de trabalho, às vezes
Vejo formas estranhas se elevarem,
Ouço corridas loucas,
Risos, conversas criminais nos ares.
Observem minhas mãos
Minhas bochechas brancas de cadáver,
Meus cabelos escassos e caducos,
As negras rugas infernais que nascem!
E no entanto eu fui como vocês,
Jovem, dos ideais mais belos, grandes,
Sonhei fundir o cobre
Então limar as faces do diamante:
Aqui estou agora
Por trás desta pousada insuportável
Embrutecido pela cantilena
Dessas quinhentas horas semanais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Autorretrato

Considerad, muchachos,
Este gabán de fraile mendicante: 
Soy profesor en un liceo obscuro, 
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales). 
¿Qué les dice mi cara abofeteada? 
¡Verdad que inspira lástima mirarme! 
Y qué les sugieren estos zapatos de cura 
Que envejecieron sin arte ni parte.

En materia de ojos, a tres metros 
No reconozco ni a mi propia madre. 
¿Qué me sucede? -¡Nada!
Me los he arruinado haciendo clases: 
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo ¡para qué!
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con olor y con sabor a sangre.
¡Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan.
¡Estas negras arrugas infernales!
Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.

Advertência ao leitor

O autor não responde pelos incômodos que possam causar seus escritos.
Apesar dos pesares
o leitor deverá dar-se sempre por satisfeito.
Salebius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade
será que respondeu por sua heresia?
E se chegou a responder, como é que fez!
Em que forma desbaratada!
Apoiando-se em que cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria publicar-se:
a palavra arco-íris não aparece nele em parte alguma,
menos ainda a palavra dor,
a palavra torquato.
Cadeiras e mesas é que aparecem a granel,
Ataúdes!, utensílios de escritório!
o que me enche de orgulho
porque, no meu modo de ver, o céu está caindo aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
porque é uma obra difícil de encontrar-se:
mas o Círculo de Viena foi dissolvido faz tempo,
seus membros dispersaram sem deixar rastro
e eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

Minha poesia pode perfeitamente não levar a parte alguma:
“os risos deste livro são falsos!”, argumentam meus detratores,
“suas lágrimas, artificiais!”

“Em vez de suspirar, nestas páginas a gente boceja”.
“Dá patadas como criança de colo”.
“O autor faz-se entender pelos espirros.”
De acordo: convido-os a queimar vossas naves,
como os fenícios pretendo criar meu próprio alfabeto.

Então, por que molestar o público?, perguntarão os amigos leitores:
“Se o próprio autor começa desprestigiando seus escritos,
que se pode esperar deles!”
Cuidado, eu não desprestigio nada
ou, melhor dizendo, exalto meu ponto de vista,
vanglorio as minhas limitações
ponho nas nuvens minhas criações.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam suas próprias cabeças
os cadáveres de seus pais
(cada pássaro era um verdadeiro cemitério voador).

No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar esta cerimônia
e eu enterro minhas plumas na cabeça dos senhores leitores!

(trad. de antônio miranda)

Advertencia al lector

El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese.
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho. 
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo! 
¡En qué forma descabellada! 
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte, 
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel, 
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio! 
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein 
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años, 
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella 
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
“¡Las risas de este libro son falsas!”, argumentarán mis detractores
“Sus lágrimas, ¡artificiales!”
“En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza”
“Se patalea como un niño de pecho”
“El autor se da a entender a estornudos” 
Conforme: os invito a quemar vuestras naves, 
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.
“¿A qué molestar al público entonces?”, se preguntarán los amigos lectores:
“Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos, 
¡Qué podrá esperarse de ellos!”
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!

Cartas a uma desconhecida

Quando passarem os anos, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou,
Um ser que se deteve um instante diante dos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos?

(trad. de albano martins)

Cartas a una desconocida

Cuando pasen los años, cuando pasen 
Los años y el aire haya cavado un foso 
Entre tu alma y la mía; cuando pasen los años 
Y yo sólo sea un hombre que amó, 
Un ser que se detuvo un instante frente a tus labios, 
Un pobre hombre cansado de andar por los jardines, 
¿Dónde estarás tú? ¡Dónde 
Estarás, oh hija de mis besos!

Madrigal

Eu serei milionário uma noite
Graças a um truque que me permitirá fixar imagens
Sobre um espelho côncavo. Ou convexo.

Acredito que o êxito será completo
Quando enfim inventar um ataúde de fundo duplo
Que permita ao cadáver espremer-se a outro mundo.

Já queimei por demais as pestanas
Nesta absurda corrida de cavalos
Onde os ginetes são lançados pelas cavalgaduras
E vão cair entre espectadores.

Justo é, então, que trate de criar algo
Que me permita viver com folga
Ou que ao menos me permita morrer.

Estou certo de que minhas pernas tremem
Sonho que os dentes me caem
E que chego tarde a alguns funerais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Madrigal

Yo me haré millonario una noche
Gracias a un truco que me permitirá fijar las imágenes               
En un espejo cóncavo. O convexo.

Me parece que el éxito será completo
Cuando logre inventar un ataúd de doble fondo               
Que permita al cadáver asomarse a otro mundo.

Ya me he quemado bastante las pestañas
En esta absurda carrera de caballos
En que los jinetes son arrojados de sus cabalgaduras               
Y van a caer entre los espectadores.

Justo es, entonces, que trate de crear algo
Que me permita vivir holgadamente
O que por lo menos me permita morir.
              
Estoy seguro de que mis piernas tiemblan,
Sueño que se me caen los dientes
Y que llego tarde a unos funerales.

Solo de Piano

Já que a vida do homem não é mais que uma ação a distância
Um pouco de espuma que brilha no interior de um copo;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam.
Não mais que cadeira e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós mesmos não somos mais que seres
(Como o próprio deus não é outra coisa senão deus);
Já que não falamos para ser escutados
Senão para que os outros falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo do caos
No jardim que boceja e se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para poder ressuscitar depois tranquilamente
Quando usamos a mulher em excesso;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixei que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que minha alma encontre seu corpo.

(trad. antonio miranda)

Solo de Piano

Ya que la vida del hombre no es sino una acción a distancia,
Un poco de espuma que brilla en el interior de un vaso;
Ya que los árboles no son sino muebles que se agitan:
No son sino sillas y mesas en movimiento perpetuo;
Ya que nosotros mismos no somos más que seres
(Como el dios mismo no es otra cosa que dios);
Ya que no hablamos para ser escuchados
Sino para que los demás hablen
Y el eco es anterior a las voces que lo producen;
Ya que ni siquiera tenemos el consuelo de un caos
En el jardín que bosteza y que se llena de aire,
Un rompecabezas que es preciso resolver antes de morir
Para poder resucitar después tranquilamente
Cuando se ha usado en exceso de la mujer;
Ya que también existe un cielo en el infiemo,
Dejad que yo también haga algunas cosas: 

Yo quiero hacer un ruido con los pies
Y quiero que mi alma encuentre su cuerpo.

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