crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – Parte III

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[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (sobre a tradução de Ivo Bender), parte IV (Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

E o trabalho continua.

Hoje voltaremos nossas atenções para a edição de Isa Mara Lando, Loucas Noites / Wild Nights. Para esta postagem, eu gostaria de agradecer à Amanda Zampieri, que me fez o gesto amabilíssimo (sim, o trocadilho aqui é intencional) de me enviar o seu próprio exemplar de presente, para a biblioteca do escamandro. Obrigado, Amanda!

Uma edição bancada pela própria tradutora, o Loucas Noites (2009) é um volume dos mais difíceis de se achar – não consta nenhum exemplar, por exemplo, na Estante Virtual, e o projeto da UNESP não o contabiliza em sua bibliografia – , mas, como nos diz o seu prefácio, ele é, na verdade, uma revisitação de um livro um pouco mais velho de Lando, Fifty Poems / Cinqüenta Poemas (Imago / Alumni, 1999, este ainda disponível na Estante Virtual). A diferença entre ele e a sua encarnação anterior é a substituição de alguns poemas selecionados (há 15 deles em Cinquenta Poemas que não se encontram em Loucas Noites, que totaliza 48 poemas, e, pela lógica, há de ter substituído esses 15 poemas por outros 13) e o acréscimo de uma seção no final em que Lando expõe e argumenta, brevemente, sobre como cada poema foi traduzido, justificando suas escolhas e muitas vezes expondo suas dificuldades com a tradução. Ainda que seja provável que o leitor médio não vá se beneficiar muito dessa discussão, para o leitor com domínio parcial do idioma (do tipo que entende alguma coisa, mas se sente inseguro para leitura de literatura) ou para os tradutores de poesia iniciantes (que têm muito o que aprender vendo os pormenores da atividade), esse tipo de exposição é inestimável – o que faz com que a raridade do volume seja realmente uma pena. No final, sob a seção intitulada faixa-bônus, Lando faz ainda algumas brincadeiras mais livres sobre a poesia de Dickinson, inclusive transformando o “As if the sea should part” num fado, não resistindo ao apelo notavelmente português da temática e tratamento do poema, um apelo que Augusto de Campos também nota, como veremos na próxima postagem (cenas do próximo capítulo).

A seleção feita por Lando consiste nos seguintes poemas, em ordem alfabética: “A little Madness in the Spring”, “A sepal, petal, and a thorn”, “Answer July –” , “As if the Sea should part”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Bee! I’m expecting you!”, “Take all chances from me”, “By Chivalries as tiny”, “‘Faith’ is a fine invention”, “Fame is a bee”, “‘Hope’ is a thing with feathers – “, “How slow the Wind”, “I died for Beauty”, “I fear a Man of frugal Speech – “, “I had been hungry, all the Years”, “I held a Jewel in my fingers”, “I many times thought Peace had come”, “I never hear the word ‘escape'”,  “I’m Nobody! Who are you?”, “I’ve seen a Dying Eye”, “If I can stop one Heart from breaking”, “If I shouldn’t be alive”, “It’s all I have to bring today”, “It’s such a little thing to weep – “, “Look back on Time, with kindly eyes”, “Love – thou art high”, “Much Madness is divinest Sense”, “My friend must be a Bird, “My River runs to thee”, “On this wondrous sea”, “Our lives are Swiss”, “Papa above!”, “Pass to they Rendezvous of Light”, “Success is counted sweetest”, “Surgeons must be very careful”, “That such have died enable Us”, “The Bee is not afraid of me”, “The Dying need but little, Dear”, “The Heart asks Pleasure – first -“, “The name – of it – is ‘Autumn'”, “The words the happy say”, “This is my letter to the World”, “To make a praire it takes a clover and a bee”, “Too scanty ‘twas to die for you”, “What Inn is this”, “Whether my Bark went down at Sea”, “Wild Nights! – Wild Nights -“. Os poemas inclusos em Cinquenta Poemas que não constam aqui, a julgar pela listagem do projeto da UNESP, são “Over the fence –”, “I reason, Earth is short –”, “Of Course – I prayed –”, “They dropped like Flakes –”, “I took my Power in my Hand –”, “To fill a Gap”, “Afraid! Of whom am I afraid?”, “I asked no other thing –”, “Publication – is the Auction”, “Alter! When the Hills do –”, “Presentiment – is that long Shadow…”, “How still the Bells in Steeples stand”, “The Pedigree of Honey”, “Lightly stepped a yellow Star”, “Nature rarer uses Yellow”.

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Manuscrito do poema “Wild Nights”

Se arrisco dizer algo, ainda que algo extremamente vago, sobre a seleção feita aqui, é que ela parece ter como foco a delicadeza de Dickinson, os poemas sobre coisas miúdas, as abelhas (muitos poemas sobre abelhas), as flores, as moscas, os passarinhos, duendes, tudo que habita o jardim – e lembremos, Dickinson tinha uma verdadeira paixão pela botânica e dedicação ao seu herbário, que parece ter sido a principal faceta que Lando quis nos apresentar. Além disso, estão inclusos também alguns poemas amorosos e clássicos dickinsonianos como “I died for Beauty”, “Success is counted sweetest”,  “I’m Nobody! Who are you?” e “This is my letter to the World”.

Quanto à tradução em si, o projeto de Lando é bastante diferente do de Bender, que vimos na postagem anterior. Bender tinha como seu principal enfoque a semântica dos poemas, evitando dispensar o conteúdo informativo (eu enfatizo aqui o informativo em vez de usar só o termo “conteúdo” de forma genérica, porque acredito piamente que o o conteúdo, de fato, como um todo, é a soma do sentido com a forma). Já Lando demonstra uma grande preocupação com os aspectos formais, chegando às vezes muito perto, inclusive, das soluções de Augusto de Campos, no caso de um poema como “I’m Nobody!”. Ainda que nem sempre consiga manter um número de sílabas por verso tão próximo ao original, há, via de regra, um maior cuidado com a métrica, evitando-se, sempre que possível os versos excessivamente longos. Não é o mesmo rigor formal absoluto que veremos em breve na tradução de Augusto, mas fica evidente que Lando tem um ouvido bastante atento aos elementos que compõem os poemas, e, por isso, ao que tudo indica, ela me parece mais feliz, no resultado geral, do que o que vimos com a tradução de enfoque mais puramente semântico. Eu arriscaria dizer que a postura de Lando é algo como um meio de caminho, talvez, entre esse enfoque e a abordagem do maior rigor formal.

Uma última coisa que eu gostaria de comentar aqui é o repertório de recursos de que Lando se vale ao longo do livro. Quando traduzimos poemas individualmente, imagino que a tendência geral (e não só mau hábito meu, espero) seja determinarmos de forma ad hoc quais são as técnicas válidas para a tradução, já que elas serão aplicadas apenas naquele poema em específico. No entanto, quando temos diante de nós um projeto maior, como um livro de 40 e poucos poemas, é importante deixar essas coisas claras já de antemão (para se fazer uma comparação, meio besta talvez, é como se isso fosse a organização de uma caixa de ferramentas ou os instrumentos cirúrgicos de um médico antes da operação) de forma a garantir um efeito de continuidade e coesão ao longo do volume, sem o qual corre-se o risco de passar uma impressão de relaxo ou de arbitrariedade, tipo “traduzi assim porque eu quis” ou “ah, comecei traduzindo com mais rigor, depois deu preguiça”. E assim, observando quais métodos fazem parte da caixa de ferramentas de cada tradução,  é mais ou menos esse o mapa que desejo esboçar aqui com esse ciclo de postagens, ainda que eu não possa no momento dar a esse trabalho a profundidade que ele merece.

Pensando nisso, então, há pelo menos dois métodos dignos de nota aqui empregados por Lando: o primeiro é que, conforme necessário, ela se permite alterar o esquema de rimas. Se o ballad meter de Dickinson emprega o esquema x-a-x-a (menciono o ballad meter de Dickinson aqui em específico, porque no de alguns outros poetas, como Wordsworth, pode-se ver rimas em todos os versos, em esquema a-b-a-b, o que é um pouco mais difícil de traduzir de forma satisfatória), Lando acha apropriado, por exemplo, em “I’m Nobody!”, trocar o esquema de rimas para x-x-a-a, o que não é nenhum grande deslocamento, como podemos ver, e funciona muito bem. O outro recurso de que ela se vale é a não obrigatoriedade de certos poemas em tradução terem o mesmo número de versos que os originais – o que é super comum na tradução de poemas longos em verso branco, como o Paraíso Perdido, mas representa um procedimento um pouco mais arriscado em poemas líricos menores. Assim, quando a tensão entre a semântica e a concisão exige um maior desdobramento, ela se permite tomar um verso e fazer dele dois, como uma solução para evitar, ao mesmo tempo, quebrar o metro, tanto quanto dispensar informação semântica – e é claro que nesses casos ela também se vale do outro recurso de alterar o esquema de rimas, de forma a poder manter uma estrutura no poema que seja sustentável. O “A little Madness in the Spring” é exemplar disso:

A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown,
Who ponders this tremendous scene—
This whole experiment of green,
As if it were his own!

Do qual ela faz:

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte —
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz, “Os Verdes são todos meus!”

No original, que consiste de duas repetições de um tipo de variação do ballad meter com dois versos em tetrâmetro seguido por um de trímetro, temos um esquema de rimas a-a-b-c-c-b, sendo que as rimas em -own são imperfeitas. A partir disso, Lando desdobrou cada metade da estrofe de 3 para 4 versos, com todos eles, exceto o último, em redondilhas maiores, num esquema de rimas a-b-b-a-c-d-d-c, repetindo a imperfeição das rimas na primeira metade. É um modo engenhoso de traduzir o poema, e o resultado me parece funcional, recuperando esse tom popularesco – quase ingênuo – que reveste enganosamente a poesia de Dickinson.

Com isto em mente, eu compartilho com vocês alguns dos poemas traduzidos por Isa Mara Lando neste belo voluminho, para que possam observar em ação o que comentei sobre a tradução dela e também para nutrir alguma esperança de que esse trabalho seja continuado e que talvez possamos ver futuramente uma reedição mais disponível.

(Adriano Scandolara)

 

Abelha! Espero por ti!
Ontem mesmo eu ia falando
Para Alguém que tu conheces
Que logo estarás chegando —

Semana passada voltaram as Rãs —
Estão bem instaladas, no seu afã —
As Aves, todas aqui novamente —
O Trevo, espesso e quente —

Receberás minha Carta lá pelo
Dezessete; Responde,
Ou melhor, vem ter comigo, urgente —
Tua Amiga Mosca,
Cordialmente.

 

Bee! I’m expecting you!
Was saying Yesterday
To Somebody you know
That you were due—

The Frogs got Home last Week—
Are settled, and at work—
Birds, mostly back—
The Clover warm and thick—

You’ll get my Letter by
The seventeenth; Reply
Or better, be with me—
Yours, Fly.

*

 

Morri pela Beleza — mas mal estava
Em meu túmulo deitada
Alguém, que pela Verdade morreu, foi colocado
Na Câmara logo ao lado —

Perguntou-me, suave, por que eu caí
“Pela Beleza”, respondi —
“E eu — pela Verdade — Uma só as duas são —
Tu e eu somos Irmãos” —

E assim fraternalmente nos encontrávamos —
E à Noite entre as Câmaras conversávamos —
Até que o Musgo nossos lábios alcançou —
E os nossos nomes — apagou —

 

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty,” I replied.
“And I for truth – the two are one;
We brethren are,” he said.

And so, as kinsmen met a-night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

*

 

Com uma Jóia guardada em meus dedos —
Deitei-me e fui dormir —
O dia era quente, os ventos sem segredos —
Pensei: “Vai resistir” —

Despertei — e meus dedos honestos censurei
Onde a Jóia? — Foi-se embora —
E uma lembrança Ametista
É tudo que tenho agora —

 

I held a Jewel in my fingers —
And went to sleep —
The day was warm, and winds were prosy —
I said: “’Twill keep.” —

I woke — and chid my honest fingers,
The Gem was gone; —
And now, an Amethyst remembrance
Is all I own —

*

 

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Tu és — Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não contes! — Tu sabes — vão falar!

Que tédio — ser — Alguém!
Tão público — um Sapo a coaxar —
A repetir seu nome — o mês de Junho todo —
Para as palmas do Lodo!

 

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there’s a pair of us
Don’t tell! They’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!

 

*

 

Loucas Noites — Loucas Noites —!
Estivesse eu contigo
Loucas Noites seriam
O nosso luxo, nosso abrigo!

Fúteis — os Ventos —
Para um Coração no porto —
Adeus Bússola —
Adeus Carta de marear —!

Remando no Éden —
Ah, o Mar!
Ah, se eu pudesse —
Esta Noite —
Em Ti – ancorar!

 

Wild nights — Wild nights —!
Were I with thee
Wild nights — should be
Our luxury!

Futile — the Winds —
To a Heart in port —
Done with the Compass —
Done with the Chart —!

Rowing in Eden —
Ah, the Sea!
Might I but moor —
Tonight —
In Thee!

(poemas de Emily Dickinson, tradução de Isa Mara Lando)

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