poesia, tradução

a música de safo e anacreonte, por leonardo antunes.

Lírico grego, imagem de um vaso

Lírico grego, imagem de um vaso

 

a musicalidade (ou melopeia) da poesia grega arcaica é um fato indiscutível. o que ainda pouco se discute — no brasil — são as nossas possibilidades de recriação dessa melopeia com melodia, ou seja, sua reconstrução como música, tal como os exemplares de poesia trovadoresca (provençal & galego-portuguesa) que nos chegaram com notação musical.

os poemas de safo & anacreonte não tiveram essa felicidade. na verdade, praticamente nada da música antiga nos chegou, fora alguns tratados & uns poucos fragmentos. por isso, o trabalho de leonardo antunes, já publicado em ritmo e sonoridade na poesia grega antiga (ed. humanitas) & continuado na tese de doutorado sobre píndaro, é tão importante, porque ele reconstitui a possibilidade de uma poesia grega oral em língua portuguesa: nesse momento, a tradução opera como uma ferramenta crítica capaz de nos dar uma outra relação com os textos originais.

abaixo, vocês podem conferir uma pequena introdução feita por ele, seguida dos poemas. aproveito para anexar a cada parte um vídeo em que ele canta o original & sua tradução, acompanhado de um violão, com as melodias que criou a partir das estruturas métricas tradicionais.

guilherme gontijo flores

lira grega

reconstrução da lira grega, com casco de tartaruga & cordas de tripas de bode.

APRESENTAÇÃO

A literatura grega apresenta seus maiores expoentes da lírica monódica em Safo e em Anacreonte, cujas poéticas amorosas em muito se assimilam à própria noção corrente de poesia que temos, ainda fortemente ligada ao Romantismo. Das extensas obras desses poetas, restam-nos apenas fragmentos, alguns mais e outros menos extensos, que sobreviveram à maneira de monumentos antigos, dilapidados pelo castigo do tempo e, sobretudo, privados dos ornatos de ouro que outrora os completavam.

Dentre esses adornos complementares, estavam as melodias pelas quais esses poemas-canções eram cantados, bem como o acompanhamento musical de que se valiam. Temos alguma noção de como seria essa música, por conta dos (poucos) fragmentos musicais que sobreviveram até nós. Apesar da leitura desses próprios fragmentos não ser inequívoca nem completa no que diz respeito à completude de informações necessárias para uma performance razoavelmente fidedigna, eles são importantes na medida em que nos dão alguma ideia de como teria soado a melodia dos cantos antigos. (Em especial, vale a menção ao Epitáfio de Sícilo (provavelmente do primeiro século depois de Cristo), a canção completa mais antiga que temos dos gregos.)

Ainda que não disponhamos da melodia de toda a lírica, nós temos uma boa noção de como esses poemas se comportam do ponto de vista métrico e esse conhecimento pode servir como porta de entrada para uma aproximação à musicalidade dessa poesia.

Apresento, como exemplo para essa abordagem, um poema de Safo e um poema de Anacreonte, os quais eu traduzi e musiquei com um foco nos aspectos métricos e rítmicos que os estruturam.
Minha preocupação nessa empreitada não é tanto a de fazer uma reconstrução histórica fiel (que requereria instrumentos próprios, bem como o uso de escalas musicais distintas da nossa diatônica) quanto a de tirar esses poemas, essas letras de música, da mudez em que se encontram e restaurar seu status de canções, a fim de que sua beleza natural possa ser percebida de modo mais direto.

Como se sabe, a poesia grega (assim como a latina) se organizava ritmicamente pela diferenciação temporal na elocução das sílabas, que podiam ser longas ou breves, enquanto línguas modernas como o Português se valem da distinção de tonicidade a fim de marcar o ritmo, com suas sílabas tônicas e átonas. A simples tradução de sílaba longa por tônica e de sílaba breve por átona não dá conta de reproduzir de imediato a experiência sonora desses poemas. Porém, com a adição da música, podemos fazer com que as sílabas em Português adquiram, de modo natural, uma distinção de duração.
Assim, minha proposta é a de musicar esses poemas e cantá-los (respeitando sua constituição rítmica) com a mesma melodia tanto em Grego quanto em Português, fazendo desse modo uma aproximação musical dos dois textos e das duas experiências de apreciação sonora.

Leonardo Antunes

* * *

TRADUÇÕES

Safo Fr. 31

φαίνεταί μοι κῆνος ἴσος θέοισιν
ἔμμεν’ ὤνηρ, ὄττις ἐνάντιός τοι
ἰσδάνει καὶ πλάσιον ἆδυ φονεί-
σας ὐπακούει

καὶ γελαίσας ἰμέροεν, τό μ’ ἦ μὰν
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόαισεν•
ὠς γὰρ ἔς σ’ ἴδω βρόχε’, ὤς με φώναί-
σ’ οὐδ’ ἒν ἔτ’ εἴκει,

ἀλλά κὰμ μὲν γλῶσσα μ’ἔαγε, λέπτον
δ’ αὔτικα χρῷ πῦρ ὐπαδεδρόμηκεν,
ὀππάτεσσι δ’ οὐδ’ ἒν ὄρημμ’, ἐπιρρόμ-
βεισι δ’ ἄκουαι,

κὰδ’ δέ μ’ ἴδρως κακχέεται, τρόμος δὲ
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας
ἔμμι, τεθνάκην δ’ ὀλίγω ‘πιδεύης
φαίνομ’ ἔμ’ αὔτᾳ.

Ele me parece ser par dos deuses,
O homem que se senta perante ti
E se inclina perto pra ouvir tua doce
Voz e teu riso

Pleno de desejo. Ah, isso, sim,
Faz meu coração ‘stremecer no peito.
Pois tão logo vejo teu rosto, a voz eu
Perco de todo.

Parte-se-me a língua. Um fogo leve
Me percorre inteira por sob a pele.
Com os olhos nada mais vejo. Zumbem
Alto os ouvidos.

Verto-me em suor. Um tremor me toma
Por completo. Mais do que a relva estou
Verde e para a morte não falta muito —
É o que parece.

Anacreonte Fr. 360

ὦ παἶ παρθένιον βλέπων
δίζημαί σε, σὺ δ’ οὐ κοεῖς,
οὐκ εἰδὼς ὅτι τῆς ἐμῆς
ψυχῆς ἡνιοχεύεις.

Ó menino de olhar gentil,
Te procuro, mas tu não vês.
Não percebes que em tuas mãos
Tens as rédeas do meu ser.

(apresentação & tradução, leonardo antunes)

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