poesia, tradução

tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)

tito lucrécio caro é uma das figuras mais interessantes da literatura romana. sua única obra que nos chegou, de rerum natura (da natureza das coisas) é um longo tratado epicurista escrito em versos (mais de 7 mil hexâmetros divididos em 6 livros). no entanto, diferente de outros tratados científicos que apenas são talhados em verso – mera prosa recortada – , a escrita de lucrécio consegue se sustentar simultaneamente como ciência & poesia; tanto que de rerum natura é um texto fundamental para os estudos filos[oficos sobre o epicurismo antigo (na verdade, o maior texto que nos restou sobre a doutrina), mas ao mesmo tempo uma pedra de toque importantíssima no desenvolvimento da poesia romana do séc. I a.c. – foi lendo lucrécio que se formaram poetas do porte de virgílio (sobretudo o das geórgicas), horácio (nas odes), propércio, tibulo & ovídio.

para tentar demonstrar um pouco dessa vitalidade, segue abaixo um dos trechos mais famosos da obra (a descrição da chuva), numa tradução poética do poeta curitibano mario domingues, que acabou de defender uma dissertação sobre a poética de lucrécio pelas lentes de jakobson, intitulada O raio, o relâmpago: Tradução do Canto VI de Lucrécio e análise de Função Poética de fragmentos, de 2013. mario domingues também é o autor de 2 livros de poesia: paisagem transitória (2001) & musga (2010); & participou da bela tradução coletiva de e.e. cummings, o tigre de veludo.

guilherme gontijo flores

A chuva – De rerum natura, livro 6, vv. 451-534.

As nuvens se condensam quando muitos corpos
ásperos chocam-se – revoando nos espaços
altos do céu – e sutilmente se coligam
sem que estejam, contudo, presos entre si.
Estes corpos compõem antes nuvens pequenas,   455
eis que estas se amarram, tornam-se atreladas;
unidas crescem, sendo levadas por ventos
até que a tempestade se arme severa.
Quanto mais próximas do céu são as montanhas,
mais os seus ápices fumegam nas alturas,              460
no nevoeiro negro de nuvens vermelhas.
Antes de ser o que parecem aos nossos olhos,
as nuvens são diáfanas, por isso o vento
confina-as nos altos cumes das montanhas.
Só nos cimos, em turba, as nuvens numerosas,     465
Compactas, tornam-se visíveis e, no entanto,
parecem vir dos ares altos das montanhas.
Quando as subimos, manifestam-se aos sentidos
fatos que indicam ventanias nas alturas.
Muitos corpos se elevam do mar: tal se vê               470
na aderência e umidade das roupas e panos
dependurados nos varais dos litorais.
Parece que decorre o inchaço das nuvens
das pulsações salgadas do mar, em miasmas,
já que toda umidade é mesmo consanguínea.         475
Em simultâneo, vemos que todos os rios
e a terra disseminam névoas e vapores,
como um hálito pênsil, manado do solo,
que tinge de caligem o céu, formando nuvens
altas, por sua paulatina convergência.                      480
Pois de cima o calor do éter estrelado
acossa, adensa as nuvens encobrindo o azul.
Acontece também de virem ao céu, de fora,
corpos que fazem nuvens aéreas e chuvas.
Sendo o espaço infinito, como já afirmei,                485
estes corpos – de número inumerável –
sendo tão rápidos, costumam percorrer
num segundo distâncias incomensuráveis.
Assim, não causa assombro que rapidamente
trevas e temporais de grandes nuvens cubram,      490
com seu peso oneroso, os mares e as terras.
Já que em todos os poros do céu, já que em tudo,
nos tais respiradouros deste vasto mundo,
há entrada e saída aos móveis elementos.
Agora explicarei como cresce a umidade                   495
nas nuvens altas, como a chuva precipita
água. Primeiramente, vários grãos de água,
sincrônicos, germinam destas mesmas nuvens,
e ao mesmo tempo brotam de todos os corpos;
a água líquida aparece em toda nuvem,                     500
bem como nossos corpos incham-se de sangue,
de suor e de toda a umidade dos membros.
Também absorvem muita umidade marinha,
como um tosão de lã, suspenso sobre o mar
imenso, quando os ventos carregam as nuvens.       505
Mesmo modo, a umidade dos rios correntes
é embarcada na nuvem. Quando muitos grãos
de água afluem, aumentando de mil modos,
as nuvens cheias tentam excluir o líquido
por dois motivos: pelo vento ser tão forte                 510
e porque a multidão de nuvens os expulsa –
comprimindo de cima, faz fluir a chuva.
Enquanto as nuvens somem com a ação do vento
ou se dissolvem, sob os golpes do calor,
expelem e destilam as águas pluviais,                         515
como a cera amolece e derrete no fogo.
Mas a chuva se faz fera, quando o poder
e a cólera do vento acumulam as nuvens.
Deste modo, costumam as chuvas se deter
quando são agitados muitos grãos de água;              520
quando se fundem outras nuvens e outras névoas
os grãos decaem, regam todos os lugares,
e a terra fumegante exala seus humores.
Quando os raios do sol batem na tempestade
opaca, aspergem contra as nuvens: então surgem    525
as cores do arco-íris sobre as nuvens negras.
Outros fenômenos que nascem e acontecem
nas altitudes, que se agregam lá nas nuvens,
os ventos, o granizo, a geada gelada,
todos, a neve, os longos enrijecimentos                      530
da água, que confundem e retardam o curso
dos rios – é sereno saber como nascem,
por que são criados, quando são entendidas
as propriedades essenciais dos elementos.

* * *

Nubila concrescunt, ubi corpora multa uolando
hoc super in caeli spatio coiere repente
asperiora, modis quae possint indupedita
exiguis tamen inter se comprensa teneri.
Haec faciunt primum paruas consistere nubes ;             455
inde ea comprendunt inter se conque gregantur,
et coniungendo crescunt uentisque feruntur,
usque adeo donec tempestas saeua coortast.
Fit quoque ut montis uicina cacumina caelo
quam sint quaeque magis, tanto magis edita fument     460
assidue fuluae nubis caligine crassa,
propterea quia, cum consistunt nubila primum,
ante uidere oculi quam possint, tenuia, uenti
portantes cogunt ad summa cacumina montis.
Hic demum fit uti turba maiore coorta                             465
et condensa queant apparere, et simul ipso
uertice de montis uideantur surgere in aethram.
Nam loca declarat sursum uentosa patere
res ipsa et sensus, montis cum ascendimus altos.
Praeterea permulta mari quoque tollere toto                  470
corpora naturam declarant litore uestes
suspensae, cum concipiunt umoris adhaesum.
Quo magis ad nubes augendas multa uidentur
posse quoque e salso consurgere momine ponti;
nam ratio consanguineast umoribus omnis.                   475
Praeterea fluuiis ex omnibus et simul ipsa
surgere de terra nebulas aestumque uidemus,
quae uelut halitus hinc ita sursum expressa feruntur,
suffunduntque sua caelum caligine, et altas
sufficiunt nubis paulatim conueniundo                           480
urget enim quoque signiferi super aetheris aestus,
et quasi densendo subtexit caerula nimbis.
Fit quoque ut ueniant in caelum extrinsecus illa
corpora quae faciant nubis nimbosque uolantis.
Innumerabilem enim numerum, summamque profundi   485
esse infinitam docui, quantaque uolarent
corpora mobilitate ostendi, quamque repente
inmemorabile per spatium transire solerent.
Haud igitur mirumst si paruo tempore saepe
tam magnis nimbis tempestas atque tenebrae               490
coperiant Maria ac terras inpensa superne,
undique quandoquidem per caulas aetheris omnis,
Et quasi per magni circum spiracula mundi,
exitus introitusque elementis redditus extat.
Nunc age, quo pacto pluuius concrescat in altis            495
nubibus umor, et in terras demissus ut imber
decidat, expediam. Primum iam semina aquai
multa simul uincam consurgere nubibus ipsis,
ominbus ex rebus pariterque ita crescere utrumque,
et nubis et aquam quaecumque in nubibus extat,         500
ut pariter nobis corpus cum sanguine crescit,
sudor item atque umor quicumque est denique membris.
Concipiunt etiam multum quoque saepe marinum
umorem, ueluti pendentia uellera lanae
cum supera magnum maré uenti nubila portant.          505
Consimili ratione ex omnibus amnibus umor
tollitur in nubes. Quo cum bene semina aquarum
multa modis multis conuenere undique adaucta,
confertae nubes umorem mittere certant
dupliciter ; nam uis uenti contrudit, et ipsa                   510
copia nimborum turba maiore coacta
urget, et e supero premit ac facit effluere imbris.
Praeterea cum rarescunt quoque nubila uentis
aut dissoluontur, solis super icta calore,
Mittunt umorem pluuium stillantque, quasi igni         515
Cera super calido tabescens multa liquescat.
Sed uemens imber fit, ubi uementer utraque
Nubila ui cumulata premuntur et impete uenti.
At retinere diu pluuiae longumque morari
consuerunt, ubi multa cientur semina aquarum,         520
atque aliis aliae nubes nimbique rigantes
insuper atque omni uolgo de parte feruntur,
terraque cum fumans umorem tota redhalat.
Hic ubi sol radiis tempestatem inter opacam
aduersa fulsit nimborum aspargine contra,                  525
tum color in Nigris existit nubibus arqui.
Cetera quae sursum crescunt sursumque creantur,
et quae concrescunt in nubibus, omnia, prorsum
omnia, nix, uenti, grando, gelidaeque pruinae,
et uis magna geli, magnum duramen aquarum,          530
et mora quae fluuios passim refrenat euntis,
perfacilest tamen haec reperire animoque uidere
omnia quo pacto fiant quareue creentur,
cum bene cognoris elementis reddita quae sint.

 (trad. mario domingues)

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poesia

Samizdat 36

Acabou de sair o número 36 da revista Samizdat. Segundo os editores da revista, explicando sua concepção, “as samizdats surgiram na União Soviética e visavam contornar uma máquina de censura e exclusão, por isto, cada autor e leitor tinham a missão de fazer uma cópia dos textos e passar adiante. Nossa SAMIZDAT também visa contornar uma estrutura excludente – o mercado literário -, que ignora e desqualifica qualquer escritor que não se enquadre em seus estritos parâmetros.”

 

A revista publica contos, ensaios, traduções e também tem uma parte dedicada a poesia, na qual está meu poema Nazca. O link para a revista está aqui.

 

O poema, que já postei anteriormente no blog, é este:

 

NAZCA

homens graves encaram o horizonte
e pisam as areias de Nazca
em suas linhas feridas a esmo
como hereges perfazem um ato de fé

é preciso fugir dos males daqui
regressar à pátria querida

(num mundo de bastidores
a verdade cheira a demência)

é preciso fazer-se escada
saltar por abismos de graça e justiça
mais altos  mais desconhecidos  mais claros

é preciso colocar a própria mente
sob a sola dos pés

a fim de que as antigas vias tortas
imagens vistas do alto
testemunhem a transfiguração

 

bernardo lins brandão

 

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poesia, tradução

jean-pierre lemaire (1948)

jean-pierre lemaire, fotógrafo desconhecido

jean-pierre lemaire, fotógrafo desconhecido

nascido em 1948, na cidade de sallaches, o poeta jean-pierre lemaire (que hoje leciona letras no khâgne, uma espécie de pré-vestibular francês) ainda é um ilustre desconhecido no brasil. sua poesia – pouca em quantidade – tem sido bastante valorizada na frança nos últimos anos. seus 9 livros de poesia são: les marges du jour (1981), l’exode et la nué (1982), visitation (1985), le coeur circoncis (1989), le chemin du cap (1993), l’annonciade (1997), l’intérieur du monde (2002), figure humaine (2008) & faire place (2013).

nestas terras tenho conhecimento de apenas 3 traduções diversas, que ao todo somam menos de 50 textos. 1 poema por brgitta lagerblad & moarcy félix na revista poesia sempre de 1995; 1o poemas na importantíssima antologia poetas de frança hoje: 19451995 editada & traduzida por mário laranjeira em 1996; & um belo livrinho, poemas, dedicado exclusivamente a lemaire, com seleção & tradução de júlio castañon guimarães, que fez o grande favor de me apresentar a obra desse poeta.

é curioso notar como a obra de lemaire se permite a várias abordagens bastante diversas, sem perder o seu peso. nesse momento, os projetos tradutórios demonstram sua força como ferramentes de criação & de crítica, capazes de moldar uma imagem do poeta fora de sua língua. na edição de laranjeira, o tradutor dá bastante ênfase ao catolicismo de lemaire, com enfoque na sua crueza e “profunda humildade, vizinha do silêncio”; ou seja, numa poesia de fundo religioso, porém voltada para a mortalidade do cotidiano. já castañon guimarães volta seu interesse para a construção de paisagens & a importância do seu olhar sobre as artes plásticas (dois temas caros ao próprio tradutor, como já tratei num post aqui no blog). é na convergência desses dois pontos (sua profunda humanidade cristã focada no mundo real & o centramento no olhar poético) com uma certa musicalidade minimalista que sua obra marca um lugar determinado na poesia francesa. como exemplo desse encontro entre olhar & fé, temos “la vierge au buisson de roses”, uma ecfrase da pintura de martin schongauer, feita em 1473, que está hoje em colmar.

escolhi 5 poemas, transcritos abaixo: 2 traduções de mário laranjeira tirada do início da carreira, 2 de júlio castañon guimarães de livros mais recentes & 1 minha, que fiz do último livro, lançado este ano, ainda sem traduções.

guilherme gontijo flores

jean-pierre lemaire, desenho de jacques basse

jean-pierre lemaire, desenho de jacques basse

Quando te é dado ver a vida
já não apenas sob o céu
mas como através dele
(adivinhas então a existência
de um segundo céu em transparência
e até por vezes de um terceiro)
podes suportar o grito do choupo
o olhar dos ofendidos
e tua própria história
como se a memória nessa profundeza
tomasse a cor da misericórdia
tal como o ar se torna azul…

(de les marges du jour, trad. de mário laranjeira)

Quand il t’est donné de voir cette vie
non plus seulement sous le ciel
mais comme à travers lui
(tu devines alors l’existence
d’un second ciel en transparence
et même parfois d’un troisième)
tu peux supporter le cri du peuplier
les yeux des offensés et ta propre histoire
comme si la mémoire à cette profondeur
prenait la couleur de la miséricorde
de même que l’air devient bleu…

O papagaio

O antigo papagaio perdido no invisível
subiu demais por certo. E tentas no teu sonho
fazer que ele desça com todo cuidado
verso após verso, enrolando a linha
impalpável em torno ao coração
como se recolhê-lo a alcance da palavra
dizer suas cores, amarelo e azul passados
fosse voltares tu mesmo para terra

(de visitation, trad. de mário laranjeira)

Le cerf-volant

L’ancien cerf-volant perdu dans l’invisible
a dû monter trop haut. Tu tentes en rêve

de le faire descendre avec précaution
vers après vers, enroulant le fil
impalpable autour du cœur
comme si l’amener à portée de parole
en dire les couleurs, jaune et bleu passées
c’était revenir toi-même sur la terre.

Dobrando a carta do laboratório
o homem que leu sua condenação
se enfia pelas ruas, portador de um sangue pesado
incomunicável. Volta as costas
para o sol de que gostava desde a infância
e de rua em rua, o sol o segue
como um cachorro fiel ou um deus desolado
que não compreende mas pede perdão

(de l’annociade, trad. de júlios castañon guimarães)

Repliant la lettre du laboratoire
l’homme qui a lu sa condamnation
s’enfonce dans les rues, porteur d’un sang lourd
incommunicable. Il tourne le dos
au soleil qu’il aimait depuis son enfance
et de rue en rue, le soleil le suit
comme un chien fidèle ou un dieu désolé
qui ne comprend pas mais demande pardon.

A virgem das rosas
(Colmar)

Estas aí, Maria, com o manto vermelho,
majestosa, amável, vigiando de um lado
e teu filho do outro.
À volta, rosas
sem espinhos, como no jardim do Éden,
e esses pássaros, pintarroxos, canários,
rouxinóis, talvez, de ar estranho :
pássaros pintados que não podem cantar.
Como eles, eu te olho,
aprendo a me calar,
em penitência no Paraíso.

(de figure humaine, trad. de júlio castañon guimarães)

La Vierge au buisson de roses
(Colmar)

Vous êtes là, Marie, en manteau rouge,
majestueuse, aimable, veillant d’un côté
et votre fils de l’autre.
Autour de vous, des rosess
ans épines, comme au jardin d’Éden,
et ces oiseaux, rouges-gorges, mésanges,
rossignols, peut-être, à l’air étrange :
des oiseaux peints qui ne peuvent chanter. 
Comme eux, je vous regarde,
j’apprends à me taire, 
en pénitence au Paradis.

Ao longo das cortinas descem
colunas de luz até
os capitéis invisíveis.
Elas sustentam a paz do dia
domingo de manhã
a cornija do céu por sobre os olhos;
aclaram sobre a mesa
o trabalho inacabado
dum homem quase aposentando.

(de faire place, trad. de guilherme gontijo flores)

Le long des rideaux descendent
des colonnes de lumière
aux chapiteaux invisibles.
Elles supportent la paix du jour
un dimanche matin,
la corniche du ciel au-dessus des yeux ;
éclairent sur la table
le travail inachevé
d’un homme près de la retraite.

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poesia

Ricardo Pozzo

Ricardo PozzoRicardo Pozzo, além de um autodeclarado “abstêmio” e “blefador”, é um poeta, tradutor, músico e fotógrafo nascido em 1971 na Argentina e radicado em Curitiba. É o organizador do Vox Urbe, as noites de poesia que ocorrem toda terça-feira às 22h no Wonka Bar em Curitiba (tem uma matéria interessante a respeito no Caderno G da Gazeta do Povo, de 2011: link aqui), colaborador do Jornal RelevO, editado por Daniel Zanella, e membro do coletivo literário Pó&Teias, idealizado pela professora e escritora Glória Kirinus, que completa 10 anos este ano.

Seus poemas estão reunidos no caderno UrbeFagoCitoZ (aludindo, convém glosar, à fagocitose celular como metáfora para o engolimento do ser pela cidade, a urbe), que inclui ainda traduções e fotografias, além dos seus poemas próprios, e circula já desde 2011 por Curitiba através da editora artesanal Rock Leituras. Também podemos encontrar alRicardo Pozzo - El vuelo de la golondrinaguns de seus poemas aqui e acolá em periódicos de respeito, como o Cronópios e Germina Literatura. Como parte de seu trabalho fotográfico – intitulado Urbe Fágica –, sua poesia se concentra bastante sobre a temática da cidade, em tudo que ela tem de “obsceno, feérico, apocalíptico, espetacular”, como diria o nosso ilustre Fausto Fawcett – com privilégio para as figuras marginais como a(o) prostituta(o) e o mendigo, não por acaso protagonista constante de muitas das fotos em sua galeria do Flickr, como as que ilustraram minha postagem de dezembro de 2012 de poemas sobre mendigos – já a outra face de sua fotografia, a de natureza mais noturna e erótica, você pode acompanhar clicando aqui.

           

Ricardo Pozzo - Urbe fachada

Junto com alguns dos seus poemas que selecionei, deixo aqui também na sequência uma seleção de links para outros sites com trabalhos do Sr. Pozzo:

Poemas na Germina Literatura

Poemas no Portal Cronópios

“Fotocorpos”, fotografias de nu artístico, na revista Mallarmargens

Dois poemas em prosa na última edição (março/2013) do Jornal RelevO

Um projeto musical, com Rodrigo Madeira e Tullio Stefano, intitulado Cartografia da Hesitação entre o Som e o Sentido.

E, para encerrar, uma entrevista para o site Curitiba Cultura sobre poesia e a cena cultural de Curitiba

Adriano Scandolara

           

Per. Plexos

Michês desfilam esculpidas. Carcaças. Na interjecional estreita. Voluntários da Pátria. Entre o estereotípico Instituto e a praça Osório. Inspecionados por. Automóveis olhos. Circunda-os. Diluídos latrocidas indiciados. Por uma jaqueta, trinta reais e alguns centavos. Ilegítima defesa. Da honra garden-party à sombra. Em ambos. Lados de falsos efebos para evitar. Que sonhos de consumo tornem-se pesadelos; ou. O remédio dos velhos. Traquejados em liquescer homopétalos gametas. Ainda vale o ditado. Homem que trabalha será dignificado.

            urbe under construction

Alvéolos de petit pavê

Um drone
observa-me
por entre
alvéolos
de petit pavê
na cidade
tipo exportação
feita
pra ninguém

E meu irmão,
que
encontra-se
jogado
para fora do
espetáculo

: cidadania
examinada,

saca de
vísceras
instituídas
em álcool,

lamenta
que a vida
é rinha
sem saída;

e a
infância
invisível,
tal qual
o mendigo,

por entre
alvéolos
de petit pavê

            urbemorpheu

Falsa Varsóvia

Sorve a turba
o compulsivo maná
do sheol adicto,

Herdeiros
de um deserto
sinuoso
no gueto
do esgoto

ao qual escoam
a hipocrisia
e a solidão da
solidariedade
interesseira.

Antes bons pais,
bons funcionários,
boas filhas,
hoje acocorados
em manilhas,
sob o tronco
dos Chorões,
festejam
um ritual lascivo

na micro sinagoga
de alumínio,
a menorá
de isqueiros.

Irmãos da nóia
desorientados
pelo Inimigo,
crêem estar,
a Terra Prometida,
além dos portões
de uma psíquica
Treblinka.

            

Tanatologia das Relações Humanas

Para melhor compor
o puzzle
das fantasias
nostálgicas
acerca do futuro,
horas em dedicado
estudo
ao feixe solar
que incide sobre a colcha
ou ao intervalo
entre fusas e semibreves
no minueto
calha sob chuva.

farta
de sua máscara hipócrita,
aguarda
o habeas corpus
que a liberte do mundo real;

hypnos sussurra
em seus ouvidos
enquanto felinos
festejam a sua volta

o mundo
ao seu redor
sempre lhe pareceu
um tanto
fora de órbita.

O contestado é agora

           

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,

anthropocetáceo
emerjo,

do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.

(poemas e fotografias de Ricardo Pozzo)

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poesia, tradução

jean métellus (1937)

jean métellus, nascido em 1937 em jacmel, no haiti, é um hiperprolífico escritor francófone. sua obra se divide em poemas, romances, peças de teatro & ensaios; além do trabalho de médico neurologista, que exerceu durante quase toda sua vida. passou boa parte da sua vida na frança (mudou-se para paris em 1959), como parte da grande diáspora de exílios sob o governo ditatorial de duvalier em sua pátria.

metéllus, em 2004, por sophie bassouls

metéllus, em 2004, por sophie bassouls

a sua poesia começou a ganhar destaque em 1973, quando a Les lettres nouvelles publicou um longo poema seu intitulado Au pipirite chantant, com comentários de andré malraux. nessa obra, já vemos um poeta maduro, capaz de fundir aspectos culturais de suas origens (o pipirite, ou tyranus dominicensis, é um pássaro típico do haiti) com uma estética moderna, que evoca, por exemplo, as obras de césaire, senghor & glissant. como resultado disso, temos uma poesia que beira o surrealismo, porém impregnada de imagens e símbolos de uma cultura negra, de um espaço majoritariamente rural a caminho de mudanças drásticas, que por sua fantasmagoria, parecem tentar um voo universalizante, por meio da própria tribo, ou pela tentativa de ressimbolizar o mundo. nesse espaço, métellus faz uma feroz crítica às condições de vida do colonizado, mas não se restringe ao lamento, & amplia o poder da sua poesia por correr entre a dor & a vida (o poema “femme noire” me parece muito significativo, nesse sentido).

tanto sua poesia quanto sua prosa são, infelizmente, quase que completamente desconhecidos no brasil. não tenho notícia de nenhuma poesia traduzida para o português, por isso, optei por traduzir alguns da coletânea intitulada au pipirite chantant et autres poèmes, que foi lançada em 1978 com introdução e alguns comentários de claude mouchard.

guilherme gontijo flores

porto príncipe, fotógrado desconhecido

porto príncipe depois do terremoto de 2010, fotógrado desconhecido

La joie

Phosphorescente comme la silhouette des dieux
Comme l’instant, comme l’avenir
Dans ce présent qui nous échoit
La joie pressent l’assaut de la tristesse
Chausse une très vieille sandale
Et chante, foulards aux pieds
Foulards au cou, foulards aux bras
Comme un essaim d’abeilles
Une chanson née dans les vertiges
Le parfum du lait de mes lèvres et de mes larmes
Comme le miel du désordre égale la surprise du désir

A alegria

Fosforescente como a silhueta dos deuses
Como o instante, como o porvir
Neste presente que nos sucede
A alegria pressente o assalto da tristeza
Calça uma sandália velhíssima
E canta, lenços nos pés
Lenços no colo, lenços nos braços,
Como um enxame de abelhas
Uma canção nascida nas vertigens
O perfume do leite dos meus lábios e lágrimas
Como o mel da desordem iguala a surpresa do desejo

* * *

La Solitude

Solitude, fleur incandescent de rêves aurifères
Fracas du jour, folie des nuits et des révoltes dorées
Que de prix payés à la terre pour les langueurs d’une couleur
Un homme seul est-il une fièvre sans raison ou un sourire sans soucis
Où va-t-il lié à la gélatine des ruines?

A Solidão

Solidão, flor incandescente de auríferos sonhos
Estrépito do dia, loucura das noites e das revoltas douradas
Quanto foi pago à terra pelos langores de uma cor
Um homem só será uma febre sem razão ou um sorriso sem ciso
Aonde vai ligado à gelatina das ruínas?

* * *

La nuit s’est déshabillé
Mais la terre ne le crie pas
La pelouse ruisselle d’étranges lumières
Éclate de santé
Écailles d’un rocher rompu
Des vagues encaissent l’humidité
Les narines ont subi l’assaut des parfums
Le palais goûte les saisons
Et mois j’écoute

Haïti, Haïti
J’attends pour toucher
Mes mains s’étendent pleines de mots

A noite se despiu
Mas a terra não o grita
O gramado derrama estranhas luzes
Clarão de saúde
Escamas de uma rocha rompida
Ondas encaixotam a umidade
As narinas sofreram o assalto dos perfumes
O palato degusta as estações
E eu escuto

Haiti, Haiti,
Espero para tocar
Minhas mãos se estendem cheias de palavras

* * *

Je cours jour et nuit après moi
Viens de bercer ma joie de retrouver
L’horizon maternel du matin

Haïti, Haïti
Les baies du jour peuplent ma vision
Les premiers épis du printemps ont trop souffert
Ils sèment maintenant une force inouïe

Eu corro dia e noite atrás de mim
Mal embalou minha alegria de encontrar
O horizonte maternal da manhã

Haiti, Haiti
As baias do dia povoam minha visão
As primeiras espigas da primavera sofreram por demais
Semeiam agora uma força inaudita

* * *

Un chant de je ne sais où circulait dans la salle
Une corde autour du cou
Offrant sa voix aux mots
Elle avait les dents blanches du coton en été

Um canto não sei donde circulava na sala
Uma corda no pescoço
Oferecia a voz às palavras
Ela tinha os dentes brancos do algodão no veraneio

* * *

Le son est l’existence de l’homme
condensation pure du verbe
vouloir étincelant

Il faut apprivoiser dans la bouche d’autrui tous les moments du verbe

O som é a existência do homem
condensação pura do verbo
desejo reluzente

É preciso amansar na boca alheia todos os momentos do verbo

* * *

Visages découverts baignant dans un concert de sens
Carnaval infini
Flor gelé de plaisirs secrets
Partout c’est l’attente

Faces descobertas banhadas num concerto de sentidos
Carnaval infinito
Onda gelada de prazeres secretos
Em toda parte uma espera

* * *

Femme noire

La femme noire a un enfant qui la tient en alerte
La femme noire a un enfant et des seins douloureux
C’est une accouchée d’hier
Les doulers l’ont surprise à la cueillette du café
Là sous la caféier sur la veste de son mari, la tête
….[contre un palmier,
……….les pieds plantés dans la terre, elle a poussé son enfant
……….L’eau de la source est pure
……….La chaleur du corps tendre
……….Elle reprit son travail avec au sein l’enfant
……………………….dans une main la machette
Le sarclage recommence, la cueillette de plus
[belle, la mère engrosse la terre pour pouvoir
[donner du lait à son enfant

Mulher negra

A mulher negra tem um filho que a mantém alerta
A mulher negra tem um filho e seios doloridos
É uma parturiente de ontem
As dores a surpreenderam na colheita do café
Lá sob o cafezeiro sobre a roupa de seu marido, a cabeça
…..[contra uma palmeira
………os pés plantados na terra, ela empurrou seu filho
………A água de fonte é pura
………O calor com corpo tenro
………Ela retoma seu trabalho e no seio o filho
………………….numa mão traz um facão
A sachadura recomeça, a colheita mais
…..[bela, a mãe emprenha a terra para poder
…..[dar leite ao seu filho

(poemas de jean métellus, trad. de guilherme gontijo flores)

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“Rapsódia de uma noite de vento” de T. S. Eliot

Old street lamp in the background of the building with sculpturesEliot já não é nenhum estranho por estas bandas, sendo que já dedicamos duas postagens ao seu Prufrock, uma com a tradução de Rodrigo Gonçalves, outra com a de Rodolfo Jaruga. Agora, eu gostaria de volver nossa atenção para um dos poemas “menores” (não tão menor assim, a bem da verdade, com seus 78 versos), presente na primeira coletânea do poeta, publicada em 1920, Prufrock and Other Observations, que é o “Rhapsody on a windy night”.

Seu título é um tanto auto-explicativo (apesar de o “on” ser ambíguo, podendo ser tanto uma rapsódia (composta) sobre uma noite de vento quanto uma rapsódia (que ocorreu) durante uma noite de vento): é um poema que se concentra sobre uma caminhada noturna da persona de Eliot, mesclando imagens confusas da memória com as cenas vistas pela figura durante a sua flanêrie. Como com a “Canção de amor de J. Alfred Prufrock”, a referência musical do título é irônica (“rhapsody” tem um sentido de algo entusiasmado em inglês, enquanto o tom do poema é melancólico), mas, diferente de Prufrock, não há um nome para essa persona, ainda que ela seja bastante semelhante ao Prufrock, em sua atitude reflexiva e desiludida em relação ao mundo das convenções sociais em que está imerso – e eu ainda arriscaria dizer que a persona da “Rapsódia” também tem suas angústias com o envelhecimento, como parece ficar sugerido na cena entre ele ter visto a criança na pedreira e o “velho siri”, com o qual ele revelando uma identificação, o que não ocorre com a criança, cujos olhos não permitem que ele veja “nada por trás”.

Estruturalmente, eu gostaria de apontar para o quanto o poema é bem amarrado. A primeira estrofe se apresenta como uma introdução musical, de fato, com todos os motivos que se desenvolvem ao longo dos versos seguintes: a descrição da cena (“the reaches of the street“), a marcação do tempo (começando à meia noite e encerrando, depois, às 4 da manhã, com o relógio retornando a cada estrofe, rítmico, como o “tambor fatalista” a que ele se refere no nono verso), a dissolução explicitamente referida da memória (que passa a caracterizar as imagens do poema inteiro) e a aparição dos postes, que ganham voz nas estrofes seguintes, chamando a atenção do eu-lírico para cada uma das cenas pela qual ele passa: a mulher entrando na casa (o vestido sujo e rasgado sendo sugestivo de sexualidade), o gato comendo a manteiga rançosa na sarjeta (ou numa calha, a palavra “gutter” é ambígua), a lua descrita em termos grotescos (esta, mencionada também já na primeira estrofe, na “lunar synthesis” e “lunar incantations”).

Há um crescendo, então, na antepenúltima estrofe, com a enumeração dos cheiros noturnos, naquilo que poderíamos descrever como um momento de identificação do eu-lírico com a lua – apesar de ela, a princípio, se distinguir dele por não ter memória (“La lune ne garde aucune rancune, / (…) The moon has lost her memory“) – em sua solidão e confusão sensório-mnemônica:

           

A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.

           

Por fim, o eu-lírico retorna ao que parece ser um hotel (daqueles em que se deixa, ou deixava, os sapatos à porta) e se deita, e o poema conclui com um desses finais angustiantes nos quais Eliot era mestre. No verso final, Eliot justapõe as ordens (ou conselhos) que a luz do último poste dá, o “prepare for life” (a preparação para a continuação da vida, da qual essa caminhada noturna seria uma forma de fuga, uma suspensão da realidade diurna, da qual, no entanto, é impossível escapar, justamente por conta das qualidades incontroláveis da memória), com a imagem inesperada de uma faca sendo retorcida pela última vez na vítima após o golpe:  The last twist of the knife , um verso isolado, que compõe sozinho a última estrofe, uma qualidade que lhe confere um peso especial e contribui para o tom desesperador do poema.

Lembro que, desde que li Eliot pela primeira vez (creio que em 2007 ou 2008), numa ediçãozinha pocket da Penguin, esse foi um dos poemas dele que mais me marcou, e por isso sempre quis traduzi-lo. Há já uma tradução feita pelo poeta e tradutor Ivan Junqueira, presente em sua antologia intitulada simplesmente Poesia (editora Nova Fronteira), junto com o seu “Prufrock”, “A Terra Desolada”, “Os Homens Ocos”, etc. No entanto, apesar dos méritos do trabalho de Junqueira, sua tradução deste poema em específico não me deixou muito satisfeito. Algo do ritmo me parece quebrado, na medida em que Junqueira muitas vezes alonga versos que no original eram curtíssimos  (como no caso do trecho do gato e da solidão da lua) e parece deixar de lado rimas que saltam aos olhos e aos ouvidos no poema de Eliot, como “The street lamp sputtered, / The street lamp muttered”, que viram “cuspia” e “resmungava”. Além disso, o final me soa esquisitíssimo, com o uso inusitado do verbo “talhar”, repetido com o “talho” do verso seguinte, e a substituição a imagem da faca sendo retorcida após a facada (sendo o movimento da torção especialmente importante. Note como o poema insiste o tempo inteiro sobre imagens de coisas tortas e retorcidas. Como disse, ele é todo amarrado) com a de uma navalha (um objeto que, convém dizer, não pode ser usado para apunhalhar) dando mais um golpe. Não é o caso da presunção minha de querer falar mal da tradução de Junqueira e oferecer uma melhor, mas, sim, de oferecer mais uma tradução, como fazemos sempre no escamandro, e com um projeto diferente. Aliás, eu digo, se tem algo pelo qual Junqueira, como tradutor, é realmente digno mesmo de condenação, é por elogiar e promover, como jurado, a tradução de Milton Lins de William Shakespeare no prêmio de tradução da ABL,  uma verdadeira aberração de tão bizarra, conforme registrado no blogue de Denise Bottman. Mas, enfim, isso é outra história.

Por isso, apresento a vocês, abaixo, a minha tradução e a de Ivan Junqueira, acompanhadas pelo original.

Adriano Scandolara

Van Gogh - Starry Night Over the Rhone

           

Rapsódia de uma noite de vento

Doze horas.
Pelos caminhos da rua
Preso em síntese lunar
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras
Divisões e precisões,
Todo poste que passo
Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto.

Uma e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja,
A luz do poste diz, “Veja aquela mulher
Que hesita na tua direção à luz da porta
Que se abre a ela como uma bocarra.
Vê-se que a barra do vestido
Está rota e suja de areia,
E que o canto do olho dela
Se retorce como um alfinete”.

A memória vomita alta e seca
Uma turba de coisas tortas;
Um galho retorcido sobre a praia
Carcomido, liso, polido
Como se o mundo entregasse
O segredo de seu esqueleto
Branco e rijo.
Uma mola quebrada numa fábrica,
Ferrugem que se prende à forma que a força abandonara
Dura e tesa e prestes a estourar.

Duas e meia,
A luz do poste diz,
“Note o gato à sarjeta, como se aconchega,
Mostra a língua
E devora um rançoso naco de manteiga”.
Então a mão da criança, automática,
Saiu e embolsou um brinquedo que corria pela pedreira.
Não pude ver nada por trás do olhar daquela criança.
Vi olhos na rua
Tentando espiar pelas cortinas acesas,
E um siri à tarde numa poça,
Um siri velho com cracas nas costas;
Prendendo a ponta do graveto que estendi pra ele.

Três e meia,
A luz do poste gagueja,
A luz do poste rumoreja no escuro.

A luz entoou:
“Veja a lua,
La lune ne garde aucune rancune,
Ela pisca um olho flébil
Ela sorri nas esquinas.
Alisa o cabelo da relva
A lua perdeu a memória.
Uma varíola lavada racha-lhe o rosto,
Sua mão retorce uma rosa de papel,
Com cheiro d’água de colônia velha e pó
Ela está só
Com todos os cheiros noturnos
Que cruzam e cruzam os cruzamentos de seu cérebro.
A reminiscência vem
De gerânios secos sem sol
E poeira nos cantos,
Cheiros de castanhas nas ruas,
E cheiros de mulher em quartos cortinados,
E cigarros nos corredores
E cheiros de coquetéis nos bares”.

A luz diz,
“Quatro horas,
Eis o número na porta.
Memória!
Você tem a chave,
A luz espalha um círculo na escada,
Suba.
A cama aberta; a escova de dente pendurada,
Sapato à porta, durma, a vida o aguarda”.

A torção final da facada.

(tradução de Adriano Scandolara)

           

Rapsódia sobre uma noite de vento

Meia-noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia-noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surripiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água-de-colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talha.

O último talho da navalha.

(tradução de Ivan Junqueira)

           

Rhapsody on a Windy Night
 
Twelve o’clock.    
Along the reaches of the street    
Held in a lunar synthesis,    
Whispering lunar incantations    
Dissolve the floors of memory
And all its clear relations    
Its divisions and precisions,    
Every street lamp that I pass    
Beats like a fatalistic drum,    
And through the spaces of the dark
Midnight shakes the memory    
As a madman shakes a dead geranium.    
 
Half-past one,    
The street lamp sputtered,    
The street lamp muttered,
The street lamp said, “Regard that woman    
Who hesitates toward you in the light of the door    
Which opens on her like a grin.    
You see the border of her dress    
Is torn and stained with sand,
And you see the corner of her eye    
Twists like a crooked pin.”    
 
The memory throws up high and dry    
A crowd of twisted things;    
A twisted branch upon the beach
Eaten smooth, and polished    
As if the world gave up    
The secret of its skeleton,    
Stiff and white.    
A broken spring in a factory yard,
Rust that clings to the form that the strength has left    
Hard and curled and ready to snap.    
 
Half-past two,    
The street-lamp said,    
“Remark the cat which flattens itself in the gutter,
Slips out its tongue    
And devours a morsel of rancid butter.”    
So the hand of the child, automatic,    
Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.    
I could see nothing behind that child’s eye.
I have seen eyes in the street    
Trying to peer through lighted shutters,    
And a crab one afternoon in a pool,    
An old crab with barnacles on his back,    
Gripped the end of a stick which I held him.
 
Half-past three,    
The lamp sputtered,    
The lamp muttered in the dark.    
 
The lamp hummed:    
“Regard the moon,
La lune ne garde aucune rancune,    
She winks a feeble eye,    
She smiles into corners.    
She smooths the hair of the grass.    
The moon has lost her memory.
A washed-out smallpox cracks her face,    
Her hand twists a paper rose,    
That smells of dust and old Cologne,    
She is alone    
With all the old nocturnal smells
That cross and cross across her brain.    
The reminiscence comes    
Of sunless dry geraniums    
And dust in crevices,    
Smells of chestnuts in the streets,
And female smells in shuttered rooms,    
And cigarettes in corridors    
And cocktail smells in bars.”    
 
The lamp said,    
“Four o’clock,
Here is the number on the door.    
Memory!    
You have the key,    
The little lamp spreads a ring on the stair,    
Mount.
The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,    
Put your shoes at the door, sleep, prepare for life.”    
 
The last twist of the knife.

(poema de T. S. Eliot)

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tamara kamenszain

kamenszain

tamara kamenszain, descendente de judeus russos & romenos, nascida em buenos aires em 1947,  é uma das poetas mais interessantes da poesia argentina que estão em atividade. autora de 8 livros de poesia, dentre eles De este lado del Meditarráneo (1973), Tango bar (1998), El Ghetto (2003) & Solos y solas (2005), além de livros de ensaios sobre poesia latina. recentemente saiu uma reunião de toda sua poesia sob o título de La novela de la poesía (2012), onde também encontramos poemas que estavam dispersos. boa parte de sua obra já foi traduzida para algumas línguas & alguns detalhes sobre suas ideias podem ser conferidas numa entrevista concedida a solange rebuzzi, que ainda apresenta poemas do livro Solos y solas.

embora seja costumeiramente inserida na corrente dos neobarrocos argentinos da década de 70, penso que sua poesia mais recente se afasta desse rótulo ao mesmo tempo em que se afirma como um voz feminina específica, marcada por sua condição política, sexual, religiosa, familiar, histórica, &c., sem um resumo simples de forma ou pensamento. esse processo pode muito bem ser visto nos dois poemas que posto logo abaixo, tirados das poucas traduções a que já tive acesso.

por falar nisso, vale lastimar a falta de traduções da sua obra. que eu saiba, só tínhamos o livrinho El Ghetto, numa edição bilíngue traduzida por carlito azevedo & paloma vidal, como parte de um número da revista Inimigo rumor. nesse livro, uma espécie de tombeau pela morte do pai tobías kamenszain, o judaísmo explicitado desde o título se amplia da tradicional imagem do gueto para todo um gueto que se herda no sangue, através da distância das raízes, pelo reencontro do mesmo no outro, mesmo já sem a fé na religião. essa retomada da incompreensão afetiva parece fundar os poemas em seu exílio constante de espaço, língua & religião. talvez pra minorar a falta, faz não muito tempo, a 7letras lançou uma reedição d’O Gueto acompanhado de O eco da minha mãe, este em tradução de paloma vidal.

guilherme gontijo flores

tapa Poesia completa_TK

[de Tango Bar]

A simpatia dele pelo diabo
é o ninho de minha antipatia.
Assusta-me e aborrece-me
tudo o  que está mal
no bom sentido
da palavra. Pecado,
pecado seria então
segui-lo tão longe
quando jura e perjura
que estamos perto.
Mamãe, papai, fui
com este mauzinho crioulo
e na cruz de seu poncho
me dei por perdida.
Será possível que em minha religião
sozinha
atrás de um homem
eu sempre sinta frio?

(trad. de ronaldo cagiano, há mais aqui)

La simpatía de él por el diablo
es nido de mi antipatía.
Me asusta me enoja todo
lo que está mal
en el buen sentido
de la palabra. Pecado,
pecado sería entonces
seguir a él tan lejos
cuando jura y perjura
que estamos cerca.
Mamá, papá, me fuí
con este maldito criollo
y en la cruz de su poncho
me di por perdida.
¿Será posible que en mi religión
sola
detrás de un hombre
yo siempre sienta frío?

Antepassados (de O Gueto)

Aonde vão?
Vou com eles descendo de meus filhos
até onde queiram chegar astros circulantes
se na hora do nascimento calcularam ascendente
não o abandonem mais.
Do Mar Negro até o Estreito
naturalizam-se comigo de mim procedem
meninos de sobrenome decomposto
viajando para ser argentinos
imigrantes por vomitar no convés
dando voltas eles nos voltam
como vinil arranhado dos beatles
da Rússia para cá
e daqui para a URSS que foi
donos de um deserto que avança bisavós do nada.

( trad. de carlito azevedo & paloma vidal)

Antepasados

Adónde van?
Me voy con ellos desciendo de mis hijos
hasto donde quieran llegar astros rodantes
si a la hora del nacimiento calcularon ascendiente
no lo abandonen más.
Desde el Mar Negro hasta el Estrecho
se naturalizan conmigo de mí vienen
chicos de apellido descompuesto
viajando para ser argentinos
inmigrantes por vomitar en cubierta
dados vuelta nos vuelven a nosotros
como vinilo rayado de beatles
de Rusia para acá
y de aquí a la URSS que fue
dueños de un desierto que avanza
bisabuelos de la nada.

Sozinha (de La novela de la poesía)

Agora que enfim estou desvelada
como que pra comprovar que algo cresci
sei que não só o sorriso daquele homem
como também seus gestos
e que não só esses gestos
como também suas palavras
tudo me alcança posso caminhar
acrobata cambaleante porém segura
pela corda bamba da minha própria casa

(trad. guilherme gontijo flores)

Sola

Ahora que por fin estoy desvelada
como para comprobar que algo crecí
sé que no solo la sonrisa de aquel hombre
sino también sus gestos
y que no solo ésos gestos
sino también sus palabras
todo me alcanza puedo caminar
acróbata tambaleante pero segura
por la cuerda floja de mi propia casa

(poemas de tamara kamenszain)

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