crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – parte IV

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[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte III (Isa Mara Lando), parte V (José Lira)]

Imagino que, dentre quem vem acompanhando este ciclo e ainda não se enfastiou da minha verborragia, deva haver quem esteja ansioso para que eu chegue logo na tradução de Augusto de Campos. Para Augusto, Dickinson é já amor velho, como se diz. No seu Anticrítico, publicado em 1986, ele havia já dedicado uma seção do livro a ela, onde traduziu 10 de seus poemas (vide aqui ) e, na “prosa porosa” que caracteriza os poemas-ensaios introdutórios a cada um dos poetas traduzidos neste volume, Augusto diz o seguinte de Emily:

no reino das letras e artes
onde as vaidades e os exibicionismos
conhecem todos os truques
(…)
fenômenos como o de emily dickinson
chegam a ser quase incompreensíveis

(…)

mulher-poeta
foi vítima de dupla discriminação
por ser mulher
e por ser poeta
original e intransigente

a densidade
de sua linguagem poética
a faz mais atual do que a de whitman
nenhum poeta norte-americano
(nem mesmo emerson ou poe)
tinha levado tão longe
a elipse e a condensação do pensamento
ou a ruptura sintática
até a pontuação foi por ela liberada
travessões interceptam os textos
substituindo vírgulas e travessões
e dando aos poemas
uma fisionomia fragmentária
já totalmente moderna

 

E assim por diante.

Mais recentemente, em 2008, Augusto retomou o trabalho com Dickinson e compôs um volume intitulado Não Sou Ninguém (editora da Unicamp), com 45 poemas, contando os 10 já presentes no Anticrítico, mais 35 outros. Essa seleção consiste nos seguintes poemas (os publicados anteriormente estão aqui marcados com um asterisco): “There is a word”, “A sepal, petal, and a thorn”, “We lose – because we win” (*), “If recollecting were forgetting” (*), “Success is counted sweetest” (*), “Our share of night to bear”, “‘Tis so much joy! ‘Tis so much joy!”, “Safe in their Alabaster Chambers”, “I held a Jewel in my fingers” (*), “I felt a Funeral, in my Brain” (*), “I’m Nobody! Who are you?” (*), “We play at Paste”, “Much Madness is divinest Sense”, “I died for Beauty”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Some such Butterfly be seen”, “I fear a Man of frugal Speech -“, “Delight – becomes pictorial -“, “Me from Myself – to banish -” (*), “Pain – has an Element of Blank -“, “I dwell in Possibility”, “As if the Sea should part”, “Publication – is the Auction”, “I could not drink it, sweet”, “Banish Air from Air -” (*), “These tested Our Horizon -” (*), “Drab Habitation of Whom?”, “I hide myself within my flower”, “Pain – expands the Time”, “Death is the Dialogue between” (*), “The Opening and the Close”, “Too scanty ‘twas to die for you”, “Best Witchcraft is Geometry”, “The Voice that stands for Floods to me”, “Great Streets of silence led away”, “Because my Brook is fluent”, ” A word is dead”, “The Riddle we can guess”, “So proud she was to die”, “In this short Life”, “Yesterday is History”, “The Mushroom is the Elf of Plants”, “Could mortal lip divine”, “A Dimple in the Tomb”, “Fame is a bee”.

"In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power" E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

“In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power”
E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

Eu venho insistindo nisso de qual é a seleção dos poemas feita pelo tradutor de cada volume por causa de uma coisa interessante e que talvez não seja óbvia para todos, que é o ato crítico embutido na atividade da tradução de poesia. O que eu quero dizer com um ato crítico? Pensemos num crítico literário. Não é fácil definir qual é o papel do crítico, mas me parece algo claro qual efeito ele de fato obtém sobre a recepção de um autor. Ao meu ver, os bons críticos são os que focam obras que lhes interessam e são capazes de elucidá-las expondo o porquê de essas obras merecerem a atenção que lhes está sendo dada – e os melhores são os que conseguem lançar um novo olhar, mais interessante, sobre um poeta já batido ou até mesmo ressuscitar tradições inteiras, como foi feito por Eliot & cia. com os poetas metafísicos no século XX (ainda que esse revival tenha vindo às custas de outros poetas, como Milton e os românticos). Enquanto isso, os maus críticos lançam elogios genéricos, não elucidam nada, e tudo que dizem parece valer para qualquer outro poeta (especialmente quando jogam trocentos outros nomes na resenha, não para traçar algum paralelo útil para a elucidação, mas como forma de conceder um selinho Inmetro de “boa poesia” ou certificado de pedigree, tipo wow, esse cara vem da tradição de Baudelaire, Mallarmé, Rilke, Eliot e Pound, que linhagem excelente!), e os piores eu creio que sejam os que se dedicam longamente à crítica destrutiva. A crítica negativa só é uma imposição ao resenhista pago, como é o caso do crítico de jornal, cujo próprio trabalho (remunerado, espero) é elaborar um comentário breve sobre tudo aquilo que os editores lhe mandam resenhar, independente das qualidades (ou ausência de) daquilo que está sendo lido. E, ainda que eu (confesso) me divirta muito lendo críticas sarcásticas, me parece que o apelo desse gênero deriva mais das suas semelhanças com o que parece ser um tipo erudito de stand-up comedy do que com a crítica literária de fato. E é claro que é importante apontar as falhas mesmo na obra de autores importantes (e as falhas nos ensinam muito sobre o que funciona ou não na literatura), mas a vida é curta demais para se gastar tempo e esforço com maledicências, e eu concordo com o que diz Shelley no prefácio ao seu Prometeu Desacorrentado: “Quaisquer talentos que uma pessoa possa possuir para divertir e instruir os outros, irrisórios como possam ser, devem ser por ela exercidos: se essa tentativa for ineficaz, que o castigo de um propósito não-cumprido seja o suficiente; que ninguém se perturbe em cumular o pó do esquecimento sobre seus esforços; a nuvem que levantam trairá sua sepultura, que poderia, de outro modo, ser desconhecida”. O melhor a fazer com a má poesia, creio, é relegá-la ao esquecimento, e isso é impossível se o crítico insistir em mencionar de novo e de novo e de novo o nome de um poeta que ele queria que saísse de cena. Há usos mais produtivos do seu tempo.

Então, o que há de crítico no ato tradutório? Pois, se o que o crítico faz é elucidar e selecionar os poetas que ele acredita que as pessoas deveriam ler – e, dentro do contexto da obra desses poetas, qual a sua faceta mais importante –, logo o trabalho do crítico e do tradutor de poesia (o tradutor de prosa é um caso à parte, porque geralmente é contratado por uma editora que já tem planos, bem como também os direitos, de publicação de determinado autor, e por isso ele costuma ter menos autonomia) passam a ser muito próximos. Nenhum tradutor tem mundo e tempo o suficiente para dar conta de traduzir tudo que lhe atrai, por isso é preciso escolher quais autores traduzir e quais poemas traduzir desses nomes. É evidente que há questões práticas em jogo: a facilidade ou dificuldade da linguagem do autor, a existência ou não de traduções anteriores, a questão dos direitos autorais (é mais fácil publicar uma obra de um autor em domínio público do que um autor vivo, e infinitamente mais fácil publicar um autor vivo e comunicável do que um recentemente morto, dado o pé-no-saco que costumam ser os herdeiros, com raríssimas exceções), mas elas são periféricas em relação à importância maior dessa questão de seleção. Para fazer uma comparação bestíssima, é como se o tradutor fosse um tipo de bombeiro num museu em chamas (para o propósito do símile, tinha que ser um museu… a princípio era uma casa, que dava um exemplo menos afetado, mas ninguém se arrisca para salvar os pertences de uma casa em chamas), tentando salvar o maior número possível de obras antes que a estrutura inteira seja consumida, e por isso escolhas precisam ser feitas: a obra completa de tal autor ou obras parciais de vários autores? um autor mais difícil ou vários autores mais fáceis? um autor que muita gente já traduziu ou um desconhecido que merecia ser mais lido? dedicar-se longa e arduamente à tradução de poesia ou ganhar dinheiro? Enfim.

Os tradutores irresponsáveis traduzem qualquer coisa de qualquer jeito, e isso tem um impacto muito negativo sobre os autores traduzidos, mas é evidente que Augusto de Campos não é um deles. De qualquer forma, ele e seu irmão Haroldo são um bom exemplo para demonstrar a importância do enfoque na trajetória como tradutor: ambos tinham talento para traduzir com maestria o que bem quisessem e optaram não por traduzir obras completas (com a única exceção sendo, posteriormente, a Ilíada, de Haroldo) mas por poder dar ao público brasileiro uma amostra razoável de um grande número de poetas: Dante, Mallarmé, Goethe, Maiakóvski, cummings, Pound, Joyce, Rimbaud, Rilke, Gertrude Stein, Hopkins, etc. Já a opção de Carlos Alberto Nunes, para citar um contra-exemplo, foi o completo oposto, preferindo se dedicar à tradução de obras completas, como a de Shakespeare, Platão e a Ilíada e Odisseia. E, com sorte, é isso que dá para fazer em uma vida.

Essa é uma boa ocasião para trazer à tona esse tipo de discussão, porque, ao que tudo indica, Augusto é um dos tradutores que mais têm consciência disso, como nos deixa claro o seu Anticrítico, um livro que tem seu cerne justo nesse ato crítico, ou, bem, anticrítico (porque é o oposto da crítica literária, sobretudo à crítica literária no mau sentido da palavra, a “dialética da maledicência”), da tradução poética. Voltando ao caso da tradução de Ivo Bender, por exemplo, me parece claro que, onde Bender tira o corpo fora na questão dos travessões (segundo ele, a função deles em Dickinson “ainda está por ser definida pela crítica”), Augusto afirma enfaticamente sua presença como crítico-tradutor com a sua interpretação: “travessões interceptam os textos / substituindo vírgulas e travessões / e dando aos poemas / uma fisionomia fragmentária / já totalmente moderna”, uma leitura que ele mantém, anos depois, no ensaiozinho introdutório ao Não Sou Ninguém (“traços ou travessões que interceptam os textos, no lugar da pontuação convencional, e que acenam com pausas e recortes sintáticos significativos e imprevistos”), uma introdução, diga-se de passagem, muito iluminadora, focada principalmente sobre os poetas a quem Dickinson teve ou não acesso e os ecos que a sua poesia encontra no século XX. Detalhes mínimos, porém reveladores.

capa-não-sou-ninguémVoltando à questão de qual foi a seleção feita por Augusto, eu diria que ela me parece bastante pautada por uma questão de representatividade, visto que vários dos poemas que ele traduziu são emblemáticos de Dickinson e figuram na lista dos mais traduzidos (aqui). E, no geral, ela me parece mais bem arquitetada do que a de Bender e menos focada num certo tom de delicadeza como é a tradução de Lando, com os poemas de amor e as abelhas e pequenas criaturas do jardim, e mais preocupada com questões, digamos, existenciais (há 10 poemas em comum entre as seleções dos dois tradutores, porém). Não é uma seleção longa – é a mais breve das que eu tenho em minha coleção aqui –, mas me parece que um leitor que não conheça a poeta há de ter uma boa noção geral do que é o estilo de Dickinson, na medida, é claro, em que é possível abstrair qualquer noção disso a partir de um corpus de ~2,6% do total da obra – e, acredito, mesmo o número total de títulos traduzidos de Dickinson para o português não deva exceder uma porcentagem muito superior a essa. Há, ainda assim, espaço para um ou outro poema que só Augusto traduziu (como “‘Tis so much joy!”) ou, então, traduzido só por ele e apenas um dos outros tradutores (“The Mushroom is the Elf of Plants”). Outro elemento que ele parece ter privilegiado na sua abordagem, como não poderia faltar no caso de um poeta/tradutor tão virtuosista como ele é, foi o do jogo de palavras, conforme Augusto destaca, num dos parágrafos da introdução, que “Emily é exímia em jogos vocabulares”. Em “There is a word / That bears a sword”, por exemplo, com um acréscimo de um ‘s’ a palavra (word) se arma com uma espada (sword), versos que Augusto verte por “Uma palavra se abre / como um sabre”, e assim por diante, deixando claro que, em sua seleção, houve uma preferência pelos poemas em que algum virtuosismo formal pudesse ser demonstrado – justo o tipo de poema de que a maioria dos tradutores foge ou que, quando traduzidos, a tradução tende a passar por cima desse tipo de efeito.

Aliás, tamanho é o virtuosismo de Augusto que, eu diria, ele parece ter muito mais rigor formal do que a própria Dickinson. Onde, como temos visto desde o começo aqui, Dickinson relaxa no metro e chega a empregar rimas apenas nos versos pares de cada estrofe (e muitas vezes rimas imperfeitas), Augusto se vale de um metro mais rigoroso e quase sempre faz questão de rimar todos os versos na estrofe (exceto no caso dos poemas estruturados de outra forma que não quartetos), muitas vezes com rimas engenhosas – nada de entupir de -ão e -ar.

Como era de se esperar, os resultados obtidos estão acima de qualquer suspeita… exceto em um único exemplo – e valham-me os deuses, porque eu estou prestes a reclamar de algo num trabalho do Augusto. É meio constrangedor para mim (especialmente para mim que, de fato, não sou ninguém) apontar para algum problema aqui, mas seria desonesto que eu o avistasse e não o mencionasse, por isso digo que num momento, no poema “The Mushroom is the Elf of Plants”, Augusto acaba pesando a mão:

The Mushroom is the Elf of Plants —
At Evening, it is not —
At Morning, in a Truffled Hut
It stop upon a Spot

O Cogumelo — à Noite —
É o Gnomo da Floresta — e
De Dia, Trufo-Travesti,
Estaca, um Toco.

 

Ele mantém com graciosidade o jogo de palavras em “stop upon a Spot” com “Estaca, um Toco”, mas parece que entrou de gaiato ali no verso anterior a palavra “travesti”. Acho que dá para entender o que seja um “trufo-travesti”  – pelo menos vagamente… um trufo que se traveste de gnomo? um toco que de noite vira outra coisa? ok, confesso que não sei ao certo e, o que quer que esteja sendo dito, no momento em que aparecem travestis no poema, é como se uma drag queen (a Divine, talvez, fantasiada aqui tematicamente de cogumelo) entrasse cantando e roubasse a cena – o que, apesar de uma imagem mental divertida, imagino que não fosse bem o que o poema de Dickinson quisesse dizer. Mas enfim, trata-se de um pequeno deslize ao qual estamos todos sujeitos. No mais (para sermos breves na rasgação de seda), sentimos que a única falta deste volume mesmo é não ser mais extenso.

(Adriano Scandolara)

 

O Sucesso é mais doce
A quem nunca sucede.
A compreensão do néctar
Requer severa sede.

Ninguém da Hoste ignara
Que hoje desfila em Glória
Pode entender a clara
Derrota da Vitória

Como esse — moribundo —
Em cujo ouvido o escasso
Eco oco do triunfo
Passa como um fracasso!

 

Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition,
So clear, of Victory!

As he, defeated — dying —
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!

*

A Dor — tem Algo de Vazio —
Não sabe mais a Era
Em que veio — ou se havia
Um tempo em que não era —

Seu futuro é só Ela —
Seu Infinito faz supor
O seu Passado — que desvela
Novos Passos — de Dor.

 

Pain — has an Element of Blank —
It cannot recollect    
When it began — or if there were
A time when it was not —
 
It has no Future — but itself —
Its Infinite contain
Its Past — enlightened to perceive
New Periods — of Pain.

*

Esses testaram o Horizonte —
E desapareceram
Pássaros antes de cumprir
A Latitude.

Nossa Retrospectiva Deles
Prazer pousado,
Nossa Antecipação
— Dúvida — Dado —

 

These tested Our Horizon —
Then disappeared
As Birds before achieving
A Latitude.

Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Anticipation
A Dice — a Doubt —

*

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla — sem
O Alívio de estar morta.

 

Too scanty ‘twas to die for you,
The merest Greek could that.
The living, Sweet, is costlier —
I offer even that —

The Dying, is a trifle, past,
But living, this include
The dying multifold — without
The Respite to be dead.

*

Nesta Vida tão breve
De que nos dão só um gole
Quanto — quão pouco — está
Sob o nosso controle

 

In this short Life
that only lasts an hour
How much — how little —
is within our power

(Emily Dickinson, traduções de Augusto de Campos)

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