poesia, tradução

morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

detalhe do mosaico "megalopsychia" ("magnanimidade"), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

detalhe do mosaico pavimental “megalopsychia” (“magnanimidade”), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

o fim da antiguidade é, pra quase todo mundo (& mesmo eu me incluo, apesar de latinista), um buraco negro. nada se sabe &, em geral, nem se quer saber. por isso, em clima de semana santa, decidi verter dois trechos poeticamente poderosíssimos dos séc. IV-VI.

no primeiro, tirado da Psychomachia de Aurélio Clemente Prudêncio (348-?410 d.c.), uma narrativa alegórica das batalhas da alma contra os vícios, temos a imagem violentíssima da morte da Heresia personificada. em vez de um desaparecimento alegórico, o que vemos é um cadáver estraçalhado por animais, enquanto sua imundície se espalha. o horror talvez se compense, se lembrarmos que a heresia, no poema, é uma figura infernal, afundada no enxofre & de um corporeidade que é a mesma do humano. o horror dela é o nosso.

no segundo, um trecho da Vita Martini, de São Venâncio Fortunato (?530-?605 d.c.) uma espécie de poema épico-biográfico-hagiográfico sobre a vida de São Martinho. o trecho descreve seu primeiro milagre, uma ressurreição; & toda sua força está na concretude desse corpo que retorna, parte a parte, até se realizar como uma pós-vida, casa & hóspede, herdeiro de si mesmo. também metáfora da condição humana, para o cristianismo: o corpo é um templo reconstruído na fé da ressurreição.

os dois poemas foram escritos em hexâmetros datílicos — o metro típico da épica — & optei por verter os trechos escolhidos em verso livre (sabendo que nenhum vers será libre, como já disse T. S. Eliot). o recurso visual aos dois pontos se dá por um motivo crítico de leitura, na busca por um sopro rítmico do poema (talvez bastante influenciado por leituras de Henri Meschonnic). eu cheguei a esses trechos pela obra de Michael Roberts, The jeweled style (1989), que trata da poética tardo-antiga a partir do seu gosto por enumeração & antítese. os dois pontos, na tradução, portanto, buscam marcar os ritmos internos dessas enumerações no contraponto da mesura do verso, por um desenho simples de respiração, no lugar da pontuação tradicional.

enfim, não sou propriamente cristão. mas não vejo motivo para não re-avaliarmos & re-visarmos essa poesia cristã em tempos irreligiosos: não será só fé que ela tem a nos oferecer. a língua bem que agradeceria se aparecessem tradutores.

guilherme gontijo flores

* * *

Prudêncio, Psychomachia (Batalha da alma), vv. 719-25: a morte da Heresia.

::a besta-fera é tomada por mãos inúmeras::
cada um carrega seus pedaços::para espalhar na brisa::
dar aos cães:: aos transvorazes corvos
entregar::enfiar em fétidos valões
nojentoss::jogar às presas dos monstros marinhos::
dilacerado entre animais imundos o cadáver
todo é dividido::perece a heresia desmembrada::

Carpitur innumeris feralis bestia dextris.
Frustatim sibi quisque rapit, quod spargat in auras,
quod canibus donet, coruis quod edacibus ultro
offerat, immundis caeno exhalante cloacis
quod trudat, monstris quod mandet habere marinis.
Discissum foedis animalibus omne cadauer
diuiditur, ruptis Heresis perit horrida membris.

 

Venâncio Fortunato, Vita Martini (Vida de Martinho) 1.169-76): um milagre da ressurreição.

::mas no moroso espaço de horas gêmeas
seu vulto retorna::vapores saltam dos seus membros::
volta a cor para a face::a pupila relume nos olhos::
um novo espelho aparece no rosto::
a veia cresce numa fonte fluida de sangue::
aos poucos nessa fábrica tremente uma coluna surge::
& se erguem num só tempo::o lar::o hóspede::
ele vive depois de si::seu próprio autor&herdeiro::

Interea geminis spatio remorante sub horis
ecce redit facies, saliunt per membra uapores,
stat rubor inde genis, oculos pupilla repingit
rursus et insertus renouat specularia uisus,
uena tumet riuis animato fonte cruoris.
Paulatim adsurgit fabrica titubante columna
erigiturque iacens pariter domus et suus hospes,
ipse iterum post se uiuens, idem auctor et heres.

(trad. guilherme gontijo flores)

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4 comentários sobre “morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

    • pois é, matheus. a gente precisa dar mais atenção para essa poesia tardo-antiga e medieval. trechos como esses mostram que não há nada de poesia pálida, meramente imitativa. ela está cheia de intensidades poética pra nos ensinar.

  1. Edgar Rocha disse:

    Como vão? Descobri agora este blog e fiquei encantado. Não sou do meio literário, mas adoro poesia e, apesar de entender pouco tecnicamente, venho dar-lhes os parabéns por disponibilizarem tantas informações novas e textos desconhecidos, como estes, definidos pelo autor do post como poética tardo-antiga. Algo novo pra mim. Gosto demais de literarua medieval (sobretudo trovadorismo e as Cantigas de Santa Maria). Realmente, conhecer os pilares da cultura medieval (é um chute de minha parte, mas creio que toda a base da literatura medieval, cristã ou não, já se encontra bem delineada a partir deste ponto, no fim da antiguidade, não?), nos ajuda a romper com o conceito ideológico de “trevas” e ignorância o qual nos inculcaram tão profundamente. Espero não ser por demais invasivo. Mas, se não tiver problema, gostaria de frequentar este blog e fazer algumas perguntas, vez por outra. Tudo bem? Prometo não torrar a paciência (mentira, mas vou tentar me conter). Meus respeitos!

    • olá, edgar.
      é, realmente, da poesia tardo-antiga que deriva boa parte da poética medieval (a saber, das formas antigas mescladas às temáticas cristãs). mas não só delas: no medievo, haverá um crescimento das culturas europeias que foram apagadas pelo império romano, bem como a influência da cultura moura e um aprofundamento dos contatos com o oriente — é daí que vai se formar a poética trovadoresca.
      e claro que você pode fazer sempre suas questões. o blog está aqui pra isso.
      abraço!

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