poesia, tradução

Ana Akhmátova (1889 – 1966)

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Nascida Ana Andreiévna Gorenko, em Odessa (antigo Império Russo, hoje Ucrânia, amanhã… dado o andar das coisas, sabe-se lá) e instalada em São Petersburgo, Ana Akhmátova consta entre os principais nomes do acmeísmo – do grego akme, com o sentido de “apogeu”,  um movimento liderado por Gumiliov, seu primeiro marido, em reação ao então predomínio da estética simbolista – na literatura russa do começo do século XX. Sua primeira coletânea, Noite (Vecher), data de 1912 e, com seus poemas de tom conciso e introspectivo sobre temas intimistas, foi um sucesso estrondoso – sucesso que continuou com o segundo livro, Rosário (Chetki), de 1914. À época, o centro da vida cultural boêmia de São Petersburgo era um cabaré chamado “Brodiachaia sobaka” (Cachorro Vira-lata ou Cachorro Perdido), onde Akhmátova, bem como tantos outros poetas da mesma geração como Mandelshtam, Pasternak, Tsvetáieva, Maiakóvski e Khlébnikov, se apresentava frequentemente com leitura de poesia.

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Ana Akhmátova por Modigliani

As coisas logo mudariam muito de figura para ela e para todos esses poetas, no entanto. A partir de 1914, com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Guerra Civil e a Segunda Guerra Mundial (com os 900 dias do horrendo Cerco de Leningrado), a história conturbada da Rússia e da União Soviética arremessaram uma realidade das mais cruéis contra esse mundo boêmio pacífico e idílico do começo do século. Akhmátova certamente não agradava às autoridades soviéticas então instauradas no poder e foi considerada “alienada”, “uma poetisa de alcova”, “sem consciência cívica”, “antipopular”, “decadente”, que “com seus versos intimistas induz a juventude à melancolia”, bem como, por outros poetas, esteticamente, “uma relíquia do passado” e “um anacronismo”. A publicação tornou-se cada vez mais difícil, e, ainda que ela tivesse mantido um ritmo constante até 1923, data de sua coletânea Anno Domini MCMXXI (que é, ironicamente, onde vemos nela já temas cívicos como o problema de se recusar a sair da Rússia), seu livro seguinte, De seis livros (Iz shesti knig) só viria a ser publicado em 1940. Nesses anos entre as décadas de 1910 e 1940 temos um período negro para a autora, marcado pela constante vigilância pelo governo (só revelada, porém, em 1993), pelo divórcio de Gumiliov, que viria em 1921 a ser preso e fuzilado, acusado de ser parte de uma conspiração anti-revolucionária, e depois o divórcio de seu segundo marido, Vladimir Shileyko, e a prisão do terceiro, Nikolay Púnin, mandado a um Gulag do qual ele não retornaria, além da prisão do filho do primeiro casamento, o historiador Liov Gumiliov, e a morte de colegas de ofício como Mandelshtam (1938, condenado ao Gulag) e Tsvetáieva (1941, “suicidada”). Foi entre 1935 e 1940 que Akhmátova escreve Réquiem (ao que ela dá os retoques finais em 1961), uma forma de anti-ode ao terror stalinista do período, não publicado, evidentemente, enquanto o ditador ainda estava vivo. Foi só dez anos após a morte de Stalin que esse ciclo de poemas veio a ver a luz do dia, primeiro em Munique em 1963, depois na União Soviética propriamente, em 1987, publicado por duas revistas, a Oktiabr’ nº 3 e a Nievá nº6. Composto de dezesseis poemas (10 oficialmente enumerados, mais 4 de abertura e dois de epílogo), ainda, segundo os comentários, num estilo muito próximo ao do começo de carreira de Akhmátova, Réquiem pode ser visto como um prelúdio para a sua mais ambiciosa obra, o Poema sem herói (Poema bez geroia), publicado em 1973, um longo e complexo poema político e narrativo.

Ironicamente, na década de 1960 ela passa a ser enfim reconhecida (de forma positiva, isto é) pelo seu país e pelo exterior. Mas sofria já de uma saúde debilitada e não pôde desfrutar por muito tempo de sua nova popularidade, morrendo em 1966, aos 76 anos. Os poemas que eu gostaria de compartilhar com vocês na sequência são do seu Réquiem, aqui retirados de uma ediçãozinha (o diminutivo é porque é realmente um volume pequeno, de 57 páginas) em português, bilíngue, com esse mesmo título, da coleção Toda Poesia da Art Editora (1991), traduzida por Aurora F. Bernardini e Hadasa Cytrynowicz, com prefácio de Leo Gilson Ribeiro. O Réquiem também pode ser lido, na tradução de Lauro Machado Coelho, no volume Poesia (1912-1964), publicado no mesmo ano pela L&PM e reeditado mais recentemente em edição pocket com o título de Antologia Poética (não sei dizer ao certo, porém, se há e quais são as diferenças entre a edição original e a reedição).

Para quem se interessar também, há uma postagem no blogue da Modo de Usar sobre a poeta onde se pode assistir ao documentário The Anna Akhmatova File (Lichnoe delo Anny Akhmatovoy, 1989), de Semion Aranovich (1934 – 1995), clicando aqui.

(Adriano Scandolara)

RÉQUIEM

1935-1940

Não, não foi sob outro firmamento,
Nem sob a proteção de asas estranhas:
Estive então entre meu povo,
Lá onde meu povo, infelizmente, estava.

1961.

 

Introdução

Aconteceu quando a sorrir
Eram só os mortos: contentes pela paz.
E, inútil sobra, pendia
Em volta de suas celas, Leningrado.
E quando, loucas de dor,
Já marchavam as legiões dos condenados,
E os silvos do trem cantavam
Um breve canto de adeus.
As estrelas da morte sobrestavam
À Rússia inocente, se crespando
Sob as botas de sangue
E a sola dos negros camburões.

 

1.

Levaram-te ao amanhecer,
Atrás de ti, como no enterro, eu ia,
No quarto escuro, choravam os meninos.
Acabava-se a vela sobre o altar,
Nos lábios teus, do ícone, o frio.
O suor mortal na testa… Não dá para esquecer!
Como as mulheres dos franco-atiradores,
Uivarei pelas torres do Kremlin.

1935. Moscou.

 

3.

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões…
                               Noite

 

5.

Há dezessete meses eu grito,
Te chamo para casa.
Joguei-me aos pés do carrasco,
Meu filho e meu terror.
Tudo turvou-se para sempre,
Não posso mais distinguir
Quem é homem ou fera e quanto
A pena me cabe esperar.
Há somente flores de pó,
E o tilintar do turíbulo, e rastros,
Algures, para lugar nenhum.
Direto nos olhos fita-me
E ameaça de morte próxima
A enorme estrela.

 

(poemas de Ana Akhmátova, tradução de Aurora F. Bernardini e Hadasa Cytrynowicz)

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3 comentários sobre “Ana Akhmátova (1889 – 1966)

  1. amyr disse:

    só um adendo inútil: no final do segundo parágrafo tá escrito “Foi só dez após a morte de Stalin que (…)”. não falta um ‘anos’ ali?

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