poesia

fabiano calixto

calixto

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 1973. É mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Tem poemas e artigos publicados em vários jornais e suplementos do Brasil e do exterior. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001), Música possível (CosacNaify/7Letras, 2006), Sangüínea (Editora 34, 2007) – este finalista do Prêmio Jabuti de 2008 na Categoria Melhor Livro de Poesia – e  A canção do vendedor de pipocas – Antologia poética (7Letras, 2013). Publicou também o livro de poemas infantis Pão com bife (Edições SM, 2007). Organizou, com André Dick, o livro de crítica A linha que nunca termina – Pensando Paulo Leminski (Lamparina, 2005). Traduziu poemas de Gonzalo Rojas, Allen Ginsberg, John Lennon, Laurie Anderson, entre outros. Traduz atualmente a obra de Benjamín Prado. Editou, com Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, a revista de poesia Modo de Usar & Co. Seu novo livro de poemas, intitulado Nominata morfina, sairá em breve.

PS: nesse ínterim, o poeta também lançou, muito recentemente, uma plaquete intitulada Para ninar o nosso naufrágio, disponível gratuitamente para download em seu blog Meu pé de laranja mecânica (clique aqui)

Abaixo, um dos poemas em prosa presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

escamandro

           

It’s time to taste what you most fear

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(Fabiano Calixto)

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poesia, tradução

a música de safo e anacreonte, por leonardo antunes.

Lírico grego, imagem de um vaso

Lírico grego, imagem de um vaso

 

a musicalidade (ou melopeia) da poesia grega arcaica é um fato indiscutível. o que ainda pouco se discute — no brasil — são as nossas possibilidades de recriação dessa melopeia com melodia, ou seja, sua reconstrução como música, tal como os exemplares de poesia trovadoresca (provençal & galego-portuguesa) que nos chegaram com notação musical.

os poemas de safo & anacreonte não tiveram essa felicidade. na verdade, praticamente nada da música antiga nos chegou, fora alguns tratados & uns poucos fragmentos. por isso, o trabalho de leonardo antunes, já publicado em ritmo e sonoridade na poesia grega antiga (ed. humanitas) & continuado na tese de doutorado sobre píndaro, é tão importante, porque ele reconstitui a possibilidade de uma poesia grega oral em língua portuguesa: nesse momento, a tradução opera como uma ferramenta crítica capaz de nos dar uma outra relação com os textos originais.

abaixo, vocês podem conferir uma pequena introdução feita por ele, seguida dos poemas. aproveito para anexar a cada parte um vídeo em que ele canta o original & sua tradução, acompanhado de um violão, com as melodias que criou a partir das estruturas métricas tradicionais.

guilherme gontijo flores

lira grega

reconstrução da lira grega, com casco de tartaruga & cordas de tripas de bode.

APRESENTAÇÃO

A literatura grega apresenta seus maiores expoentes da lírica monódica em Safo e em Anacreonte, cujas poéticas amorosas em muito se assimilam à própria noção corrente de poesia que temos, ainda fortemente ligada ao Romantismo. Das extensas obras desses poetas, restam-nos apenas fragmentos, alguns mais e outros menos extensos, que sobreviveram à maneira de monumentos antigos, dilapidados pelo castigo do tempo e, sobretudo, privados dos ornatos de ouro que outrora os completavam.

Dentre esses adornos complementares, estavam as melodias pelas quais esses poemas-canções eram cantados, bem como o acompanhamento musical de que se valiam. Temos alguma noção de como seria essa música, por conta dos (poucos) fragmentos musicais que sobreviveram até nós. Apesar da leitura desses próprios fragmentos não ser inequívoca nem completa no que diz respeito à completude de informações necessárias para uma performance razoavelmente fidedigna, eles são importantes na medida em que nos dão alguma ideia de como teria soado a melodia dos cantos antigos. (Em especial, vale a menção ao Epitáfio de Sícilo (provavelmente do primeiro século depois de Cristo), a canção completa mais antiga que temos dos gregos.)

Ainda que não disponhamos da melodia de toda a lírica, nós temos uma boa noção de como esses poemas se comportam do ponto de vista métrico e esse conhecimento pode servir como porta de entrada para uma aproximação à musicalidade dessa poesia.

Apresento, como exemplo para essa abordagem, um poema de Safo e um poema de Anacreonte, os quais eu traduzi e musiquei com um foco nos aspectos métricos e rítmicos que os estruturam.
Minha preocupação nessa empreitada não é tanto a de fazer uma reconstrução histórica fiel (que requereria instrumentos próprios, bem como o uso de escalas musicais distintas da nossa diatônica) quanto a de tirar esses poemas, essas letras de música, da mudez em que se encontram e restaurar seu status de canções, a fim de que sua beleza natural possa ser percebida de modo mais direto.

Como se sabe, a poesia grega (assim como a latina) se organizava ritmicamente pela diferenciação temporal na elocução das sílabas, que podiam ser longas ou breves, enquanto línguas modernas como o Português se valem da distinção de tonicidade a fim de marcar o ritmo, com suas sílabas tônicas e átonas. A simples tradução de sílaba longa por tônica e de sílaba breve por átona não dá conta de reproduzir de imediato a experiência sonora desses poemas. Porém, com a adição da música, podemos fazer com que as sílabas em Português adquiram, de modo natural, uma distinção de duração.
Assim, minha proposta é a de musicar esses poemas e cantá-los (respeitando sua constituição rítmica) com a mesma melodia tanto em Grego quanto em Português, fazendo desse modo uma aproximação musical dos dois textos e das duas experiências de apreciação sonora.

Leonardo Antunes

* * *

TRADUÇÕES

Safo Fr. 31

φαίνεταί μοι κῆνος ἴσος θέοισιν
ἔμμεν’ ὤνηρ, ὄττις ἐνάντιός τοι
ἰσδάνει καὶ πλάσιον ἆδυ φονεί-
σας ὐπακούει

καὶ γελαίσας ἰμέροεν, τό μ’ ἦ μὰν
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόαισεν•
ὠς γὰρ ἔς σ’ ἴδω βρόχε’, ὤς με φώναί-
σ’ οὐδ’ ἒν ἔτ’ εἴκει,

ἀλλά κὰμ μὲν γλῶσσα μ’ἔαγε, λέπτον
δ’ αὔτικα χρῷ πῦρ ὐπαδεδρόμηκεν,
ὀππάτεσσι δ’ οὐδ’ ἒν ὄρημμ’, ἐπιρρόμ-
βεισι δ’ ἄκουαι,

κὰδ’ δέ μ’ ἴδρως κακχέεται, τρόμος δὲ
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας
ἔμμι, τεθνάκην δ’ ὀλίγω ‘πιδεύης
φαίνομ’ ἔμ’ αὔτᾳ.

Ele me parece ser par dos deuses,
O homem que se senta perante ti
E se inclina perto pra ouvir tua doce
Voz e teu riso

Pleno de desejo. Ah, isso, sim,
Faz meu coração ‘stremecer no peito.
Pois tão logo vejo teu rosto, a voz eu
Perco de todo.

Parte-se-me a língua. Um fogo leve
Me percorre inteira por sob a pele.
Com os olhos nada mais vejo. Zumbem
Alto os ouvidos.

Verto-me em suor. Um tremor me toma
Por completo. Mais do que a relva estou
Verde e para a morte não falta muito —
É o que parece.

Anacreonte Fr. 360

ὦ παἶ παρθένιον βλέπων
δίζημαί σε, σὺ δ’ οὐ κοεῖς,
οὐκ εἰδὼς ὅτι τῆς ἐμῆς
ψυχῆς ἡνιοχεύεις.

Ó menino de olhar gentil,
Te procuro, mas tu não vês.
Não percebes que em tuas mãos
Tens as rédeas do meu ser.

(apresentação & tradução, leonardo antunes)

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poesia

propósitos antigos

propósitos antigos se dissolvem na correnteza
a embriaguez do vinho também se embriaga
já próxima ao limiar

mil perguntas rogam por resposta
e as montanhas se calam
escondendo as rugas sob as pedras

um velho lança o anzol
sobre os escombros de uma civilização
o peão insiste em rodar
no circo de concreto

ao fundo
a suave cantiga do infinito

bernardo lins brandão

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poesia, tradução

3 elegias de sexto propércio

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

então logo abaixo vai um mínimo trecho da apresentação, 3 poemas (dos mais de 90) & algumas notas adaptadas ao blog. os 3 poemas formam um ciclo importante do primeiro livro de elegias & neles propércio discute a importância da poesia amorosa, num tom irônico, como é seu praxe.

guilherme gontijo flores

ps: a edição deve sair no primeiro semestre do ano que vem.

* * *

APRESENTAÇÃO

Sobre a vida de Propércio, temos pouquíssimas informações, e a maioria derivada da sua própria poesia, o que aumenta ainda mais o grau de desconfiança sobre esses dados. Porém, se tivéssemos que fazer um apanhado, ficaria mais ou menos assim: nascido em torno de 50 a.C. de uma família nobre, Sexto Propércio vem da Úmbria (próximo à atual Assis); devido às guerras civis, sua família perdeu parte das terras, que foram confiscadas por Otaviano e Marco Antônio (cf. as elegias 1.21, 1.22 e 4.1, além de Virgílio Bucólicas 1 e 9), o que levou a família ao empobrecimento, mas não à miséria; se confiarmos ainda em 1.21 e 1.22, sabemos que a família sofreu profundamente com a Guerra  da Perúsia, em 41 e 40 a.C.  Ao que tudo indica, o poeta perdeu seu pai ainda jovem (4.1), mas recebeu a educação formal da elite romana, provavelmente em Roma, com o típico objetivo de trabalhar na advocacia. Por fim, ainda jovem ele se voltou para a poesia, e não temos quaisquer dados sobre a existência de carreira profissional desvinculada da escrita.

Em 29 a.C. é publicado seu primeiro livro de elegias (talvez intitulado Amores, mas comumente conhecido como Cynthia monobiblos) dedicado inteiramente à sua amada Cíntia, e que parece ter feito sucesso imediato. A figura de Cíntia é um grande problema interpretativo, se considerarmos sua existência biográfica como amante de Propércio: Apuleio, mais de um século depois da morte do poeta, em Apologia 10, afirmaria que sob a máscara de Cíntia estaria velada uma certa jovem romana chamada Hóstia; no entanto a maioria dos comentadores tende, hoje, a descartar leituras biográficas da elegia romana. E acrescento: mesmo que houvesse uma ou várias mulheres que motivassem a escrita de Propércio, sua artificialidade, seu enquadramento dentro das diversas regras e lugares comuns do gênero elegíaco, tudo isso aponta para uma autoconsciência literária muito profunda; e assim a biografia estaria, e muito, submetida à poesia, e não o contrário.

Em seguida, entre 26-23 a.C., Propércio publica os livros II  e III, talvez sob o patronato de Mecenas. Por fim, o livro IV, talvez sob o patronato do próprio Augusto, sai em cerca de 16 a.C. Na falta de maiores informações, costuma-se assumir que Propércio deve ter falecido por volta de 15 a.C., com cerca de 35 anos.

Sua poesia ganhou fama de obscura, difícil e excessivamente mítica, por vários leitores; seu estilo é complexo, e não à toa Ezra Pound identificaria nele uma espécie de precursor da  logopoeia, que, para o poeta americano, só viria a se desenvolver completamente quase dois mil anos depois, com as obras fin de siècle de Corbière e Laforgue. Muitas vezes construções inesperadas tomam conta do texto, uma ironia sutil desconstrói expectativas e com frequência deixa o leitor sem base para fazer julgamentos firmes sobre uma possível verdade da poesia expressa pelos poemas. Assim, Propércio já foi considerado romântico, político engajado (pró e contra o Império augustano), sincero em suas paixões, artificial na escrita, simbolista avant la lettre, modernista romano, entre outros extremos.

um graffiti de pompeia, onde alguém dedica um dístico de propércio a uma jovem chamada modesta, para anunciar o rompimento. a tradução do dístico seria a seguinte: "Agora a ira é nova — é hora de rompermos!     Se a dor sumir, assomará o Amor."

Um graffiti de Pompeia, um dístico de Propércio, dedicado a alguém chamada Modesta, anuncia o rompimento. A tradução seria:          Agora a ira é nova — é hora de rompermos!
Se a dor sumir, assomará o Amor.

TRÊS ELEGIAS

1.7

Dum tibi Cadmeae dicuntur, Pontice, Thebae
….armaque fraternae tristia militiae,
atque, ita sim felix, primo contendis Homero
….(sint modo Fata tuis mollia carminibus),
nos, ut consuemus, nostros agitamus Amores 
….atque aliquid duram quaerimus in dominam;
nec tantum ingenio quantum seruire dolori
….cogor et aetatis tempora dura queri.

Hic mihi conteritur uitae modus, haec mea Fama est,
….hinc cupio nomen carminis ire mei. 
Me laudent doctae solum placuisse puellae,
….Pontice, et iniustas saepe tulisse minas;
me legat assidue post haec neglectus amator,
….et prosint illi cognita nostra mala.

Te quoque si certo puer hic concusserit arcu 
….(quam nollim nostros te uiolasse Deos!),
longe castra tibi, longe miser agmina septem
….flebis in aeterno surda iacere situ;
et frustra cupies mollem componere uersum,
….nec tibi subiciet carmina serus Amor. 
Tum me non humilem mirabere saepe poetam,
….tunc ego Romanis praeferar ingeniis;
nec poterunt iuuenes nostro reticere sepulcro:
….“Ardoris nostri magne poeta, iaces?”

Tu caue nostra tuo contemnas carmina fastu: 
….saepe uenit magno faenore tardus Amor.

1.7

Enquanto cantas, Pôntico, a Tebas de Cadmo
….e as armas tristes do fraterno exército
e — quem dera fosse eu! — competes com Homero
….(que os Fados sejam leves com teus cantos!);
eu, como de costume, fico em meus Amores
….e busco combater a dura dona,
mais escravo da dor do que do meu talento,
….e lamento o infortúnio desta idade.

Assim eu passo a vida, assim é minha Fama,
….aqui desejo a glória do meu canto:
louvado — o único que agrada à moça culta
….e aguenta injustas ameaças, Pôntico.
Que amiúde me leia o amante repelido
….e encontre auxílio ao conhecer meus males.

Se o menino certeiro também te flechar
….(se ao menos não violasses nossos Deuses!),
dirás adeus quartéis, adeus aos sete exércitos
….que jazem surdos no sepulcro eterno
e em vão desejarás compor suaves versos,
….pois tardo Amor não te dará poemas.
Então te espantarás: não sou poeta humilde,
….entre os mais talentosos dos Romanos;
jovens não poderão calar-se ante meu túmulo:
….“Grande poeta do nosso ardor, morreste?”

Evita desprezar meus cantos com orgulho:
….o Amor tardio cobra imensos juros.

1.8

Tune igitur demens, nec te mea cura moratur?
,,,,An tibi sum gelida uilior Illyria?
Et tibi iam tanti, quicumquest, iste uidetur,
….ut sine me uento quolibet ire uelis?
Tune audire potes uesani murmura ponti 
….fortis et in dura naue iacere potes?
Tu pedibus teneris positas fulcire pruinas,
….tu potes insolitas, Cynthia, ferre niues?

O utinam hibernae duplicentur tempora brumae,
….et sit iners tardis nauita Vergiliis, 
nec tibi Tyrrhena soluatur funis harena,
.neue inimica meas eleuet aura preces 
et me defixum uacua patiatur in ora 
….crudelem infesta saepe uocare manu!

Sed quocumque modo de me, periura, mereris,
….sit Galatea tuae non aliena uiae; 
atque ego non uideam talis subsidere uentos, 
….cum tibi prouectas auferet unda ratis, 
ut te, felici praeuecta Ceraunia remo, 
….accipiat placidis Oricos aequoribus! 

Nam me non ullae poterunt corrumpere de te
….quin ego, uita, tuo limine uerba querar;
nec me deficiet nautas rogitare citatos:
….“Dicite, quo portu clausa puella mea est?”,
et dicam “Licet Artaciis considat in oris, 
….et licet Hylaeis, illa futura mea est.”

Hic erit! Hic iurata manet! Rumpantur iniqui!
….uicimus: assiduas non tulit illa preces.
Falsa licet cupidus deponat gaudia Liuor:
….destitit ire nouas Cynthia nostra uias. 

Illi carus ego et per me carissima Roma
….dicitur, et sine me dulcia regna negat.
Illa uel angusto mecum requiescere lecto
….et quocumque modo maluit esse mea,
quam sibi dotatae regnum uetus Hippodamiae, 
….et quas Elis opes apta pararat equis.

Quamuis magna daret, quamuis maiora daturus,
….non tamen illa meos fugit auara sinus.
Hanc ego non auro, non Indis flectere conchis,
….sed potui blandi carminis obsequio.

Sunt igitur Musae, neque amanti tardus Apollo,
….quis ego fretus amo: Cynthia rara mea est!
Nunc mihi summa licet contingere sidera plantis:
….siue dies seu nox uenerit, illa mea est!
Nec mihi riualis certos subducit Amores:
….ista meam norit gloria canitiem.

1.8

Enlouqueceste? Não te prendem meus carinhos?
….Te importo menos que a Ilíria gélida?
E quem é esse que parece valer tanto,
….que num vento qualquer, sem mim tu segues?
Tu podes escutar o mar insano e múrmure, 5
….podes deitar sem medo em dura barca?
Tu pousarás teus tenros pés sobre a geada,
….tu suportas, ó Cíntia, a estranha neve?

Quero que dobre o tempo da bruma invernal,
….que pare o nauta e atrasem as Vergílias, 10
que a corda não se solte da areia Tirrena,
….nem brisa imiga anule as minhas preces 12
e eu parado, pregado no porto deserto, 15
….ameaçador, gritando que és cruel!

Mas mesmo que mereças mal de mim, perjura,
….que Galateia ampare tua viagem! 18
Não quero ver arrefecerem esses ventos 13
….quando a onda embalar teu barco avante; 14
ao dobrar o Ceráunio com remo seguro, 19
….que as águas calmas do Órico te acolham! 20

Pois nenhuma mulher poderá me impedir
….de lamentar, querida, à tua porta;
nem deixarei de perguntar aos marinheiros:
….“Dizei — que cais retém a amada minha?”
Direi: “Pode estar presa nas margens Artácias, 25
….ou nas Hileias, ela será minha!”

Aqui fica! Jurou ficar! Adeus, rivais!
….Venci! Ela cedeu a tantas súplicas.
Pode a cúpida Inveja depor falsos gozos:
….minha Cíntia largou a nova estrada. 30

Diz que me adora e que por mim adora Roma,
….sem mim renega haver um doce reino.
Prefere repousar comigo em leito estreito
….e ser só minha — não importa como —
a ter por dote um reino, como Hipodamia, 35
….e os bens que em seus corcéis ganhara Élida.

Inda que ofertem muito, inda que mais prometam,
….não foge do meu peito por cobiça.
Não a ganhei com ouro ou pérolas da Índia,
….mas com o agrado de um suave canto. 

Existem Musas! Febo não tarda a quem ama!
….Neles confio — Cíntia rara é minha!
Hoje posso pisar sobre os astros mais altos:
….que venha o dia e a noite — ela é minha!
Não há rival que roube meu Amor seguro:
….ah! essa glória vai me ver grisalho.

1.9

Dicebam tibi uenturos, irrisor, Amores,
….nec tibi perpetuo libera uerba fore:
ecce taces supplexque uenis ad iura puellae,
….et tibi nunc quaeuis imperat empta modo.
Non me Chaoniae uincant in Amore columbae 5
….dicere, quos iuuenes quaeque puella domet.
Me dolor et lacrimae merito fecere peritum:
….atque utinam posito dicar Amore rudis!

Quid tibi nunc misero prodest graue dicere carmen
.aut Amphioniae moenia flere lyrae? 10
Plus in Amore ualet Mimnermi uersus Homero:
….carmina mansuetus lenia quaerit Amor.
I, quaeso, et tristis istos sepone libellos,
….et cane quod quaeuis nosse puella uelit!
Quid si non esset facilis tibi copia? Nunc tu 15
….insanus medio flumine quaeris aquam.

Necdum etiam palles, uero nec tangeris igni:
….haec est uenturi prima fauilla mali.
Tum magis Armenias cupies accedere tigris
….et magis infernae uincula nosse rotae, 20
quam pueri totiens arcum sentire medullis
….et nihil iratae posse negare tuae.
Nullus Amor cuiquam facilis ita praebuit alas,
….ut non alterna presserit ille manu.

Nec te decipiat, quod sit satis illa parata: 25
….acrius illa subit, Pontice, si qua tua est;
quippe ubi non liceat uacuos seducere ocellos,
….nec uigilare alio limine cedat Amor.
Qui non ante patet, donec manus attigit ossa:
….quisquis es, assiduas a fuge blanditias! 30
Illis et silices et possint cedere quercus,
….nedum tu possis, spiritus iste leuis.

Quare, si pudor est, quam primum errata fatere:
….dicere quo pereas saepe in Amore leuat.

1.9

Eu te disse, palhaço — Amores chegariam
….e não terias mais palavras livres.
Eis que te calas suplicante sob as leis
….dessa recém-comprada que te impera.
Como as pombas Caônias eu canto no Amor
….que jovens cada moça amansará.
Pranto e dor me tornaram perito por mérito,
….mas antes sem o Amor eu fosse um leigo!

De que vale, infeliz, cantar solene agora
….chorando os muros que fizera Anfíon?
No Amor melhor que Homero é um verso de Mimnermo:
….suaves cantos busca o manso Amor.
Vai, eu te peço, e larga esses tristes livrinhos
….e canta algo que a moça queira ouvir!
O que farás se te faltar assunto? Agora,
….insano, em pleno rio pedes água.

Não estás pálido, não viste ainda o fogo:
….são só fagulhas do teu mal vindouro.
Então preferirás brincar com tigre Armênio
….e na roda infernal acorrentar-te 20
do que sentir na espinha o arco do menino
….sem poder negar nada à moça irosa.
Nenhum Amor deu asas fáceis para alguém
….sem também o oprimir com a outra mão.

Não acredites se ela parecer disposta —
….mais te consome, Pôntico, ao ser tua:
não poderás correr teus olhos livremente,
….o Amor não deixará que veles outra.
Não podemos senti-lo até que atinja os ossos:
….quem quer que sejas, foge das carícias!
A elas cederiam pedras e carvalhos —
….e tu, sopro ligeiro, mais ainda.

Por fim, se tens pudor, confessa logo os erros:
….contar as dores alivia o Amor.

* * *

NOTAS

 1.7

Esta elegia dirigida ao poeta épico Pôntico (que supostamente teria escrito uma Tebaida, cuja referência aparece também em Ovídio, Amores 2.18 e Tristia 4.10.47-8) dialoga diretamente com 1.9, onde vemos que as profecias de Propércio se cumprem. Não obstante, o poema 1.8, que gera um intervalo entre os dois, já foi indicado como configurador de uma tríade entre as elegias 7-8-9, bem representados por Aires A. Nascimento como “a poesia amorosa não deve ser tida em menor conta (7); o seu desprezo leva a resultados funestos (8); a poesia amorosa tem uma função moderadora (9)”. Vale notar como a tópica da utilidade da poesia entra na defesa da elegia contra a épica praticada por Pôntico, o que leva o poema à proposta da elegia como modo de vida.

v. 2: O fraterno exército nos remete ao combate entre os irmãos Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, pelo poder de Tebas, principal assunto dos Sete contra Tebas de Ésquilo e também da Tebaida na versão de Estácio.

v. 3: Propércio pode referir-se ao fato de que a mais antiga Tebaida era, na Antiguidade, atribuída a Homero, junto com outros poemas do Ciclo Épico de que só nos restaram fragmentos.

v. 26: A temática do amor tardio que causa mais sofrimento aparece também em Tibulo 1.2.87-8 e Ovídio, Heroides 4.19.

1.8

Esta elegia começa abruptamente, como várias outras, e se constrói como um skhetliasmos (protesto contra viagem) a Cíntia, que foge com um rival, mas que depois se torna ironicamente um propemptikon (um desejo de boa viagem). Também tece um diálogo com 2.16, quando o mesmo rival retorna da Ilíria, identificado como um pretor, portanto um homem de vida pública e detentor de bens — o típico rival do amante elegíaco.

vv. 7-8: A semelhança entre estes versos e os de Virgílio, Bucólicas 10.23-4 (tua cura Lycoris / perque niues alium perque horrida castra secuta est? (“Tua paixão Licóris / por entre neve e guerra segue um outro?”)) e 10.49 (a tibi ne teneras glacies […] secet aspera plantas (“que áspero gelo não te corte os frágeis pés”)) faz cogitar que os dois trechos sejam imitação da poesia de Cornélio Galo, fundador da elegia erótica romana.

v. 10: As Vergílias são as Plêiades, cujo aparecimento, em 16 de abril, anunciava a chegada a primavera, a melhor estação para a navegação.

v. 18: Galateia é a mais famosa das Nereidas, deusas do mar, filhas de Nereu.

vv. 19-20: Ceráunio é um perigoso promontório da Acroceráunia, na costa de Epiro; Órico é um porto da Ilíria, nas margens do Epiro.

vv. 25-26:  Heyworth aponta para o fato de que Propércio cita os Ceráunios e Óricos (dois pontos que aparecem na viagem de volta dos argonautas, Apolônio de Rodes Argonautica 4.1214-5), enquanto a Artácia (1.957) aparece na ida, além da Hileia (4.524), que seria ser um povo da Ilíria. Nesse caso, as referências a pontos distantes também seriam uma referência literária, que remetem a uma viagem de ida e volta, fato que se realiza dentro da elegia properciana a partir dos versos seguintes, com a desistência de Cíntia.

vv. 35-6: Hipodamia era filha de Enomau, rei de Pisa na Élida, e esposa e Pélops.

v. 40: A referência à elegia como blandum carmen (“suave canto”) parece retomar o debate apresentado nos poemas 1.7 e 1.9, dirigidos a Pôntico.

1.9

O poema é clara continuidade de 1.7, após o intervalo de 1.8, de modo que os três formam um pequeno conjunto em que vemos as ameaças de Propércio ao gênero épico (1.7); seu próprio risco de falhar, mas resultando no sucesso de manter Cíntia (1.8), representando seus poderes como poeta elegíaco; e a derrota final de Pôntico, agora apaixonado por uma escrava, ou prostituta (1.9), incapaz de continuar sua carreira de poeta épico, mas também incapaz de iniciar uma poesia elegíaca, por já ser tarde demais. Vitorioso, Propércio inicia seu trabalho de magister amoris.

vv. 5-6: A Caônia era uma região do Epiro, mas a referência específica é a Dodona, onde havia um oráculo de Zeus, que se realizava por meio do auspício de pombas. Vale recordar que as sacerdotisas também recebiam o nome de pombas (columbae).

v. 4: Há duas leituras para modo empta, como notam Butler & Barber, que tentei manter quanto pude. Trata-se a) de uma escrava “recém-comprada”; ou b) de uma prostituta, que até então estava à venda.

v. 8: Anfíon é o bardo mítico que teria construído a muralha de Tebas apenas com o poder de sua lira, com a qual ele guiava as pedras. Em 1.7.2 (cf. nota), vimos que Pôntico escrevia uma Tebaida.

v. 11: Mimnermo é um poeta elegíaco grego arcaico, com temática amorosa e sobre a juventude. Aqui Propércio usa-o para fazer uma oposição fundamental entre elegia e épica, atestando a utilidade daquela sobre esta, bem como sua brevidade: mais valeria apenas um verso de Mimnermo do que toda a obra de Homero.

vv. 15-16: “Pedir água no meio do rio” é um provérbio grego muito citado pelos romanos como sinal de loucura, mas aqui também tem a conotação metafórica do rio caudaloso simbolizar a poesia épica.

v. 20: Ixíon fora preso por Júpiter a uma roda cercada de serpentes, sempre a rodar, no mundo dos mortos, porque tentara estuprar Juno.

(poemas de sexto propércio, apresentação, tradução & notas de guilherme gontijo flores)

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poesia, tradução

Uma canção de Shadowtime de Charles Bernstein

Bernstein_Charles_Campinas-Brazil_7-2006Charles Bernstein (1950 – ) é um dos poetas mais proeminentes da poesia Language (ou L=A=N=G=U=A=G=E, como era o nome da revista), autor de dezenas de volumes de poesia e ensaios, além de editor de coletâneas, de volumes de poetas importantes como Louis Zukofsky e de volumes da L=A=N=G=U=A=G=E. Em português, temos (de que tenho notícia) um único livro de poemas e ensaios, traduzido pelo poeta Régis Bonvicino e publicado pela Martins Fontes, intitulado Histórias da Guerra.

O poema que eu gostaria de apresentar aqui é, na verdade, um pedaço de um poema mais longo, um libreto de uma ópera intitulada Shadowtime – que, se me fosse dada a missão de traduzir, eu provavelmente traduziria como algo parecido com Horassombra – encomendada pelo compositor britânico Brian Ferneyhough (1943 – ). Horassombra, encomendada em 1999, composta entre 1999 e 2004 e apresentada pela primeira vez em 2005, é uma obra em 7 cenas baseada na vida e obra do pensador Walter Benjamin. No entanto, ao contrário do que normalmente se espera de uma obra biográfica, ela não representa – nem de longe – a vida de Benjamin de forma cronológica ou realista. A primeira cena, “New Angels/Transient Failure”, começa com a chegada de Benjamin e sua mulher numa pousada da Espanha, enquanto tentavam escapar para a América, fugindo dos nazistas. Como se sabe, foi nessas circunstâncias, após ser  barrado por causa de um visto inválido, que Benjamin cometeu suicídio por overdose de morfina – e, o que é pior, um suicídio “desnecessário” (ou mais desnecessário do que a média, na medida em que isso é qualificável), uma vez que os seus companheiros de viagem foram liberados para prosseguir rumo à América na manhã seguinte. A partir dessa cena inicial, a realidade da peça se dissolve e dá lugar a representações e dramatizações de ideias retiradas do pensamento benjaminiano. A cena 4, cena central da ópera intitulada “Opus contra naturam”, marca a descida de Benjamin ao mundo dos mortos e continua explorando esse viés filosófico através de uma poesia que é, como costuma ser a de Bernstein, altamente experimental, não-referencial.

Então, aconteceu que eu acabei traduzindo poeticamente alguns trechos de Horassombra citados por Marjorie Perloff em seu Gênio Não Original e gostaria de compartilhá-los com vocês. A seguinte canção, chamada “Anfibolias”, é uma das treze partes da terceira cena da peça, “The Doctrine of Similarity” (um termo retirado de Benjamin), e uma das peculiaridades dessa cena são as várias restrições (à moda da Oulipo) sob as quais suas partes operam. Uma delas, por exemplo, a parte 8, “Anagrammatica”, consiste inteiramente de anagramas do nome “Walter Benjamin”, com o adendo de que eles devem conter a palavra “Jew” (judeu), enquanto a parte seguinte, “dew and die”, é uma recriação em inglês do poema concreto “der und die”, de Ernst Jandl, e assim por diante.

O recurso formal dominante nas “Anfibolias”, então, é o da homofonia. Há uma primeira estrofe de 13 versos, depois, nas duas estrofes seguintes, cada palavra em cada verso deve ser homofônica em relação às palavras dessa estrofe inicial. Dessa forma, o “walk slowly” da primeira estrofe se torna “fault no lease” e “balk sulky” na segunda e na terceira, respectivamente, depois “and jump quickly”, “add thump whimsy” e “ant hump prick free”, e assim por diante. De quebra, há ainda uma outra restrição, que é a de que cada verso deve ter obrigatoriamente um número primo de palavras. Essas anfibolias, por sua vez, se repetem ipsis litteris mais duas vezes nas partes 5 e 12 dessa cena, com inversões das ordens dos versos e das palavras.

O efeito obtido com isso, como comenta Perloff, longe de ser a mera geração de nonsense, é o seguinte:

Essa canção é, em geral, bastante direta: ela apresenta uma representação coral dos medos do protagonista em relação à árdua escalada da montanha, a mente apreendendo a semelhança entre os espinhos das roseiras e as pontas no mapa. Mas, nas próximas duas canções (63 e 64), como são ambas versões homofônicas da primeira, estruturalmente idênticas a ela, portanto, uma “semelhança” diferente ocorre. (…) Por mais embaralhados que esses poemas homofônicos possam ser, seu vocabulário representa acusticamente as tribulações do viajante, enquanto fornece um exemplo brilhante da “Doutrina do Semelhante” de Benjamin. Se, afinal, “o nexo do sentido que reside nos sons da sentença é a base da qual algo semelhante pode se tornar aparente a partir de um som”, então a imitação sonora da versão homofônica há de transmitir o próprio sentido do original.

É natural se imaginar, portanto, que a tradução dessa canção seria uma questão, no mínimo, delicada. Mesmo que eu quisesse, a estrutura sintática dos versos me impediria de recorrer a uma tradução semântica direta, que pelas ambiguidades, por si só já seria complicada. Não me restou alternativa, então, que não a de arregaçar as mangas e enfrentar o desafio da tradução poética tentando manter a homofonia. O resultado é, como só poderia ser, bastante experimental, na medida em que são levadas às últimas consequências as dificuldades de se equilibrar efeitos sonoros e semânticos típicos de toda tradução poética – os efeitos semânticos aqui, no caso, sendo a representação dos “medos do protagonista em relação à árdua escalada da montanha”, no caminho entre a França e a Espanha, de que comenta Perloff.

Adriano Scandolara

           

I. Anfibolias (Caminhe Devagar)

caminhe devagar
e salte ligeiro
acima
do relevo para
uma
roseira. Os
espinhos são pontas em um
mapa
para guiá-lo ao
que há atrás dos olhares
ares onde sombras
se adensam ao
meio-dia.

mesquinhe sem locar
e bate faceiro
afirma
uns pelegos para
uma
lodeira. Os
pauzinhos são lombos em uma
falta
a real fato
que atrai temores
dores monte assoma
se ensebam
perdida.

espinhe hesitar
em formigueiro
cinza
os trevos garan-
-te uma
roupeira. Os
estralidos são contas em uma
sonata
a desafiá-lo
cola faz (noz-) ferrolhos
escolhos (-moscada) provoca
se alqueivam
sumia.

5. Anfibolias II (Meio-dia) [instrumental]

meio-dia
ao adensam se
sombras onde ares
olhares dos atrás há que
ao guiá-lo para
mapa
um em pontas são espinhos
os roseira
uma
para relevo do
acima
ligeiro salte e
devagar caminhe

12. Anfibolias III (Espinhos)

meio-dia
se adensam ao
ares onde sombras
que há atrás dos olhares
para guiá-lo ao
mapa
espinhos são pontas em um
roseira. Os
uma
do relevo para
acima
e salte ligeiro
caminhe devagar

           

I. Amphibolies (walk slowly)

walk slowly
and jump quickly
over
the paths into
the
briar. The
pricks are points on a
map
that take
you back behind the stares
where shadows are
thickest at
noon.

fault no lease
add thump whimsy
aver
a sash onto
a
mire. The
sticks are loins on a
gap
not fake
rude facts remind a fear
tear tallow mar
missed case at
loom.

balk sulky
ant hump prick free
clover
an ash insure
at-
-tire. The
flicks are joints on a
nap
(nutmeg)
glue’s knack refines the dare
near fallow bars
quickest latch
gone.

5. Amphibolies II (Noon) [instrumental]

noon
at thickest
are shadows where
stares the behind back you
take that
map
a on points are pricks
the briar
the
the paths into
over
quickly jump and
slowly walk

12. Amphibolies III (Pricks)

Noon
thickest at
where shadows are
you back behind the stares
that take
map
pricks are points on a
briar. The
the
the paths into
over
and jump quickly
walk slowly

(Charles Bernstein, tradução de Adriano Scandolara)

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