poesia, tradução

gustavo caso rosendi, por ricardo pozzo

soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)

soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)

nós já fizemos um post com poemas do argentino gustavo caso rosendi, em traduções de ronaldo cagiano. que vocês podem conferir aqui, com algumas informações. como nosso conterrâneo ricardo pozzo vem traduzindo alguns poemas de soldados, aqui estamos nós com mais 4 poesias desse livro violento sobre a guerra das malvinas.

guilherme gontijo flores

* * *

Monte Longdon

é como um desfile é como se fosse em fevereiro passado a partir de uma vitrola enferrujada canta castillo segue o baile uma mulher com rosto de íbis passeia em chingui-chingui chovem serpentinas a avenida com lampadinhas de cores carnavalescas tudo enevado, mas não lhe parece estranho porque sabe que lhe cabia olhar para frente e vontade de beber uma cerveja e um aceno de cabeça e outro e mais outro e aí está procurando marcela entre as pessoas mas uma estátua o detêm lhe beija a testa o cachecol lhe escapa como um pássaro cego vai enganchando entre os ramos se desfia escocês no céu e chega um frio escuro escuro escuro e já não pode inteirar-se daquele fio que lhe apóia a garganta justamente quando se acendem os primeiros gritos da noite

Monte Longdon

es como un corso es como si fuera el último febrero desde una vitrola oxidada canta castillo siga el baile una mujer con rostro de ibis pasea en el chingui-chingui llueven serpientes de papel la avenida con lamparitas de colores gualeguaychú todo nevado pero no le parece raro porque sabe que le tocaba mirar hacia el frente y ganas de tomarse una cerveza y un cabeceo y otro y otro más y ahí está bus-cando a la marcela entre la gente pero una estatua lo detiene le besa la frente la bufanda se le escapa como un pájaro ciego se va enganchando entre las ramas se deshilacha escocesa en el cielo y llega un frío oscuro oscuro oscuro y ya no puede enterarse de aquel filo que se le apoya en la garganta justo cuando se encienden los primeros alaridos de la noche

Despedida

Aguardava Caronte
em seu barco imundo
Enquanto a Liberdade rosto tostado
barrete frígio ensanguentado
beijava um soldado moribundo

Despedida

Aguardaba Caronte
en su bote inmundo
Mientras la Libertad rostro tiznado
gorro frigio ensangrentado
besaba a un soldado moribundo

 

Esse soldado nunca soube de qual
mordida maçã havia
surgido como um verme no mundo

Deve ter sido essa a causa pela qual
passeava sua elegância de salgueiro
na garoa escondendo um pouco
esses olhos de peixe seco
e parecia quicar na paisagem
com a insistência do inseto
que se choca contra uma lâmpada

Deve ter sido essa a causa pela qual
retirava-se para procurar-se para não
encontrar-se quando voltava
e não ver-se e essas coisas
que se pensam

Deve ter sido por isso
por isso, simplesmente, deve ter sido
que não ouviu a voz de alerta nem o apito
e quando o vento negro
meteu-se por seus buracos
esse soldado gritou
“mamãe”

A única coisa que gritou foi essa palavra

Ese soldado nunca supo de qué
mordisqueada manzana se había
asomado como gusano al mundo

Debió ser esa la causa por la que
paseaba su garbo de sauce
en la llovizna ocultando un poco
esos ojos de pescado reseco
y parecía rebotar en el paisaje
con la insistencia del bicho
que choca contra un farol

Debió ser esa la causa por la que
se retiraba a buscarse para no
encontrarse cuando regresara
y no verse y esas cosas
que se piensan

Debió haber sido así
Así nomás debió haber sido
que no oyó la voz de alerta ni el silbido
y cuando el viento negro
se le metió por los agujeros
ese soldado gritó
“mamá”

Lo único que gritó fue esa palabra

Brinde

Subia e descia colinas
até chegar ao soldado Sañisky
Dava-lhe um abraço
colocava entre suas mãos meu maço de Marlboro
este é teu – dizia –
é tudo que tenho
e nos dedicávamos a dar baforadas
igual àqueles orifícios
que repentinamente surgiam
no carvão em brasa como
acne irremediável

Hoje quando nos encontramos
em alguma festa de aniversário
e acendo um cigarro
sentimos que estamos lá novamente
Então meu amigo
– que já não fuma –
coloca entre minhas mãos
uma taça de vinho
e olhamos como correm
nossos filhos
como falam nossas mulheres

E porque ainda perdura
a tristeza é que estamos felizes
e porque sabemos que de alguma
maneira não nos venceram
é que brindamos

Brindis

Subía y bajaba colinas
hasta llegar al soldado Sañisky
Le daba un abrazo
le ponía entre las manos
mi paquete de Marlboro
esto es tuyo -le decía-
es todo lo que tengo
y nos dedicábamos a echar humo
igual que aquellos agujeros
que de pronto aparecían
en la turba como un
acné irremediable

Hoy cuando nos juntamos
en algún cumpleaños
y enciendo un cigarrillo
sentimos que estamos allá de nuevo
Entonces mi amigo
–que ya no fuma-
me pone en la mano
una copa de vino
y miramos cómo corren
nuestros hijos
cómo hablan nuestras mujeres

Y porque aún nos perdura
la tristeza es que estamos felices
y porque sabemos que de alguna
manera no nos han vencido
es que brindamos

(poemas de gustavo caso rosendi, trad. ricardo pozzo)

* * *

Gustavo Caso Rosendi nasceu en Esquel (Chubut) em 3 de agosto de 1962. Reside na cidade de La Plata. Foi declarado Ciudadano Ilustre de la ciudad de La Plata por sua participação como soldado na Guerra das Malvinas. Vinte e sete anos depois da guerra pôde terminar o livro Soldados, que foi publicado pelo Ministerio de Educación através de seu programa “Educación y Memoria”.

Ricardo Pozzo nasceu em Buenos Aires (1971) e mora em Curitiba. É poeta, fotógrafo, tradutor, músico e blefador. Curador responsável pelo Vox Urbe, projeto literário do WNK Bar e editor assistente do Jornal RelevO.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s