crítica, poesia

Donizete Galvão (1955-2014), in memoriam

A caminho de que Ítaca
Branca e rochosa nos perdermos?
(“Figan ta Pedia”, Donizete Galvão)

Há um descompasso grande que praticamente funda toda literatura: se as obras ficam, por outro vão-se os homens; a leitura é, no geral, a marca de uma ausência do corpo pela presença do texto; & a regra é lermos quase sempre nossos ilustres desconhecidos, pela distância ou pelo tempo, nomes que insistimos em atribuir à obra, sem sabermos nada dele, meras chancelas. No último século & meio, pudemos muitas vezes ver as fotos dessas figuras, mas ainda digo — fotos enganam: dão uma casca enquadrada àquela chancela desprovida de sentido, nessa fissura entre nome, imagem & necessidade de sentido é que nossa imaginação funda o autor (um tema obsessivo no Ventrakl de Christian Hawkey, que apresentei faz pouco tempo aqui no escamandro).

O Donizete, por exemplo, eu conheci primeiro em livro & foto, aquela poesia pesada, noturna (“a noite é nossa sina”), mineiramente doída (com seus bois, taperas, capins &c. “Nunca saí dessa Minas que não termina”), ou melhor, paulistomineira & doída (como negar que sua roça é provavelmente a mais urbana da poesia brasileira?), de algum modo combinava com a imagem forte que eu tinha dele nas (2 ou 3) fotos que eu conhecia. Sempre tive a impressão de que era um homem alto & robusto — o que era imaginação, invenção daquela chancela, desejo de lhe dar uma unidade coerente que nada tem de humano.

Em setembro de 2012, ele veio a Curitiba fazer uma oficina de poesia: claro que fui pra conhecer a figura, o Bernardo Brandão veio junto. Depois de um momento curioso de primeira vista, comecei a rever o homem imaginado: não era tão alto, notavelmente tímido, com uma voz hesitante & fina — fina que não cabia naquele corpo pouco forte, mais afeito à barriga civilizatória. Essa mesma voz fina sempre viria a me espantar nas outras vezes que o veria, como que nunca pertencendo ao corpo. Pra terminar, a presença de anéis coletivos, apinhados num mesmo dedo, cujo sentido nunca cheguei a perguntar, talvez por simplesmente gostar daquilo sem compreender.

Enfim, a oficina foi ótima, de Eliot ao Drummond profundo que eu sei que ele carregava consigo, independente da mineirice partilhada (eu mesmo, mineiro pelas metades, acabei por carregar esse modo & até penso que talvez esteja mesmo mais na terra do que nas leituras de Drummond), passando por Sophia de Mello Breyner Andresen. O que importa é que, depois da oficina, a gente foi conversar com o homem & depois fomos tomar uma cerveja & depois fomos jantar com o homem, de uma gentileza carinhosa & de uma abertura que vi poucas vezes no meio literário: aqui convém dizer que muitas vezes o melhor, em literatura, é ficar sem conhecer as pessoas, porque em geral o homem decepciona, está sempre aquém da obra.

O Donizete não.

Não é nem que estivesse além da obra — ele simplesmente era a contraparte da obra.

Com isso eu quero dizer que encontrei no homem um aspecto solar que (quase) não aparecia na sua poesia. Essa característica contrastiva — pessoa X obra — tirava toda a aura da obra, & isso, penso eu, talvez fosse o melhor da obra. Quem lê a sua poesia sente exatamente um estado de fim da aura, de poesia inacabada, homem inacabado (título do seu último livro), cortado entre uma origem roceira & uma vida urbana que nunca termina de se completar: um homem a caminho do nada. Mas o Donizete ria bastante, pude dar longas risadas com ele nas outras vezes que nos encontramos ao longo desse ano & meio, além de discutir essas questões solares & noturnas, de qualquer modo sublunares, que era o que nos importava. A última foi agora em dezembro, quando estive em São Paulo: voltei de lá com uma garrafa de cerveja artesanal que ele me presenteou.

Como a vida segue banal & sempre, a cerveja já se foi na banalidade dos dias. Foi-se entre amigos, sem sentido, talvez antes da hora, sem a atenção que eu poderia ter dado. Talvez como o Donizete. É diante dessa perda banal de um casco de cerveja, que se ressignificou pra mim com a perda imensa do Donizete que eu escrevo este micromonumento, talvez porque não pude me despedir pessoalmente.

Estou com 4 livros dele aqui em casa, vou selecionar 5 poemas que mais me comovem — a mim, este homem solar que sou — do meio da noite do Donizete, para comentar brevemente. Hoje acho que, mais do que noturna, a poesia dele é uma poesia de sombras, porque areja, não nos trava no puro breu, como naquela sua injunção: “ama o inominado / o perecível / o particular”.

Crinas

Amei um cavalo – quem era? – ele me olhou
bem de frente, sob suas crinas.
Saint-John Perse

Amou um potro baio,
bicho em cujo frêmito
de aguda animalidade
o vigor do sangue corria.

Amou um cavalo cego,
que teve o olho vazado
pela ponta de um prego
na triste hora da doma.

Amou um cavalo morto,
que, em sonho, o visita.
Nos seus ombros,
carrega a sina dele e do cavaleiro
que já não mais existe.

Amar, para além de um sentido objetivo do objeto presente, é sempre um ato de rememoração. Donizete percebeu isso com uma força tão impressionante neste poema: amar o cavalo vigoroso mesmo depois, no cavalo velho, cego, até o cavalo morto. Sem saber ao certo as causas desse amor por um animal, se estaria nele mesmo ou nesse cavaleiro (um parente? um amigo?) que, como o cavalo, persiste amado.

Reboco

Para Niura Bellavinha

Sexta-feira:
dia de rebocar o chão.
É preciso ir ao curral
e trazer na bacia
o estrume das vacas.
Melhor aquela pasta
que solta fumaça,
ainda cheirando a capim.
Na beira do barranco,
perto do córrego,
cava-se a tabatinga.
Do branco do barro
com o verde da bosta,
que se mistura com os dedos,
surge uma argamassa
com que se barreiam
o piso da cozinha,
a taipa e os lados da trempe.
Para quem não tem muito
tudo tem serventia:
a argila, a bosta da vaca,
o perfume da grama,
o giro ágil das mãos.
Faz-se sem saber como,
sabendo-se desde sempre
essa alquimia.

“Para quem não tem muito: tudo tem serventia”: essa concretude da existência é uma das grandes marcas da poesia do Donizete. O seu mundo está sem mediação facilitadora, repleto de esterco & terra, mas de um esterco & de uma terra que tem suas funções fertilizantes para vida. De algum modo, pra mim, esse poema é sobre a vida: não há qualquer comiseração pela miséria de que não tem muito, mas apenas mistura, a terra & a bosta da vaca fundam a casa, fundam o homem.

Oração natural

Fique atento
ao ritmo,
aos movimentos
do peixe no anzol.
Fique atento
às falas
das pessoas
que só dizem
o necessário.
Fique atento
aos sulcos
de sal
de sua face.
Fique atento
aos frutos tardios
que pendem
da memória.
Fique atento
às raízes
que se trançam
em seu coração.
Fique atento.
A atenção
é sua forma natural
de oração.

Essa poética nos dá um olhar de sombra para o Donizete. Contrariando a simplicidade de uma poesia só da noite, esse poema aponta para as migalhas, ou para a luz delas. A pesca, a fala mínima (matuta), o suor, a memória, o enraizamento na memória diante do desenraizar urbano — temas centrais da sua poesia. Diante das perdas incontornáveis & da precariedade da existência, numa poesia que nunca apela para um conforto no além, é na materialidade mesma que se pode formar uma religiosidade, uma oração à vida. Este poema bem que poderia ser/fundar uma religião.

O cortador de bambus

Porque o poeta diz
Cortei bambu: para ti, meu filho
quando não precisamos mais de bambus
se temos cimento e tijolos?

Para que servem os bambus
se ninguém dá um tostão por eles
e não podem ser deixados como herança?

Quem sabe cortou bambus
para que o filho fizesse
uma cerca perfeita,
dentro
dela cresceriam
um jardim e uma horta.

Para que o filho fizesse
arapucas que caçassem
sombras e pássaros inventados.

Para que construísse
uma casa que conservasse
o frescor do vento
e da água da chuva.

Cortou bambus para
manter-se vivo.
e não soçobrar
antes que as crianças crescessem.

Cortou bambus mesmo
em meses errados
e muitos deles foram
carcomidos pelos carunchos.

Cortou como quem, às cegas,
abre com o corpo uma picada,
delimita um território,
clareira de sol e ar limpo
em que se possa viver.

Cortar bambus foi sua maneira
de não ficar de mãos atadas.

A metapoesia aqui me parece ir além. Não se trata apenas da figura do poeta como resistência ao mudo caduco, mas do próprio movimento de existência: cortar os bambus, como poeta, é equivocar-se na vocação, fazer a coisa errada pelo único motivo que se justifica, ainda que esse motivo não seja claro ou unívoco. Os bambus não são dados ao leitor — mensagem numa garrafa — mas endereçados ao filho — com ele, aos pósteros em geral —, então por que dar o obsoleto para o filho, por que esses bambus mal cortados, cheios de caruncho, marca da incompetência do poeta? Cortar bambus é fundar o espaço (novamente precário) da existência. Mais: ser capaz de conceder esse espaço, fundado & destinado ao fracasso, ao outro, a um outro amado, como um filho. Diante do fiasco do mundo, sem remendos, ao poeta é dada a reconstrução, mesmo que errada, ou segundo as palavras do próprio Donizete, num poema dedicado a Orides Fontela: “[…] no reino do poeta / não há juízo / ele acerta / mesmo quando / fracassa.”

Miolo

Lembro-te mata
tenda de folhas
ninhal de minas,
casulo de sombras,
alcova de brotos,
renda de luzes.
vertigem de avencas,
friagem de sapos,
labirinto de cipós,
manto de limos,
frescor de cambraias,
grafias de cascas,
acridez de sumos,
açúcar de flores.
Recorro a todos os nomes
sem nunca recuperar
o frêmito do espanto,
o susto da criança
inaugurando a mata.

Um dos poemas mais solares do Donizete, com o tema da infância, com suas percepções atentas & reveladoras; porém a graça deste poema está no fracasso da linguagem: ao recordar a primeira imagem da mata (uma mata sem nome & sem local), o poeta recorre a uma série de imagens, deslocamentos metafóricos ou resumos imagéticos do que representaria a mata, porém nada a resume: o objeto, longe de estar perdido por inteiro, está apenas inominado, permanece na memória como algo que extrapola a linguagem, talvez como fonte primária do poético. Afinal, inaugurar a mata: é a criança que se inaugura, ou a mata que é inaugurada pela criança? Eu ousaria dizer que esse poema é o mito da inauguração da poesia, na sua falta de explicação.

guilherme gontijo flores

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6 comentários sobre “Donizete Galvão (1955-2014), in memoriam

  1. Agradeço pela nova pequena antologia e por compartilhar os pertinentes comentários a esta poesia. Este foi o texto que mais gostei dos que li após a morte de Donizete, amigo que conheci em 2003. Acho, porém, que, pessoalmente, ele não era tão solar assim: seu riso era uma forma de se apresentar em público, mas ele não se mostrava por completo nessas ocasiões. O cavalo do poema “Crinas” o acompanhava.

    • concordo com você: era um riso que não contrariava de todo o seu aspecto noturno . quis mais era marcar como o ligeiro descompasso entre a pessoa e a obra foi, pra mim, a obra. os termos “solar” e “noturno” são derivados das conversas que tive com ele, que, de fato, se via como muito noturno. por isso, acabo sugerindo que sejam mais sombras do que qualquer outra coisa.
      mas muito obrigado! eu gostei muito do teu texto também e do poema do dirceu.
      abraços.

  2. Essas poesias me levaram de volta à infância. Fiquei curiosa para saber de que cidade Donizete era. E tbm queria saber das editoras que o publicaram. Se é fácil conseguir seus livros. Por fim, reconheci uma pitada de Paul Zumthor no início.
    Grande abraço e obrigada pela postagem

    • mariana, uns 3 livros dele saíram pela nankin: acho que ainda dá pra achar. o último (“o homem inacabado”) saiu pela dobra editorial, e você pode achar mais facilmente, com certeza. como último recurso, sempre restam senos.
      abraços

  3. Hélio disse:

    Gosto dessa foto porque me lembra o humor refinado e sarcástico do Donizeti.
    Não sei se reflete o poeta mas, ao menos pra mim, traz a memória de uma pessoa generosa e divertida que tive o enorme prazer de conhecer e admirar.
    Essa semana editei o verbete dele no Wikipedia e cedi essa imagem.

  4. Pingback: Presença-ausência de Donizete Galvão | Contra tanto silêncio

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