poesia

marcelo sandmann

Marcelo-Sandmann

Marcelo Sandmann é poeta, compositor e professor de literatura portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Publicou os livros de poesia Lírico Renitente (2000), Criptógrafo Amador (2006) e Na Franja dos Dias (2012). Organizou o volume A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski (2010). Lançou, com Benito Rodriguez, o CD Cantos da Palavra, com interpretações de Silvia Contursi e produção de Paulo Brandão. Em 2014, saem os CDs Conselho do Bom, com canções em parceria com Benito Rodriguez e Cláudio Menandro, e No Silêncio da Canção, do grupo curitibano ZiriGdansk, com composições suas e parceiros.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Marcelo Sandmann já marcou presença aqui no escamandro numa postagem anterior com o seu poema “Pato ao Tucupi” (clique aqui).

escamandro

           

GARÇON, POR GENTILEZA,
CANCELE A ÚLTIMA CERVEJA!

                para Nelio Waldy Koentopp Jr.
                e Carlos Alberto Lins

É preciso sair
da zona de conforto.

Um soneto pode ter trezentos versos.
Um poema concreto,
desabar como uma marquise.

A poesia mais dolorosamente satânica
é uma carícia
diante dos desígnios de Deus.

(E Deus não existe,
o que torna Seus desígnios
ainda mais sombrios.)

A realidade é um exagero constante,
margens soberbamente borradas,
trânsito atônito entre hemisférios.

Para que poemas comedidos?

“E eis que o sol se derreteu
na minha folha de papel azul…”

(Escrevi esses versos aos 19 anos,
um bom pretexto para
não mercar
armas
nem escravos.)

Mas vejo que continuo impune,
apesar de vivo.

E vivo, apesar
de ter nascido

(Marcelo Sandmann)

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poesia

sérgio blank

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Sérgio Blank (Cariacica – ES, 1964) é poeta, autor dos volumes Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1987), Um, (1988), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além da fábula infanto-juvenil ilustrada Safira (1991). Toda sua obra foi reunida no volume Os Dias Ímpares (2011), publicado pela editora Cousa. Abandonou a escrita da poesia após seu último livro, mas continuou trabalhando com literatura como promotor de lançamentos de livros e coordenador de oficinas literárias, inclusive para pacientes com transtornos mentais do CPTT (Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos) e do CPAS (Centro de Atenção Psicossocial), instituições da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Vitória. Atualmente reside em Vitória e trabalha na Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo.

Logo abaixo, um de seus poemas (originalmente publicado em A Tabela Periódica) presentes em nosso dossiê Sérgio Blank a ser publicado logo no primeiro número impresso do escamandro, que conta também com um texto introdutório e retrospectivo de sua carreira poética, de autoria de Adriano Scandolara.

PS: Confiram nossas postagens anteriores sobre o livro Pus, de Blank, contendo poemas e comentário, clicando aqui e aqui.

escamandro

           

POEMA QUATRO
o amor platônico

armazém atacado & varejo
entrega a domicílio

os pulmões em plena pane
o amor platônico
o planeta sem plural & plêiades
de prazer longo & longe
a prazo preso na palavra
planta carnívora aos meus pés
sai da cauda desta fênix fajuta
pardal ao dia pavão na noite
pobre & podre no plano horizontal
naftalina & pulga em duelo
coração de platina ou plástico ou plutônio
problema plissado que não se desmancha
implode em silêncio aplicado
impune ao pulso de plutão

(Sérgio Blank)

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poesia

dirceu villa

dirceu_villa

O poeta Dirceu Villa nasceu em São Paulo em junho de 1998 embrulhado numa capa vermelha que estampava o desenho de um camaleão. É o rei de Inscape e o melhor poeta de que você jamais ouviu falar. Tem poemas traduzidos para línguas nas quais ainda se lê poesia. As crianças o chamam de Medusa, e ele gosta de andar pela cidade porque detestaria ter de dirigir. Também não gosta de telefones nem de grupos em que só há pessoas do sexo masculino. Escreve o mais preguiçoso e duradouro blog da internet, O Demônio Amarelohttp://odemonioamarelo.blogspot.com.br/, porque finge que escreve para uma revista literária.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Dirceu Villa já marcou presença aqui no escamandro anteriormente como tradutor dos Lustra, de Ezra Pound (clique aqui)

escamandro

           

psicopata superstar

15 minutos gravados a bala no american dream
injetado no sorriso da síndrome de estocolmo:
facas na sombra, forcas no teto, sangue no ralo,
eddie; fitas na juba, mandy; mãos nos ouvidos.

perfil fotográfico dos brancos bonzinhos com cara
de pôster, das boas meninas amáveis cheerleaders
de saia e meia calibre três quartos de ação de graça,
e o peitudo peru mutilado na casa do estupro,

nos gordos bigodes do médio papai na poltrona:
a corte decide te amar, o público compra teu corpo,
te beija na boca e estica o pescoço e te diz “inocente”
e protege o teu choro com riso, teus cães que têm sede

de sangue: chupam sorvetes vermelhos, enxugam
em toalha banheiros e cobrem o corpo com baba.
penduram seus brincos na carne da orelha, o martírio
de todo metal, vermelho grudento agradável de gozo.

(Dirceu Villa)

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poesia, tradução

horácio fiebelkorn

horacio-fiebelkorn

Horacio Fiebelkorn nasceu em La Plata em 1958 e vive em Buenos Aires. Publicou Caballo en la catedral (ed. El Broche, La Plata, 1999), Zona muerta (La Bohemia, 2004), Elegías (2008), Tolosa (2010), Sobre o tempo que se perde em buscar o tempo perdido (publicado em plaquete com tradução de Virna Teixeira, São Paulo, 2011) e Pájaro en el palo (Uruguay, 2012). Integrou também uma antologia de poetas platenses em 1998 e a Antologia de poesia erótica argentina (Ed. Manantial, 2002). Foi co-editor do tablóide de poesia La novia de Tyson nos anos 90.

Logo abaixo, um poema em tradução de Vinicius Ferreira Barth. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções.

PS: Vinicius Ferreira Barth é de Curitiba e mora em Buenos Aires, nascido em 1986, graduado e com mestrado em fase de conclusão na área de estudos literários pela UFPR. É tradutor, entre outras coisas, das Argonáuticas de Apolônio de Rodes, e também é ilustrador e fotógrafo.

Para mais poemas de Fiebelkorn publicados numa postagem anterior aqui no escamandro, clique aqui.

escamandro

           

As cidades pequenas têm amplas zonas
de casas baixas. Por isso pode-se ver o horizonte,
tocado, apenas, por silhuetas de árvores e construções.
A presença contínua do horizonte
nas cidades pequenas convida à liberdade, e por isso
gera angústia, com uma carga de terror e reclusão
que não se pode nomear. Seus habitantes
não sabem ser livres.
Nas urbes, a ausência de horizonte visível
permite uma liberdade moderada e anônima,
sem cor e sem nenhuma expectativa.
Quando as cidades pequenas aprenderem a ser livres,
as cidades grandes desaparecerão.

           

Las ciudades chicas tienen amplias zonas
con casas chatas. Por eso se puede ver el horizonte,
apenas tocado por siluetas de árboles y construcciones.
La presencia continua del horizonte
en las ciudades chicas, invita a la libertad y por lo mismo
genera angustia, con una carga de terror y encierro
que no puede nombrarse. Sus habitantes
no saben ser libres.
En las urbes, la ausencia de horizonte visible
permite una libertad moderada y anónima,
sin color ni expectativa alguna.
Cuando las ciudades chicas aprendan a ser libres,
las ciudades grandes van a desaparecer.

(Horacio Fiebelkorn, tradução de Vinicius Ferreira Barth)

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tarso de melo

tarso_de_melo

Tarso de Melo (Santo André, 1976) é autor de Caderno Inquieto (Dobra, 2012), seu sexto livro de poemas. É advogado e professor universitário, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: confirma mais poemas de Tarso de Melo, junto de um pequeno comentário crítico ao seu Caderno Inquieto, clicando aqui.

escamandro

           

3.

na calçada, nos rios, na turba,
no céu, nas sombras, na carne:
você diz ter medo e preme
aos cacos
os dias, as noites, as palavras
que um dia entregaria

você (seu próprio homem-do-saco,
sua íntima loira-do-banheiro)

agarrado, mais e mais,
aos galhos, como fiapos,
que impedem o abismo
de engolir os voos
de sua infinita
fuga

(Tarso de Melo)

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poesia, tradução

dahlia ravikovitch

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Dahlia Ravikovitch (דליה רביקוביץ) foi uma poeta israelense, nascida em 1936 num subúrbio de Tel Aviv, na época Mandato Britânico da Palestina. Foi uma das formadoras da poesia israelense contemporânea, ao lado de Yehuda Amichai (1924-2000), Natan Zach (1930) e David Avidan (1934-1995), publicando doze volumes de poesia, três coletâneas de contos e vários livros infantis, bem como traduções, para o hebraico, de autores como Yeats, Poe e T. S. Eliot. Além de poeta, foi jornalista, formada pela Universidade Hebraica de Jerusalém, ativista pela paz e pelos direitos dos palestinos. Morreu em agosto de 2005.

Logo abaixo, um poema em tradução de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções.

PS: Tsipi Keller (nascida em Praga, criada em Israel, mas residente nos EUA desde 1974) é prosadora e uma figura importante da tradução de autores israelenses, responsável por diversas coletâneas de tradução para o inglês de poesia e prosa em hebraico moderno, incluindo Poets on the Edge: An Anthology of Contemporary Hebrew Poetry (Suny Press, 2008), do qual foram retirados os poemas de Dahlia Ravikovitch aqui retraduzidos para o português.

Adriano Scandolara é poeta e tradutor de Curitiba, nascido em 1988, formado e mestre em estudos literários pela UFPR, onde pesquisou e traduziu a poesia do romântico Percy Bysshe Shelley (mais especificamente o poema Prometeu Desacorrentado, inédito). Publicou em 2013 seu primeiro livro de poemas, Lira de Lixo, pela editora Patuá.

Confiram mais alguns poemas de Ravikovitch em um post anterior no escamandro, clicando aqui.

escamandro

           

Presságios

Quando o copo cai
um caco dispara,
e um papel escorrega,
e algo mexe ou se move,
e algo se parte em sua estrutura ––
é preciso ficar sempre de guarda.

Agora escrevo e paro
para pensar
quantas folhas de papel entalaram na minha garganta.
Eu, se assim posso dizer, não sou mais eu.
Estou partida, definhando rápido.
Um tremor no ar. Falta um padrão.
Talvez seja eu que caia depressa.

E eu me recuso a acreditar.
Simplesmente me recuso a ver.

           

Omens

When the glass drops
a splinter shoots,
and a piece of paper slips,
and something shifts or stirs,
and something splits from the proper frames ––
one must always be on guard.

Now I write and pause,
to think,
many sheets of paper got stuck in my throat.
I, if I may say so, am no longer I.
I’m split, wasting fast.
A quiver in the air. The mould is missing.
Perhaps it is I who’s dropping quickly.

And I refuse to believe it.
I simply refuse to see.

           

סימנים

,כְּשֶׁהַכּוֹס נוֹפֶלֶת
,רְסִיס נִתָּז
וּפִסַּת נְיָר נִשְׁמֶטֶת
וּמַשֶּׁהוּ זֶח אוֹ זָז
וּמַשֶּׁהוּ חוֹרֵג מִן הַמִּסְגֶּרֶת הַנְּכוֹנָה
.צָרִיךְ לְהִשָּׁמֵר מִזֶּה מְאֹד

,עַכְשָׁו אֲנִי כּוֹחֶבֶת וּמַפְסִיקָה
,אֶפְשָר לַחְשׁׂב
.דַּפֵּי נְיָר רַבִּים נִתְקְעוּ לִי בִּגְרוֹנִי
.אֲנִי, אִם אֶפְשָׁר כָּךְ לוֹמַר, כְּבָר לֹא אֲנִי
.אֲנִי לְמֶחְצָה, פּוֹחֶתֶת בִּמְהירוּת
,יֵשׁ נִיעַ בָּאֲוִיר. הַתַּבְנִית חֲסֵרָה
.אוּלַי אֲני הִיא הַנּוֹפֶלֶת בִּמְהִירוּת

וַאֲנִי מְסָרֶבֶת לְהַאֲמִין
.אֲני מַמָּשׁ מְסָרֶבֶת לִרְאוֹת

           
(poemas de Dahlia Ravikovitch, traduções para o português de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller)

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maurício mendonça cardozo

Mauricio_Cardozo

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de tradução e tradutor de autores como Cummings, Celan, Rilke, Lasker-Schüler, Storm, Heine e Goethe.

Abaixo, o poema número iii dos 7 que compõem a sua série “destempo”, presente na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

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iii

do vinho
o mis en bouteille
selado de gole

da história
o caco do agora
velado de ontem

do amanhã −
que umedeça firme
na lápide das horas

(Mauricio Mendonça Cardozo)

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uljana wolf

uljana-wolf

Uljana Wolf (Berlim, 1979) é poeta, tradutora e editora formada em Germanistik, Anglistik e Kulturswissenchaft, pela Humboldt Universität, em Berlim. Tem dois livros de poesia publicados: kochanie ich habe brot gekauft (2005) e falsche freunde (2009) e já recebeu alguns prêmios literários, tais como o Peter-Huchel-Preis, Dresdner Lyrikpreis e o Villa Aurora grant in Los Angeles. Além disso, traduziu para o alemão alguns poetas de língua inglesa, como Matthea Harvey, Christian Hawkey, Erín Moure e Cole Swensen, e coeditou o Jahrbuch der Lyrik (2009). Atualmente mora em Nova York.

Logo abaixo, um poema em tradução de Guilherme Gontijo Flores. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções, dentre as quais também de autoria de Ricardo Pozzo.

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é autor de brasa enganosa (Patuá, 2013), tradutor de Rainer Maria Rilke (As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses) e de Robert Burton (A anatomia da melancolia, em 4 vols.) É professor na UFPR e atualmente prepara uma tradução das Elegias de Sexto Propércio.

Ricardo Pozzo é escritor, fotógrafo, músico e blefador. Participa do coletivo Pó & Teias. É editor assistente e responsável fotográfico pelo Jornal RelevO. Realiza a curadoria do projeto Vox Urbe do Wonka Bar, dedicado à literatura.

PS: confiram nosso post anterior sobre Wolf, com mais mais alguns poemas da autora, clicando aqui.

escamandro

           

aos cães de kreisau

ai minimatilhas de malhados cães de vila: falsos
rabos patas parcas focinhos sobre a cerca

a rua é sua junto ao pó na orla do asfalto
é sua a noite que ecoa no vale adormecido

cada eco é seu: a repercussão contorcida
do som dos montes do rosnar hierárquico

das ondas ladrantes: primeiro hercúleo então gigan
tesco no ressoar quase só uma galinha sabe:

aqui quem não brada nem baba é tomado
pelo bando em gargantas em chama perde o lugar

feito lobo etc. vocês medem o mundo na baixada
dominam cada estrada cada estranho e a mim –

é sua a minha trilha o meu passo sem compasso
a minha panturrilha         enfim fora da vila

           

nachtrag an die kreisauer hunde

wer sagt gedichte sind wie diese hunde
im dorfkern vom eignen echo umstellt

vom warten und scharren bei halbmond
vom sturen markieren im sprachrevier

der kennt euch nicht ihr rasenden kläffer
kassandren im lautrausch der wallachei

denn ihr fügt was wort ist und was wade
hinterrücks in tollkühnem biss

zusammen als wär ein bein nur ein blatt
und die ordnung der dinge ein tausch:

in meinem stiefel noch der abdruck
eurer zähne – vom tacker vier zwacken

so lohnt ihr dem vers der euch nachlief
folgt welt wohl der dichtung        bei fuß

(Uljana Wolf, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

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Rua Musas

Saiu, na semana passada, o meu livro, Rua Musas, publicado pela  Patuá. Achei que a edição, em capa dura, ficou muito bonita.

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Aproveitando o lançamento, gostaria de colocar aqui a apresentação do livro feita pelo  Hugo Langone  (ah, o livro pode ser adquirido pelo site da Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=203 ):

“A poesia de Bernardo parece exigir que o mundo todo se cale para que possam falar a manhã, as cigarras, a correnteza, o sol, a infância. É uma obra da calma, para a qual não há urgências. Mas não nos enganemos; não pensemos que sua simplicidade seja a artimanha de um poeta que deseja fugir do rigor do verso, tampouco que seja reflexo de um descompromisso que o mundo de hoje julga assaz inaceitável. Há na poesia de Bernardo o compromisso que é, de todos, o mais universal: a simplicidade de seus versos reflete a simplicidade a que aspira o coração do poeta e de todos nós; em tudo aquilo que seus textos tomam para si, parece reverberar algo maior que está noutra parte, uma paz derradeira que nos é sedutora porque é de fato aquilo a que todos tendemos. Os versos que aqui se encontram estão sempre a apontar para o alto, como se esperando ou recordando uma plenitude de que só encontram sinais”.

 

Também aproveito a ocasião para apresentar três poemas do livro, que também estão no site da editora.

 

bicicletas azuis se dirigem ao infinito
montanhas, um trilho de trem

e o frio de julho, quase metafísico 
a rememorar no fim da tarde
coisas apenas pressentidas

em uma soneca, uma criança
celebra o mistério da existência

sua mãe, esquecida que cansada
sorri

***

ela ria dos versos insensatos
imprecisos

o coração, desvairado
aliciador dos menores carinhos, mendigo nas horas vagas
não sabia ser sincero
não cultivava a língua como ascese
mas como forma
de expressão

e o que sentia ao vê-la, sorrindo ao vento forte da tarde

isso
não havia ainda sido nomeado

***

 comédia de dores desregradas

som de um sileno insolente 
tramando a própria fuga

somos o choque
de átomos cadentes e espaço
a borbulhar mundos infinitos
e sua dissolução

a procrastinar a existência
na fronteira de cada calafrio

a pairar perdido no pós
coito da modernidade
como grito engolido

a desvelar-se sob o sol do meio-dia

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ricardo domeneck

Ricardo_Domeneck

Ricardo Domeneck nasceu em Bebedouro, município do estado de São Paulo, em 1977. Lançou os livros Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), a cadela sem Logos (Cosac Naify/7Letras, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify/7Letras, 2009), Cigarros na cama (Berinjela, 2011) e Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012). É coeditor das revistas Modo de Usar & Co. e Hilda. Colaborou com revistas literárias brasileiras e estrangeiras, como Cacto (SP), Inimigo Rumor (RJ), Entretanto (Recife), Quimera (Espanha), Green Integer Review (Estados Unidos), Belletristik (Alemanha), entre outras, e seus poemas foram traduzidos para o alemão, inglês, castelhano, catalão, francês, holandês, esloveno, sueco e árabe.  Apresentou leituras e performances em Buenos Aires, Cidade do México, Paris, Bruxelas, Madri, Barcelona, Liubliana e Dubai, entre outras. Trabalha com vídeo e a fronteira textual entre o oral e o escrito, apresentando este trabalho em espaços como o Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro), Museo Reina Sofía (Madri), Espai d´Art Contemporani (Castelló-Valéncia), deSingel International Arts Campus (Antuérpia) e Akademie der Künste (Berlim). Traduziu para o português poemas de Hans Arp, Friederike Mayröcker, Frank O´Hara, Jack Spicer, Harryette Mullen, Rosmarie Waldrop e Ezequiel Zaidenwerg. Vive e trabalha desde 2002 em Berlim, na Alemanha, onde uma antologia de seus poemas está no prelo, traduzidos para o alemão por Odile Kennel, a sair pela editora Verlagshaus J. Frank | Berlin.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: uma pequena atualização: a tradução dos poemas de Domeneck para o alemão foi completada e publicada este ano, sob o título Körper: ein Handbuch. Confiram também nosso post de 2011 sobre o poeta, com mais alguns poemas, clicando aqui.

escamandro

           

Sentença contra mim, online stalker

Chove aqui, nesta península
às margens do Mar Báltico
no extremo norte do seu país,
enquanto sei que você dorme
com outro às margens do Lago
de Constança, no extremo sul.
Mais água é o que ganho
por bisbilhotar suas andanças,
todo ato encontra
sua punição imediata.
Sem conexão por cabos
com o mundo neste quarto
de hotel, sozinho, mal sei
agora qual a previsão
do tempo onde você
se encontra ou se perde,
como se fizesse diferença.
Dizem que o que os olhos
não veem, o miocárdio
não late. Se eu ainda
tivesse o seu número
e se você ainda atendesse
chamadas com o meu, eu
relataria em pormenores
como amo (já) outro,
mas como também
ainda amo alguém
que atende pelo seu nome,
que mora no seu endereço,
que compartilha consigo
irmãos e pesadelos. Moço,
você sabia que a minha
obsessão sempre fora o concílio
de extremos, e como nela
sempre
falho miseravelmente.

(Ricardo Domeneck)

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