crítica, tradução

A Biographia Literaria de Coleridge

Gustave_Dore-Mariner

Uma das ilustrações de Gustave Doré para a “Balada do Velho Marinheiro”

Mesmo que nunca tenha lido Coleridge, nem estudado teoria literária, você já deve estar familiarizado com o termo “suspensão de descrença” – i.e. o esforço extra para não se pensar “que besteira, isso nunca aconteceria!” que o leitor faz ao ler um texto ficcional que, a rigor, lide em algum grau com o fantástico (apesar de existirem várias narrativas não-fantásticas que forçam a barra no quesito suspensão de descrença, mas tudo bem). Coleridge, de quem já tratamos aqui no escamandro num post anterior sobre o seu “Kubla Khan” (clique aqui), pensou nesse termo como um modo de defender a sua “Balada do Velho Marinheiro”, publicada no volume Baladas Líricas, de autoria conjunta com Wordsworth, que deu início ao romantismo inglês. Tendo em vista o enredo do poema – que envolve diabos e uma maldição que mata a todos os tripulantes do navio em que se encontrava o Velho Marinheiro, menos o próprio, condenado a uma morte-em-vida pelo crime bizarro de ter matado um albatroz – e o quanto a temática sobrenatural havia saído de voga após o Iluminismo, é compreensível que o poeta tenha sentido necessidade de justificar essa escolha no seu livro Biographia Literaria (uma necessidade que não nos parece imediata agora, mas que era muito real à época, considerando a rejeição que Coleridge e Wordsworth enfrentaram… ao ponto de um poeta, hoje desconhecido, chamado Richard Mant ter escrito um poema satírico, intitulado The Simpliciad, para atacá-los). Publicada em 1817, a princípio planejada para ser um prefácio, mas que acabou ficando longa demais, a Biographia Literaria é, como o nome sugere, uma (auto)biografia, mais meditativa do que propriamente narrativa, preocupada sobretudo em expor as visões filosóficas e estéticas de Coleridge sobre o que seria a poesia e o poético.

Mas, infelizmente, até onde tenho notícia, não temos qualquer tradução completa desse volume para o português. Aproveitando, então, o embalo das discussões atuais sobre biografias (e, se existem biografias de artistas que valem a pena ser lidas, imagino que a do Coleridge é a do tipo mais interessante) e a provável falta de contato que a maioria dos leitores deve ter com o texto que originou esse conceito tão difundido, eu gostaria de compartilhar com vocês, leitores do escamandro, um trechinho de três parágrafos do capítulo XIV da Biographia, que é onde Coleridge expõe pela primeira (e única) vez essa noção de “suspensão de descrença”, que, imagino, acabou se tornando maior do que o próprio autor previa.

Talvez mais interessante que isso ainda, porém, seja a discussão preliminar que ele faz sobre o que poderíamos definir como um tipo de conceito de estranhamento (ou seja, com este post basicamente eu quero dizer: venha pela “suspensão de descrença”, fique pelo estranhamento), que descreve uma poética (como a de Wordsworth) que faria o cotidiano despertar um “sentimento análogo ao sobrenatural”. Acho importante lembrar que os comentários de Coleridge, como os de qualquer outro poeta romântico (como Shelley ou Poe, ou os autores alemães que influenciaram as ideias presentes na Biographia) são inextricáveis do contexto romântico que os produziu e, portanto, não é aconselhável tentar aplicá-los fora de contexto como algum tipo de verdade invariável ou provérbio ou slogan poético-facebookístico-publicitário. No entanto, dito isso e retomando a discussão que Marjorie Perloff propõe em seu livro O Gênio Não Original (que comentei numa postagem da semana passada), é difícil não ficar um pouco admirado com a longevidade desse conceito quando se constata que mesmo uma poética como a de Kenneth Goldsmith, que parece contrariar completamente a noção da lírica romântica ao rejeitar a expressividade e a originalidade, se flagra tendo como objetivos os mesmos que tinha Wordsworth. Sobre um livro como Traffic, de Goldsmith, ou Statement of Fact (composto de registros reais de tribunais e boletins de ocorrência), de Vanessa Place, Perloff conclui que “quanto mais obstinadamente factual e informativo o conjunto de documentos apresentado, mais ele manifesta uma verve surreal” – e, bem, isso é assunto para uma discussão posterior, é claro, mas imagino que não seria absurdo levantar a hipótese de que, apesar de seus ares de novidade e de seguir no caminho oposto ao da lírica romântica, essa poética tenha mais em comum com o romantismo do que se supõe. Que este trecho – o do começo do capítulo XIV – seja também o em que aparece em Coleridge a expressão “gênio original” (em oposição ao gênio não original de que trata Perloff) me parece uma curiosidade das mais interessantes.

Mas, por ora, deixemos que eu me cale e que Coleridge nos diga o que ele tem a dizer. O texto original em inglês pode ser conferido online na página do Project Gutenberg (clique aqui).

Adriano Scandolara

           

Capítulo XIV

Ocasião das Baladas Líricas, e os objetos originalmente propostos – Prefácio à segunda edição – A polêmica que se seguiu, suas causas e amargor – Definições filosóficas de Poema e Poesia, com Escólio.

Ao longo do primeiro ano em que o Sr. Wordsworth e eu fomos vizinhos, nossas conversas com frequência se voltaram para os dois pontos cardeais da poesia, o poder de excitar a empatia do leitor, através de uma aderência fiel à verdade da natureza, e o poder de, com as cores modificadoras da imaginação, causar aquele envolvimento que costuma ser causado pela novidade. O encanto súbito, que os acidentes de luz e sombra, o luar ou arrebol, difundem sobre uma paisagem conhecida e familiar, parecia representar a viabilidade de se combinar a ambos. Tal é a poesia da natureza. O pensamento se sugeriu sozinho (a qual de nós dois não me recordo) de que poderia ser composta uma série de poemas dos dois tipos. Na primeira, os incidentes e agentes eram para ser, em parte, ao menos, sobrenaturais; e a excelência visada consistiria naquilo que seria interessante no que diz respeito às emoções por parte da verdade dramática desses estados de espírito, como seria natural a tais situações, conforme nós as imaginamos reais. E reais, nesse sentido, elas foram para todos os seres humanos que, a partir de uma fonte qualquer de ilusão, em algum momento acreditaram estar sob atuação sobrenatural. Para a segunda classe, os temas eram escolhidos a partir da vida ordinária; os personagens e incidentes seriam tais como podem ser encontrados em todas as vilas e vizinhanças, onde houver uma mente meditativa e sensível para procurá-los ou percebê-los quando se apresentassem.

Com essa ideia originou-se o plano para as “Baladas Líricas”; em que, concordamos, os meus esforços seriam dirigidos a pessoas e personagens sobrenaturais, ou pelo menos românticos; porém, como se para transferir de nossa natureza interior um envolvimento humano e verossimilhança o suficiente para conseguir que, para o momento, os leitores cedessem a essas sombras da imaginação uma suspensão voluntária de descrença, que é aquilo em que consiste a fé poética. O Sr. Wordsworth, por outro lado, proporia ser ele mesmo o seu objeto, de modo a conceder o encanto da novidade a coisas do cotidiano e excitar um sentimento análogo ao sobrenatural; despertaria, a partir da letargia do costume, a atenção da mente e a direcionaria para a amabilidade e as maravilhas do mundo diante de nós; um tesouro inexaurível, mas para o qual, em consequência do véu da familiaridade e solicitude egoísta, temos olhos e no entanto não vemos, ouvidos que não escutam e corações que não sentem, nem compreendem.

Com isso em vista, eu escrevi o “Velho Marinheiro” e estava em vias de preparar, entre outros poemas, o “A Dama Sombria” e o “Christabel”, poemas em que eu devo ter chegado mais perto de realizar meu ideal do que na minha primeira tentativa. Mas o engenho do Sr. Wordsworth provou-se ter mais sucesso e resultou num número maior de poemas, tanto que minhas composições, em vez de formarem um equilíbrio, pareciam mais uma interpolação de material heterogêneo. O Sr. Wordsworth acrescentou dois ou três poemas escritos em sua própria voz, aquela dicção contínua, apaixonada e altiva que é característica do seu gênio. Nesse formato as “Baladas Líricas” foram publicadas; e foram apresentadas por ele, como um experimento sobre se as temáticas, que, de sua natureza, rejeitando os ornamentos costumeiros e o estilo extracoloquial da poesia em geral, poderiam ou não ser tratados na linguagem da vida ordinária, de modo a despertar um interesse aprazível, que é o negócio peculiar da poesia causar. Para a segunda edição, ele acrescentou um prefácio de comprimento considerável; em que, fora algumas passagens de teor aparentemente contrário, compreendia-se debater a favor da extensão desse estilo de poesia para todos os tipos e rejeitar como viciosas e indefensáveis todas as expressões e formas de discurso que não estariam inclusas naquilo que ele (infelizmente, na minha opinião, adotando uma expressão equivocada) chamava de linguagem da vida real. A partir desse prefácio, prefixado aos poemas em que seria impossível negar a presença do gênio original, por mais errônea que essa direção poderia ser considerada, surgiu essa polêmica há muito continuada. Pois, partindo da combinação entre o que foi visto como poder e uma suposta heresia, hei de explicar a inveteração e, em alguns casos, dói-me dizer, as paixões acrimoniosas, com as quais a polêmica vem sido conduzida pelos detratores.

(…)

(texto de Samuel Taylor Coleridge, tradução de Adriano Scandolara)

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