poesia, tradução

“Traduzindo Leonard Cohen”, por Diego Zerwes

Leonardo Cohen

Leonard Cohen é, antes de mais nada, um poeta. Filho de judeus canadenses, já na adolescência escrevia seus versos. Publicou o primeiro livro, Let us compare mythologies, em 1956, aos 22 anos. Cinco anos depois, publicou The Spice Box of Earth. Os dois títulos foram muito bem recebidos pela crítica e, a partir de então, passou a ser considerado um dos grandes poetas canadenses, ao lado de Louis Dudek, Irving Layton, sendo elogiado inclusive pelo famoso crítico da literatura, Northrop Frye. Por ter um projeto aprovado pelo Canada Council, Cohen embarcou para Londres e, a partir daí, decidiu conhecer as antigas capitais do mundo: Atenas, Jerusalém, Roma. Na passagem pela Grécia, foi aconselhado a conhecer a ilha de nome Hydra, onde alugou uma casa que, mais tarde, foi comprada com o dinheiro herdado de sua avó, que acabara de falecer. Foi dessa casa que uma boa parte dos próximos livros foram produzidos: A brincadeira favorita, Flowers for Hitler (64) e Beautiful Losers (66). Esse último foi seu segundo e último romance, criado, segundo ele mesmo, a partir de várias insolações (ele se sentava no jardim ao som de Ray Charles por horas a fio, sem proteção alguma contra o sol), ácido e anfetaminas.

Após passar um bom período na Grécia, vivendo ao lado de Marianne Ihlen e seu filho Axel, Cohen, de certo modo, ficou um tanto afastado do movimentos culturais que aconteciam no ocidente, principalmente na música. Em entrevista a Mikal Gilmore, Cohen afirmou que, por trás de seus textos, sempre ouviu um violão. Antes de ir para Nashville, pensando na possibilidade de tentar a gravação de um álbum, passou antes em Nova York, onde encontrou uma série de compositores fazendo aquilo que ele já havia feito quando ainda era um adolescente, em Montreal. Por um lado, isso o decepcionou profundamente. Parecia que havia perdido o bonde da história. Por outro, quando Lou Reed, identificando-o como o escritor de Beautiful Losers, convidou ele a sentar-se junto dele, Bob Dylan e Phil Ochs, percebeu que eles já o conheciam e, de certa forma, havia influenciado o trabalho tanto de seus anfitriões como de Joan Baez, Dave Von Ronk e Judy Collins. Essa última foi quem introduziu Leonard Cohen ao mundo da chamada folk music, gravando algumas de suas canções.

É aos 33 anos, portanto, que o cantor/compositor começa a aparecer. Sem nenhuma certeza do caminho a ser trilhado, e depois de semanas no estúdio, é lançado em 1968 seu primeiro álbum, Songs of Leonard Cohen, sucedido por Songs From a Room (69) e Songs of Love and Hate (71). Essa tríade solidifica sua imagem como cantor/compositor, muito aclamado na Europa e Canadá, e em menor proporção nos Estados Unidos, mesmo tendo aparecido no topo das listas.

Sua carreira se resume a 12 álbuns de estúdio, 6 ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura são 15 livros, 13 de poesia e 2 romances.

O objetivo do projeto Traduzindo Leonard Cohen é verter para o português as músicas e eventuais poemas do escritor, poeta, compositor Leonard Cohen, seguindo a ordem cronológica de gravação. Não há uma preocupação formal com o ritmo original das canções. O que se pretende é manter o sentido original, fazendo com que a letra, em si, esteja ao alcance de eventuais interessados que não dominam o inglês.

Sobre o tradutor não há muito a ser dito. Sou publicitário e fã da vasta obra de Leonard Cohen, fato que o levou a iniciar o projeto. Tradutor não é uma alcunha que me cabe, por ora. Prefiro utilizá-la assim, entretanto: tradutor diletante – o que, no fundo, quer dizer: propenso a cometer erros.

Diego Zerwes

* * *

Tentei deixar de você

Tentei deixar de você, não nego.
Encerrei nossa história
pelo menos umas cem vezes.
Acordava ao seu lado a cada manhã.

Os anos passam, você perde o orgulho.
O bebê chora, então você sai de casa,
e todo o seu empenho está diante de seus olhos.

Boa noite, minha querida,
espero que esteja realizada,
a cama está meio estreita,
mas meus braços estão bem abertos.
E este é um homem que ainda
luta por seu sorriso.

I tried to leave you

I tried to leave you, I don’t deny
I closed the book on us,
at least a hundred times.
I’d wake up every morning by your side.

The years go by, you lose your pride.
The baby’s crying, so you do not go outside,
and all your work it’s right before your eyes.

Goodnight, my darling,
I hope you’re satisfied,
the bed is kind of narrow,
but my arms are open wide.
And here’s a man still
working for your smile.

Do álbum New Skin for the Old Ceremony (1974)

Diminuída pelo amor

Você se lembra de todas aquelas promessas
que fizemos quando a paixão inundou a noite?
Elas agora estão imundas, viradas do avesso
como mariposas numa lâmpada amarela envelhecida.
Nenhuma penitência as renovariam,
nem grandes transfusões de confiança.
Nem mesmo a vingança pode desfazê-las
de tão retorcidos e dilacerados que esses votos estão.

E você diz ter sido diminuída pelo amor
Reduzida pelo seu amor
Forçada a se ajoelhar na lama próxima a mim
Ah, mas por que se voltar tão amargamente àquele
que se afunda nessa lama tanto quanto você.

Crianças fizeram essas juras
e as despacharam do passado
para além das sepulturas e da sebe
onde, no fim, o amor deve se esconder.
E aqui onde não há descrição,
aqui neste exato momento,
ao se reerguer, nenhum pecador precisa ser perdoado,
nenhuma vítima precisa sofrer ao se levantar.

E você diz ter sido diminuída pelo amor…

Veja, meu bem, perceba como a virgem
convida ao interior de seu vestido.
Sim, note também como a fria armadura do estrangeiro
se dissolve como uma estrela cadente.
Por que trocar essa imagem pelo desejo
quando pode ter os dois.
Você jamais irá contemplar essa nudez num homem
Eu jamais irei dispor de uma mulher tão de perto.

E você diz ter sido diminuída pelo amor…

Humble in love

Do you remember all of those pledges
That we pledged in the passionate night
Ah they’re soiled now, they’re torn at the edges
Like moths on a still yellow light
No penance serves to renew them
No massive transfusions of trust
Why not even revenge can undo them
So twisted these vows and so crushed

And you say you’ve been humbled in love
Cut down in your love
Forced to kneel in the mud next to me
Ah but why so bitterly turn from the one
Who kneels there as deeply as thee

Children have takes these pledges
They have ferried them out of the past
Oh beyond all the graves and the hedges
Where love must go hiding at last
And here where there is no description
Oh here in the moment at hand
No sinner need rise up forgiven
No victim need limp to the stand

And you say you’ve been humbled in love…

And look dear heart, look at the virgin how
she welcomes him into her gown
Yes, and mark how the stranger’s cold armour
Dissolves like a star falling down
Why trade this vision for desire
When you may have them both
You will never see a man this naked
I will never hold a woman this close

And you say you’ve been humbled in love..

Do álbum Recent Songs (1979)

Uma pipa é uma vítima

Uma pipa é uma vítima e você está certo disso.
Você a ama porque ela puxa
suave o bastante para te chamar de mestre,
firme o bastante para te chamar de tolo;
porque ela vive
como um perigoso falcão treinado
no doce ar rarefeito,
e pode sempre trazê-la de volta
para amansá-la em sua gaveta.

Uma pipa é um peixe que você já fisgou
numa piscina onde não há peixes,
então brinca longa e cuidadosamente com ela
e espera que não ser abandonado,
ou que cesse o vento.

Uma pipa é o último poema escrito por ti,
que o entregue ao vento,
mas não permite que ela se vá,
até que alguém arrume a você
alguma outra coisa a se fazer.

Uma pipa é um contrato de glória
que deve ser feito com o sol,
então você convida o campo, o rio e o vento
para serem seus amigos,
e por isso reza durante todo o frio da noite anterior,
sob o itinerante luar,
para que te faça digno, poético e puro.

A Kite Is a Victim

A kite is a victim you are sure of.
You love it because it pulls
gentle enough to call you master,
strong enough to call you fool;
because it lives
like a desperate trained falcon
in the high sweet air,
and you can always haul it down
to tame it in your drawer.

A kite is a fish you have already caught
in a pool where no fish come,
so you play him carefully and long,
and hope he won’t give up,
or the wind die down.

A kite is the last poem you’ve written,
so you give it to the wind,
but you don’t let it go
until someone finds you
something else to do.

A kite is a contract of glory
that must be made with the sun,
so you make friends with the field
the river and the wind,
then you pray the whole cold night before,
under the travelling cordless moon,
So make you worthy and lyric and pure.

Do livro Spice-box of Earth (1965)

Você está certa, Sahara

Você está certa, Sahara.
Não há névoas, ou
véus, ou distâncias. Mas a
névoa está cercada por uma
névoa; e o véu está escondido
atrás de um véu; e a
distância continuamente se
afasta da distância.
É por isso que não há
névoas, ou véus, ou distâncias.
É por isso que se chama A
Grande Distância de Névoa e
Véus. É aqui que O
Viajante se transforma n’O
Errante, e O
Errante se transforma Naquele
Que Está perdido, e Aquele
Que Está perdido se transforma
n’O Inquiridor, e O
Inquiridor se transforma n’O
Amante Passional, e O
Amante Passional se transforma
n’O Mendigo, e O
Mendigo se transforma n’O
Desgraçado, e O Desgraçado
se transforma Naquele Que
Deve Ser Sacrificado, e
Aquele Que Deve Ser
Sacrificado se transforma Naquele
Que Ressuscitou e Aquele
Que Ressuscitou se transforma
Naquele Que
Transcendeu A Grande
Distância de Névoa e Véus.
Então por mil anos,
ou pelo resto da tarde,
como Aquele que rodopia nas
Flamejantes Chamas das Mudanças,
incorporando todas as
transformações, uma após
outra, e então
começando novamente, e então
terminando novamente, 86 000 vezes
por segundo. Então tal como alguém,
se ele for um homem, está pronto
pra amar a mulher Sahara;
e tal como alguém, se ela for uma
mulher, está pronta para amar
o homem que consegue transcrever
numa canção A Grande Distância de
Névoa e Véus. É você
quem espera, Sahara, ou
sou eu?

You Are Right, Sahara

You are right, Sahara.
There are no mists, or
veils, or distances. But the
mist is surrounded by a
mist; and the veil is hidden
behind a veil; and the
distance continually draws
away from the distance.
That is why there are no
mists, or veils, or distances.
That is why it is called The
Great Distance of Mist and
Veils. It is here that The
Traveler becomes The
Wanderer, and The
Wanderer becomes The
One Who Is Lost, and The
One Who Is Lost becomes
The Seeker, and The
Seeker becomes The
Passionate Lover, and The
Passionate Lover becomes
The Beggar, and The
Beggar becomes The
Wretch, and The Wretch
becomes The One Who
Must Be Sacrificed, and
The One Who Must Be
Sacrificed becomes The
Resurrected One and The
Resurrected One becomes
The One Who has
Transcended The Great
Distance of Mist and Veils.
Then for a thousand years,
or the rest of the afternoon,
such a One spins in the
Blazing Fire of Changes,
embodying all the
transformations, one after
the other, and then
beginning again, and then
ending again, 86 000 times
a second. Then such a one,
if he is a man, is ready to
love the woman Sahara;
and such a one, if she is a
woman, is ready to love
the man who can put into
song The Great Distance of
Mist and Veils. Is it you
who are waiting, Sahara, or
is it I?

Do livro Book of Longing (2006)

 

(Leonard Cohen, traduções de Diego Zerwes)

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