poesia, tradução

Mina Loy (1882-1966)

Mina_loy

nascida mina gertrude löwry, em londres, mina loy foi uma espécie de pau-pra-toda obra das artes anglófonas no período de vanguarda: poeta, romancista, artista visual, cientista, atriz & manguaceira; viajou/morou em nova iorque, florença, cidade do méxico, paris, munique &c, onde participou de uma série de movimentos do início do séc. xx, além de ter feito um grande serviço na defesa do feminismo (escreveu um Feminism Manifesto, em 1914).

seu nome passou por um longo tempo de ostracismo literário, aparentemente injustificável, já que se trata de uma obra de fato diferente da média, peculiar, engajada no seu tempo & — mais que tudo — dotada de uma precisão estética única, com uma capacidade também única de fazer com que o corpo, sobretudo o corpo feminino (o poema “parturition” já indica pelo título), invada a literatura, com suas secreções & seus desejos, como é o caso do livro Songs to Ioannes, de 1915. não foi à toa que já ganhou na época a atenção de pound, eliot, picaria, stein & williams.

o poema logo abaixo, “apology of genius”, um dos mais famosos, aqui em tradução inédita de felipe paradizzo, foi escrito em 1922, durante o período de censura ao ulysses de james joyce. talvez por isso essa apologia seja pouquíssimo apologética.

guilherme gontijo flores

Apology Of Genius 

Ostracized as we are with God
the watchers of the civilized wastes
reverse their signals on our track

Lepers of the moon
all magically diseased
we come among you
innocent
of our luminous sores

unknowing
how perturbing lights
our spirit
on the passion of Man
until you turn on us your smooth fools’ faces
like buttocks bared in aboriginal mockeries

We are the sacerdotal clowns
who feed upon the wind and stars
and pulverous pastures of poverty

Our wills are formed
by curious disciplines
beyond your laws

You may give birth to us
or marry us
the chances of your flesh
are not our destiny –

The cuirass of the soul
still shines –
And we are unaware
if you confuse
such brief
corrosion with possession

In the raw caverns of the Increate
we forge the dusk of Chaos
to that imperious jewellery of the Universe
– the Beautiful –

While to your eyes
a delicate crop
of criminal mystic immortelles
stands to the censor’s scythe.

Apologia do Gênio

Neste nosso ostracismo de Deus
os vigilantes do lixo civilizado
revertem seus sinais em nosso rastro

Leprosos da lua
todos magicamente adoecidos
estamos entre vocês
inocentes
de nosso luminoso sofrer

desconhecendo
quão perturbadoras luzes
nossso espírito
na paixão do Homem
até que vocês nos mostrem suas plácidas tolas faces
como bundas desnudas em zombarias aborígenes

Somos os palhaços sacerdotais
que se alimentam de vento e estrelas
e pulverizados pastos de pobreza

Nossas vontades se formam
por disciplinas curiosas
para além das suas leis

Vocês podem nos parir
ou nos casar
a sorte de sua carne
não é nosso destino –

A couraça da alma
ainda brilha –
E desconhecemos
se vocês confundem
esta breve
corrosão com possessão

Nas brutas cavernas do Incriado
forjamos o crepúsculo do Caos
para essa jóia imperiosa do Universo
– o Belo –

Enquanto aos seus olhos
uma colheita delicada
de místicas perpétuas criminosas
encara a foice do censor.

(mina loy, trad. felipe paradizzo)

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