crítica

“arte & responsabilidade”, por bakhtin

bakhtin

o trecho abaixo é famoso, mas não perde seu vigor. mikhail bakhtin (1895-1975) escreveu esse texto breve em 1919 para o almanaque o dia da arte. o seu vigor, pra mim, permanece porque essa escrita brevíssima apresenta um duro problema sobre assumir a responsabilidade, i.é., a capacidade de dar resposta por ações. então não se trata simplesmente de livre-arbítrio, no sentido fácil desse conceito.

talvez esteja mais próximo do que slavoj zizek tenta conceituar como livre-arbítrio: não uma possibilidade de decidir tudo na consciência plena dos resultados, ou na independência dos discursos que nos atravessem e nos formam. mas sim a nossa capacidade (essa sim, tão humana) de olhar pra trás e de dizer: isso fui eu. &, uma vez que assumimos retroativamente um acontecimento, fazemos dele nossa escolha livre a posteriori, tornamo-nos responsáveis por ele.

respondemos.

guilherme gontijo flores

* * *

ARTE E RESPONSABILIDADE

Chama-se mecânico ao todo se alguns de seus elementos estão unificados apenas no espaço e no tempo por uma relação externa e não os penetra a unidade interna do sentido. As partes desse todo, ainda que estejam lado a lado e se toquem, em si mesma são estranhas umas às outras.

Os três campos da cultura humana — a ciência, a arte e a vida — só adquirem unidade no indivíduo que os incorpora à sua própria unidade. Mas essa relação pode tornar-se mecânica, externa. Lamentavelmente, é o que acontece com maior frequência. O artista e o homem estão unificados em um indivíduo de forma ingênua, o mais das vezes mecânica: temporariamente o homem sai da “agitação do dia-a-dia” para a criação como para outro mundo de “inspiração”, sons doces e orações: o que resulta daí? A arte é de uma presunção excessivamente atrevida, é patética demais, pois não lhe cabe responder pela vida que, é claro, não lhe anda no encalço. ” Sim, mas onde é que nós temos essa arte — diz a vida —, nós temos a prosa do dia-a-dia.”

Quando o homem está na arte não está na vida e vice-versa. Entre eles, não há unidade e interpenetração do interno na unidade do indivíduo.

O que garante o nexo interno entre os elementos do indivíduo? Só a unidade da responsabilidade. Pelo que vivenciei e compreendi na arte, devo responder com a minha vida para que todo o vivenciado e compreendido nela não permaneçam inativos. No entanto, a culpa também está vinculada à responsabilidade. A vida e a arte não devem só arcar com a responsabilidade mútua mas também com a culpa mútua. O poeta deve compreender que a sua poesia tem culpa pela prosa trivial da vida, e é bom que o homem da vida saiba que a sua falta de exigência e a falta de seriedade das suas questões vitais respondem pela esterilidade da arte. O indivíduo deve tornar-se inteiramente responsável: todos os seus momentos devem não só estar lado a lado na série temporal de sua vida mas também devem penetrar uns nos outros na unidade da culpa e da responsabilidade.

E nada de citar a “inspiração” para justificar a irresponsabilidade. A inspiração que ignora a vida e é ela mesma ignorada pela vida não é inspiração, mas obsessão. O sentido correto e não o falso de todas as questões antigas relativas à inter-relação de arte e vida, arte pura, etc, é o seu verdadeiro pathos apenas no sentido de que arte e vida desejam facilitar mutuamente a sua tarefa, eximir-se da sua responsabilidade, pois é mais fácil criar sem responder pela vida e mais fácil viver sem contar com a arte.

Arte e vida não são a mesma coisa, mas devem tornar-se algo singular em mim, na unidade da minha responsabilidade.

(trad. de paulo bezerra)

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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