crítica

Joseph Campbell sobre a inocência e a experiência

The world’s great age begins anew  
The golden years return  
The earth doth like a snake renew
Her winter weeds outworn;

(Shelley)

Joseph_CampbellJoseph Campbell (1904 – 1987) é provavelmente o pesquisador de mitologia comparada mais famoso de que temos notícia, sobretudo pelo seu conceito, bastante popular já, da “Jornada do Herói”, promovido pela cultura pop através do mais famoso exemplo do seu uso no cinema, o filme Guerra nas Estrelas, que se valeu dele deliberadamente, com os efeitos que todos conhecemos. Esse conceito também é chamado de “monomito”, que é um termo, aliás, que Campbell emprestou de James Joyce, do seu Finnegans Wake (esse grande gerador de termos modernos… lembrem-se que a palavra “quark” também saiu dele), como se pode ver na página 581 (clique aqui): At the carryfour with awlus plawshus, their happy-ass cloudious! And then and too the trivials! And their bivouac! And his monomyth! Ah ho! Say no more about it!. É relevante mencionar isso porque Campbell foi um dos primeiros estudiosos a fazer uma leitura a sério desse último romance-poema da obra de Joyce, em A Skeleton Key to Finnegans Wake, de 1944, o primeiro grande livro de sua carreira. Eu ainda gostaria de falar algo sobre Joyce aqui alguma hora – apesar de ele ter sido no geral um romancista, com poucos poemas, o Wake é, afinal, um trabalho poético influente e vigoroso –, mas hoje meu foco é um trechinho da série de entrevistas com Bill Moyers que Campbell deu já no final da vida, um documentário da PBS intitulado The Power of Myth, depois publicado como livro (e que saiu algo recentemente aqui no Brasil na tradução de Carlos Felipe Moisés, com o título de O Poder do Mito).

Neste trecho específico que eu selecionei para compartilhar aqui, Campbell discute os mitos de criação do Gênesis em comparação com a de diversas outras culturas além da tradição ocidental. Ele é exemplar não só porque lança uma luz distinta sobre a história do Éden, numa leitura muito mais simpática à figura da mulher e da serpente – vistas aqui não como a fonte do pecado do mundo e Satanás sob disfarce (como é a serpente em Milton, por exemplo), mas como símbolos para a vida, o que faz sentido até mesmo num nível etimológico, quando se considera que a palavra “Eva” vem do hebraico que significa “aquela que dá a vida” (chavah, חוה), como comenta o rabino Geoffrey Davis  (clique aqui)  –, mas também porque fornece uma chave de leitura para uma porção importante da poesia mítica romântica, como é principalmente o caso de William Blake. O estado de existência no Éden é uma antevida, em que não há tempo, nem morte, nem nascimento ou conhecimento dos opostos, a separação entre os sexos biológicos, representado pela nudez – é, portanto, como chama a tradição, um estado de inocência. ThelA Queda, por sua vez, seria a passagem desse estado para o da vida tal como a conhecemos, em que é tradicionalmente preciso matar para se sobreviver, e a procriação (que precisa, para isso, do conhecimento do sexo) se faz necessária para superar, via a descendência, a morte dos indivíduos, e a esse estado se chama experiência – e a restauração de uma versão mais elevada desse estado inicial, com a revelação do mistério e o reconhecimento da equivalência de todas as coisas mesmo em sua oposição, a metáfora total, como diz Frye, é o que se chama de apocalipse. Esses conceitos são úteis não apenas porque Blake os emprega literalmente como nome de seus livros (Canções de Inocência e Experiência), mas também para a interpretação de seus outros poemas mais obscuros, como O Livro de Thel, que tem como protagonista a virgem Thel que se recusa (uma recusa perigosa, segundo Blake) a deixar o mundo de seu jardim de inocência para entrar no mundo brutal de morte e sexo da experiência, do qual ela tem uma visão ao conversar com o verme, um representante fálico da morte e da sexualidade (infantilizado aqui, em seu estado de inocência), e a argila, outra figura associada à morte. O Livro de Thel foi traduzido para o português já por Alberto Marsicano & Regina Barros de Carvalho (L&PM), José Antônio Arantes (Iluminuras) e Manuel Portela (Antígona, Portugal) e é uma ótima leitura preparatória para os outros poemas longos do poeta, os chamados livros proféticos.

Isso tudo é válido para Blake tanto quanto o é para Shelley (de quem eu retirei os versos citados na epígrafe deste post, de sua peça Hellas) e outros românticos, ainda que nenhum deles deva ter tido contato com os mitos de criação dos povos da Indonésia, dos índios pima, os bassari ou dos Upanixades hindus – e a leitura que o crítico Harold Bloom faz desses poetas em seu livro The Visionary Company (da época em que o Bloom ainda era um crítico razoável e um leitor dedicado dos românticos, um dos responsáveis, aliás, por trazê-los de volta às discussões sérias na academia) segue por essa linha. Tenho a impressão de que muitas vezes quando se fala em mito as pessoas tendem a ter em mente ou o sentido iluminista-cientificista do termo (como sinônimo de “mentira”, o que é trágico) ou uma noção de que a palavra se refere a um arcabouço de narrativas gregas e latinas que só servem como referência para autores pretensiosos demonstrarem erudição, quando na verdade a coisa toda é muito maior do que isso e aponta para algo do próprio funcionamento da capacidade de criação humana de imagens e narrativas, o que é profundamente fascinante.

(Adriano Scandolara)

 

Bosch - Jardim das Delícias Terrenas (detalhe)
CAMPBELL: Agora, existe um outro sentido, mais profundo, do tempo de sonho, o de um tempo que é o não-tempo, apenas um estado de ser que se prolonga. Existe um importante mito, da Indonésia, que fala dessa era mitológica e seu término. No início, de acordo com essa história, os ancestrais não se distinguiam, em termos de sexo. Não havia nascimento, não havia mortes. Então uma imensa dança coletiva foi celebrada e no seu curso um dos participantes foi pisoteado até a morte, cortado em pedaços, e os pedaços foram enterrados. No momento daquela morte, os sexos se separaram, para que a morte pudesse ser, a partir de então, equilibrada pela procriação, procriação pela morte, pois das partes enterradas do corpo desmembrado nasceram plantas comestíveis. Tinha chegado o tempo de ser, morrer, nascer, e de matar e comer outros seres vivos, para a preservação da vida. O tempo sem tempo, do início, tinha terminado, por meio de um crime comunitário, um assassinato ou sacrifício deliberado.

Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas, e a conciliação da mente e da sensibilidade humanas com esse fato fundamental é uma das funções de alguns daqueles ritos brutais, cujo ritual consiste basicamente em matar – por imitação daquele primeiro crime primordial, a partir do qual se gestou este mundo temporal, do qual todos participamos. A conciliação entre a mente humana e as condições da vida é fundamental em todas as histórias da criação. Quanto a isso, todas se parecem muito.

MOYERS: Considere a história da criação no Gênesis, por exemplo. Em que medida é semelhante a outras histórias?

CAMPBELL: Pois bem, leia você o Gênesis, e eu lerei histórias da criação em outras culturas, e então veremos.

MOYERS: Gênesis 1: “No início Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e a escuridão vagava sobre a face do abismo”.

CAMPBELL: Esta vem da “Canção do mundo”, uma lenda dos índios pima, do Arizona. “No início havia apenas escuridão por toda parte – escuridão e a água. E a escuridão se reuniu e se tornou espessa em alguns lugares, acumulando-se e então separando-se, acumulando e separando…”

MOYERS: Gêneis 1: “E o espírito de Deus se moveu sobre a face das águas. E Deus disse ‘Faça-se a luz’, e a luz se fez”.

CAMPBELL: Esta vem dos Upanixades hindus, por volta do século VIII a.C.: “No início, havia apenas o grande Uno refletido na forma de uma pessoa. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: ‘Este sou eu'”.

MOYERS: Gênesis 1: “Então Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: ‘Sede férteis e multiplicai-vos'”.

CAMPBELL: Esta agora é uma lenda dos bassari, povo da África ocidental: “Unumbotte fez um ser humano. Seu nome era Homem. Em seguida, Unumbotte fez um antílope, chamado Antílope. Unumbotte fez uma serpente, chamada Serpente… E Unumbotte lhes disse: ‘A terra ainda não foi preparada. Vocês precisam tornar macia a terra em que estão sentados’. Unumbotte deu-lhes sementes de todas as espécies e disse: ‘Plantem-nas'”.

MOYERS: Gênesis 2 “Então os céus e a terra ficaram prontos, e todos os seus hóspedes. E no sétimo dia Deus terminou o trabalho que tinha realizado”.

CAMPBELL: Agora outra vez dos índios pima: “Eu faço o mundo e eis que o mundo está terminado. Então eu faço o mundo, e eis! O mundo está terminado”.

MOYERS: Gênesis 1: “E Deus viu tudo o que tinha feito e eis que tudo era bom”.

CAMPBELL: E dos Upanixades: “Então ele se deu conta, Eu verdadeiramente, Eu sou esta criação, pois Eu a retirei de mim mesmo. Desse modo, ele se tornou a sua criação. Em verdade, aquele que conhece isso se torna, nessa criação, um criador”.

Aí está a chave. Quando você sabe isso se identifica com o princípio criativo, que é o poder de Deus no mundo, quer dizer, dentro de você. Isso é belo.

MOYERS: Mas o Gênesis continua: “‘Vós comestes da árvore da qual ordenei que não comêsseis?’ O homem disse: ‘A mulher que me destes para estar comigo, esta mulher me deu o fruto da árvore e eu comi’. Então o Senhor Deus disse à mulher: ‘Que fizestes vós?’ E a mulher disse: ‘A serpente me enganou e eu comi'”.

Isso de transferir responsabilidades começou muito cedo.

CAMPBELL: É verdade, e foi muito severo com as serpentes. A lenda bassari continua no mesmo caminho. “Um dia a Serpente disse: ‘Nós também devíamos comer desses frutos. Por que devemos ficar com fome?’ O Antílope disse: ‘Mas não sabemos nada desse fruto’. Então o Homem e sua mulher colheram alguns frutos e comeram-nos. Unumbotte desceu do céu e perguntou: ‘Quem comeu o fruto?’ Eles responderam: ‘Nós comemos’. Unumbotte perguntou: ‘Quem lhes disse que podiam comer desse fruto?’ Eles responderam: ‘A Serpente disse'”. É praticamente a mesma história.

MOYERS: O que você conclui daí – nessas duas histórias, os protagonistas apontam um terceiro como o iniciador da Queda, não é?

CAMPBELL: Sim, mas acontece que nas duas é a serpente. Em ambas as histórias, a serpente é o símbolo da vida desfazendo-se do passado e continuando a viver.

MOYERS: Por quê?

CAMPBELL: O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele, exatamente como a lua se desfaz da própria sombra. A serpente se desfaz da pele para renascer, assim como a lua se desfaz da sombra para renascer. São símbolos equivalentes. Às vezes a serpente é representada como um círculo, comendo a própria cauda. É uma imagem da vida. A vida se desfaz de uma geração após a outra, para renascer. A serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente atirando fora a morte e renascendo. Existe algo extremamente horrível na vida, quando você a encara desse modo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente.

Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali… eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Não há absolutamente o que discutir com esse animal. A vida vive de matar e comer a si mesma, rejeitando a morte e renascendo, como a lua. Este é um dos mistérios que aquelas formas simbólicas, paradoxais, tentam representar.

Agora, em muitas culturas é dada uma interpretação positiva à serpente. Na Índia, mesmo a mais venenosa das serpentes, a naja, é um animal sagrado, e a mitológica Serpente-Rei é quem está do lado do Buda. A serpente representa o poder da vida, engajado na esfera do tempo, e o da morte, não obstante eternamente viva. O mundo não é senão a sua sombra – a pele rejeitada.

A serpente também era reverenciada nas tradições dos índios americanos. Era concebida como um meio muito importante de se fazer amigos. Vá aos pueblos, por exemplo, e observe a dança da serpente, dos hopi, em que eles tomam as serpentes na boca, usam-nas para fazer amigos e depois mandam-nas de volta para as colinsa. Elas são mandadas de volta para levar a mensagem humana às colinas, assim como tinham trazido a mensagem das colinas para os homens. A interação do homem com a natureza está representada nessa relação com a serpente. A serpente flui como a água e por isso é aquática, mas sua língua continuamente dispara fogo. Assim você tem aí o par de opostos, reunidos na serpente.

MOYERS: Na história cristã a serpente é o sedutor.

CAMPBELL: Isso representa a recusa em afirmar a vida. Na tradição bíblica que herdamos, a vida é corrupta e todo impulso natural é pecaminoso, a menos que tenha havido circuncisão ou batismo. A serpente é aquele ser que trouxe o pecado ao mundo. E a mulher é quem ofereceu a mação ao homem. Essa identificação da mulher com o pecado, da serpente com o pecado, e portanto da vida com o pecado, é um desvio imposto à história da criação, no mito e na doutrina da Queda, segundo a Bíblia.

MOYERS: A ideia da mulher como pecadora aparece em outras mitologias?

CAMPBELL: Não, não tenho referência disso em parte alguma. O que mais se aproxima talvez seja Pandora, com a caixa de Pandora, mas não se trata de pecado, é apenas confusão. A ideia, na tradição bíblica da Queda, é que a natureza, como a conhecemos, é corrupta, o sexo em si é corrupto, e a fêmea, como epítome do sexo, é um ser corruptor. Por que o conhecimento do bem e do mal foi proibido a Adão e Eva? Sem esse conhecimento, seríamos todos um bando de bebês, ainda no Éden, sem nenhuma participação na vida. A mulher traz a vida ao mundo. Eva é a mãe deste mundo temporal. Anteriormente, você tinha um paraíso de sonho, ali no Jardim do Éden – sem tempo, sem nascimento, sem morte -, sem vida. A serpente, que morre e ressuscita, largando a pele para renovar a vida, é o senhor da árvore primordial, onde tempo e eternidade se reúnem. A serpente, na verdade, é o primeiro deus do Jardim do Éden. Jeová, o que caminha por ali no frescor da tarde, é apenas um visitante. O Jardim é o lugar da serpente. Esta é uma velha, velha história. Existem sinetes sumerianos, que remontam a 3500 a.C., mostrando a serpente, a árvore e a deusa, e esta oferecendo o fruto da vida ao visitante masculino.

(…)

Elas representam a vida. O homem não chega à vida senão através da mulher; é a mulher, portanto, que nos traz a este mundo de pares de opostos e de sofrimento.

MOYERS: Que é que o mito de Adão e Eva nos diz sobre os pares de opostos? Que é que significa?

A coisa começou com o pecado – em outras palavras, com o abandono do mundo mitológico de sonhos no Jardim do Paraíso, onde não há tempo e onde o homem e a mulher sequer sabem que são diferentes um do outro. Ambos são apenas criaturas. Deus e homem são praticamente o mesmo. Deus caminha no frescor da tarde no jardim onde eles estão. Aí eles comem a maçã, o conhecimento dos opostos. E quando descobrem que são diferentes, homem e mulher cobrem suas vergonhas. Como você vê, eles não pensaram em si mesmos como opostos. Macho e fêmea constituem uma oposição. Outra oposição é entre o homem e Deus. Deus e o mal é uma terceira oposição. As oposições primárias são a sexual e aquela entre seres humanos e Deus. Então surge a ideia de bem e mal no mundo. Assim, Adão e Eva se expulsaram a si mesmos do Jardim da Unidade Atemporal, você pode dizer assim, pelo simples fato de haverem reconhecido a dualidade. Saindo para o mundo, você tem de agir em termos de pares de opostos.

Existe uma imagem hindu que mostra um triângulo, que é a Deusa-Mãe, e um ponto no centro do triângulo, que é a energia do transcendental ingressando na esfera do tempo. Então, a partir desse triângulo, formam-se pares de triângulos em todas as direções. Do um provêm dois. Todas as coisas, na esfera do tempo, são pares de opostos. Assim, essa é a mudança de consciência, da consciência da identidade para a consciência de participação na dualidade. E então você se encontra na esfera do tempo.

 

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 2011, pp. 44-50.

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s