crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

christian hawkey (1969)

hawkey fantasiado de trakl, foto de katja zimmerman

christian hawkey fantasiado de georg trakl, foto de katja zimmermann

o poeta americano christian hawkey, nascido em hackensack, em 1969, publicou os livros de poeisa The Book of Funnels (2004) & Citizens Of (2007), além de Sonne from Ort (2012), escrito em parceria com a também poeta uljana wolf, sua esposa — já comentada & traduzida aqui no escamandro — feito a partir de apagamentos nos poemas de Sonnets from the Portuguese, de elizabeth barrett browning & das traduções alemãs de rainer maria rilke.

o trecho abaixo é retirado do livro Ventrakl (2010), um trabalho bastante peculiar. a obra é inteira dedicada ao poeta austríaco georg trakl (1887-1914), uma das figuras mais importantes do expressionismo alemão. porém, em vez de realizar traduções ou estudos sobre a obra de trakl, hawkey interioriza a experiência & opta por recriações insólitas, tais como traduções sonoras (ao modo dos experimentos de louis zukofsky com catulo), intervenções no texto original (recortes, rasgos, estragos em geral) e reflexões pessoais sobre si & trakl. com isso, hawkey se torna um ventríloquo de trakl (daí, ventrakl), deixando a voz do outro perpassar a sua (nas suas palavras “ler é animar palavras, deixá-las falar com você, junto a você, como você.”), com o projeto de apontar para trakl de inúmeros pontos de vista diversos.

optei por verter um trecho em que as vozes aparecem mais separadas, enquanto hawkey repensa alguns pontos importantes no fim da vida de trakl: seu vício, seu suicídio, seu breve contato com wittgenstein (que lhe deu apoio monetário, porém nunca o conheceu pessoalmente), a vida incestuosa (?) com sua irmã, greta, que também terminou por se suicidar. tudo se dá com aquela profunda consciência contemporânea de que tudo que nos resta é criar mitos em torno do passado, das suas ambiguidades como história. enfim, para hawkey, trakl é uma foto à qual podemos dar sentido, inventando o para além da foto. assim, traduzir ou comentar um poeta não é mais resolver seu problemas pela coerência crítica, mas internalizá-los, torná-los parte do texto que remete ao poeta & à poesia.

guilherme gontijo flores

* * *

– e se a esta altura eu olhar pra trás o que nessas vias que levam pra longe e até você eu sei? Sei (agora) que sua fotografia na praia foi tirada em 1913. Sei que é Lido, em Veneza. Sei que você viajava com dois amigos: Karl Kraus e Ludwig von Ficker. Sei que von Ficker foi seu apoio mais leal, quem dava um lar aos teus poemas na revista dele, quem te garantiu, durante uma crise financeira, uma verba vinda de Ludwig Wittgenstein. Sei que Wittgenstein professava não entender nada dos teus poemas. Sei também que ele comentou que o tom deles o deleitava, que era “o tom de verdadeiro gênio”. Sei que você morreu num hospital militar na Cracóvia.  Sei o dia em que você morreu, o mês, o ano. Sei que poucos dias antes dessa data Wittgenstein, que você nunca chegou a conhecer, vinha até você, na esperança de te conhecer, levantar teu astral, te dar força. Sei que uma vez, quando criança, você entrou num tanque. Sei que uma vez , quando criança,  você se jogou na frente de um cavalo. Sei que uma vez, quando criança, você se jogou na frente de um trem. Sei também que são histórias, contadas por outros, meias verdades, mitos, e sei que você criava e encorajava esses mitos. Sei que uma vez você anunciou para um amigo que iria cometer suicídio, e que o amigo, cansado da tua pose, disse: “Por favor, não enquanto eu estiver por aqui”. Que uma vez você disse sou apenas seminascido, no fim das contas. Que eu sou – aqui, agora – apenas um cúmplice na construção de um você, tal como foram os seus amigos, como você o foi. Que eu repito, reinscrevo os mitos. Sei que você foi viciado em cocaína, viciado em drogas. Sei que você trabalhou – que surpresa! – numa farmácia. Sei que uma vez, enquanto esperava pelos clientes, você suou de nervoso por seis trocas de camisa.  Que quando von Ficker te visitou no asilo militar da Cracóvia ficou horrorizado com as condições dos internados e te perguntou se você tinha drogas. Sei que Wittgenstein também se alistou no exército austríaco, que foi encarregado de cuidar de um holofote num navio chamado Goplana, que havia sido capturado dos russos e seguia ao longo do rio Vístula até a Polônia. Que ele ficava solitário. Que ele trabalhou nas suas teorias à luz desse holofote. Sei que você amava sua irmã mais nova Greta intensamente, que ela era a única pessoa cuja excentricidade seria igual à tua – seria superada pela tua, e é por isso que você a compreendia, a admirava, a idolatrava, a protegia, ficou devastado quando não pode cuidar dela após um duro aborto e ao longo de sua saúde frágil, seu casamento frágil. Sei que você inalou clorofórmio, bebeu absinto, fumou cigarros com ópio, leu Rimbaud e Baudelaire e Poe e Verlaine, deixou o cabelo crescer, usava roupas de dandy, defendia “os desregramento contínuo dos teus sentidos”, fingia ser um poète maudit. Sei que você foi um dos primeiros a cair nessa pose pré-embalada e consumível exportada pelos simbolistas franceses. Sei que, diferente de Rimbaud e Mallarmé e Baudelaire, voce foi um dos primeiros a morrer desse mito pré-embalada e consumível. “O que ele poderia ter sido”, perguntou Rilke, ainda sem perceber o que você já era, já tinha realizado. Sei que você estava insuportavelmente solitário no hospital militar, que você ouviu de von Ficker que Wittgenstein já estava perto, e que você de pronto escreveu para ele: ficarei profundamente agradecido se você me der a honra de uma visita . . .  eu realmente gostaria de conversar contigo. Sei que você morreu na noite de 3 de novembro de 1914, poucos dias antes de Wittgenstein chegar. Sei que Wittgenstein estava em trânsito, que estava em trânsito até você. Sei que posso ver nisso uma linha, uma linha em movimento, uma narrativa. Sei que você ficou numa cela. Um ponto fixo. Sei que você não podia se mover, seguir em frente, construir uma narrativa mais forte do que aquela que os médicos construíram pra você. Sei que você foi diagnosticado com praecox dementia, ou esquizofrenia. Sei que esses termos implicam um fim, um ponto do qual ninguém sai. Sei que durante a batalha de Grodek você insistiu diversas vezes para ser enviado à linha de frente. Sei que você costumava ouvir um dobrar de sinos. Sei que o tom tem lugar num espaço adjacente à língua. Sei que algumas das tuas excentricidades eram apenas os hoje bem conhecidos gestos-clichés de um viciado. Sei que a tua irmã, Margaret, também era viciada. Sei que esse termo não significa nada, é vazio, não diz nada, significa apenas que você era humano, que gostava do toque de nicotina, do toque de álcool, do toque de ópio, da mão de um amigo, a de Wittgenstein, a de um estranho, uma palavra estranha – que se pode sentir ao ler os teus poemas, tocado por palavras, um toque que se move entre línguas, uma textura, aqui, eu sou ninguém, que palavra é essa, esse ímpeto de correr através, de deixar correr através da gente – janelas, como elas são dispostas mesmo à noite a trabalhar com a gente. Sei que você sorriu quando von Ficker te perguntou se você tinha drogas no asilo e então respondeu como é que eu estaria vivo. Que a tua mãe tomava ópio e tinha mais interesse em tocar taças de chá no seu quarto chinês do que seus próprios filhos. Que você falhou fora da escola. Que você não conseguiu manter um emprego. Que eu repito, reinscrevo os mitos. Que quando a grana acabou você vendeu a mais amada coleção de romances de Dostoiésvky para poder comprar drogas e álcool. Que uma vez você confessou que odiava a tua mãe a ponto de matá-la com as próprias mãos. Sei que a farmácia se chamava – adequadamente – O Anjo Branco. Que a overdose de cocaína que te matou foi autoministrada, um suicídio. Que na tua última carta do asilo para von Ficker você enviou os dois últimos poemas, “Klage” e “Grodek”. Sei que dos seis filhos você a tua irmã Greta eram os mais parecidos. Sei que amigos descreviam tua tendência a se sentar sem falar diante deles por horas a fio e depois irromper num “monólogo tão críptico quanto o silêncio”. Sei que você passava muito tempo nos bordéis. Sei que em geral você se sentava num canto, bebendo e conversando com uma puta velha. Sei que você se tornou exatamente o que fingia ser.  Que aqui, por fim, está uma fonte da sua tristeza. Que quem morre não é o mesmo que quem tira a própria vida, dele ou dela. Que dentre todas as emoções ninguém finge estar triste. Que você era implacavelmente sincero. Que eu repito, reinscrevo os mitos. Que há um espaço fora do som. Que Wittgenstein, ao dizer o número dois, depois perguntou que dois?

(christian hawkey, trad. guilherme gontijo flores)

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