poesia

Emily Dickinson e suas traduções – Parte I

Emily_Dickinson

[esta é a primeira parte deste ciclo de postagens; para as postagens posteriores: parte II (sobre a tradução de Ivo Bender), parte III (sobre a tradução de Isa Mara Lando), parte IV (sobre a tradução de Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

Fazia um tempo já que eu andava querendo redigir um post sobre a poeta Emily Dickinson (1830 – 1886). Mas acontece que eu sou uma pessoa metódica. Gosto de chegar aos poetas primeiro lendo alguns poemas menores, porém importantes, depois passar para um ou outro “grande poema”, por assim dizer, para ter uma impressão geral, aí depois ir lendo os outros (“poemas secudários”, por assim dizer) e, para não perder o costume, pensando daí em começar a traduzir a sério. Foi assim que eu fiz com Shelley, por exemplo, lendo primeiro poemas curtos como “Ozimândias”, “Ode ao Vento Oeste” e tal, depois o Prometeu Desacorrentado e O Triunfo da Vida, ou com Mallarmé, lendo os poemas famosos (“Brinde”, os túmulos, “Santa”, etc), depois “A Tarde de um Fauno” e “Um Lance de Dados” para então ir atrás dos poemas menos famosos, e assim por diante. A obra de Dickinson, no entanto, é a completa antítese desse tipo de método de leitura: ela é composta de nada menos do que 1775 poemas curtos, dentre os quais alguns se destacam, mas não há um grande projeto ou um grande poema. Também não há divisões em livros, então não se pode dizer algo como “comece pelo livro tal”, como se pode sugerir para alguém que queira começar a ler, digamos, Wallace Stevens, para que comece pelo seu Harmonium. É uma sensação um pouco desorientante.

Desnecessário dizer que essa sensação continua quando se pensa em traduzi-la. No geral, eu gosto de ter em mente quais poemas já foram traduzidos, por quem e como, antes de começar a empreitada. Via de regra, dou preferência para os poemas de um determinado autor que ainda não foram traduzidos. Se um determinado poema for difícil de traduzir, já tiver sido traduzido nos mesmos moldes que eu empregaria (no condizente a metro e rima, por exemplo) e o tradutor tiver feito um bom trabalho, ainda que possa sempre ser feito o argumento da inesgotabilidade das traduções, corre-se o risco de ter a impressão de estar chovendo no molhado. É óbvio que esse não é o caso quando 1) o poema não é particularmente trabalhoso de se traduzir (vide o nosso post sobre os carrinhos vermelhos de mão), 2) eu e o tradutor anterior tenhamos uma proposta de tradução diferente, ou 3) o tradutor fez um trabalho ruim – e eu comecei a traduzir Shelley justamente por achar que o trato que José Lino Grünewald lhe deu foi, para sermos francos, péssimo. Enfim, esta é apenas uma preferência pessoal, mas creio que haja outros tradutores que possam se comportar de forma semelhante. Imagino por isso que, tendo em mente essa dificuldade de sequer começar a ler Dickinson, dê para ver o porquê de eu ainda não ter arriscado traduzir nenhum poema dela. Pois bem, considerando que temos já aqui no escamandro alguma “tradição”, por assim dizer, de postagens comparativas de traduções, meu propósito agora é, com esta e mais 4 postagens futuras, além de prestar a devida homenagem a esta imensa voz (acho que poucos irão de discordar da opinião de que ela e Whitman são os dois grandes poetas nascidos nos EUA que escreveram no século XIX), fazer o devido trabalho de apresentar cada um dos livros de tradução de poesia de Dickinson, pelo menos os 4 que tenho comigo em minha biblioteca – há outros volumes de que tenho notícia, mas ainda estou desenvolvendo o meu acervo aos poucos.  Quem quiser pode conferir o projeto da UNESP, clicando aqui que lista, senão todos, quase todos os volumes de tradução de Dickinson para o português… meus agradecimentos à Denise Bottmann por ter me mostrado esse projeto nos comentários. E, com isso, planejo também catalogar quais poemas cada tradutor verteu para o português e como – um trabalho que eu imagino que poderá ser útil para qualquer um que tenha interesse por traduzir a autora.

Esses 4 volumes são os seguintes: Poemas escolhidos (L&PM Pocket, 2005), tradução de Ivo Bender, Não Sou Ninguém (Ed. da UNICAMP, 2008), tradução de Augusto de Campos, Loucas Noites / Wild Nights (edição da tradutora, 2009) de Isa Mara Lando, e A Branca Voz da Solidão (ed. Iluminuras, 2011), tradução de José Lira. Uma vez feito esse trabalho inicial com esses 4 livros, imagino que eu poderei mais tarde dar continuidade ao projeto, conforme minha biblioteca for crescendo.

Só tracemos antes, então, uma brevíssima biografia de Dickinson: nascida em 10 de dezembro de 1830, em Amherst, no estado de Massachusetts, ela recebeu a sua educação formal na Amherst Academy, onde pôde estudar todas as disciplinas que o currículo científico do século XIX podia ofertar – astronomia, botânica (uma das favoritas dela), química, geologia, matemática, história natural, filosofia natural e zoologia –, o que, curiosamente, acabou tendo um reflexo posterior considerável em sua poesia. Não que Dickinson seja particularmente científica em seu tratamento do mundo, mas nota-se que há toda uma atenção às minúcias do mundo natural (sobretudo no tocante a insetos e plantas, num uso que vai muito além da simbologia comum dos mesmos que se pode encontrar nos poemas do século XIX) e que parece ser própria dela. Apesar de alguns de seus poemas, porém, terem um toque espiritualizado, o ensino religioso na escola não era muito de seu interesse. No mais, porém, os estudos que Dickinson recebeu nos parecem surpreendentemente modernos (lembremos, era a metade do século XIX!), quando se considera que a Amherst Academy tinha quase o mesmo currículo para meninos e meninas e enfatizava o crescimento intelectual das moças, com os deveres domésticos sendo subordinados aos acadêmicos. Enfim, ao que me parece, ela estava longe de ser uma escola que educasse as mulheres “para arranjar marido”.

Dickinson sai da Amherst Academy aos quinze anos, para entrar no Mount Holyoke Female Seminary e adquirir o grau final de educação formal disponível às mulheres da época – mas ela passa apenas um ano lá, antes de voltar para casa. No entanto, se os estudos pareciam demonstrar um grande avanço para a situação das mulheres, a sociedade ainda era – desnecessário glosar – extremamente hostil para qualquer mulher que se pretendesse independente, e das filhas solteiras esperava-se que cuidassem dos trabalhos domésticos – uma subordinação à qual Dickinson, é claro, tinha aversão.

Foi na década de 1850 que ela começou a escrever poesia, e muitos de seus poemas foram lidos por sua amiga Susan Gilbert, a quem Dickinson enviou mais de 300 cartas. Mais tarde, após Susan casar-se, as duas começaram a se afastar, e Emily passou a fazer amizades com pessoas de outros círculos, das quais destacamos o jornalista Samuel Bowles e o crítico Thomas Wentworth Higginson, que passou a ser o seu grande leitor e interlocutor a partir de 1862. O período entre 1855 e 1865, que lhe rendeu uma má fama de “reclusa” (que derivava, na verdade, de uma indisposição a dedicar tanto tempo, como era o costume à época, a reuniões sociais e visitas e todo o trabalho doméstico que isso acarretava), foi dos mais produtivos, e ela compôs 1.100 poemas ao longo dessa década. Foi Bowles quem primeiro publicou seus poemas entre 1858 e 1868 – sempre brutalmente mutilados, no entanto, visando neutralizar a estranheza dos versos de Dickinson e adequá-los para os padrões estéticos e gramaticais da época, apagando, inclusive, o excesso de travessões que viria a se tornar algo como uma marca registrada da poeta. O mesmo se sucedeu com as publicações de Higginson e com o seu primeiro livro de poemas publicados de fato em 1890, quatro anos após Dickinson morrer e legar à sua irmã Lavinia inúmeros fascículos costurados a mão contendo sua obra. Mesmo com as alterações, o livro foi um sucesso, mas o primeiro volume completo só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1955, editado por Thomas H. Johnson. Mesmo essa edição, no entanto, ainda portava as cicatrizes das alterações causadas pelas edições anteriores, e a edição definitiva, completa e restaurada, é assustadoramente recente: 1998, editada por R.W. Franklin.

Como disse, em português, de que tenho notícia, há esses quatro volumes de traduções, mas deve haver um número muito maior de poemas publicados em periódicos e coletâneas e antologias por aí. O infame Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, por exemplo, organizado e traduzido por José Lino Grünewald, conta com os poemas “A word is dead”, “I never saw a moor”, “The pedigree of honey”, “I died for Beauty” e “Because I could not stop for death”. Grünewald, porém, mantendo o espírito do século XIX, se esforça para enquadar as particularidades de Dickinson dentro de uma normalidade (de pontuação, aliás) e acaba, inclusive, cortando o seu uso dos travessões (e não dá nem para dizer que ele o faz por ter tido acesso a uma versão anterior dos originais ou algo assim… a edição é bilíngue, você pode ver os travessões sendo engolidos no caminho). Por isso, por propósitos de catalogamento, listo aqui os poemas que Grünewald traduz, mas não os compartilho.

Em vez disso, gostaria de compartilhar com vocês uma tradução de Paulo Henriques Britto do poema “There’s a certain Slant of light”. Uma coisa que eu precisava comentar é a forma dos poemas de Dickinson: a maioria deles (não posso arriscar dizer todos, evidentemente) é escrita na forma do ballad meter, i.e. quadras rimadas em esquema abab (ou xaxa, em que x indica uma não-rima) alternando tetrâmetros com trímetros jâmbicos. Num artigo intitulado “Uma forma humilde”, Britto propõe a possibilidade de se traduzir essa forma do inglês, muito ligada à poesia popular, para a forma, também associada à poesia popular lusófona, da redondilha maior. Além disso, os versos de Dickinson apresentam irregularidades métricas, muitas vezes ocorrendo a omissão de um pé métrico, o que Britto viu por bem adaptar inserindo irregularidades métricas nos seus heptassílabos, fazendo com que alguns versos tivessem ora 7 versos, de fato, ora 6, ora 8. Uma solução engenhosa.

Nos próximos posts, então, eu planejo dar continuidade a este trabalho, apresentando cada um dos volumes de tradução de Dickinson, com uma descrição da abordagem e listagem dos poemas inclusos: de Ivo Bender, de Augusto de Campos, de Isa Lando e de José Lira.

PS: há mais alguns poemas da Dickinson em tradução de Maurício Santana Dias e Silvana Moreli Vicente Dias que foram publicados recentemente na Modo de Usar & Co (clique aqui).

(Adriano Scandolara)

        

Às vezes, em Tardes de Inverno

Às vezes, em Tardes de Inverno,
Uma Luz Enviesada —
Como o Som das Catedrais
Opressora, Pesada —

Nos fere com Dor Divina —
Porém cicatriz não fica
Senão no fundo de nós,
Onde o Sentido habita —

É o Selo do Desespero —
A ele — Nada lhe Falta —
Angústia imperial
Que nos desce do alto

Quando vem, a Terra atenta —
Sombras — param no ar —
Quando vai, é como a Morte
Ao Longe, a se afastar —

        

There’s a certain Slant of light

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —

(Emily Dickinson, tradução de Paulo Henriques Britto)

Padrão

Um comentário sobre “Emily Dickinson e suas traduções – Parte I

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s