poesia, tradução

3 poemas de John Ashbery

john-ashberyEu já fiz uma postagem anterior, quando o escamandro ainda estava engatinhando, com um poema de John Ashbery, “Down by the station, early in the morning”, retirado do seu volume A Wave: poems, em tradução minha – o primeiro poema de Ashbery que li que me despertou um verdadeiro fascínio, especialmente por dar aquela sensação estranha de estar quase conseguindo compreender sobre o que é o poema (se é que os poemas de Ashbery são sobre alguma coisa, de fato), sem, no entanto, chegar a qualquer coisa que se pareça com uma compreensão real. Vocês podem conferi-la clicando aqui, juntamente com uma brevíssima introdução sobre o poeta e a sua obra.

Agora, para começar o ano, eu gostaria de apresentar mais alguns poemas dele que andei traduzindo.  Na próxima edição da revista Coyote, que sairá em breve ainda este mês, teremos mais outros poemas, atravessando boa parte de sua carreira, de Some Trees (1956) até Can You Hear, Bird? (1995).

Para esta postagem, selecionei 3 poemas de 3 livros distintos, que publico aqui em ordem cronológica: Rivers and Mountains (1966), As We Know (1979) e Planesphere (2009), seu segundo livro mais recente até então, dedicado ao seu parceiro David Kermani. Que eu tenha traduzido “Chair Rental” por “Cadeiras de Aluguel” e não por “Aluguel de Cadeiras”, como seria mais natural, foi para tentar manter o “C” como a primeira letra do título, já que o livro se estrutura com os títulos dos poemas em ordem alfabética.

Quem se interessar pela poesia de Ashbery e quiser ter uma noção de por onde começar a lê-lo, há um artigo da crítica Megan O’Rourke que é particularmente interessante, publicado na Slate magazine (clique aqui), bem como um outro artigo, mais longo e mais aprofundado, de Marjorie Perloff, que pode ser lido aqui.  Em português, há um livro chamado John Ashbery: um Módulo para o Vento, da professora Viviana Bosi Concagh, publicado pela EDUSP (clique aqui para uma prévia no Google books)

Adriano Scandolara

           

Um mal que vem para bem

Sim, eles estão vivos e podem ter essas cores,
Mas eu, em minha alma, estou vivo também.
Sinto que devo cantar e dançar, para dizer
Isso de certo jeito, sabendo que você pode estar atraído por mim.

E canto em meio ao desespero e o isolamento
A chance de te conhecer, de cantar de mim
O que é você. Você vê,
Você me segura contra a luz de um modo

Que nunca esperei ou suspeitei, talvez
Porque você sempre me diz que eu sou você,
E tenho razão. As grandes píceas rondam.
Sou seu para morrer junto, desejar.

Não posso jamais pensar em mim, eu desejo você
Num quarto em que as cadeiras
Estão com as costas viradas para a luz
Infligida sobre a pedra e os caminhos, as árvores reais

Que parecem brilhar para mim através das gelosias na sua direção.
Se a luz selvagem deste dia de janeiro é real
Eu me comprometo em ser-te verdadeiro,
Você que não consigo mais parar de lembrar.

Lembrar de perdoar. Lembrar de passar além de você, rumo ao dia
Nas asas do segredo que você jamais saberá.
Assumindo-me por mim mesmo, no caminho
Que os contornos pasteis do dia me atribuíram.

Prefiro “vocês” no plural, quero vocês
Vocês devem vir até mim, todos dourados e pálidos
Como o orvalho e o ar.
E então me começa a vir esse sentimento de exaltação.

           

A blessing in disguise

Yes, they are alive and can have those colors,
But I, in my soul, am alive too.
I feel I must sing and dance, to tell
Of this in a way, that knowing you may be drawn to me.

And I sing amid despair and isolation
Of the chance to know you, to sing of me
Which are you. You see,
You hold me up to the light in a way

I should never have expected, or suspected, perhaps
Because you always tell me I am you,
And right. The great spruces loom.
I am yours to die with, to desire.

I cannot ever think of me, I desire you
For a room in which the chairs ever
Have their backs turned to the light
Inflicted on the stone and paths, the real trees

That seem to shine at me through a lattice toward you.
If the wild light of this January day is true
I pledge me to be truthful unto you
Whom I cannot ever stop remembering.

Remembering to forgive. Remember to pass beyond you into the day
On the wings of the secret you will never know.
Taking me from myself, in the path
Which the pastel girth of the day has assigned to me.

I prefer “you” in the plural, I want “you”
You must come to me, all golden and pale
Like the dew and the air.
And then I start getting this feeling of exaltation.

           

Tapeçaria

É difícil separar a tapeçaria
Do lugar ou tear que a antecede.
Pois deve ficar sempre de frente ainda que pendendo para um lado.

Ela insiste nesse retrato da “história”
Por fazer, porque não há como escapar do castigo
Que ela propõe: a visão cega pelo sol.
A vista é engolida com o que é visto
Numa explosão da consciência súbita de seu esplendor formal.

A visão, vista como interior,
Registra sobre o impacto de si mesma
Recebendo fenômenos e, nisso,
Traça um esboço ou uma planta
Do que estava lá agora há pouco: certo na risca.

Se tem a forma de um cobertor, isso é porque
Ansiamos, ainda assim, por nos enrolarmos nela:
Esse deve ser o lado bom de não experienciá-la.

Mas, em alguma outra vida, que o cobertor retrata, de qualquer modo,
Os cidadãos mantém um com o outro um comércio agradável
E beliscam as frutas sem empecilhos, como querem,
E as palavras choram por si próprias, deixando o sonho
Revirado numa poça em algum lugar
Como se “morto” não passasse de mais um adjetivo.

           

Tapestry

It is difficult to separate the tapestry
From the room or loom which takes precedence over it.
For it must always be frontal yet to one side.

It insists on this picture of “history”
In the making, because there is no way out of the punishment
It proposes: sight blinded by sunlight.
The seeing taken in with what is seen
In an explosion of sudden awareness of its formal splendor.

The eyesight, seen as inner,
Registers over the impact of itself
Receiving phenomena, and in so doing
draws an outline, or a blueprint,
Of what was just there: dead on the line.

If it has the form of a blanket, that is because
We are eager, all the same, to be wound in it:
This must be the good of not experiencing it.

But in some other life, which the blanket depicts anyway,
The citizens hold sweet commerce with one another
And pinch the fruit unpestered, as they will,
And words go crying after themselves, leaving the dream
Upended in a puddle somewhere
As though “dead” were just another adjective.

           

Cadeiras de aluguel

Sabia-se muito pouco sobre qualquer coisa
antigamente. Era como o que é um vocalise
para uma sonata, as crianças à luz da ribalta
e água correndo sobre pedras
como se tivesse pressa para chegar a algum lugar.
É possível fazer piada sobre isso agora
que o período probatório já passou.
Não admitir estar no papel errado.

As velhas igrejas da América foram vistas como uma nova
filosofia de rivalidade:
jogando, sem, no entanto, serem parte do jogo.
Assim muitas coisas resistem, e ninguém
fica muito ansioso com elas: manchas
como moedas numa árvore que quem diabos
poderia ter previsto em sua época, afinal?
Fique aí só. Me chame de batatas
e sabão. Me chame de sabão e batatas.

A noiva do meu marido desejava que não fosse assim.
Aí vai.

           

Chair Rental

Very little was known about anything
in the old time. It was as a vocalise
is to a sonata, children in the limelight
and water rushing over stones
as though in a hurry to get somewhere.
It’s possible to joke about it now
that the trial period has lapsed.
To not admit you’re miscast.

America’s old churches were seen as a new
philosophy of one-upmanship:
playing, yet not part of the game.
Thus many things endure, and no one
gets very anxious about them: spots
like coins from a tree that who the heck
could have foreseen in its time anyway?
Just stand here. Call me potatoes
and soap. Call me soap and potatoes.

My husband’s fiancée wished it otherwise.
There you go.

        

(poemas de John Ashbery, tradução de Adriano Scandolara)

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