poesia, tradução

“parturition”, de mina loy

nós já tivemos um post da mina loy, na tradução de felipe paradizzo.

mas eu não paro de voltar a ela.

dessa vez, porque eu amo muito uma mulher que é a mãe da minha filha,

agora grávida de um menino.

é nesse amor por uma, por duas & por três que traduzi “parturition”.

um poema sobre parto, mas mais que isso — um poema-parto.

quem já viu uma mulher no processo sabe o transe & a transa toda.

no mais, a mina.

guilherme gontijo flores

* * *

Parto

Sou o centro
De um círculo de dor
Que excede seus limites em toda direção
O negócio do sol brando
Não tem nada comigo
Em meu congestionado cosmo de agonia
Que não tem saída
Em vibrações nervosas infinitamente prolongadas
Ou na contração
Até o ponto milimétrico do ser
Está uma irritação …….estranha
Ela é ……………………entranha
………………………….Entranha
Ela é estranha.
A área sensível
É idêntica à ……………extensidade
Da intensão

Sou a falsa quantidade
Na harmonia da fisiológica potencialidade
Com a qual
Por ganhar autocontrole
Eu deveria concordar
Em tempo

A dor não é mais forte do que a contraforça
A dor convoca em mim
A luta se iguala

A janela aberta está plena duma voz
Um pintor retratista da moda
Correndo escada acima do ap de uma mulher
Canta
……“As garotas ‘tão no ponto
……As garotas boazinhas
……Podem usar cachinhos
……Ou —”
Atrás dos pensamentos aos quais permito cristalização
A concepção …………………..Bruta
Por quê?
A irresponsabilidade do macho
Deixa à mulher sua Inferioridade superior
Ele corre escada acima

Escalo um monte distorcido de agonia
Incidentalmente na exaustão do controle
Alcanço o pico
E aos poucos amaino na antecipação do
Repouso
Que nunca chega.
Pois cresce um outro monte
Que instigada pelo inevitável
Eu devo atravessar
Me atravessando

Algo no delírio das horas noturnas
Confunde enquanto intensifica a sensibilidade
E borra os contornos espaciais
Pra acrescentar o ardil do circunscrito
Que o murmúrio de uma fera crucifixa
Vem de tão longe
E a espuma nos músculos tesos da boca
E nenhures de mim
Há um clímax na sensibilidade
Quando a dor que se supera
Se torna Exótica
E o ego pode unificar os polos positivo e negativo da sensação
Unindo forças opositoras, resistentes
Numa revelação lasciva

Relaxamento
Negação de mim como unidade
Interlúdio vácuo
Eu devia estar vazia de vida
Dando vida
Pois a consciência em crise ………….corre
Por depósitos subliminares de processos evolutivos
Será que eu não
Escrutinizei
Nalgum lugar
Uma mariposa morta de asa branca
Botando ovos?
Um momento
Sendo realização
Pode
Vitalizado pela iniciação cósmica
Ceder uma desculpa adequada
Pra aglomeração
Objetiva das atividades
Duma vida.
VIDA
Um salto com a natureza
Até a essência
Da imprevista Maternidade
Contra minha coxa
Toque de moção infinitesimal
Ondulação
Quase imperceptível
Calor …………….umidade
Mexida de vida incipiente
Que precipita em mim
O conteúdo do universo
Mãe sou
Idêntica
À Maternidade infinita
……Indivisível
……Agudamente
……Absorvida
……No
Era—é—sempre—será
Da reprodutividade cósmica

Surge do inconsciente
A impressão duma gata
Com filhotes cegos
Entre as patas
A mesma mexida ondulante na vida
Eu sou a gata

Surge do in-consciente
A impressão de pequenas carcaças
Cobertas por garrafas azuis
— Epicurista —
E por entre insetos
Ondeia a mesma ondulação da viva
Morte
Vida
Eu sei
Tudo sobre
……………Desdobrar-se

Na manhã seguinte
Cada mulher-do-povo
pé ante pé na pilha rubra do tapete
No seu serviço silencioso
Cada mulher-do-povo
Usando uma auréola
Uma absurda aureolinha
Que ela sublimemente ………nem nota

Um dia ouvi na igreja
— O homem e a mulher Deus os fez —
…………………………Graças a Deus.

(trad. guilherme gontijo flores)

* * *

Parturition

I am the centre
Of a circle of pain
Exceeding its boundaries in every direction
The business of the bland sun
Has no affair with me
In my congested cosmos of agony
From which there is no escape
On infinitely prolonged nerve-vibrations
Or in contraction
To the pinpoint nucleus of being
Locate an irritation ……..without
It is ………………………within
……………………….. …Within
It is without.
The sensitized area
Is identical with the ……..extensity
Of intension

I am the false quantity
In the harmony of physiological potentiality
To which
Gaining self-control
I should be consonant
In time

Pain is no stronger than the resisting force
Pain calls up in me
The struggle is equal

The open window is full of a voice
A fashionable portrait painter
Running upstairs to a woman’s apartment
Sings
…..“All the girls are tid’ly did’ly
…..All the girls are nice
…..Whether they wear their hair in curls
…..Or —”
At the back of the thoughts to which I permit crystallization
The conception              Brute
Why?
The irresponsibility of the male
Leaves woman her superior Inferiority.
He is running upstairs

I am climbing a distorted mountain of agony
Incidentally with the exhaustion of control
I reach the summit
And gradually subside into anticipation of
Repose
Which never comes.
For another mountain is growing up
Which goaded by the unavoidable
I must traverse
Traversing myself

Something in the delirium of night hours
Confuses while intensifying sensibility
Blurring spatial contours
So aiding elusion of the circumscribed
That the gurgling of a crucified wild beast
Comes from so far away
And the foam on the stretched muscles of a mouth
Is no part of myself
There is a climax in sensibility
When pain surpassing itself
Becomes Exotic
And the ego succeeds in unifying the positive and negative poles of sensation
Uniting the opposing and resisting forces
In lascivious revelation

Relaxation
Negation of myself as a unit
Vacuum interlude
I should have been emptied of life
Giving life
For consciousness in crises …………….races
Through the subliminal deposits of evolutionary processes
Have I not
Somewhere
Scrutinized
A dead white feathered moth
Laying eggs?
A moment
Being realization
Can
Vitalized by cosmic initiation
Furnish an adequate apology
For the objective
Agglomeration of activities
Of a life
LIFE
A leap with nature
Into the essence
Of unpredicted Maternity
Against my thigh
Touch of infinitesimal motion
Scarcely perceptible
Undulation
Warmth ………moisture
Stir of incipient life
Precipitating into me
The contents of the universe
Mother I am
Identical
With infinite Maternity
…..Indivisible
…..Acutely
…..I am absorbed
…..Into
The was—is—ever—shall—be
Of cosmic reproductivity

Rises from the subconscious
Impression of a cat
With blind kittens
Among her legs
Same undulating life-stir
I am that cat

Rises from the subconscious
Impression of small animal carcass
Covered with blue bottles
— Epicurean –
And through the insects
Waves that same undulation of living
Death
Life
I am knowing
All about
…………….Unfolding

The next morning
Each woman-of-the-people
Tiptoeing the red pile of the carpet
Doing hushed service
Each woman-of-the-people
Wearing a halo
A ludicrous little halo
Of which she is sublimely ……..unaware

I once heard in a church
— Man and woman God made them —
…………………………Thank God.

Mina Loy

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